Prática de atividade física entre jovens em município do semiárido no Brasil

Prática de atividade física entre jovens em município do semiárido no Brasil

Autores:

Samuel Carvalho Dumith,
Marcio Neres dos Santos,
Lisiane Ortiz Teixeira,
Cristine Coelho Cazeiro,
Sheynara Emi Ito Mazza,
Juraci Almeida Cesar

ARTIGO ORIGINAL

Ciência & Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1413-8123versão On-line ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.21 no.4 Rio de Janeiro abr. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/1413-81232015214.18762015

Abstract

The scope of this study was to establish the prevalence of physical activity among young people and to analyze its association with demographic, socioeconomic and behavioral factors. All youths aged 13 to 19 years of age living in the city of Caracol, Piauí, Brazil, were studied, comprising a total of 1,112 individuals. Data collection was conducted by means of household interviews using a standardized questionnaire. The dependent variable was the practice of physical activity in a typical week. Youths who performed moderate-to-vigorous-physical activity of at least one hour every day of the week were considered physically active. The prevalence of physically active youths was 12.6% (95% CI 10.6 to 14.5), being higher in males (20.3%; 95% CI 16.8 to 23.7) and those in the upper third of the asset indicator variable (16.5; 95% CI 12.7 to 20.3), and inversely related to age. Among males, afro-descendants were more active (32.3%; 95% CI 14.9 to 49.7), whereas the Arian females were more active (12.7%; 95% CI 5.2 to 20.2). The prevalence of physical activity was low in this population, particularly among females (5.9%; 95% CI 4.0 to 7.8), older youths and youth from the less privileged socioeconomic brackets.

Key words: Motor activity; Adolescent; Prevalence; Risk factors; Epidemiology

Introdução

A prática de atividade física está relacionada a melhorias na saúde física e mental1. Entre os benefícios da atividade física estão o controle da pressão arterial e dos níveis de colesterol2, além da redução do estresse e dos sintomas da depressão3. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que cerca de dois milhões de mortes no mundo são originadas pela inatividade física4. A inatividade física é responsável por 6% dos casos de doenças coronárias, 7% dos casos de diabetes tipo 2, 10% dos casos de câncer de mama e cólon e por 9% de todos os casos de morte prematura no mundo5.

A prevalência de atividade física em jovens ao redor do mundo é de aproximadamente 20%, isto é, um a cada cinco adolescentes são classificados como suficientemente ativos de acordo com as recomendações para esta faixa etária6. No Brasil, a Pesquisa Nacional da Saúde do Escolar em 2009 entrevistou 60.973 estudantes entre 13 e 16 anos e encontrou uma prevalência de atividade física de 43,1%7. Uma metanálise realizada no ano de 2012, incluindo 5.028 jovens brasileiros com idades entre 10 e 19 anos, demonstrou que a prevalência de atividade física variou de 9,0% a 94,5%8. A despeito das regiões brasileiras, essa metanálisedemonstrou que os estados da região Norte e Nordeste apresentam a menor prevalência de atividade física (49,5% para os jovens do sexo masculino e 27,3% para os jovens do sexo feminino)8. Um estudo realizado com jovens de 14 e 15 anos de Pelotas, RS, identificou que 25% deles não praticam nenhuma atividade física9.

Diversos fatores estão associados com a prática regular de atividade física, incluindo individuais, do ambiente social e físico10. Uma revisão sistemática, realizada em 2014, incluindo com 71 estudos conduzidos na África Subsaariana com adolescentes entre 5 e 17 anos, encontrou uma maior prática de atividade para os jovens do sexo masculino, de baixo nível socioeconômico, moradores da zona rural e com baixa escolaridade materna11. Outra revisão sistemática realizada em 2012 avaliou 22 estudos feitos com jovens entre 8 e 14 anos e identificou o sexo masculino, a menor faixa etária, o baixo tempo de uso de TV ou de jogos de videogame associados com níveis mais elevados de atividade física12.

Estudos sobre a prevalência de atividade física em adolescentes são essenciais para a elaboração de políticas públicas de educação em saúde voltada a realidades dos jovens13. A identificação de grupos menos propensos à prática deste comportamento também se torna importante fonte de informação, já que estes correlatos podem não ser os mesmos de cidades da capital ou de outras regiões do país. No entanto, ainda há poucos estudos sobre atividade física realizados na região Nordeste do Brasil, sendo que a maioria deles foi desenvolvida nas cidades-capitais8,14. Neste contexto, destaca-se a importância de mais pesquisas sobre este assunto, em especial na região do semiárido brasileiro, onde não se encontrou nenhum estudo sobre este tema.

