Pregão: Estratégia para Redução do Custo da Terapia Farmacológica em Insuficiência Cardíaca e Transplante Cardíaco

Pregão: Estratégia para Redução do Custo da Terapia Farmacológica em Insuficiência Cardíaca e Transplante Cardíaco

Autores:

Sara Michelly Gonçalves Brandão,
Victor Sarli Issa,
Silvia Moreira Ayub-Ferreira,
Samantha Storer,
Bianca Gigliotti Gonçalves,
Valter Garcia Santos,
Nelson Carvas Junior,
Guilherme Veiga Guimarães,
Edimar Alcides Bocchi

ARTIGO ORIGINAL

Arquivos Brasileiros de Cardiologia

versão impressa ISSN 0066-782Xversão On-line ISSN 1678-4170

Arq. Bras. Cardiol. vol.105 no.3 São Paulo set. 2015 Epub 21-Jul-2015

https://doi.org/10.5935/abc.20150076

RESUMO

Fundamento:

A polifarmácia tem um significativo peso econômico.

Objetivo:

Testar se o uso de pregão em comparação ao de farmácias comerciais (FC) para a compra de medicamentos reduz o custo do tratamento de pacientes ambulatoriais de insuficiência cardíaca (IC) e transplante cardíaco (TC).

Métodos:

Comparação dos custos do tratamento através de pregão versus FC em pacientes de IC (808) e TC (147) acompanhados de 2009 a 2011, avaliando-se a influência de variáveis clínicas e demográficas no custo.

Resultados:

Os custos mensais por paciente para medicamentos de IC adquiridos através de pregão e através de FC foram $10,15 (IQ 3,51-40,22) e $161,76 (IQ 86,05-340,15), respectivamente. Para TC, aqueles custos foram $393,08 (IQ 124,74-774,76) e $1.207,70 (IQ 604,48-2.499,97), respectivamente.

Conclusão:

O pregão pode reduzir o custo dos medicamentos prescritos para IC e TC, podendo tornar o tratamento de IC mais acessível. As características clínicas podem influenciar o custo e os benefícios do pregão, que pode ser uma nova estratégia de política de saúde para baixar os custos dos medicamentos prescritos para IC e TC, diminuindo o peso econômico do tratamento. (Arq Bras Cardiol. 2015; [online].ahead print, PP.0-0)

Palavras-Chave: Insuficiência Cardíaca; Preparações Farmacêuticas / economia; Proposta de Concorrência / economia; Orçamentos; Redução de Custos; Transplante de Coração

ABSTRACT

Background:

Polypharmacy is a significant economic burden.

Objective:

We tested whether using reverse auction (RA) as compared with commercial pharmacy (CP) to purchase medicine results in lower pharmaceutical costs for heart failure (HF) and heart transplantation (HT) outpatients.

Methods:

We compared the costs via RA versus CP in 808 HF and 147 HT patients followed from 2009 through 2011, and evaluated the influence of clinical and demographic variables on cost.

Results:

The monthly cost per patient for HF drugs acquired via RA was $10.15 (IQ 3.51-40.22) versus $161.76 (IQ 86.05‑340.15) via CP; for HT, those costs were $393.08 (IQ 124.74-774.76) and $1,207.70 (IQ 604.48-2,499.97), respectively.

Conclusion:

RA may reduce the cost of prescription drugs for HF and HT, potentially making HF treatment more accessible. Clinical characteristics can influence the cost and benefits of RA. RA may be a new health policy strategy to reduce costs of prescribed medications for HF and HT patients, reducing the economic burden of treatment.

Key words: Heart Failure; Pharmaceutical Preparations / economics; Competitive Bidding / economics; Budgets; Cost Savings; Heart Transplantation

Introdução

O número estimado de pacientes com insuficiência cardíaca (IC) nos Estados Unidos da América (EUA) é de 5,1 milhões1 e, no Brasil, 6,4 milhões2. A IC foi a causa única mais frequente de hospitalização na população idosa no Brasil2. A observância das diretrizes de terapia farmacológica para IC reduz a progressão da doença, sua morbimortalidade e hospitalização3,4. Os gastos públicos e privados com medicamentos são responsáveis por uma substancial fração do total de despesas com cuidados de saúde nos países desenvolvidos e em desenvolvimento5. Nos EUA, estima-se para 2015 um custo de $32,4 bilhões para a IC, uma doença cardiovascular6. Cerca de 3% do custo total com IC deu-se com medicamentos, somando aproximadamente $1,11 bilhão em 20097. é de surpreender que, a despeito do impacto influência de características demográficas e clínicas8-12. Além disso, esse limitado número de estudos não reflete a prática contemporânea. Nenhum estudo prévio examinou a influência de procedimentos adicionais, como o transplante cardíaco (TC).

Os recursos em saúde são escassos, ainda que as necessidades na área sejam ilimitadas. é importante ressaltar que estratégias para a redução do custo do tratamento farmacológico na IC não foram testadas, a despeito do impacto tanto do custo dos medicamentos nos orçamentos do governo quanto da não observância do uso dos medicamentos. Estudos concernentes a tratamentos farmacológicos e seus custos podem fornecer uma base lógica para que políticas governamentais planejem fontes de financiamento, sendo essenciais para a farmacoeconomia em saúde pública. Portanto, este estudo teve por objetivo comparar os custos do tratamento farmacológico para IC e TC através de pregões com aqueles estimados nas farmácias comerciais (FC).

