Preensão palmar e mobilidade funcional em idosos com diferentes níveis de atividade física

Preensão palmar e mobilidade funcional em idosos com diferentes níveis de atividade física

Autores:

Dayane de Oliveira Macedo,
Letícia Mendes de Freitas,
Marcos Eduardo Scheicher

ARTIGO ORIGINAL

Fisioterapia e Pesquisa

versão impressa ISSN 1809-2950

Fisioter. Pesqui. vol.21 no.2 São Paulo abr./jun. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/1809-2950/47321022014

INTRODUÇÃO

De acordo com projeções demográficas, 33 milhões de brasileiros terão mais de 60 anos em 20251. As alterações de equilíbrio postural e as quedas estão entre as mudanças mais comuns relacionadas ao envelhecimento humano, sendo que as quedas podem causar considerável morbidade e mortalidade, afetando a qualidade de vida dessa população2.

O déficit na função muscular, na amplitude de movimento e na diminuição das respostas proprioceptivas e sensoriais (sistema visual, sistema vestibular e sistema somatossensorial) é uma alteração comum ao envelhecimento; por sua vez, tal carência interfere no equilíbrio do individuo, predispondo-o a uma limitação funcional e a um maior risco de quedas3 - 5.

Mesmo em idosos sem alterações para realização das atividades de vida diária (AVD), o avanço da idade está relacionado com a diminuição da mobilidade e da força muscular4. Nesse contexto, a mensuração da força de preensão palmar é sugerida pela literatura como uma medida clínica simples no rastreamento e identificação de modificações funcionais pequenas, devido à sua associação com a função muscular de membros inferiores. No entanto, antes de adotar essa prática é necessário que sejam realizados mais estudos para esta confirmação6. Sabe-se também que a diminuição da mobilidade funcional está relacionada com as AVD e com a predisposição a quedas7.

Por outro lado, a prática de exercícios físicos de forma regular pelos idosos tem sido orientada pela Organização Mundial da Saúde (OMS)8, podendo ter uma função importante na diminuição das perdas inerentes ao envelhecimento9. Há uma forte evidência dos efeitos positivos do treinamento com exercícios sobre a aptidão física, a mobilidade funcional, a performance nas AVD e na qualidade de vida10 , 11.

Contudo, na literatura há escassez de trabalhos que avaliaram variáveis como força muscular e mobilidade em idosos com prática regular de atividade física orientada, como o vôlei adaptado, por exemplo. Esse esporte tem feito parte de muitas competições da terceira idade, tendo, inclusive, regras próprias para o seu desenvolvimento.

Diante disso, este estudo teve como objetivo avaliar e comparar a mobilidade funcional e a força de preensão palmar de idosos com diferentes níveis de atividade física.

METODOLOGIA

O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Faculdade de Filosofia e Ciências (FFC) da UNESP de Marília (SP) (Protocolo nº 0426/2012), respeitando as recomendações éticas da Resolução nº 196/96. Todos os participantes envolvidos foram orientados sobre os procedimentos da pesquisa e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Amostra

Participaram do estudo 44 idosos, com idade igual ou superior a 60 anos, de ambos os gêneros, separados em 3 grupos: 18 idosos praticantes de vôlei adaptado para a terceira idade (GVA), 13 idosos ativos (GA) praticantes de alguma atividade física não relacionada à prática esportiva e 13 idosos sedentários (GS).

Os participantes do grupo GVA foram provenientes do Grêmio de Vôlei e Recreação da Melhor Idade (GREVERMI). Realizavam a atividade três vezes por semana, com duração de uma hora e meia, orientada por um educador físico. O GVA visa uma prática esportiva para idosos com modificações nas regras do vôlei convencional, a fim de obter um menor risco de lesões. Nessa modalidade, o participante não realiza saltos durante o passe, retém a bola na hora do toque com as duas mãos, pode realizar de quatro a cinco toques, em vez de três, e o passe pode ser realizado com as duas mãos e com desvio lateral do tronco.

Os indivíduos do grupo GA foram considerados ativos fisicamente quando a prática de exercício físico ocorria, pelo menos, 3 vezes por semana, com duração mínima de 30 minutos, seguindo os parâmetros da Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte12. Os idosos sedentários, embora não ativos fisicamente, eram independentes para a realização de suas AVD. Todos os participantes eram moradores da comunidade da cidade de Marília (SP), Brasil.