O presente estudo teve como objetivo determinar a prevalência de atividade física entre jovens de um município pobre da região Nordeste do Brasil e identificar fatores associados.

Métodos

Trata-se de um estudo epidemiológico descritivo correlacional, com delineamento transversal, desenvolvido como parte de um projeto mais amplo, cujo objetivo era reduzir a ocorrência de gravidez na adolescência e estudar questões relacionadas à vida reprodutiva e ao consumo de drogas em jovens residentes no município de Caracol, Piauí (PI). Localizado no sul do Estado do Piauí, na microrregião de São Raimundo Nonato, Caracol fica a aproximadamente 600 km da capital Teresina, tendo como limite ao Sul o estado da Bahia. Com uma área territorial de 1.610,957 km2, contava com uma população de 10.588 habitantes em 201015. O IDH nesse ano era 0,552 e o índice de Gini, 0.40. A economia do município é baseada na agricultura de subsistência e no emprego público junto à prefeitura local.

Os dados utilizados neste estudo foram coletados no período de janeiro a fevereiro de 2011. Foram incluídos no estudo todos os jovens com idades entre 13 e 19 anos de idade residentes na área urbana e rural do município de Caracol. Partiu-se dessa faixa etária em razão de o estudo piloto do projeto original mostrar que aproximadamente 90% dos jovens com idades entre 10 e 12 anos não se mostraram capazes de responder o questionário autoaplicável16. Além disso, não foram incluídos no estudo jovens institucionalizados ou com limitação cognitiva importante (três, ao todo). Portanto, trata-se de um estudo censitário com os jovens de 13 a 19 anos de Caracol, PI.

Somente os jovenscom 18 anos ou mais assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Para os demais, o termo foi assinado pelos pais ou responsáveis legais. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Pelotas (CEPAS/UFPel), e financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e tecnológico (CNPq).

Os participantes responderam, por meio de entrevista, a um questionário padronizado, aplicado no domicílio. Este questionário continha perguntas referentes à família e ao jovem, como características demográficas, condições socioeconômicas e variáveis comportamentais. Foram coletadas algumas medidas antropométricas, como peso e altura. O peso foi aferido por meio de balança digital portátil (precisão de 100g e capacidade máxima de 150 quilos) e a altura, por meio de antropômetro “Altura Exata” (precisão de 1,0 centímetro).

Para a realização da coleta de dados deste estudo, foram selecionados oito entrevistadores, estudantes de graduação do Campus de São Raimundo Nonato da Universidade Estadual do Piauí (UESPI). O treinamento foi realizado a partir da leitura dos questionários e do manual de instruções e simulações de entrevistas e teve uma duração de quatro dias. O estudo piloto foi realizado no quinto dia, em São Raimundo Nonato, e visava testar o enunciado de cada questão, bem como a logística da coleta de dados. Os entrevistadores foram divididos em duplas e designados a áreas distintas do município anteriormente mapeadas e numeradas. Já o controle de qualidade foi realizado com a revisão dos questionários e repetição parcial de 5% das entrevistas a fim de confirmar a realização das mesmas e comparar as respostas obtidas. Todos os questionários foram codificados e revisados pelos entrevistadores. Diferentes digitadores realizaram a dupla digitação em ordem inversa, usando o programa Epi-Info 6.04.

A variável dependente do estudo foi a prática de atividade física em uma semana habitual. A pergunta feita questionava o número de dias em que o jovem praticava atividades físicas com pelo menos uma hora de duração (Durante uma semana normal, em quantos dias você pratica atividades físicas com pelo menos 1 hora de duração?). A instrução antes dessa pergunta remetia apenas a atividades com intensidade moderada ou vigorosa, que foram mensuradas como “atividades que fazem aumentar a respiração ou os batimentos do coração”. Foram definidos como fisicamente ativos aqueles jovens que relataram praticar 60 minutos ou mais por dia de atividades físicas em todos os dias da semana, o que equivale a 420 minutos por semana. Este critério está de acordo com o preconizado pela OMS1.