Métodos

População do estudo

Foram obtidos retrospectivamente os dados clínicos, demográficos e de tratamento farmacológico de todos os pacientes com diagnóstico de IC ou dos receptores de TC consecutivamente atendidos no Ambulatório de Insuficiência Cardíaca do Instituto do Coração no Brasil. Os dados demográficos incluíram etnia descrita em estudo anterior13, idade, sexo, comorbidade e causa de IC descritos em estudo anterior13, fração de ejeção ventricular esquerda (FEVE), número de consultas ambulatoriais, medicamentos e os estágios de IC mais comuns durante o período estudado. Obteve-se a FEVE usando-se um dos seguintes métodos: ecocardiografia, ventriculografia radioisotópica, ressonância magnética cardíaca ou ventriculografia por cateterização cardíaca. Considerou-se a primeira FEVE de cada paciente no período estudado. Os pacientes foram atendidos por médicos e uma equipe multidisciplinar especializada em IC e TC de janeiro de 2009 a abril de 2011. Incluíram-se os pacientes com mais de 16 anos e em acompanhamento ambulatorial, exceto um de TC com 9 anos. Excluíram-se os pacientes com informação incompleta clínica ou de custo e que tenham recebido a prescrição de qualquer medicamento durante hospitalização.

Delineamento do estudo

Os dados concernentes às consultas ambulatoriais foram armazenados em registros eletrônicos, de modo a gerar automaticamente uma prescrição médica eletrônica a partir da entrada dos dados. Os medicamentos foram dispensados mensalmente aos pacientes de acordo com a última prescrição médica validada. Obtivemos informação a respeito de todos os medicamentos que cada paciente recebeu, tendo os investigadores revisado tal informação para garantir consistência.

Na nossa instituição, que é pública, os medicamentos são comprados através de pregões. Trata-se de mecanismo através do qual, uma vez consolidada a demanda das entidades participantes e estabelecidas as características técnicas dos produtos a serem comprados, aqueles com o melhor preço são selecionados através de lances eletrônicos pelo menor valor. Isso garante uma competição justa e transparente, e ainda os menores preços de mercado, especialmente nos países da América Latina, como o Brasil. As compras são financiadas por um orçamento anual destinado a cada instituição pública através de fundos públicos de saúde. Nos pregões para aquisição de medicamentos, os fornecedores propõem um contrato bastante detalhado de suprimento, especificando o medicamento, sua quantidade e local e programa de entrega14.

O contrato de aquisição especifica detalhadamente o medicamento a ser fornecido, que é uma combinação única de princípio ativo, forma, concentração, número de unidades e embalagem. As instituições públicas são proibidas de adquirir um medicamento de uma marca específica. São obrigadas a adquiri-lo do fornecedor de menor preço, podendo, em princípio, ser genérico ou de marca14.

Os medicamentos são dispensados gratuitamente para os pacientes tratados em hospital público conforme a prescrição. Comparamos o tratamento farmacológico da IC e do TC comprado através de pregão com os custos estimados no mercado privado de FC. O preço de FC foi definido usando-se o Guia Farmacêutico Brasíndice, um índice federal oficial que regula o mercado de medicamentosno Brasil (custo privado): o governo brasileiro estabelece o preço de varejo máximo praticado pelas farmácias. O custo de cada comprimido foi baseado na última compra institucional em 2011 para evitar diferenças de preço entre períodos de tempo. O valor de custo foi convertido em dólares americanos de acordo com a cotação de 12 de abril de 2013 a uma taxa de câmbio de $0,50815 para estabelecer os valores em uma moeda estável. Calculou-se o custo mensal por paciente.

Os medicamentos incluídos foram betabloqueadores, diuréticos, bloqueadores dos canais de cálcio (BCC), inibidores da enzima de conversão da angiotensina (IECA), bloqueadores do receptor de angiotensina (BRA), outros medicamentos cardiovasculares (OMC), hipolipemiantes, antiagregantes plaquetários, antiarrítmicos, nitratos, anticoagulantes (ACG) ou inibidores do receptor adenosina difosfato plaquetário (IPADPR), digitálicos, imunossupressores e outros medicamentos não cardiovasculares (OMNC). Os medicamentos tipicamente usados para tratamentos curtos, como antibióticos, ou aqueles de uso conforme necessidade para alívio de sintomas, como analgésicos ou nitroglicerina sublingual, também foram incluídos.

Analisamos ainda os custos conforme as variáveis clínicas e demográficas. O protocolo de estudo foi aprovado pelo Comitê de ética do Instituto do Coração de São Paulo (registro 22831813.2.0000.0068), tendo-se dispensado o termo de consentimento, pois não houve identificação da informação dos participantes.

Análise estatística

As medidas foram expressas como média ± desvio padrão (DP) para as variáveis com distribuição normal, e como mediana e intervalo interquartil (IQ) para aquelas sem distribuição normal, ou ainda como frequências em percentagens para todas as variáveis categóricas. Realizou-se análise univariada com o teste do qui-quadrado ou exato de Fisher para comparar as variáveis categóricas. As contínuas com distribuição normal foram comparadas usando-se o teste t de Student, e, para avaliar as diferenças entre aquelas sem distribuição normal, usou-se o teste de Kruskal-Wallis. A significância dos resultados do teste de Kruskal-Wallis foi analisada usando-se o teste da diferença mínima significativa (DMS) com múltiplas comparações post hoc. Para determinar a correlação entre as variáveis contínuas, aplicou-se o teste de correlação conforme a distribuição de normalidade (r). A FEVE foi analisada em coortes estratificadas em ≤ 40% e > 40%.

