Pré-escolares nascidos prematuros apresentam desempenho adequado em vocabulário expressivo e memória de curto prazo verbal?

Pré-escolares nascidos prematuros apresentam desempenho adequado em vocabulário expressivo e memória de curto prazo verbal?

Autores:

Marianne Querido Verreschi,
Ana Manhani Cáceres-Assenço,
Vera Lúcia Jornada Krebs,
Werther Brunow de Carvalho,
Debora Maria Befi-Lopes

ARTIGO ORIGINAL

CoDAS

versão On-line ISSN 2317-1782

CoDAS vol.32 no.2 São Paulo 2020 Epub 24-Jan-2020

http://dx.doi.org/10.1590/2317-1782/20192018107

INTRODUÇÃO

O nascimento é considerado prematuro quando ocorre antes da gestação completar 37 semanas(1), contadas a partir da data da última menstruação da mulher, e é a principal causa de morte neonatal em todo o mundo(2). De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a cada ano, cerca de 15 milhões de bebês nascem prematuros.

Os bebês podem ser classificados quanto à prematuridade de acordo com a idade gestacional: pré-termo extremo (idade gestacional inferior a 28 semanas), muito pré-termo (de 28 semanas e 0 dia a 31 semanas e 6 dias), pré-termo moderado (32 semanas e 0 dia a 33 semanas e 6 dias), pré-termo tardio (34 semanas e 0 dia a 36 semanas e 6 dias)(1).

O peso ao nascimento é outra variável frequentemente relacionada à prematuridade. Os recém-nascidos com peso inferior a 2500 gramas são considerados de baixo peso, aqueles nascidos com menos de 1500 gramas são considerados de muito baixo peso e aqueles nascidos com menos de 1000 gramas são considerados de extremo baixo peso(3).

Também é possível classificar os recém-nascidos de acordo com a relação peso/idade gestacional. Para cada época da gestação, existe uma variação de peso considerada normal, entre os percentis 10 e 90, para uma dada população. As categorias são: GIG (grande para a idade gestacional), acima do percentil 90; AIG (apropriado para a idade gestacional), entre os percentis 10 e 90; PIG (pequeno para a idade gestacional), abaixo do percentil 10(3).

A prematuridade e o baixo peso ao nascimento configuram-se como fatores de risco biológico ao desenvolvimento infantil(4,5). Nos primeiros anos de vida, prematuros podem apresentar prejuízos no desenvolvimento motor, cognitivo e de linguagem em comparação às crianças nascidas a termo(4-12).

Com relação ao desenvolvimento da linguagem, foram relatadas alterações como início tardio na emissão das primeiras palavras, defasagem na expansão do vocabulário e da funcionalidade linguística(6,13), dificuldades com habilidades gramaticais, fonológicas, pragmáticas e com compreensão linguística(4,10,11). Em alguns casos, essas questões podem se manifestar nas fases pré-escolar e escolar e perdurar por toda a vida(5,6,10,14,15).

Além do impacto no desenvolvimento da linguagem, outras habilidades cognitivas, como a memória, também podem ter seu desenvolvimento afetado. Estudos recentes demonstraram que crianças prematuras obtiveram pior desempenho que seus pares nascidos a termo em tarefas de memória de curto prazo verbal, como repetição de não palavras e span de dígitos(11) e de memória operacional verbal(16).

A memória de curto prazo verbal mantém relação direta com a aquisição e a compreensão da linguagem. Ela dá suporte à formação e estabilização de representações fonológicas de novas palavras na memória de longa duração, se relaciona ao aprendizado morfossintático e funcional, e à compreensão de pequenas sentenças até narrativas(17-20).

Estudos que relacionem o desenvolvimento de linguagem e de memória de curto prazo verbal em prematuros são escassos(11) e predominantemente internacionais. A investigação dessas habilidades no contexto brasileiro é relevante para aprofundar a compreensão da prematuridade no desenvolvimento da comunicação na primeira infância e, especialmente, para investigar se esta população apresenta maior risco para desenvolver transtornos do neurodesenvolvimento que irão impactar sua aprendizagem. Deste modo, este estudo teve como objetivo verificar o desempenho lexical e a habilidade de memória de curto prazo verbal em crianças prematuras em idade pré-escolar (4 a 5 anos e 11 meses), e comparar os resultados com seus pares nascidos a termo.

MÉTODO

Este estudo foi aprovado pela Comissão de Ética em Pesquisa da Instituição sob número 53465416.0.0000.0068. Todos os sujeitos assentiram à participação no estudo por meio de registro gráfico e tiveram seus Termos de Consentimento Livre e Esclarecido assinados por seus responsáveis.