As variáveis independentes incluídas neste estudo foram: sexo (masculino e feminino); idade em anos completos (divididos em faixas etárias: 13 a 14, 15 a 16 e de 17 a 19 anos); cor da pele autorreferida (branca, parda e preta); local de moradia (área urbana ou rural); escolaridade da mãe (em anos de estudo); se o jovem trabalha (não/sim); índice de bens (criado a partir da análise de componentes principais envolvendo dez variáveis relacionadas à características do domicílio e posse de alguns bens domésticos)17; ter aula de educação física na escola (não/sim); assistir televisão por mais de 2 horas por dia18; e estado nutricional (a partir do IMC), classificado conforme as curvas de crescimento pelo critério da OMS19.

Para a análise estatística, utilizou-se o softwareStata IC, versão 13.0. Primeiramente, foram feitas análises descritivas, reportando frequências absolutas e relativas de cada variável. Após, as associações brutas e ajustadas entre as variáveis independentes e o desfecho foram feitas por meio de Regressão de Poisson, com ajuste robusto para variância20, sendo apresentadas as respectivas razões de prevalências (RP) e intervalos de confiança de 95% (IC95%). Os grupos de referência foram aqueles menos expostos a praticarem atividade física, de acordo com a literatura. Optamos por estratificar as análises por sexo, pois houve interação entre sexo e algumas variáveis independentes na ocorrência do desfecho (atividade física).

A análise ajustada obedeceu a um modelo hierárquico de causalidade em três níveis19,20, definido pelos autores da pesquisa21,22. No primeiro nível, mais distal, foram incluídas as variáveis demográficas dos jovens (sexo, faixa etária, cor da pele e local de moradia); no segundo, as socioeconômicas (índice de bens, escolaridade da mãe e se o jovem trabalha); e no terceiro nível, o mais proximal, as comportamentais (educação física na escola e tempo assistindo televisão) e estado nutricional. A análise multivariável foi feita usando o método de seleção de variáveis para trás (backwardregression) e mantiveram-se no modelo as variáveis com valor p<0,2023. O nível de significância adotado para as análises foi de 5% para testes bicaudais. Para variáveis independentes do tipo ordinais, apresentou-se o valor p de associação para tendência linear.

Resultados

Participaram do estudo 1.112 jovens (53,3% do sexo feminino) com idades de 13 a 19 anos (média=15,7; desvio-padrão=1,9). Houve 21 perdas (1,9% dos elegíveis), 12 rapazes e 9 moças que não foram localizados. De acordo com os dados da Tabela 1, verifica-se que a amostra foi constituída predominantemente por jovens de cor parda (82,6%), moradores da zona rural (57,5%) e que não exerciam trabalho remunerado (80,0%). Cerca de um quinto (20,2%) das mães destes jovens não frequentou a escola. A mediana de renda familiar ficou em R$ 280 (intervalo interquartil: 0 a 550).Mais da metade (57,7%) tinha aula de educação física na escola e 56,2% despendia mais de duas horas diárias assistindo televisão. Vale salientar que 16% dos jovens não estavam frequentando escola. Poucos jovens (4,9%) estavam abaixo do peso para sua idade e sexo, sendo que 11% encontravam-se acima. A prevalência de jovens fisicamente ativos na população estudada foi de 12,6% (IC95% 10,6 a 14,5).

Tabela 1  Características dos jovens estudados (N = 1.112). Caracol (PI), 2011. 

Na amostra geral (Tabela 2), a prevalência de atividade física foi maior para os indivíduos do sexo masculino e teve uma associação inversamente proporcional com a faixa etária, sendo maior para os jovens de 13 e 14 anos. Observou-se uma associação diretamente proporcional com o nível socioeconômico, sendo mais ativos aqueles no tercil superior da variável índice de bens. Na análise bruta, os jovens que trabalhavam apresentaram maior probabilidade de serem fisicamente ativos. No entanto, essa última associação desapareceu após ajuste para fatores de confusão (sexo, idade e índice de bens). As variáveis cor da pele, local de moradia, escolaridade materna, aulas de educação física, assistir televisão e estado nutricional não apresentaram associação com a prevalência de atividade física.

Tabela 2  Fatores associados à atividade física em uma semana habitual em jovens (N = 1.112). Caracol (PI), 2011. 