O custo mensal por paciente foi submetido a transformação logarítmica. Realizou-se análise multivariada com equações de estimação generalizada (GEE ), sendo os resultados expressos como coeficientes não padronizados (β). As GEE foram aplicadas, usando-se as variáveis contínuas (idade, FEVE e consulta ambulatorial) e a variável categórica 'causa de IC' como efeitos fixos. Comorbidades, classe funcional, etnia e sexo foram usados como efeitos randômicos. A vantagem dessa abordagem foi ter utilizado todos os dados disponíveis e resultados baseados em correlações entre desfechos e variáveis preditivas. Usou-se o teste do qui-quadrado de Wald para escolher a melhor estrutura a ser adotada no modelo em questão. Usou-se ainda o teste de quase-verossimilhança para comparar modelos ajustados.

O programa SPSS 17.0 foi utilizado para a análise estatística. Os valores de p < 0,05 foram considerados significativos, e aqueles < 0,10, uma tendência.

Resultados

Características basais (Tabela 1)

Tabela 1  Características basais da população do estudo 

CARACTERÍSTICAS IC n = 808 n (%) TC n = 147 n (%)
Idade, anos 56,5 ± 12,2 49,9 ± 16,6
< 20 5(0,6) 9(6,1)
20 - 40 80 (9,9) 37 (25,2)
41 - 65 427 (52,8) 57 (11,8)
≥ 66 296 (36,6) 44 (29,9)
Consulta ambulatorial    
< 5 250 (30,9) 16 (10,9)
6 - 10 302 (37,4) 17 (11,6)
11 - 15 127 (15,7) 42 (28,6)
16 - 20 48 (5,9) 28 (19,0)
≥ 21 81 (10,0) 44 (29,9)
Etnia    
Branca e amarela 619 (78,3) 127 (86,4)
Negra e parda 172 (21,7) 20 (13,6)
Causas    
Isquémica 141 (30,7) 18 (12,9)
Outras 232 (50,5) 73 (52,5)
Chagásica 86 (18,7) 48 (34,5)
Sexo    
Masculino 508 (62,9) 101 (68,7)
Feminino 300 (37,1) 46 (31,3)
Comorbidades    
Hipertensão 157 (19,5) 40 (27,2)
Diabetes 150 (18,6) 30 (20,4)
Acidente vascular cerebral 31 (3,9) 5 (3,4)
Insuficiência renal 56 (7,0) 18 (12,2)
DPOC 13 (1,6) 2 (1,4)
Revascularização miocárdica 20 (2,5) 0 (0,0)
Angioplastia coronariana 9(1,1) 2 (1,4)
Infarto do miocárdio 56 (7,0) 4 (2,7)
Medicamento cardiovascular prescrito    
Betabloqueador 703 (87,1) 40 (27,2)
Diurético 703 (87,1) 54 (36,7)
BCC 205 (25,4) 114 (77,6)
IECA, BRA 573 (71,0) 54 (36,7)
Hipolipemiante 595 (73,7) 117 (79,6)
Antiagregante plaquetário 354 (43,9) 30 (20,4)
ACG ou IPADPR 212 (26,3) 20 (13,6)
Antiarrítmicos 85 (10,5) 4 (2,7)
Digitálico 309 (38,3) 15 (10,2)
Nitrato 197 (24,4) 11 (7,5)
OMC 330 (40,9) 47 (32,0)
Medicamento não cardiovascular prescrito    
Antibiótico 42 (5,2) 68 (46,3)
Imunossupressor 0 (0) 147 (100)
OMNC 630 (78,1) 147 (100)

IC: insuficiência cardíaca; TC: transplante cardíaco; DPOC: doença pulmonar obstrutiva crônica; ACG: anticoagulante; IPADPR: inibidor do receptor ADPplaquetârio; OMNC: outros medicamentos não cardiovasculares; betabloqueador (atenolol, bisoprolol, metoprolol, carvedilol, propranolol, sotalol); diurético (furosemida, hidroclorotiazida, clortalidona, espironolactona); BCC: bloqueador do canal de cálcio (diltiazem, verapamil, anlodipino, nifedipina, losartana); IECA: inibidor da enzima de conversão da angiotensina (captopril, enalapril, lisinopril); BRA: bloqueador do receptor da angiotensina, hipolipemiante (atorvastatina, ciprofibrato, ezetimiba, rosuvastatina, sinvastatina); antiagregante plaquetário (aspirina); ACG ou IPADPR (enoxaparina, varfarina, clopidogrel); antiarrítmicos (amiodarona, propafenona); digitálico (digoxina); nitrato (isossorbida, propatilnitrato); OMC: outros medicamentos cardiovasculares (clonidina, doxazosina, hidralazina, metildopa).