Participantes

O estudo foi composto por um grupo pesquisa (GP) e um grupo controle (GC). Os sujeitos de ambos os grupos tinham idade entre 4 anos e 5 anos e 11 meses (média GP 61,0 ±7,41 meses; média GC 61,4 ±4,86; p=0,841). Por se tratar de uma amostra por conveniência, os grupos foram pareados pela faixa etária, podendo variar em até seis meses. Essa variação ocorreu, pois os sujeitos, apesar de serem pareados pela data de nascimento, passaram pela coleta de dados em momentos distintos. O GP foi composto por oito sujeitos com 4 anos e 12 com 5 anos, com intervalo de idade entre 48 e 71 meses; ao passo que o GC foi composto por sete sujeitos com 4 anos e 13 com 5 anos, com intervalo de idade entre 53 e 68 meses. Apesar de o GP apresentar maior variabilidade de idade em meses que o GC, os grupos não diferiram pela idade.

O nível socioeconômico familiar foi caracterizado tanto pela renda mensal (mediana GP R$3000,00; intervalo interquartil (IQ) 2125,00 – 5000,00; mediana GC R$2000,00 IQ1500,00 – 4000,00; p=0,147), quanto pela escolaridade materna (85% das mães concluíram ao menos o Ensino Médio em ambos os grupos). Os grupos também não diferiram quanto à renda mensal familiar e escolaridade materna.

O grupo pesquisa (GP) foi composto de acordo com a demanda do serviço do Ambulatório de seguimento do Recém-Nascido de Risco do Centro Neonatal do ICr- HCFMUSP. Foram avaliados 20 pré-escolares de ambos os gêneros (dez meninos), nascidos prematuros e que estavam em seguimento ambulatorial pediátrico no período da coleta de dados. Destes, 85% frequentavam instituição de ensino infantil regularmente e nenhum realizava terapia fonoaudiológica.

Os critérios de elegibilidade para sua composição foram: idade gestacional inferior a 37 semanas completas; ausência de privações sensoriais, alterações neurológicas e quadros diagnosticados ao longo do desenvolvimento que pudessem interferir na aquisição e desenvolvimento da linguagem.

Os dados clínicos dos sujeitos foram consultados por meio de prontuário eletrônico. Informações relacionadas à idade gestacional, tipo de parto, peso ao nascimento, relação idade gestacional/peso, altura, perímetro cefálico, índice Apgar e tempo de internação foram consideradas.

Com relação à classificação da prematuridade(1), a amostra foi composta por 55% nascidos muito pré-termo, 30% nascidos pré-termo moderado, 10% nascidos pré-termo tardio e 5% nascidos pré-termo extremo. A respeito do peso ao nascimento, 15% dos sujeitos apresentaram extremo baixo peso, e 45% dos sujeitos foram classificados como PIG. Devido à acentuada variabilidade, estas variáveis não foram consideradas nas análises deste artigo (Quadro 1).

Quadro 1 Caracterização do grupo de crianças nascidas prematuras 

média DP Intervalo
Idade gestacional (semanas) 30,9 2,61 25 - 36
Idade materna (anos) 27,3 6,04 17 - 37
Peso ao nascimento (gramas) 1264,7 301,34 720 - 2070
Média de internação (dias) 49,6 21,61 17 - 106
n %
Pré-termo extremo 1 5
Extremo baixo peso 3 15
PIG 9 45
Parto cesárea 20 100
Gemelar 6 30
Hipertensão materna 9 45
Diabetes materno 2 10
Icterícia 18 90
Fototerapia 16 80

Legenda: DP: Desvio Padrão; Intervalo: Apresenta o valor mínimo e o máximo; n: Número de sujeitos; %: Porcentagem de sujeitos na amostra; PIG: Pequeno para a idade gestacional

O grupo controle (GC) foi composto por 20 pré-escolares em desenvolvimento típico de linguagem nascidos a termo, dentro da mesma faixa etária dos sujeitos do grupo pesquisa, de ambos os gêneros (14 meninos), regularmente matriculados em uma escola pública de Educação Infantil da região oeste de São Paulo. Os critérios adotados para sua composição foram: idade gestacional igual ou superior a 37 semanas completas, ausência de queixas, encaminhamento ou atendimento em vigor para demandas fonoaudiológicas, psicológicas ou neurológicas, de quadros diagnosticados que pudessem interferir na aquisição e desenvolvimento da linguagem (Quadro 2).