RP: Razão de Prevalência; IC95%: Intervalo de Confiança de 95%. * valor p de tendência linear

Ao se estratificar as análises por sexo, percebe-se que as características associadas com maior prevalência de atividade física entre os rapazes (Tabela 3) foram idade e cor da pele. Os jovens de 13 e 14 anos foram mais ativos dos que os seus pares, tanto na análise bruta quanto na ajustada. Com relação à cor da pele, identificou-se que os rapazes de cor preta tiveram maior prevalência de atividade física do que aqueles de cor de pele branca, somente na análise ajustada. Para as demais variáveis, não se verificaram associações estatisticamente significativas.

Tabela 3  Fatores associados à atividade física em uma semana habitual em jovens do sexo masculino (N = 519). Caracol (PI), 2011. 

RP: Razão de Prevalência; IC95%: Intervalo de Confiança de 95%.

Para os jovens do sexo feminino (Tabela 4), observa-se que a prevalência de atividade física teve uma associação inversa com a faixa etária e foi menor para as moças de cor parda em relação àquelas de cor branca. Vale salientar que nenhuma jovem de cor preta (n=19) foi considerada como fisicamente ativa. Notou-se também que a prevalência de atividade física foi maior entre as moças que trabalhavam. Tais associações se mantiveram mesmo após ajustes para fatores de confusão. As demais variáveis não mostraram associações significativas com o desfecho.

Tabela 4  Fatores associados à atividade física em uma semana habitual em jovens do sexo feminino (N = 593). Caracol (PI), 2011. 

RP: Razão de Prevalência; IC95%: Intervalo de Confiança de 95%. * valor p de tendência linear.

Discussão

O presente estudo objetivou avaliar a prática de atividade física em jovens de uma cidade do Nordeste do Brasil, identificando os fatores associados. Encontramos uma prevalência de 12,6% (IC95% 10,6 a 14,5) de jovens fisicamente ativos, sendo maior para aqueles do sexo masculino, com idades entre 13 e 14 anos e pertencentes ao tercil superior da variável índice de bens.

Por ser um município com população predominante rural e de baixa renda, o presente estudo contribui com dados relacionados a um perfil que, usualmente, não é abordado na maioria dos estudos sobre este tema. Esta investigação caracteriza-se como um censo, o que contrasta com a maioria dos estudos, que são de base escolar ou com amostras não representativas da população de interesse8. Dentre os estudos feitos na região Nordeste do país, identificamos apenas pesquisas conduzidas em cidades-capitais (Aracajú, Recife, João Pessoa, Fortaleza) e um realizado com uma amostra de estudantes de escolas públicas do estado de Pernambuco24. Ressalta-se que este é o primeiro e único estudo, do nosso conhecimento, sobre atividade física com jovens do Piauí.

Apesar dos aspectos positivos e inovadores, algumas limitações do estudo devem ser consideradas. Primeiramente, a extrapolação dos resultados para outras populações urbanas, de grandes cidades ou de capitais, como usualmente ocorre, de jovens fica prejudicada, visto que a maioria dos indivíduos deste estudo são de famílias de baixa renda e residem na zona rural. São também apontados como limitações o instrumento e o ponto de corte adotados para caracterização dos jovens como ativos ou não. Com relação ao instrumento, este foi baseado em apenas uma questão relacionada à frequência da prática de atividade física, não levando em conta o tipo de atividade física praticada e o domínio (lazer, transporte, deslocamento ou trabalho). No que concerne ao ponto de corte, alguns autores consideram os quatro domínios e outros apenas as atividades de lazer25. Além disso, existe uma heterogeneidade no critério utilizado para ser considerado como fisicamente ativo, sendo os mais frequentes 150, 300 e 420 minutos semanais25. Com relação ao tempo de recordatório, considerou-se uma semana habitual, apesar de alguns autores utilizarem as atividades físicas feitas nos últimos sete dias25. Neste estudo, havia as duas informações e a prevalência encontrada foi muito parecida (dados não apresentados). Sendo assim, optou-se por utilizar a semana habitual pelo fato de a atividade física ser um comportamento que oscila muito ao longo do tempo e por uma questão de comparabilidade com outros estudos.

A prevalência de atividade física no grupo de jovens estudado foi baixa (12,6%). Dados globais sobre a prevalência de atividade física em jovens, incluindo 105 países, mostraram que apenas 19,7% dos indivíduos alcançaram a recomendação de 60 minutos ou mais de atividades físicas moderadas a vigorosas por dia em todos os dias da semana6. No Brasil, dados nacionais considerando estudos em um período de 11 anos, mostraram uma baixa prevalência de jovens fisicamente ativos (menos da metade da população)8.