No grupo IC, o tempo médio de seguimento no estudo foi de 16,7 ± 8,8 meses, com uma mediana de oito consultas ambulatoriais por paciente, enquanto no grupo TC o tempo médio de seguimento foi de 23,1 ± 5,8 meses, com uma mediana de 16 consultas ambulatoriais por paciente. O total de prescrições médicas analisadas no grupo IC foi de 8.448, e, no grupo TC, 3.217. Informação completa de custo não pôde ser obtida em 82 (10,1%) pacientes com IC, e em 1 (0,7%) receptor de TC, tendo esses pacientes sido excluídos. As consultas ambulatoriais foram mais frequentes entre pacientes com classe funcional de IC III e IV do que entre aqueles com classe funcional I e II. Os pacientes com classe funcional III e IV apresentaram as seguintes causas de IC: chagásica, 26,8%; isquêmica, 34,1%; e outras, 39%. Para aqueles com classe funcional I e II, as proporções foram 12,9%, 29,6% e 57,5%, respectivamente (p = 0,003).

Medicamentos prescritos para IC

Os medicamentos mais frequentemente prescritos em ordem decrescente foram betabloqueadores, diuréticos, OMNC, hipolipemiantes, IECA-BRA (Tabela 1). Observou-se uma diferença quanto aos medicamentos prescritos para pacientes com FEVE ≤ 40% e para aqueles com FEVE > 40%. Betabloqueadores, diuréticos, antiagregantes plaquetários, antiarrítmicos e nitratos foram mais frequentemente prescritos para pacientes com IC e FEVE ≤ 40%, enquanto BCC foram mais frequentemente prescritos para pacientes com IC e FEVE > 40% (Tabela 2). Betabloqueadores (75,9%, p = 0,009), diuréticos (75,9%, p = 0,009), IECA-BRA (76,6%, p = 0,034), nitrato (61,9%, p = 0,001) e OMC (68,8%, p = 0,036) foram mais frequentemente prescritos para pacientes com classe funcional de IC I e II. Pacientes de etnia branca e amarela receberam mais frequentemente OMC (74,1%, p = 0,015) e antiagregantes plaquetários (82,2%, p = 0,018). Os BCC (60.3%, p < 0.001) e hipolipemiantes (47%, p < 0,001) foram mais frequentemente prescritos para outras causas, enquanto antiagregantes plaquetários (53,3%, p < 0,001) e nitratos (43%, p < 0,001) foram mais frequentemente prescritos para pacientes isquêmicos, e antiarrítmicos (41%, p < 0,001) para pacientes chagásicos. Os IECA-BRA (33,3%, p = 0,001), OMC (42,1%, p = 0,013), antiagregantes plaquetários (31,4%, p = 0,003) e OMNC (40,2%, p = 0,001) foram prescritos com menos frequência para mulheres.

Tabela 2 Perfil do medicamento prescrito de acordo com a fração de ejeção ventricular esquerda (FEVE) 

Medicamento prescrito IC TC
FEVE ≤ 40% (n = 321) n (%) FEVE > 40% (n = 134) n (%) p FEVE ≤ 40% (n = 10) n(%) FEVE > 40% (n = 126) n (%) p
Betabloqueador 287 (89,4) 109(81,3) 0,020 5 (50,0) 32 (25,4) 0,13
Diurético 287(89,4) 109(81,3) 0,020 4(40,0) 48(38,1) 1,00
BCC 67(20,9) 43(32,1) 0,011 7(70,0) 102(81,0) 0,41
IECA, BRA 221(68,8) 90(67,2) 0,72 6(60,0) 46(36,5) 0,18
OCD 153(47,7) 55(41,0) 0,19 5(50,0) 41(32,5) 0,30
Hipolipemiante 241(75,1) 89(27,0) 0,059 7(70,0) 106(84,1) 0,37
Antiagregante plaquetário 154(48,0) 44(32,8) 0,003 3(30,0) 24(19,0) 0,41
ACG ou IPADPR 93(29,0) 39(29,1) 0,97 1(10,0) 19(15,1) 1,00
Antiarrítmicos 44(13,7) 9(6,7) 0,034 0(0,0) 3(100) NP
Digitálico 127(39,6) 44(32,8) 0,17 0(0,0) 15(11,9) NP
Nitrato 104(32,4) 24(17,9) 0,002 3(30,0) 7(5,6) 0,026
Antibiótico 25(7,8) 7(5,2) 0,33 5(50,0) 62(49,2) 1,00

HF: insuficiência cardíaca; HT: transplante cardíaco; NP: não possível; ACG: anticoagulante; IPADPR: inibidor do receptor adenosina difosfato plaquetário; betabloqueador (atenolol, bisoprolol, metoprolol, carvedilol, propranolol, sotalol); diurético (furosemida, hidroclorotiazida, clortalidona, espironolactona); BCC: bloqueador do canal de cálcio (diltiazem, verapamil, anlodipino, nifedipina, losartana); IECA: inibidor da enzima de conversão da angiotensina (captopril, enalapril, lisinopril); BRA: bloqueador do receptor da angiotensina; OMC: outros medicamentos cardiovasculares (clonidina, doxazosina, hidralazina, metildopa); hipolipemiante (atorvastatina, ciprofibrato, ezetimiba, rosuvastatina, sinvastatina); antiagregante plaquetário (aspirina); ACG ou IPADPR (enoxaparina, varfarina, clopidogrel); antiarrítmicos (amiodarona, propafenona); digitálico (digoxina); nitrato (isossorbida, propatilnitrato).

