Por uma história recorrente da medicina, da saúde e da enfermidade

Por uma história recorrente da medicina, da saúde e da enfermidade

Autores:

Claudio Bertolli Filho

ARTIGO ORIGINAL

Interface - Comunicação, Saúde, Educação

versão On-line ISSN 1807-5762

Interface (Botucatu) vol.21 no.61 Botucatu abr./jun. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/1807-57622017.0019

A concepção de história recorrente da medicina e de suas derivações imediatas impõe, como desafio inicial, o questionamento de algumas linhagens historiográficas que conferem sentido à prática do historiador das ciências. Isto porque a noção de recorrência aflorou como reação, sobretudo no ambiente acadêmico francês, aos princípios positivistas que fundamentaram a etapa inicial das pesquisas na área.

Proposta pioneiramente por Auguste Comte, em 1832, a necessidade de uma perspectiva histórica das ciências ganhou o foro de assunto controverso, fomentando acalorados debates. Foi em 1864, quase como exceção, que o Collège de France admitiu a disciplina História da Medicina em seu currículo, sendo que, somente dezoito anos depois, aprovou a criação de uma cátedra de História das Ciências1.

A premissa positivista segundo a qual o decorrer histórico confundia-se com o aprimoramento da razão permitia a conclusão de que a história da medicina, enquanto campo de estudo, teria de ser articulada mediante a enumeração do acúmulo de conhecimentos racionais, os quais garantiriam o estatuto de cientificidade e eficiência do saber e da prática médica do final do século XIX. Nesse encaminhamento, a história inspirada nos pressupostos comteanos incorporava uma perspectiva linear, isto é, cronológica, e o pretenso triunfo da razão postava as ciências como fonte única do progresso social e do aperfeiçoamento humano, tanto no plano individual quanto coletivo.

O empirismo lógico emblematizado pelos positivistas antevia as inovações científicas como produções que se realizavam independentemente dos contextos sociais, sendo que os cientistas ganhavam homenagens biográficas nas quais eram festejados como personagens geniais e heróis de um novo tempo para a Humanidade. Sob estas orientações, a tarefa do historiador aproximava-se à do cronista, cuja missão era compilar fatos atestadores do movimento progressivo das ciências em direção ao território das “verdades definitivas”2.

Em resultado, o positivismo conferiu impulso a uma história teleológica cujo objetivo era oferecer conteúdos intelectuais para municiar a cultura erudita, incorporadora da dimensão mitológica da medicina e de seus agentes e, implicitamente, oferecer elementos simbólicos que legitimassem a identidade positiva e a fluidez do biopoder como monopólio da comunidade hipocrática. Nesses termos, a história da medicina alcançou o status de expressão científica, gerando uma profusão de publicações que, renovadas mais na forma do que nos princípios, continuam a atrair leitores até os dias atuais. É de se notar que a historiografia positivista ainda é indicada como de consulta necessária em várias escolas médicas, persistindo, como principal referência, a clássica obra de Arturo Castiglione3.

A cultura europeia que floresceu a partir do encerramento da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) instigou uma vigorosa reação aos pressupostos positivistas e à produção dos historiadores a eles filiados. No contexto da história da medicina, Henry Sigerist4-6 deu início a uma produção acadêmica que se opunha à dimensão dogmática positivista, pontuando que o percurso histórico da medicina só poderia ser realmente compreendido quando articulado às grandes estruturas da sociedade. Com isto, ele abria as primeiras possibilidades de constituição de uma história social da medicina e, paralelamente, oferecia condições para debates que, mais tarde, seriam apresentados como o confronto entre os historiadores internalistas, que advogavam que o conhecimento médico era produzido autonomamente em relação à sociedade abrangente, e os externalistas, que indicavam o saber e a prática médica como tributários dos contextos sociais em que existiam. Tal debate mantém-se em evidência até hoje, encontrando, em Kuhn7 e Latour8, pesquisadores que pontuam as forças estranhas às ciências como vetores intervenientes na realização científica.

Na década de 1930, Gaston Bachelard, o físico-químico que se fez filósofo, ganhou evidência como fomentador da crítica ao positivismo a partir do ideário da fenomenologia. Ao conjugar epistemologia e história, Bachelard9-11 ensinou que a história das ciências não é uma sucessão linear de eventos, mas, sim, um processo que, em vez de continuidade e acúmulo diretivo de conhecimentos, é pautada por descontinuidades e reticências do fazer científico, cobrando uma postura dialética dos historiadores e filósofos das ciências.