Este estudo identificou prevalência similar à encontrada na cidade de Rio Claro, no estado de São Paulo, onde os autores apontaram que 17,4% dos jovens de 14 a 17 foram fisicamente ativos3. Essa similaridade entre os estudos pode ser explicada pelo fato de que essas duas cidades, apesar de serem de estados diferentes, são do interior. Estudos realizados na região Nordeste, nas capitais Fortaleza (CE)26, João Pessoa (PB)27 e Teresina (PI)28 apresentaram prevalências de atividade física entre 26,1 e 50,2%. Vale ressaltar que esses estudos usaram pontos de corte diferentes para avaliar a atividade física. A diferença na operacionalização do desfecho entre os diversos estudos impede uma acurada comparabilidade entre as diferentes regiões do país. No entanto, apesar da diversidade de métodos utilizados para avaliar a atividade física8, os diferentes estudos apontam que a prevalência de jovens fisicamente ativos é baixa e alertam para a necessidade de intervenções para promover a atividade física neste grupo etário.

A prevalência de atividade física foi maior no sexo masculino, sendo quase quatro vezes maior do que a observada para o sexo feminino. Apesar de concordar com dados da literatura sobre associação da atividade física e sexo em jovens, a diferença encontrada neste estudo foi superior à observada em outros regionais24, nacionais8 e internacionais6. Pesquisadores relataram que essa diferença de sexo pode estar relacionada a fatores socioculturais, comportamentais, psicológicos e de maturação29. Em suma, enquanto meninos tendem a se envolver mais em práticas desportivas, sendo muitas delas de intensidade vigorosa, meninas parecem priorizar outras atividades de lazer, ou atividades físicas de baixa intensidade29.

A prática de atividade foi menor para os jovens entre 17 e 19 anos, em comparação aos demais grupos. No entanto, uma revisão sistemática realizada em 2011 com 26 estudos longitudinais observou uma redução da atividade física ao longo da adolescência, sendo que essa diminuição foi mais acentuada nas mulheres30, evidenciando que a prática de atividade física tende a diminuir com o aumento da idade. Os autores da referida revisão apontam como fatores externos o maior envolvimento em comportamentos sedentários, o aumento do IMC e o menor suporte social de amigos com o passar dos anos30. Como fatores intrínsecos à atividade física, é sugerido o engajamento em menos tipos/quantidades de práticas esportivas30.

Nos dados aqui apresentados, a variável índice de bens teve uma relação linear positiva com a prática de atividade física. Quando se estratificaram as análises por sexo, essa associação se perdeu, provavelmente por falta de poder estatístico. Outro estudo realizado com jovens escolares do município de João Pessoa, PB, demonstrou que a classe econômica se associou positivamente ao nível de atividade física entre as meninas, apesar de não haver tendência linear27. Moraes et al.31 não observaram associação significante entre classe econômica e níveis suficientes de atividade física em escolares de Maringá. Uma revisão sistemática da literatura realizada com estudos da África Subsaariana demonstrou que a grande maioria dos trabalhos aponta que crianças com menor nível socioeconômico e moradores da área rural possuíam maior nível de atividade física11.Percebe-se que os diversos estudos apresentam resultados controversos, mas a maioria aponta para uma associação positiva entre o nível socioeconômico e a atividade física, principalmente quando considerada a atividade de lazer. Essa associação tem como possíveis explicações, as desigualdades no acesso a espaços físicos, a maior disponibilidade de tempo livre para a prática de atividades físicas entre aqueles de maior renda, além do convívio em um meio social em que a prática é reconhecida como favorável à saúde e adotada pelos pares32.

No presente estudo, meninos que tinham a cor da pele preta apresentaram maior probabilidade de serem ativos em comparação aos de cor de pele branca. Já entre as meninas, aquelas de cor branca foram as mais ativas fisicamente, quando comparadas com as de cor de pele parda. Este achado vai ao encontro de outros estudos realizados com jovens do sul do Brasil, mostrando que rapazes negros são mais ativos que os de cor branca9. Isso se deve, em nossa opinião, ao maior envolvimento que os meninos de cor preta tem com atividades como futebol, enquanto os de cor branca se envolvem mais com lazeres do tipo sedentário (talvez por terem melhor condição socioeconômica). Já a maior prática de atividade física para as moças de cor branca provavelmente seja explicada pelo maior conhecimento que elas têm sobre o benefício deste comportamento para a saúde33.