No grupo IC, os homens consumiram doses mais baixas de atenolol, captopril, losartana, espironolactona e isossorbida, e mais altas de carvedilol e hidralazina, mas doses iguais de enalapril, embora as doses dos medicamentos de uso diária não tenham apresentado diferença estatisticamente significativa entre os sexos. Com relação à classe funcional, as medianas das doses de enalapril para as classes funcionais III e IV e ainda para I e II foram 30,28 mg/dia (IQ 14,12-35,79) e 33,85 mg/dia (IQ 22,00-38,67), respectivamente (p = 0,014). As medianas das doses de captopril foram 39,58 mg/dia (IQ 13,54-107,29) e 77,52 mg/dia (IQ 43,23-146,42), respectivamente (p = 0,059). Com relação à etnia, negros e pardos usaram mais enalapril (35,42 mg/dia, IQ 23,61-39,27) do que brancos e amarelos (32,93 mg/dia, IQ 18,33-37,78) (p = 0,039). Com relação à idade, pacientes com IC entre 41 e 65 anos receberam com mais frequência enalapril (34,29 mg/dia, IQ 20,21-38,65, p = 0,019) e espironolactona (25,93 mg/dia, IQ 24,24-30,56, p = 0,049), e tenderam a maiores doses de carvedilol (48,08 mg/dia, IQ 35,04-62,50, p = 0,076) e captopril (93,05 mg/dia, IQ 66,67-145,4, p = 0,087). Com relação à causa, menores doses de carvedilol (42,11 mg/dia, IQ 25,00-50,00, p < 0,001) e de enalapril (23,33 mg/dia, IQ 14,44-32,22, p < 0,001) foram administradas a pacientes chagásicos em comparação a isquêmicos e com cardiopatias por outras causas. Menores doses de losartana (85,55 mg/dia, IQ 52,77-100,00, p = 0,021) foram administradas a chagásicos e isquêmicos em comparação àqueles com cardiopatia por outras causas. As correlações entre consumo diário de carvedilol e FEVE foram fracas (r = 0,125, p = 0,017).

No grupo TC, os medicamentos mais frequentemente prescritos foram imunossupressores, OMNC, hipolipemiantes e BCC (Tabela 1). Além disso, houve diferença quanto ao uso de nitratos entre pacientes com FEVE ≤40% e aqueles com FEVE > 40% (p = 0,026) (Tabela 2). Pacientes de etnia branca e amarela receberam mais antibióticos (77,9%, p = 0,006). No que se refere à causa, os medicamentos usados não apresentaram diferenças estatisticamente significativas. Com relação a sexo, os antibióticos foram mais frequentemente usados por homens do que por mulheres (58,8%, p = 0,016). A Figura 1 mostra a magnitude da redução de custo para medicamentos comprados através do pregão.

Figura 1 Redução do custo (percentagem) dos medicamentos prescritos e dispensados, comprados por pregão em comparação aos custos no mercado privado de acordo com cada grupo de medicamento para insuficiência cardíaca (superior) e transplante cardíaco (inferior). Imunossup: imunossupressores; OMNC: outros medicamentos não cardiovasculares; BCC: bloqueadores do canal de cálcio; IECA: inibidores da enzima de conversão da angiotensina; BRA: bloqueadores do receptor da angiotensina; OMC: outros medicamentos cardiovasculares; antiagregantes plaquetários; ACG: anticoagulantes; IPADPR: inibidores do receptor ADP plaquetário. 

Custo do tratamento farmacológico através de pregão

Em pacientes com IC, o custo total foi de $534.010,20 (n = 726), sendo a mediana do custo mensal por paciente de $10,15 (IQ 3,51-40,22). As classes mais caras de medicamentos em valores decrescentes usados para IC foram OMNC, hipolipemiantes e OMC (Tabela 3).

Tabela 3 Custo total em dólares dos medicamentos prescritos para populações de estudo sobre insuficiência cardíaca e transplante cardíaco 

Medicamento prescrito IC TC
Pregão Pregão Privado Privado Pregão Pregão Privado Privado
Total % Total % Total % Total %
Betabloqueador 5.587,37 1,05 594.268,42 14,89 600,39 0,03 13.832,19 0,24
Diurético 7.656,28 1,43 146.626,03 3,67 368,85 0,02 8.441,09 0,15
BCC 1.212,11 0,23 58.448,57 1,46 6.847,05 0,38 51.373,17 0,90
IECA, BRA 16.905,47 3,16 209.315,46 5,24 2.102,12 0,12 15.675,55 0,27
OCD 24.174,38 4,52 162.075,63 4,06 4.846,76 0,27 15.933,67 0,28
Hipolipemiante 79.108,02 14,80 196.806,89 4,93 6.267,88 0,35 66.905,15 1,17
Antiagregante plaquetário 566,45 0,11 19.825,63 0,50 67,07 0,00 2.347,49 0,04
ACG ou IPADPR 7.911,35 0,15 58.458,19 1,46 662,50 0,04 9.667,25 0,17
Antiarrítmicos 1.993,28 0,37 17.018,91 0,43 40,55 0,00 729,86 0,01
Digitálico 672,34 0,13 15.980,01 0,40 18,70 0,00 336,58 0,01
Nitrato 5.300,55 0,99 37.563,87 0,94 559,03 0,03 1.799,95 0,03
Antibiótico 217,40 0,04 5.880,07 0,15 6.647,44 0,37 199.964,37 3,49
Imunossupressor - - - - 1.540.724,53 86,20 4.159.017,41 72,63
ONCD 390.244,35 73,02 2.468.908,68 61,86 217.709,30 12,18 1.179.687,44 20,60
TOTAL 534.428,49 100 3.991.176,38 100 1.787.462,17 100 5.725.965,20 100