Quadro 2 Caracterização do grupo de crianças nascidas a termo 

média DP Intervalo
Idade gestacional (semanas) 38,8 1,51 37 - 42
Peso ao nascimento (gramas) 3093,8 551,40 2000 - 4200
n %
Peso normal ao nascimento 18 90
Gemelar 0 -
Hipertensão materna 2 10
Diabetes materno 2 10
Icterícia 0 -
HIC 0 -

Legenda: DP: Desvio Padrão; Intervalo: Apresenta o valor mínimo e o máximo; n: Número de sujeitos; %: Porcentagem de sujeitos na amostra; HIC: Hemorragia intracraniana

Materiais e procedimentos

A coleta de dados do grupo pesquisa foi realizada em um consultório silencioso no Centro de Pesquisa Clínica do ICr - HCFMUSP e a do grupo controle ocorreu em sala de aula silenciosa na própria escola. Em ambos os casos, as crianças interagiram com a pesquisadora e todos os procedimentos foram realizados em sessão única, com duração média de 20 minutos, registrados em gravador digital para posterior transcrição.

Para investigar o desenvolvimento lexical, foi utilizado o teste de Vocabulário Expressivo – ABFW(21), composto por 118 figuras divididas em nove campos semânticos: vestuário, alimentos, animais, meios de transporte, móveis e utensílios, profissões, locais, formas e cores, brinquedos e instrumentos musicais. Sua análise classifica as respostas em designações verbais usuais (DVU), não designações (ND) e processos de substituição (PS) e fornece a porcentagem de acertos em cada campo semântico, com padrão de normalidade. A aplicação ocorreu conforme as instruções disponíveis no manual. Para os propósitos deste estudo, a análise considerou a porcentagem total de designação verbal usual (DVU), que corresponde à soma de DVU de todos os campos semânticos dividida pelo número total de itens do teste e multiplicada por 100.

Para investigar a habilidade de memória de curto prazo verbal, foi utilizado o teste de Memória Curto Prazo Fonológica(22), composto por 40 não palavras divididas igualmente em grupos de monossílabos, dissílabos, trissílabos e polissílabos. Para este estudo, foi considerada a porcentagem total de acertos, que corresponde à soma dos acertos nas diferentes extensões silábicas das não palavras dividida pelo número total de itens e multiplicada por 100.

O desempenho dos sujeitos foi classificado como “adequado” quando atingiu os parâmetros de desempenho indicado por faixa etária em ambos os instrumentos, e como “inadequado” quando ficou aquém do esperado.

Os sujeitos do grupo pesquisa foram caracterizados quanto a fatores da gestação e nascimento: doenças maternas (diabetes, hipertensão, outras), idade gestacional, tipo de parto, peso ao nascimento, tempo de internação, quadro clínico (ocorrência de icterícia neonatal, tempo de fototerapia, infecções, hemorragia intracraniana, outros). Estas foram obtidas a partir da análise dos prontuários eletrônicos do ambulatório já referido.

O grupo controle também foi caracterizado quanto a fatores gestacionais e de nascimento dos sujeitos, por meio de questionário respondido pelos pais e/ou responsáveis.

Para caracterização e pareamento dos grupos pesquisados, os aspectos socioeconômicos familiares foram mensurados por meio de questionário baseado no Critério de Classificação Econômica Brasil(23), respondido pelos responsáveis dos sujeitos.

O registro da coleta de dados ocorreu por meio dos protocolos específicos de cada teste, que foram transcritos e armazenados também em arquivo digital de voz.

Análise estatística

Os dados obtidos foram analisados no software SPSS versão 21. A análise descritiva das variáveis categóricas ocorreu pelo valor bruto e sua frequência de distribuição, já as variáveis numéricas foram descritas pela mediana e intervalo interquartil quando a distribuição não respeitou a normalidade e pela média e seu desvio padrão quando a distribuição respeitou a normalidade. A análise inferencial foi realizada pelo teste não paramétrico de Mann-Whitney para comparar o desempenho dos sujeitos, e o teste exato de Fisher foi utilizado para comparar a distribuição de frequência da classificação do desempenho entre os grupos. O nível de significância adotado foi de 5%.

RESULTADOS

Os grupos pesquisa e controle foram caracterizados por seus dados gestacionais - maternos e fetais - e de nascimento, conforme pode ser observado nos Quadros 1 e 2.