A composição da amostra teve como critério de exclusão: sequelas de doenças neuromusculoesqueléticas, artrite limitante para as funções exigidas, problemas visuais não corrigidos e hipotensão postural. Idosos que faziam uso contínuo de antidepressivos, sedativos e hipnóticos também não foram incluídos na pesquisa. Na avaliação cognitiva, realizada por meio do Miniexame do Estado Mental (MEEM), foram aceitos os participantes que atingiram a pontuação de acordo com o seu grau de escolaridade. Os critérios de inclusão foram: ter 60 anos ou mais, ser ativo fisicamente ou sedentário e satisfazer as condições dos critérios de exclusão.

Instrumentos e procedimentos

Os participantes foram submetidos a uma avaliação inicial com um questionário semiestruturado, para coleta de dados pessoais, doenças existentes, medicamentos em uso, nível de atividade física e ocorrência de quedas no último ano. Além disso, todos foram submetidos ao MEEM, para um rastreamento cognitivo13. Antes e após os procedimentos de avaliação foram verificados os sinais vitais, como a pressão arterial, frequência respiratória e frequência cardíaca. Os participantes foram orientados a não realizar nenhuma atividade física intensa antes da coleta.

A força de preensão foi medida por meio de um dinamômetro hidráulico da marca North Coast(r), com alavancas reguláveis e um manômetro unido à extremidade superior. O teste foi realizado com o participante sentado em cadeira padronizada, ombros aduzidos, cotovelo fletido a 90º, punho na posição neutra e ligeiramente em extensão. Os participantes deveriam exercer força máxima, aplicando pressão na alavanca contra a base do dinamômetro, até que o ponteiro atingisse um pico. Eles eram orientados com estímulos verbais quanto ao momento da realização da força, durante uma expiração e sem a realização da manobra de Valsalva. As mensurações da força ocorreram três vezes, em intervalos de no mínimo um minuto entre elas, com alternância entre o lado dominante e o não dominante, sendo considerado sempre o maior valor14.

A avaliação da mobilidade funcional ocorreu por meio do teste "Timed Up and Go" (TUG)15 . Esse teste avalia o nível de mobilidade do indivíduo, mensurando em segundos o tempo gasto pelo voluntário para levantar-se de uma cadeira, sem ajuda dos braços, andar três metros, dar a volta e retornar. No início do teste, o voluntário deve estar com as costas apoiadas no encosto da cadeira e, ao final, deve encostar-se novamente. O voluntário recebeu a instrução "Vá", para realizar o teste, e o tempo foi cronometrado a partir da voz de comando até o momento em que o voluntário apoiou novamente suas costas na cadeira16.

Análise estatística

Os dados antropométricos foram apresentados como média±desvio-padrão. Os dados foram avaliados pelo teste de Kolmogorov-Smirnov, para verificação da normalidade. A comparação dos dados entre os grupos foi realizada utilizando-se o teste ANOVA com pós-teste de Tukey, adotando-se p<0,05 como significante.

RESULTADOS

As características dos participantes quanto ao número, idade e MEEM podem ser vistas na Tabela 1.

Tabela 1 Características da amostra 

Variáveis GVA GA GS
n (M/F) 18 (9/9) 13 (5/8) 13 (4/9)
Idade (anos)±DP 70,5±5,9 68,4±4,2 68,0±6,2
MEEM±DP 25,0± 2,1 27,3±2,3 25,9±2,2

M: masculino

F: feminino

DP: desvio-padrão

MEEM: Miniexame do Estado Mental

GVA: grupo de vôlei adaptado

GA: grupo ativo fisicamente

GS: grupo sedentário

A Figura 1 mostra a média da força de preensão palmar para os três grupos. O grupo praticante do GVA apresentou valor médio (30,11±11,69 kgf) superior ao GA (21,23±8,18 kgf) e ao GS (20,30±6,15 kgf). A análise intergrupo mostrou significância estatística entre o GVA e o GA (p=0,02) e entre o GVA e o GS (p=0,01). Não foi evidenciada diferença significativa entre os grupos GA e GS (p=0,74). Os valores médios da mobilidade funcional, avaliada pelo teste TUG, são apresentados na Figura 2. Os participantes do GVA realizaram o teste em um tempo médio (8,06±1,01 s) significativamente inferior ao GS (p=0,003). Não foi verificada significância estatística na comparação entre os outros grupos (GVAxGA; GAxGS).