HF: insuficiência cardíaca; HT: transplante cardíaco; ACG: anticoagulante; IPADPR: inibidor do receptor adenosina difosfato plaquetârio; OMNC: outro medicamento não cardiovascular; betabloqueador (atenolol, bisoprolol, metoprolol, carvedilol, propranolol, sotalol); diurético (furosemida, hidroclorotiazida, clortalidona, espironolactona); BCC: bloqueador do canal de cálcio (diltiazem, verapamil, anlodipino, nifedipina, losartana); IECA: inibidor da enzima de conversão da angiotensina (captopril, enalapril, lisinopril); BRA: bloqueador do receptor da angiotensina; hipolipemiante (atorvastatina, ciprofibrato, ezetimiba, rosuvastatina, sinvastatina); antiagregante plaquetário (aspirina); ACG ou IPADPR (enoxaparina, varfarina, clopidogrel); antiarrítmicos (amiodarona, propafenona); digitálico (digoxina); nitrato (isossorbida, propatilnitrato). OMC: outros medicamentos cardiovasculares (clonidina, doxazosina, hidralazina, metildopa)

Por outro lado, o custo total para receptores de TC foi de $1.787.462,17 (n = 146), sendo a mediana do custo mensal por paciente de $393,08 (IQ 124,74-774,76). As classes mais caras de medicamentos nesse grupo foram imunossupressores e OMNC (Tabela 3).

Custo do tratamento farmacológico no mercado privado

Em pacientes com IC, o custo total estimado foi de $3.991.176,38 (n = 726), sendo a mediana do custo mensal por paciente de $161,76 (IQ 86,05-340,15). As classes mais caras de medicamentos em ordem decrescente de valor para IC foram OMNC e betabloqueadores (Tabela 3).

O custo total para receptores de TC foi de $5.725.965,20 (n = 146), sendo a mediana do custo mensal por paciente de $1.207,70 (IQ 604,48-2.499,97). As classes mais caras de medicamentos pata TC foram imunossupressores e OMNC (Tabela 3).

Custo do tratamento farmacológico através de pregão de acordo com análises de subgrupo

A mediana do custo mensal por paciente com IC foi $9,74 (IQ 3,48-33,65, n = 453) para homens e $12,24 (IQ 3,57-44,01, n = 273) para mulheres (p = 0,127). Observou-se um incremento na mediana do custo mensal para IC com hipertensão (p < 0,001) e diabetes (p < 0,001). Hipertensão foi responsável por aumento de custo de $8,02 (48% maior) (p < 0,001) e diabetes, por aumento de custo de $24,35 (76% maior) (p < 0,001). O custo para miocardiopatia isquêmica ($16,84, IQ 6,32-16,84) foi significativamente maior do que aquele para doença de Chagas ($8,53, IQ 2,98-26,52, p < 0,001) e outras causas ($6,79, IQ 3,21-18,58, p < 0,001). é possível que o custo mais baixo para doença de Chagas deva-se ao fato de que pacientes chagásicos podem não tolerar doses completas e de que os médicos não são encorajados a usar doses altas devido à ausência de ensaio clínico em doença de Chagas. Na análise multivariada, indivíduos mais idosos com IC tiveram custos significativamente mais altos (β = 0,021, p < 0,001), tendo pacientes sem hipertensão e sem diabetes custos significativamente menores (β = -0,517, p < 0,001; β = -0,979, p < 0,001). A magnitude da redução de custo por pregão foi maior em diabetes e hipertensão (Figura 2).

Figura 2 Custo dos medicamentos prescritos dispensados comprados por pregão em comparação aos de farmácia comercial (FC) de acordo com o diagnóstico de hipertensão arterial sistêmica e diabetes mellitus em insuficiência cardíaca e transplante cardíaco. 

No grupo TC, a mediana do custo mensal por paciente foi $365,17 (IQ 100,83-683,59, n = 101) para homens e $435,58 (IQ 248,40-920,86, n = 45) para mulheres (p = 0,268). Nenhuma comorbidade causou aumento de custo. Observou-se diferença estatisticamente significativa entre os custos de pacientes com história prévia de miocardiopatia chagásica ($271,71, IQ 66,49-568,54) e de outras causas ($472,40, IQ 182,05-888,53, p = 0,009). A Tabela 4apresenta outras comparações entre as variáveis clínicas e a mediana de custo para os dois grupos. Na análise multivariada, pacientes de TC sem hipertensão apresentaram menor custo (β = -0,324, p < 0,001). Nesse modelo, outras variáveis não apresentaram significado estatístico para prever custo. A magnitude da redução de custo através pregão foi maior na presença de diabetes e de hipertensão (Figura 2).