Tabela 1 Comparação do desempenho (pontuação) dos grupos nas tarefas de vocabulário expressivo e memória de curto prazo verbal 

Domínio Grupo Mediana Intervalo interquartil p
Vocabulário Controle 68,0 65,3 74,8 0,110
Pesquisa 65,5 53,3 72,0
Memória de curto prazo verbal Controle 96,5 93,0 100,0 <0,001*
Pesquisa 83,0 65,5 88,0

*diferença estatística p<0,05 – teste não paramétrico de Mann-Whitney

Tabela 2 Comparação da classificação do desempenho dos grupos nas tarefas de vocabulário expressivo e de memória de curto prazo verbal 

Domínio Desempenho Grupo Total p
Pesquisa Controle
Vocabulário Adequado 16 20 36 0,053
Inadequado 4 0 4
Memória de curto prazo Adequado 7 20 27 <0,001*
Inadequado 13 0 13

*diferença estatística p<0,05 – teste exato de Fisher

Ao comparar o desempenho dos grupos, os prematuros tiveram desempenho semelhante ao de seus pares na prova de vocabulário, mas apresentaram desempenho inferior na memória de curto prazo verbal. Porém, vale notar que, mesmo no caso do vocabulário, os valores do intervalo interquartil dos prematuros apresentam-se inferiores aos do grupo controle no primeiro e no terceiro quartis (Tabela 1).

Ao analisar apenas o grupo pesquisa, comparamos o desempenho dos sujeitos classificados como AIG ou PIG, visto que os últimos apresentariam maior risco para alterações do desenvolvimento. Entretanto, não houve diferença entre os sujeitos na porcentagem de DVU do vocabulário (AIG mediana 64, PIG mediana 69, p = 0,062), nem na porcentagem de acertos na memória de curto prazo verbal (AIG mediana 83, PIG mediana 85, p = 0,152). Ao comparar a classificação do desempenho no vocabulário, três (27,3%) sujeitos AIG e apenas um (11,1%) sujeito PIG estavam inadequados, o que não configurou diferença estatística (p=0,375). Na memória de curto prazo verbal, sete (63,6%) sujeitos AIG e seis (66,7%) sujeitos PIG estavam inadequados, o que também não configura diferença estatística (p=0,630).

Ao comparar a classificação do desempenho dos grupos em cada domínio avaliado, não houve associação entre o grupo e a classificação no vocabulário, ou seja, em ambos os grupos a distribuição dos sujeitos nas classificações é semelhante. Já na memória de curto prazo verbal, os prematuros tiveram seu desempenho classificado como adequado em menor frequência do que seus pares (Tabela 2).

DISCUSSÃO

Esta pesquisa objetivou verificar o desempenho de crianças entre 4 e 5 anos e 11 meses com histórico de prematuridade em tarefas de vocabulário e memória de curto prazo verbal, e compará-lo ao de seus pares nascidos a termo.

Com relação ao vocabulário expressivo, não houve diferença estatística entre os grupos, quer seja pela porcentagem total de DVU, quer seja pela classificação do desempenho. Este resultado diverge de estudos anteriores que apontaram dificuldades com vocabulário expressivo e receptivo em crianças nascidas pré-termo em diferentes faixas etárias(9,10,13). Em dois destes estudos, foram analisadas crianças com idades de 12 a 36 meses com histórico de prematuridade extrema e moderada (9,13), enquanto o outro estudo avaliou crianças com idades de 4 a 5 anos e com histórico de prematuridade extrema(10). Logo, é importante considerar que tanto a diferença da idade gestacional, quanto da idade das crianças no momento da pesquisa, pode justificar a divergência observada entre os resultados apresentados, visto que neste estudo há predomínio de nascidos com idade gestacional entre 28 semanas e 0 dia a 33 semanas e 6 dias.

Apesar disso, estes achados corroboram o que foi observado em dois estudos internacionais(24,25). No primeiro estudo, a comparação longitudinal do desenvolvimento de linguagem aos 10, 22 e 30 meses de crianças com e sem histórico de nascimento prematuro não encontrou diferença estatística entre os grupos em tarefas de compreensão e produção de palavras, frases, habilidades comunicativas e cognitivas(24). Outro estudo demonstrou que, aos 12 meses de idade corrigida, não foi observada diferença estatística entre crianças pré-termo e termo em tarefas cognitivas, linguísticas e motoras; entretanto ressalta-se que o grupo pesquisa foi composto por sujeitos saudáveis e sem risco clínico, de modo que, mesmo com idades gestacionais diferentes (muito pré-termo e pré-termo tardio), todos os sujeitos atingiram scores adequados aos parâmetros dos testes experimentais(25).