Os conceitos de obstáculo epistemológico e de ruptura epistemológica tornaram-se fundamentais na proposta bachelardiana. Entende-se por obstáculo epistemológico a “resistência do pensamento ao próprio pensamento”, na qual a tradição científica atua como inibidora da reflexão potencialmente geradora de inovações. Em contraposição, a ruptura epistemológica constitui o momento em que ocorre um corte em relação ao direcionamento vigente nas pesquisas de um determinado problema, sendo, então, apresentadas novas possibilidades de encaminhamento de uma questão científica. Para ambos os conceitos, o exemplo consagrado refere-se ao evolucionismo darwiniano em meados do século XIX. Em seus apontamentos íntimos, inicialmente, Darwin alimentou um sincero receio de ousar pensar em algo que se opunha aos dogmas cristãos; e, em seguida, ao apresentar sua teoria e vê-la aceita por parte dos seus pares, permitiu que as ciências redefinissem muitos de seus pressupostos.

Inspirado por Bachelard, sem no entanto manter-se estritamente fiel ao seu ideário, o filósofo, que também graduou-se em medicina, Georges Canguilhem procedeu à crítica derradeira à história positivista da medicina. Em sua tese de doutorado, datada de 194312, ofereceu o rascunho de um projeto para a realização de uma história recorrente, mesmo que tal designação tenha sido cunhada apenas na década seguinte, pelo próprio Bachelard11.

Adotando, então, o termo “regressão histórica”, Canguilhem partiu dos conceitos de normal e de patológico vigentes no momento em que escrevia para, em termos de homogeneidade, continuidade e relação quantitativa, voltar-se para as pesquisas do pretérito, não para retraçar o nascimento mitológico do pensamento médico, mas, sim, para privilegiar a “origem reflexiva” do tema focado. Com esse encaminhamento, seu objetivo era analisar os sistemas de pensamento que, em cada conjuntura, conferiram sentido e legitimidade científica ao que se entendia por normal e patológico. O percurso realizado por Canguilhem mostrou-se repleto de armadilhas, pois ele próprio constatou que, com frequência, as discussões sobre ambos os conceitos mostravam-se labirínticas e quase que irreconhecíveis, e o estudo das “origens” de um debate mostrava-se fundamental para o entendimento do ponto em que se encontrava a “verdade científica” do tempo presente. Nesse sentido, provavelmente sem saber, Canguilhem seguia caminho paralelo ao do polonês Ludwik Fleck que, em 1935, desenvolvera um estudo histórico sobre o percurso das representações médicas de um fato científico, tomando como exemplo a sífilis13.

A perspectiva teórico-epistemológica de história recorrente não contou com textos dedicados exclusivamente ao clareamento dos pontos centrais do projeto de Canguilhem. Em vez disso, o filósofo-médico disseminou “pistas” em sua prolífica produção intelectual sobre como elaborar uma história de tal dimensão. Além disso, Canguilhem corrigiu e aperfeiçoou, sucessivas vezes, seu estudo sobre o normal e o patológico, inclusive, sob a influência de seu mais destacado aluno, Michel Foucault14,15, graças a quem revisou as estratégias de busca da origem de uma questão médica e, também, os mecanismos de produção discursiva das ciências. É preciso lembrar que, devido à sua aproximação com as ideias foucaultianas, a partir da década de 1960 Canguilhem foi automaticamente rotulado como um intelectual estruturalista, avaliação que rejeitou em relação a si e à sua concepção de história das ciências.

Fruto inicial desse empreendimento, Canguilhem reiterou, sob novas bases metodológicas, o que já havia sido alertado por Bachelard9 no referente à urgência de o pesquisador operar a dissociação entre o objeto da pesquisa científica, o “fato dado”, e o produto do empenho científico, o “fato construído”, enfatizando a análise do discurso científico. Na sequência, convocou os historiadores da medicina a se aterem às fontes documentais que favorecessem a composição de enfoques “microscópicos”, valorizando os debates médicos realizados em conjunturas específicas e, até então, escassamente vistoriados pelos historiadores tradicionais, que, em conjunto, mostravam-se reféns das análises que contemplavam os eventos referentes às “grandes descobertas” e às trajetórias de vida dos “grandes personagens” da medicina16-18.

Além disso, destacou, também que a história da medicina não deveria ser articulada exclusivamente com os conhecimentos admitidos pela comunidade especializada. Os “museus dos horrores”, lembrados pelos positivistas como “curiosidades” que atestavam a ingenuidade do espírito dos esculápios de outros tempos, ganharam a condição de elementos significativos para o pesquisador; os potenciais limites e insuficiências das posições intelectuais reprovadas no interior do universo médico também exerceriam um papel de importância para que a ciência atingisse uma coerência interna e moldasse a medicina contemporânea.