Tabela 4 Custo mensal por pregão ou mercado privado de medicamentos prescritos para populações de estudo em insuficiência cardíaca e transplante cardíaco de acordo com variáveis clínicas e demográficas 

CARACTERÍSTICAS IC TC
n MEDIANA DO CUSTO IQ 25%-75% p n MEDIANA DO CUSTO IQ 25%-75% p
Custo do pregão em $                
Idade, anos       < 0,001       0,19
≤ 19 5 3,16 2,87-24,39   9 732,48 493,62-1.026,12  
20 - 40 68 4,35 2,07-15,63   37 410,07 239,07-844,68  
41 - 65 380 9,8 3,20-45,88   57 365,19 97,16-619,52  
≥ 65 273 13,46 4,80-52,75   43 245,93 90,60-1.021,26  
Causas       < 0,001       0,036
Isquémica 132 16,84 6,32-16,84   18 402,49 77,07-932,54  
Chagásica 76 8,53 2,98-26,52   48 271,71 66,49-568,54  
Outras 217 6,79 3,21-18,58   73 472,40 182,05-888,53  
Consulta ambulatorial (número)       0,005       0,016
< 5 192 10,84 2,88-39,19   16 576,34 292,84-1.396,98  
6 - 10 286 8,09 3,07-30,27   16 512,22 149,78-1.062,56  
11 - 15 124 15,13 5,23-70,22   42 227,05 73,86-607,01  
16 - 20 46 6,55 2,91-54,35   28 273,05 61,67-654,69  
≥ 21 78 12,89 5,06-41,86   44 493,46 223,14-847,01  
Classe funcional       < 0,001        
I e II 326 7,04 2,82-32,86          
III e IV 101 16,47 5,43-67,55          
Etnia       0,96       0,34
Branca e amarela 564 10,07 3,59-10,07   126 390,47 118,43-737,32  
Negra e parada 148 10,92 3,52-40,47   20 40,47 225,65-1.074,95  
FEVE       0,43       0,97
≤ 40% 296 11,82 3,47-47,80   10 358,93 86,11-957,32  
> 40% 119 9,46 3,72-27,61   126 390,47 124,75-740,92  
Custo privado em $                
Idade, anos       < 0,001       0,52
≤ 19 5 105,45 52,69-520,48   09 1.851,58 1.284,76-2.755,11  
20 - 40 68 114,52 62,57-188,12   37 1.234,25 839,74-2.455,04  
41 - 65 380 148,90 79,68-331,97   57 1.155,17 556,26-2.491,22  
≥ 65 273 193,19 113,57-420,72   43 1.004,99 572,62-2.734,57  
Causas       0,004       0,14
Isquémica 132 200,96 113,73-447,87   18 1.581,77 554,10-3.141,53  
Chagásica 76 138,85 19,03-303,53   48 1.024,00 355,21-1.553,49  
Outras 217 139,82 84,39-274,33   73 1.378,35 784,73-2.485,21  
Consulta ambulatorial (número)       0,002       0,009
< 5 192 168,48 67,85-321,16   16 1.507,97 984,70-3.821,39  
6 - 10 286 147,90 79,49-308,74   16 1.530,34 713,99-2.890,81  
11 - 15 124 190,69 111,44-510,07   42 800,50 446,29-2.232,58  
16 - 20 46 151,78 89,09-339,14   28 905,63 309,77-1.756,99  
≥ 21 78 189,04 116,25-363,56   44 1.445,44 955,98-2.737,73  
Classe funcional       0,010        
I e II 326 134,27 72,15-278,23          
III e IV 101 213,35 110,97-637,56          
Etnia       0,57       0,15
Branca e amarela 564 169,05 85,18-339,40   126 1.161,89 573,85-2.432,95  
Negra e parda 148 157,10 86,02-391,50   20 1.709,93 800,58-3.134,78  
FEVE       0,92       0,32
≤ 40% 310 149,32 75,75-331,42   10 1.133,99 712,47-2.548,44  
> 40% 129 136,30 72,65-286,64   126 1.203,64 583,40-2.487,27  

Medidas apresentadas como mediana e intervalo interquartil. FEVE: fração de ejeção ventricular esquerda; IC: insuficiência cardíaca; TC: transplante cardíaco.

Custo do tratamento farmacológico na farmácia comercial de acordo com análises de subgrupo

No grupo IC, a mediana de custo mensal para homens foi $155,34 (IQ 91,30-314,85) e para mulheres foi $175,21 (IQ 80,68-415,44) (p = 0,412). Com relação a comorbidades, houve um aumento na mediana de custo mensal associado a hipertensão (p < 0,001) e diabetes (p < 0,001). Hipertensão foi responsável por incremento de custo de $60,35 (28% maior) (p = 0,005), e diabetes, por incremento de custo de $130,19 (48% maior) (p < 0,001). O custo da miocardiopatia isquêmica ($200,96, IQ 113,73-447,87) foi significativamente maior do que o da miocardiopatia chagásica ($138,85, IQ 19,03-303,53, p = 0,003) o de outras causas ($139,82, IQ 84,39-274,33, p = 0,004). Na análise multivariada, observou-se uma significativa interação entre custo e idade para pacientes com IC, tendo indivíduos mais idosos apresentado custos significativamente maiores (β = 0,018, p < 0,001). Homens (β = -0,165, p < 0,001) e indivíduos não diabéticos apresentaram custos significativamente menores (β = 0,568, p = 0,003).

No grupo TC, a mediana de custo mensal dos medicamentos prescritos apresentou tendência a ser menor para homens ($1.056,83, IQ 532,31-2.325,00) do que para mulheres ($1.313,48, IQ 907,33-3.011,20) (p = 0,069). No entanto, diabetes foi a única comorbidade responsável por aumento de custo ($795,99, 40% maior) (p = 0,045). Não houve diferença de custo entre as causas. A Tabela 4 apresenta comparações adicionais entre as variáveis clínicas e a mediana do custo mensal para os dois grupos. No grupo TC, a análise multivariada mostrou significativa interação entre custo e ausência de hipertensão (β = -0,218, p < 0,001). A ausência de hipertensão resultou em menores custos no sistema privado. Nesse modelo, não houve diferenças estatisticamente significativas para outras variáveis.

