Preocupação com a forma do corpo de graduandos de Farmácia-Bioquímica

Preocupação com a forma do corpo de graduandos de Farmácia-Bioquímica

Autores:

Bianca Gonzalez Martins,
Wanderson Roberto Silva,
Juliana Alvares Duarte Bonini Campos

ARTIGO ORIGINAL

Jornal Brasileiro de Psiquiatria

versão impressa ISSN 0047-2085

J. bras. psiquiatr. vol.64 no.1 Rio de Janeiro jan./mar. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/0047-2085000000054

ABSTRACT

Objective

To determine the body shape concern among pharmacy-biochemistry students and its association with several social and labor variables and nutritional status.

Methods

A total of 346 students (80.3% female) with mean age 20.2 (SD = 2.4) years were asked to answer the Body Shape Questionnaire (BSQ). The factorial and convergent validities and the internal consistencies (α) of the BSQ were calculated. The goodness-of-fit indices, the chi-square by degree of freedom ratio (χ2/df), the comparative fit index (CFI), the normed fit index (NFI), and the root mean square error of approximation (RMSEA) were also used for data analysis. The mean score of body shape concern was estimated using an algorithm generated from the confirmatory factor analysis. Analysis of variance (ANOVA) was used to compare the mean scores with variables of interest.

Results

The BSQ presented adequate validity (χ2/df = 3.29; CFI = .87, NFI = .82, RMSEA = .08), and reliability (α = .97) after fit. Female students showed more body shape concern than male students (p < .001). Furthermore, the students who rated the course as dissatisfactory relative to their initial expectation (p = .048), consumed drugs under academic pressure (p < .001), thought about quitting the course (p = .002), and were overweight/obese (p < .001) also presented greater body shape concern.

Conclusion

The variables gender, dissatisfaction with the course, drug intake due to academic pressure, desire of quitting the course, and the nutritional status were significantly associated with the body shape concern among the participating students.

Key words: Body image; pharmacy students; questionnaires

INTRODUÇÃO

A representação mental que um indivíduo faz do seu próprio corpo é denominada imagem corporal. A construção desse conceito envolve aspectos afetivos, sociais e físicos que se manifestam durante toda a vida, sofrendo constantes transformações de acordo com as experiências vividas1-3. A forma de lidar com a imagem corporal é individual e, geralmente, é norteada por parâmetros impostos pela sociedade, pela cultura vigente e pelo ambiente no qual o indivíduo está inserido4.

A imagem corporal é construída com base em diversos aspectos como a preocupação com a forma do corpo e com peso corporal, a estrutura muscular e a satisfação com a aparência física3-5.

A preocupação com a forma do corpo é um dos aspectos da imagem corporal mais investigados6-9 e tem relação direta com fatores psicológicos, cognitivos e comportamentais, podendo se manifestar em qualquer indivíduo vulnerável10. É importante destacar que alguns estudos11-13 tratam a preocupação com a forma do corpo como sinônimo de imagem corporal, o que não pode ser considerado adequado, uma vez que essa se refere apenas a um aspecto desse conceito14.

Na busca de mensurar aspectos relacionados à imagem corporal, foram desenvolvidos vários instrumentos de medida, entre os quais se podem destacar o Eating Disorder Inventory (EDI)15, a Escala de Silhuetas16, o Body Image Avoidance Questionnaire (BIAQ)17 e o Body Shape Questionnaire (BSQ)18.

O BSQ é um dos instrumentos mais utilizados na literatura, tanto em contexto brasileiro10,11,14,19-21 quanto internacional6,22-25, para estimar a preocupação com a forma do corpo em indivíduos normativos ou clínicos. O BSQ foi desenvolvido por Cooper et al.18 para a população inglesa e possui 34 itens, de autopreenchimento, com respostas do tipo Likert de seis pontos, que avaliam o nível de preocupação que o indivíduo tem em relação à forma do seu corpo.

Estudos que administraram o BSQ12,19,21,26 indicam que os jovens, principalmente na fase da adolescência e início da vida adulta, são os mais acometidos pelas alterações relacionadas à imagem corporal, o que os torna mais vulneráveis às questões ambientais, sociais, culturais e estéticas12. Sepulveda et al.27 destacam que o ingresso dos jovens em ambiente universitário promove mudanças de paradigmas sociais repentinos, o que pode aumentar a tensão e a ansiedade e favorecer o desenvolvimento de alterações referentes à percepção da própria aparência física. A literatura acrescenta, ainda, que variáveis como sexo9, nível econômico28, estado nutricional21 e presença de atividade laboral concomitante aos estudos29 também podem interferir na preocupação de um indivíduo quanto à forma do seu corpo.