O fundador da história recorrente da medicina também ensinou que, paralelamente às rupturas epistemológicas bachelardianas, o pesquisador deveria reconhecer as filiações grupais a um conjunto de princípios, filiações estas que conferiam concretude às escolas de pensamento no campo das ciências. Provavelmente inspirado no também filósofo Lucien Goldmann19, Canguilhem adotou como implícito, em seus estudos, o conceito de “consciência possível”, referindo-se aos limites impostos em cada momento histórico ao pensamento. A partir disso, foi possível a Canguilhem elaborar a noção de “ideologia das ciências da vida”20 que, diferente dos postulados de Marx (na verdade, como reação às discussões alimentadas com outro de seus ex-alunos, o marxista Louis Althusser), definiu como sendo os sistemas explicativos que se tornaram hegemônicos nas ciências médicas durante um relativamente longo período de tempo. Além disso, tal conceito contribuiu para que o autor advogasse a autonomia relativa das ciências, encontrando um ponto de equilíbrio entre os defensores do internalismo e do externalismo. Para ele, as ciências eram produzidas por regras próprias, mas essas regras sofriam interferência dos ambientes culturais, institucionais e sociopolíticos.

Ancorado nos conceitos de rupturas e continuidades epistemológicas, micro-história e ideologia das ciências da vida, dentre outros, Canguilhem forjou um núcleo teórico e um conjunto de orientações metodológicas para a produção de uma história recorrente da medicina, da saúde e da enfermidade. Reclusa no espaço epistemológico do fazer das ciências, outros pesquisadores expandiram o escopo da história recorrente, voltando atenções para outros tópicos, dentre eles: a circulação dos discursos centrados nas trajetórias institucionais, terapêuticas, ensino médico e experiência individual e grupal de viver sob o signo da enfermidade21,22.

A importância de tal proposta ganha maior sentido quando se buscam as possíveis funções da história recorrente no campo da medicina. Se, por um lado, ela permite um entendimento mais apurado, porque afastado de posturas dogmáticas, das condições de existência da medicina e de suas instituições, por outro, abre oportunidades para o ensino como ato pedagógico humanizador de todos os envolvidos: instituições, profissionais da saúde e pacientes.

É com esta ideia editorial sobre a história da medicina que a Interface convoca os pesquisadores tanto da área da Saúde Coletiva quanto da História e das demais Ciências Humanas para submeterem seus textos para publicação. Ao incorporarem a perspectiva da história recorrente, tanto os pesquisadores, como a comunidade de leitores e nossa própria revista estarão abrindo mais uma possibilidade para o entendimento do complexo universo que, em termos abrangentes, comumente denominamos “medicina do nosso tempo”.

Claudio Bertolli Filho
Editor Assistente

REFERÊNCIAS

1. Gusdorf G. De l’histoire des sciences à l’histoire de la pensée. Paris: Payot; 1977.
2. Bernal JD. Ciência na história. Lisboa: Livros Horizonte; 1976.
3. Castiglione A. História da medicina. São Paulo: Ed. Nacional; 1947. 2 vols.
4. Sigerist H. Introduction à la médecine. Paris: Payot; 1932.
5. Sigerist H. Civilization and disease. The University of Chicago Press; 1943.
6. Sigerist H. Hitos en la historia de la salud pública. 3a ed. México, D.F.: Siglo Veintiuno; 1987.
7. Kuhn TS. A estrutura das revoluções científicas. 10a ed. São Paulo: Perspectiva; 2010.
8. Latour B, Woolgar S. Laboratory life: the construction of scientific facts. Princeton: Princeton University Press; 1986.
9. Bachelard G. O novo espírito científico. 3a ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; 2000.
10. Bachelard G. A formação do espírito científico. Rio de Janeiro: Contraponto; 2005.
11. Bachelard G. Epistemología. Barcelona: Anagrama; 1989.
12. Canguilhem G. O normal e o patológico. 7a ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária; 2015.
13. Fleck L. Gênese e desenvolvimento de um fato científico: introdução à doutrina de pensamento e do coletivo de pensamento. Belo Horizonte: Fabrefactum; 2010.
14. Foucault, M. A arqueologia do saber. 7a ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária; 2008.
15. Foucault M. As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. Lisboa: Ed. 70; 2014.
16. Canguilhem G. Estudos de história e filosofia das ciências – concernentes aos vivos e à vida. Rio de Janeiro: Forense Universitária; 2012.
17. Canguilhem G. O conhecimento da vida. Rio de Janeiro: Forense Universitária; 2012.
18. Canguilhem G. Escritos sobre a medicina. Rio de Janeiro: Forense Universitária; 2005.
19. Goldmann L. Le dieu caché: étude sur la vision tragique dans les Pensées de Pascal et dans le theatre de Racine. Paris: Gallimard; 2013.
20. Canguilhem G. Idéologie et rationalité dans l’histoire des sciences de la vie. 2a ed. Paris: J. Vrin; 2000.
21. Revel J, Peter J-P. O corpo: o homem doente e sua história. In: Le Goff J, Nora P. História: novos objetos. Rio de Janeiro: Francisco Alves; 1976. p. 141-59.
22. Herzlich C, Pierret J. Malades d’hier, malades d’aujourd’hui: de la mort collective au devoir de guérison. Paris: Payot; 1991.
Política de Privacidade. © Copyright, Todos os direitos reservados.