Discussão

Até onde sabemos, este é o primeiro estudo a demonstrar que o custo da dispensação de medicamentos prescritos para pacientes com IC e TC, comprados através de pregão, é substancialmente inferior ao estimado no mercado privado para a prática clínica. Nessa comparação, a compra através de pregão para IC seguida por dispensação aos pacientes chega a ser uma barganha. A idade mais avançada associou-se a custos mais altos, e a ausência de diabetes, a custos mais baixos em pacientes com IC nos dois sistemas de compra. A magnitude da redução de custo através do pregão foi maior na presença de diabetes e de hipertensão (Figura 2).

Nosso custo para o tratamento farmacológico da IC foi significativamente menor quando comparado ao relatado previamente, variando de $261 a $438 por mês por paciente9,10. O custo dos medicamentos comprados no pregão no nosso estudo variou de 2,28% a 3,8% daqueles publicados nos EUA, enquanto o estimado no mercado privado variou de 37% a 62%. O sistema de saúde dos EUA, conhecido como um dos mais dispendiosos no mundo e com maiores preços para os medicamentos15, pode ter contribuído para tais diferenças. Entretanto, a enorme diferença de custo corroborou nossos achados da eficiência do pregão em reduzir custos do tratamento de IC.

Com relação ao TC, a comparação com os dados de apenas um estudo publicado analisando o custo de imunossupressores até dois anos após transplante de órgãos sólidos mostrou que o pregão pode ser proporcionalmente menos eficiente em reduzir custos após TC. Naquele estudo, os custos variaram de $448 a $1.321 por paciente por mês16. Entretanto, o custo dos outros medicamentos não foi considerado, o que poderia subestimar o custo total do tratamento farmacológico.

Para explicar nossos resultados, especulamos que a compra por pregão possa criar um ambiente competitivo para muitas indústrias envolvidas na produção de medicamentos para IC. A concorrência, ao invés de ser uma desvantagem para a indústria, serviria para impulsionar os fabricantes de medicamentos a melhorar seus processos de negócio para manter o lucro ao mesmo tempo em que beneficiaria a sociedade. Ao contrário, o pequeno número de indústrias envolvidas na produção dos imunossupressores e o restrito mercado podem impedir o desenvolvimento de um ambiente competitivo e limitar a eficiência do pregão para TC. Como resultado, a terapia farmacológica no transplante tem alto custo se comparada àquela da IC16.

Como esperado e confirmando dados publicados, as comorbidades associaram-se com maior custo8,9. O maior custo para pacientes mais idosos poderia ser explicado pelo fato de que o envelhecimento leva a um maior número de comorbidades. Em geral, as comorbidades requerem tratamento com polifarmácia; entretanto, é importante ressaltar que diabetes se associou a maior aumento de custos na IC, provavelmente como consequência do papel da diabetes no desenvolvimento de muitas comorbidades9. O pregão, no entanto, foi mais eficiente na diabetes (Figura 2).

Implicações clínicas e no sistema de saúde

Nossos achados sugerem que o pregão seja uma alternativa positiva de apoio financeiro ao sistema de saúde e poderia ser introduzido em sistema de saúde de outros países para reduzir o custo do tratamento farmacológico da IC e após TC. Os envolvidos em suprimento de medicamentos para IC deveriam considerar a possibilidade de compra por pregão e dispensação para os pacientes. O custo dos medicamentos para pacientes não hospitalizados pode influenciar sua adesão ao tratamento farmacológico recomendado10. O menor custo poderia resultar em maior acesso a esse tratamento com maior adesão aos medicamentos prescritos, melhor sobrevida e menos hospitalização. O uso do pregão mundo afora para políticas de saúde poderia beneficiar muitos indivíduos em países desenvolvidos e principalmente não desenvolvidos, reduzindo o custo da IC.

Limitações

Nosso estudo tem limitações. Avaliamos apenas medicamentos prescritos e dispensados; consequentemente, não pudemos verificar a adesão do paciente ao tratamento. No entanto, é suficiente para demonstrar quanto de terapia farmacológica ocorre na prática clínica. Os regimes administrados foram baseados naqueles prescritos por cardiologistas especializados em um centro terciário, podendo não representar assistência primária em IC. Nosso estudo unicêntrico não incluiu pacientes de múltiplas práticas nem de diferentes regiões geográficas brasileiras; entretanto, em geral, nessas condições o tratamento farmacológico não é orientado por diretrizes. Por fim, nosso estudo foi uma revisão retrospectiva de registros médicos, uma vez que um estudo prospectivo demandaria mais tempo e recursos econômicos.

Conclusão

O presente estudo sobre prática contemporânea demonstrou que o pregão pode ser importante para reduzir o custo da terapia farmacológica em IC para pacientes ambulatoriais ou após TC. Além disso, comorbidades e idade avançada associaram-se a maior custo, o que deve ser considerado quando do planejamento de estratégias de saúde para IC. Da mesma forma, o principal achado é que o pregão possa tornar-se estratégia governamental para expandir o acesso dos menos privilegiados à terapia medicamentosa e no melhor uso dos recursos públicos.

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