Práticas corporais em academias de ginástica: distintos usos sociais dos suplementos alimentares e anabolizantes

Práticas corporais em academias de ginástica: distintos usos sociais dos suplementos alimentares e anabolizantes

Autores:

Juliana Gonçalves Baptista,
Elaine Reis Brandão

ARTIGO ORIGINAL

Cadernos de Saúde Pública

versão On-line ISSN 1678-4464

Cad. Saúde Pública vol.34 no.2 Rio de Janeiro 2018 Epub 01-Mar-2018

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311x00190917

O livro Corpos no Limite: Suplementos Alimentares e Anabolizantes em Academias de Ginástica, de Alan Camargo Silva, é uma obra oriunda de sua tese de doutorado em Saúde Coletiva, defendida no Instituto de Estudos em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 2014. Baseando-se nos saberes da Educação Física, da Saúde Coletiva e da Antropologia, o trabalho foca nos usos de suplementos alimentares e anabolizantes no contexto de academias de ginástica no Rio de Janeiro, no intuito de aprofundar o debate da noção de risco à saúde e dos sentidos e significados que tal prática adquire em determinados grupos sociais.

Na esteira de trabalhos seminais sobre temas correlatos 1,2,3, Silva explora os diferentes limites impostos aos corpos em espaços sociais e simbólicos diferentes. Nesses espaços, o trabalho sobre o corpo exige árdua combinação entre exercícios e ingestão de substâncias que potencializam o vigor e a força física, mas também atributos de distinção social.

A questão central de sua investigação, de cariz etnográfico, gira em torno da tensão existente entre a otimização do corpo, uma aposta na intensidade traduzida na expansão dos limites, sensações, dores e prazeres corporais, e a maximização da vida, ligada à contenção dos riscos à saúde, dos cuidados e cálculos com a extensão da vida, como nos lembra Duarte 4.

No capítulo de abertura, Contribuições das Ciências Sociais para o Estudo das Academias de Ginástica, o autor traz à baila os pressupostos teórico-metodológicos inspirados no interacionismo simbólico. Sob olhar antropológico dirigido ao campo da saúde, Silva evita uma análise “universalista” ao se “direcionar aos significados que os atores sociais atribuem às suas realidades” (p. 25). Portanto, a partir da conjugação de diferentes olhares, tanto dos profissionais quanto dos praticantes de musculação, de duas realidades sociais distintas, a Barra da Tijuca e a Cidade de Deus, ambas na zona oeste da cidade do Rio de Janeiro, o autor renova a importância do pensamento da Escola de Chicago (Estados Unidos) em sua análise etnográfica sobre academias de ginástica.

O capítulo A Produção de Corpos Desejáveis retrata o corpo como central para o entendimento das interações e relações sociais de determinado contexto social. Inicialmente, o autor apresenta uma diferenciação conceitual dos termos atividade física, exercício físico e práticas corporais, sendo o último adotado na obra por abarcar o contexto sociocultural em sua definição. Ademais, traz as diferentes visões teóricas para a compreensão do corpo na perspectiva biomédica e antropológica, no âmbito do processo saúde-doença. Ao demarcar seu interesse pela análise antropológica da multiplicidade de corpos possíveis, o autor discute as práticas corporais como resultados tanto de escolhas individuais quanto de representações coletivas, em que ganha relevo o uso de substâncias como modo de aprimorar o desempenho de praticantes de musculação em academias.

Ao apresentar os contornos metodológicos da pesquisa, o autor contextualiza a escolha das academias, sua entrada no campo e suas descobertas etnográficas. Assim, ele explana as diferenças, as peculiaridades e as motivações de pesquisar comparativamente uma academia de grande porte, em uma região nobre da cidade do Rio de Janeiro, na Barra da Tijuca, e outra de pequeno porte, em uma área popular, na Cidade de Deus, também no Rio de Janeiro. Dessa forma, adentramos as respectivas academias, vislumbrando-as como espaços hierárquicos de organização social.