Os sujeitos que compuseram os grupos desta pesquisa não diferiram tanto pela idade cronológica quanto pelo nível socioeconômico familiar, bem como não apresentavam quadros clínicos de alto risco, atendendo aos critérios de elegibilidade já citados. Entretanto, faz-se necessário ressaltar que a literatura que embasa este estudo utiliza critérios de elegibilidade semelhantes, ou seja, os aspectos em que há divergência da literatura não podem ser justificados pela possibilidade de comparações com crianças prematuras com alto risco clínico para alterações no desenvolvimento(4,6-16,24,26).

Os fatores ambientais também podem interferir no desempenho de linguagem de crianças prematuras. Em crianças menores de cinco anos que nasceram muito prematuras ou pequenas para a idade gestacional, fatores como baixo nível de escolaridade dos pais, baixo peso ao nascimento e gênero masculino podem atuar como preditivos de alterações no desenvolvimento cognitivo global. A partir dos cinco anos, apenas a influência do nível de escolaridade dos pais parece se sustentar, sugerindo que a influência dos fatores de risco perinatais diminui com o passar do tempo e que fatores sociais e ambientais se tornam mais importantes(26).

Apesar de muitos estudos demonstrarem risco para alteração no desenvolvimento da linguagem em crianças prematuras, é possível que haja ganho de recuperação de desenvolvimento ao longo do amadurecimento do sistema nervoso, na ausência de lesões cerebrais e quando a criança interage com o ambiente saudável à sua volta(13). Assim, ao considerar que neste estudo a maior parte das crianças prematuras frequentava instituições de educação infantil regularmente, como prevê a legislação brasileira para crianças desta faixa etária, é possível que este fator tenha contribuído para o desenvolvimento da linguagem, mais especificamente a aquisição lexical, o que poderia justificar o desempenho semelhante com as crianças nascidas termo e que também frequentam instituição de ensino infantil.

Entretanto, um ponto a ser ressaltado é que, apesar da ausência de diferença estatística, a mediana obtida no grupo de prematuros indicou desempenho mais restrito do que o de crianças nascidas a termo. É possível que esse resultado seja decorrente da familiaridade com a tarefa e com os itens que a compõem, mas que não necessariamente implica que o desempenho seria o mesmo com elementos lexicais menos frequentes, o que pode impactar o futuro desempenho acadêmico destas crianças. É importante também entender que apenas a tarefa de vocabulário isolada não é capaz de avaliar o desempenho linguístico destes grupos e permite a discussão apenas sobre o vocabulário.

Outro aspecto relevante a ser considerado neste grupo é que a amostra é composta por 30% de gemelares e 45% de nascidos pequenos para a idade gestacional, o que aumenta o risco para alterações no desenvolvimento da linguagem(27,28). Um estudo recente(27) apresentou análise multivariada a respeito da associação de fatores perinatais e pós-natais ao atraso no desenvolvimento da linguagem de gêmeos. Os resultados indicaram associação de fatores perinatais, como diabetes gestacional e gestação monozigótica, mas fatores pós-natais, como nível socioeconômico e de escolaridade materna, não se associaram ao atraso no desenvolvimento da linguagem.

Além disso, ao comparar a classificação do desempenho dos grupos no vocabulário, a significância estatística foi limítrofe, provavelmente devido ao número amostral. Logo, é preciso cautela ao generalizar estes dados, visto que, com um maior número de sujeitos na amostra, a diferença de desempenho no vocabulário de prematuros e crianças nascidas a termo observada por outros autores poderia ser replicada neste estudo.

Com relação ao desempenho em memória de curto prazo verbal, as crianças nascidas prematuras apresentaram prejuízos. Esse achado corrobora um estudo italiano que aponta que crianças nascidas prematuramente apresentaram dificuldades com esta habilidade, e com outras habilidades cognitivas, detectadas a partir dos três anos de idade e observadas em crianças de cinco anos(11).

A idade gestacional pode interferir no desenvolvimento das habilidades de memória e, consequentemente, no desenvolvimento linguístico. A memória de curto prazo verbal se associa a habilidades receptivas de linguagem, enquanto que as habilidades expressivas se associam à memória operacional(16). Neste estudo, a memória operacional e as habilidades receptivas de linguagem não foram verificadas, de modo que não é possível determinar se estas relações seriam replicadas.