O trabalho remunerado apresentou associação com a prática de atividade física apenas para o sexo feminino, mesmo após a análise ajustada. Associações similares observadas em outros estudos também sinalizam para o trabalho como um fator associado à atividade física e ao comportamento sedentário entre os jovens34. Talvez as características das atividades laborais a que as jovens estejam expostas tenham contribuído para o aumento do cômputo do tempo total de atividade física diária. Outro fator que pode ter influenciado essa associação foi o formato genérico da questão utilizada no instrumento para avaliar atividade física, em que não distinguia diferentes domínios de mensuração. Por outro lado, dados nacionais apontam que a exposição ao trabalho na infância e juventude pode aumentar a chance de comportamentos de risco à saúde entre os jovens, além de outros problemas de cunho social, tais como baixo rendimento escolar e situações de violência34.

Não foi observada uma associação estatisticamente significativa entre escolaridade materna e área de moradia com a prática de atividade física do jovem. Um estudo encontrou associação entre a maior escolaridade materna e a prática de atividade física apenas entre as meninas27. Em geral, pessoas com maior escolaridade obtêm mais informações a respeito de cuidados com a saúde. Em relação à área de moradia, uma revisão sistemática identificou que os jovens da área rural apresentaram maior frequência de atividade física, considerando os domínios deslocamento e trabalho11. Na presente investigação os domínios não foram diferenciados e, por isso, a prevalência de atividade de cada domínio não pode ser estabelecida.

A prevalência de atividade física foi maior, mas não significativa, nos jovens que assistem mais de duas horas de televisão por dia e que têm aulas de educação física. Apesar de estudos mostrarem que o tempo assistindo televisão está inversamente associado com a atividade física12, um jovem pode assistir televisão por várias horas e, ainda assim, realizar atividades físicas27. Em relação às aulas de atividade física, estar matriculado em uma aula não implica necessariamente que o aluno participe da mesma. E a participação nas aulas não quer dizer que o incentivo à prática de atividade física seja ou não realizado. Além disso, as aulas são mais voltadas para atividades esportivas e, por isso, as meninas tendem a participar menos delas3. Assim como mostrado em outros estudos9,27, o estado nutricional também não influenciou na prática de atividade física. Um dos motivos para essa falta de associação pode ser o fato de que 84,1% dos jovens estavam com estado nutricional esperado para a idade e sexo. Outro motivo é o possível efeito da causalidade reversa, ou seja, os jovens acima do peso podem ter iniciado a prática de atividade física em decorrência do seu estado nutricional.

A baixa prevalência de atividade física na população estudada, associada às características da população (predominantemente rural, baixa renda, baixa escolaridade materna) e os fatores relacionados identificados neste estudo, apontam para algumas prioridades com relação à promoção da atividade física, com foco especial para grupos mais vulneráveis. Neste caso, jovens do sexo feminino, principalmente as que não trabalham, grupos de jovens de maior faixa etária e filhos de mães com baixa escolaridade.

Concluindo-se, esta investigação mostrou que sexo masculino e maior nível socioeconômico estiveram associados com prática de atividade física neste público jovem. A faixa etária apresentou relação inversa com a atividade física tanto na análise global quanto na estratificada por sexo. Para os jovens do sexo masculino, os indivíduos de cor preta foram significativamente mais ativos. Já para o sexo feminino, aquelas com cor da pele branca foram as mais ativas, bem como as jovens que trabalhavam.

Sabendo-se que prática de atividades físicas é um comportamento protetor para grande maioria das doenças crônicas não transmissíveis5, ressalta-se a relevância deste estudo. Verificou-se que, mesmo em uma população de baixa renda, poucos jovens cumprem as recomendações para serem considerados fisicamente ativos, necessitando de mais incentivo e condições para se engajarem em atividades físicas. Vale mencionar que nessas populações brasileiras eminentemente pobres nota-se que o déficit nutricional e o excesso de peso ainda coexistem35. Aponta-se como sugestão para novas pesquisas a adoção de uma padronização quanto aos instrumentos de pesquisa e pontos de corte utilizados, visando facilitar a comparabilidade entre os mesmos. Reitera-se também, a necessidade de estudos, que explorem os motivos associados à baixa prevalência de atividade física, investigando as barreiras para adotar e manter este comportamento. Por fim, recomenda-se mais estudos feitos em cidades do interior da região Nordeste, principalmente naquelas de baixa renda e com poucos habitantes.

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