Outro aspecto importante destacado na literatura11,26,30-32 é a investigação de fatores relacionados à imagem corporal em discentes de cursos ligados à área da saúde, uma vez que eles serão profissionais cuja atuação estará diretamente relacionada à área de promoção da saúde e, portanto, deveriam servir de exemplo e ter estilo de vida saudável.

Investigar aspectos relacionados à preocupação com a forma do corpo pode auxiliar na detecção precoce de alterações relacionadas à imagem corporal dos indivíduos, o que pode contribuir para a elaboração de estratégias educativo-preventivas que possam minimizar a ocorrência de danos futuros. Nesse contexto, conduziu-se este estudo com o objetivo de identificar a preocupação com a forma do corpo e sua relação com variáveis sociodemográficas, laborais e com o estado nutricional de estudantes do curso de graduação em Farmácia-Bioquímica de uma universidade pública do estado de São Paulo.

MÉTODOS

Desenho de estudo e delineamento amostral

Trata-se de estudo observacional do tipo transversal, com delineamento amostral não probabilístico. Foram convidados a participar todos os estudantes matriculados no ano de 2013 (n = 430) no curso de graduação em Farmácia-Bioquímica da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Araraquara. Cabe esclarecer que os estudantes do último ano não foram incluídos no estudo por estarem realizando atividades em ambiente externo à universidade, o que inviabilizou o acesso dos pesquisadores a eles.

O tamanho amostral mínimo foi estimado considerando a necessidade de oito respondentes por item do instrumento (BSQ), o que resultou em 272 participantes. Contudo, considerou-se, ainda, uma taxa de perda de 15%, corrigindo o tamanho amostral para 320 estudantes33.

Variáveis de estudo e instrumento de medida

Para caracterização da amostra, foram levantadas informações como sexo, idade, ano e período do curso. Foram coletadas, também, informações sobre expectativa e desempenho no curso, uso de medicação por causa dos estudos, pensamento de desistir do curso, presença de atividade laboral concomitante aos estudos, moradia, ordem de preferência pelo curso no vestibular e necessidade de recorrer a professores particulares.

Para cômputo do índice de massa corporal (IMC) (kg/m2), o peso (kg) e a altura (m) referidos foram investigados para posterior classificação do estado nutricional dos participantes, segundo proposta da Organização Mundial de Saúde34. O nível econômico foi estimado utilizando-se o Critério Brasil35.

Para estimar a preocupação com a forma do corpo dos estudantes, foi utilizado o Body Shape Questionnaire (BSQ). A versão em português utilizada foi a apresentada por Di Pietro e Silveira20. Entretanto, nesse trabalho, a estrutura fatorial do BSQ utilizada seguiu a proposta original de Cooper et al.36, cujas validade e confiabilidade em estudantes universitárias brasileiras foram estimadas e atestadas por Silva et al.14.

Procedimentos e aspectos éticos

Os estudantes preencheram a versão completa do BSQ e um questionário sociodemográfico em sala de aula, com a presença do professor responsável pela disciplina, que previamente autorizou, por escrito, a aplicação deles. Antes do preenchimento, os estudantes foram informados sobre o objetivo da pesquisa e sobre a participação voluntária. Os questionários foram identificados apenas com um código numérico, preservando o anonimato dos participantes.

A realização do estudo foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Unesp, campus de Araraquara (protocolo 11/2012).

Validade e confiabilidade do BSQ na amostra

A validade de construto foi estimada por meio da validade fatorial e convergente. A validade fatorial foi avaliada por meio de análise fatorial confirmatória (AFC). Foram utilizados os índices de avaliação da qualidade de ajustamento, razão de qui-quadrado pelos graus de liberdade (χ2/gl), Comparative Fit Index (CFI), Normed Fit Index (NFI) e o Root Mean Square Error of Approximation (RMSEA)37. O ajustamento foi considerado adequado quando λ > 0,40, χ2/gl ≤ 3,0, CFI ≥ 0,90, NFI ≥ 0,80 e RMSEA ≤ 0,1037. A validade convergente foi aferida por meio da Variância Extraída Média (VEM) e da Confiabilidade Composta (CC) e foram consideradas adequadas VEM ≥ 0,50 e CC ≥ 0,70, respectivamente38.