Figura 1 Média da força de preensão palmar GVA: grupo vôlei adaptado; GA: grupo ativo fisicamente; GS: grupo sedentário. *p=0,02 em comparação ao GA; *p=0,01 em comparação ao GS 

Figura 2 Valores médios do Time Up & Go (TUG) em segundos do grupo vôlei adaptado (GVA, n=18); grupo ativo fisicamente (GA, n=13) e grupo sedentário (GS, n=13); *p=0,003 em relação ao GS 

DISCUSSÃO

O presente estudo teve como objetivo avaliar e comparar a força de preensão palmar e a mobilidade funcional de idosos com diferentes níveis de atividade física.

Os resultados obtidos mostraram um melhor desempenho dos praticantes do GVA tanto na força de preensão palmar quanto na mobilidade, quando comparados aos integrantes dos outros grupos (Figura 1 e Figura 2). Uma possível explicação para os resultados encontrados seria que o grupo vôlei pratica atividades de forma mais direcionada, com maior nível de atividade física, minimizando os declínios do envelhecimento, assim como da força muscular, equilíbrio e mobilidade, sugerindo que idosos que praticam essa atividade têm menor propensão a quedas17.

A força de preensão palmar evidenciou que o GVA apresentou maior força do que os outros grupos. É preciso salientar que o GVA tinha mais homens do que o GA e o GS e que, apesar de a força de preensão palmar ser apontada como preditora de incapacidade funcional, os resultados têm de ser analisados com cautela, pois essa diferença na quantidade de homens pode ter interferido nos resultados. Além disso, ainda há divergências literárias sobre a utilização desse instrumento como marcador da força muscular global18 , 19.

Na análise da mobilidade funcional, a comparação dos três grupos demonstrou diferença significante entre o GVA e o GS, apesar de os valores médios do tempo de realização do teste terem sido inferiores a 10 segundos para todos os grupos, tempo considerado ótimo para menores índices de quedas20. Na variável tempo, o GVA também apresentou melhor resultado do que os demais grupos, o que pode ser explicado pelo tipo de atividade física praticada, pois os exercícios desafiavam o equilíbrio, tendo maior efeito na mobilidade e na prevenção de quedas do que uma simples caminhada e o fortalecimento muscular isoladamente21. Karlsson et al.22 apontam que tanto exercícios supervisionados como exercícios não supervisionados (em casa) trazem diminuição do número de quedas, desde que tenham mais de dois componentes de treinamento. A literatura indica que praticar atividades físicas ou esportivas, sendo elas orientadas ou não, traz benefícios para a população idosa, pois diminui a oscilação postural, melhorando o equilíbrio e as respostas proprioceptivas23 - 25, predispondo a um menor risco de quedas, melhor funcionalidade e qualidade de vida26.

Sherrington et al. 27 descreveram recomendações de exercícios para equilíbrio direcionados para prevenção de quedas baseada em uma meta-análise. Os autores relataram que os exercícios devem desafiar o equilíbrio de três maneiras diferentes: alterando o tamanho da base de apoio, o centro de gravidade e diminuindo o uso de membro superior. No entanto, para que essa prática tenha resultados, deve haver uma duração estabelecida de, no mínimo, duas horas por semana.

É importante salientar que, neste estudo, tanto o GVA quanto o GA tiveram desempenho satisfatório no teste de mobilidade funcional, com predomínio para o grupo vôlei. Uma possível explicação para essa diferença é que o GVA praticava atividades que, no geral, desafiavam mais o equilíbrio, quando comparado ao grupo de idosos que realizavam atividades físicas sem orientação ou aos sedentários. Nesse sentido, a adoção de políticas públicas que visem à implantação do vôlei adaptado para idosos traria benefícios para essa população no tocante a diminuir riscos de quedas.

CONCLUSÕES

De maneira geral, os resultados sugerem que idosos que mantêm uma prática esportiva, no caso o vôlei adaptado, apresentam melhor mobilidade funcional e força de preensão palmar em relação aos outros grupos avaliados.

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