Além disso, os atores sociais envolvidos nesses estabelecimentos, praticantes de musculação e profissionais que ali trabalham, são contemplados, ampliando sua compreensão sobre os distintos contextos sociais nos quais as academias observadas estão situadas. Na sua incursão etnográfica, o olhar do pesquisador é “direcionado” a “apreender diferentes usos no ‘limite’ do corpo no setor da musculação (...) no que diz respeito à diversidade do ato relacional de ‘tomar’ os suplementos alimentares e os anabolizantes” (p. 64).

Na discussão sobre o uso de substâncias, Silva problematiza os significados do “botar para dentro” suplementos alimentares em ambas as academias. O autor averigua as diferentes ressignificações dadas à suplementação, os modos de utilizá-la e a seleção dos produtos. Assim, na academia da Cidade de Deus, a procura por suplementos implica a combinação de diversas substâncias, ao passo que, na Barra da Tijuca, ressaltam-se as substâncias específicas, personalizadas e importadas, no intuito de os limites do corpo e o prestígio social serem alcançados.

Em Usos de Anabolizantes: entre a “Bomba” e a “Reposição Hormonal”, vicissitudes, práticas, valores morais e noções de saúde e de riscos sobre o uso dessas substâncias são tematizados nas diferentes academias. Assim, o deslizamento entre a ideia do anabolizante ora como remédio ora como veneno reforça as diferentes posições que a substância pode adquirir em diferentes contextos. O autor observa que, na academia popular, apesar de ocorrer, o uso de anabolizantes muitas vezes é negado, pois esse ato seria uma quebra das regras vigentes para se alcançar o corpo no limite, representando, portanto, um corpo impuro, socialmente não legitimado, ao se dispensar o esforço físico extremo. Ao contrário, na academia cujos frequentadores são de classe média alta, os atores sociais enunciam de forma positiva o uso de anabolizantes, justificando-o como reposição hormonal. Concebem tal procedimento como fruto de uma necessidade médica, tendo em vista que, a partir do discurso de uma deficiência hormonal, haveria a necessidade de sua reposição. Assim, legitimam tal ingestão, tomando-a também como um meio de distinção social e, por vezes, profissional.

Por fim, a obra reforça a ideia da academia de ginástica como um local de construção simbólica da vida cotidiana, bem como da diversidade de sentidos e significados atribuídos às práticas corporais presentes nos contextos abordados. O trabalho destaca que o “tomar” vai além do ingerir, pois se soma à ideia de pertencimento social e de identificação com o grupo de pares.

O livro de Alan Silva amplia o debate sobre as práticas corporais no contexto das academias de ginástica ao trazer uma pluralidade de olhares possíveis para se analisar e compreender o uso de substâncias por praticantes de musculação, em geral, jovens rapazes, embebidos pelos ideais de masculinidade e força física. As questões de gênero nas práticas de musculação poderiam ser mais bem trabalhadas, permanecendo como pistas para maior aprofundamento futuro. As temáticas relativas a corpo, saúde e risco/doença, medicalização, natural/artificial são consideradas em discussão, permitindo-nos compreender melhor a sociedade carioca, em suas clivagens de classe social e também de capital cultural e simbólico. Sem dúvida, desperta o interesse de leitores que estudam ou trabalham com temas afins ao corpo e à saúde, na perspectiva das ciências sociais.

REFERÊNCIAS

1. Iriart JAB, Chaves JC, Orleans RG. Culto ao corpo e uso de anabolizantes entre praticantes de musculação. Cad Saúde Pública 2009; 25:773-82.
2. Sabino C, Luz M, Carvalho MC. O fim da comida: suplementação alimentar e alimentação entre frequentadores assíduos de academias de musculação e fitness do Rio de Janeiro. Hist Ciênc Saúde-Manguinhos 2010; 17:343-56.
3. Sabino C. Anabolizantes: drogas de Apolo. In: Goldenberg M, organizadora. Nu e vestido: dez antropólogos revelam a cultura do corpo carioca. Rio de Janeiro: Record; 2002. p. 139-88.
4. Duarte LFD. O império dos sentidos: sensibilidade, sensualidade e sexualidade na cultura ocidental moderna. In: Heilborn ML, organizadora. Sexualidade: o olhar das ciências sociais. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor; 1999. p. 21-30.
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