Como apontado pela literatura, alterações nas habilidades de memória, dentre elas a de curto prazo verbal, podem acarretar dificuldades no desenvolvimento de linguagem, tanto de compreensão, quanto de expressão, em diferentes níveis(16), e podem inclusive levar a prejuízos para a ampliação lexical durante a escolarização.

Pesquisadores brasileiros(28) demonstraram que aos dois meses de vida de nascidos PIG já é possível identificar risco para alterações no neurodesenvolvimento, quando comparados a nascidos AIG. É possível que nascidos PIG apresentem maior risco a anormalidades leves no desenvolvimento neuronal, alterações cognitivas, comportamentais e acadêmicas(28). Como apontado nos resultados, nesta amostra, observou-se que 66,7% dos nascidos PIG apresentaram dificuldades com a habilidade memória de curto prazo verbal. Apesar disso, neste estudo, não foi observada diferença entre o desempenho dos nascidos PIG e AIG nesta habilidade, nem em vocabulário expressivo, o que pode sugerir que nascidos PIG podem superar prejuízos observados no início do desenvolvimento, na ausência de alterações neurológicas e em condições pós-natais adequadas.

Os resultados obtidos neste estudo parecem indicar que a relação entre prematuridade, desenvolvimento cognitivo e de linguagem é complexa. Mesmo ao encontrar um desempenho em teste de vocabulário semelhante entre os grupos, não é possível afirmar que o desenvolvimento de linguagem das crianças prematuras não será afetado, porque, de acordo com a literatura, prejuízos na memória de curto prazo verbal podem impactar negativamente no desenvolvimento lexical(17-20).

Como mencionado anteriormente, fatores ambientais, como a estimulação de linguagem proveniente do ambiente escolar e a escolaridade materna, podem ter influenciado positivamente a aquisição lexical dos prematuros, enquanto a memória de curto prazo verbal pode não ter sido igualmente beneficiada por tais fatores. Com isso, mesmo as crianças prematuras não tendo diferido estatisticamente de seus pares nascidos a termo na habilidade lexical, com as dificuldades observadas na habilidade de memória de curto prazo verbal, esses grupos podem passar a se diferenciar com aumento de demanda nos contextos comunicativos e educacionais futuramente.

Por fim, vale ressaltar que, apesar de ainda não haver consenso sobre o prejuízo nas habilidades linguísticas de prematuros, estudos recentes apontam que mesmo crianças nascidas após as 32 semanas de gestação apresentam maior risco para alterações na linguagem do que os nascidos a termo(29,30).

Assim, seria interessante dar continuidade a estas investigações, oportunizando-se especialmente o acompanhamento longitudinal de crianças nascidas prematuras e maior número amostral, a fim de mensurar também o impacto de fatores ambientais em seu desenvolvimento.

A generalização dos resultados deste estudo limitou-se pela formação do grupo pesquisa, de difícil obtenção devido à baixa adesão dos responsáveis e ao alto índice de faltas nas avaliações agendadas, o que culminou em um número amostral reduzido. Ademais, por ter sido um estudo transversal, realizado com avaliação pontual de cada criança, alguns fatores sobre o desenvolvimento de linguagem não puderam ser amplamente explorados.

Apesar disso, os resultados aqui apresentados permitiram apontar que o desenvolvimento lexical de crianças com histórico de prematuridade pode ocorrer de forma semelhante ao de crianças em desenvolvimento típico, sinalizando a importância do investimento em programas de acompanhamento e estimulação precoce, assim como a inserção no ambiente escolar.

Com relação à memória de curto prazo verbal, as dificuldades observadas nesta amostra indicaram que a prematuridade pode ser um fator de risco biológico ao desenvolvimento cognitivo, reforçando a necessidade de seguimento de crianças nascidas prematuras, a fim de monitorar seu processo de aprendizagem, o desenvolvimento de linguagem e acadêmico.

Por fim, o presente estudo contribui para a prática clínica, pois ressalta a importância de compreender a prematuridade como um fator de risco para o desenvolvimento infantil e permite contribuir para o debate acerca da importância do monitoramento do desenvolvimento da linguagem em populações com risco para desenvolver transtornos do neurodesenvolvimento.

CONCLUSÃO

Ao comparar o desempenho de crianças com idade entre 4 e 5 anos e 11 meses e histórico de prematuridade ao de seus pares nascidos a termo, foi possível identificar que aquelas nascidas prematuras tiveram desempenho semelhante ao de seus pares no vocabulário, mas apresentaram prejuízos na memória de curto prazo verbal.

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