A consistência interna foi calculada utilizando-se o coeficiente alfa de Cronbach padronizado (α) e considerada adequada quando α ≥ 0,7039.

O escore médio de preocupação com a forma do corpo dos estudantes foi calculado a partir da matriz dos pesos de regressão obtida pela matriz de covariância entre as variáveis manifestas e latentes do modelo fatorial do BSQ40.

Análise estatística

A Análise de Variância (ANOVA) foi conduzida para comparar os escores médios de preocupação com a forma do corpo dos estudantes segundo as variáveis de interesse. Os escores médios foram obtidos a partir do algoritmo estimado pela matriz de regressão. Os pressupostos de normalidade e homocedasticidade foram verificados e atendidos por meio dos testes de Shapiro-Wilk (p = 0,05-0,337) e Levene (p = 0,05-0,716), respectivamente. Quando da detecção de diferenças significativas, utilizou-se o pós-teste de Tukey para comparações múltiplas. Para tomada de decisão, foi adotado nível de significância de 5%.

Os programas IBM SPSS Statistics (v.21, SPSS An IMB Company, Chicago, IL) e AMOS 21.0 (IBM SPSS Inc, Chicago, IL) foram utilizados para realização das análises.

RESULTADOS

Participaram do estudo 346 estudantes, com média de idade de 20,2 (DP = 2,4) anos, sendo 80,3% do sexo feminino. A caracterização sociodemográfica dos participantes apresenta-se na tabela 1.

Tabela 1 Escore médio ± desvio-padrão da preocupação com a forma do corpo segundo as variáveis de interesse (São Paulo, 2013) 

Característica n (%) Média ± desvio-padrão p η2p π
Sexo
 Masculino 68 (19,7) 1,00 ± 0,43 < 0,001* 0,052 0,991
 Feminino 278 (80,3) 1,31 ± 0,56      
Ano do curso
 Primeiro 164 (47,5) 1,25 ± 0,53 0,549 0,009 0,245
 Segundo 73 (21,2) 1,27 ± 0,56      
 Terceiro 41 (11,9) 1,24 ± 0,56      
 Quarto 57 (16,5) 1,32 ± 0,59      
 Quinto e sexto 10 (2,9) 1,00 ± 0,49      
Professores particulares
 Sim 88 (25,6) 1,26 ± 0,55 0,449 0,002 0,118
 Não 256 (74,4) 1,20 ± 0,52      
Ordem de preferência pelo curso
 Primeira opção 278 (81,0) 1,23 ± 0,55 0,062 0,010 0,464
 Outra 65 (19,0) 1,37 ± 0,51      
Em relação às suas expectativas iniciais, este curso é:
 Melhor 165 (47,7) 1,19 ± 0,50a 0,048* 0,018 0,589
 Igual 117 (33,8) 1,27 ± 0,55a,b      
 Pior 64 (18,5) 1,39 ± 0,62b      
Desempenho no curso
 Bom 193 (56,1) 1,21 ± 0,51 0,118 0,007 0,346
 Ruim 151 (43,9) 1,30 ± 0,58      
Com quem você vive
 Sozinho 59 (17,4) 1,29 ± 0,53 0,588 0,003 0,138
 Família 65 (19,1) 1,28 ± 0,51      
 Amigos, colegas 216 (63,5) 1,22 ± 0,55      
Você já precisou tomar algum tipo de medicação por causa dos estudos?
 Não 230 (66,9) 1,17 ± 0,49 < 0,001* 0,042 0,973
 Sim 144 (33,1) 1,41 ± 0,62      
Você já pensou em desistir do curso?
 Não 181 (52,5) 1,17 ± 0,50 0,002* 0,027 0,863
 Sim 164 (47,6) 1,35 ± 0,58      
Atividade laboral concomitante aos estudos
 Não 308 (89,8) 1,25 ± 0,55 0,601 0,001 0,082
 Sim 35 (10,2) 1,30 ± 0,51      
Estado nutricional
 Baixo peso 8 (3,1) 0,79 ± 0,27a < 0,001* 0,144 1,000
 Eutrofia 202 (78,6) 1,17 ± 0,49b      
 Sobrepeso/obesidade 47 (18,3) 1,64 ± 0,57c      
Nível econômico (renda mensal média)
 Classe A (R$ 8.295,00 a R$ 11.480,00) 150 (43,9) 1,23 ± 0,54 0,324 0,007 0,248
 Classe B (R$ 2.656,00 a R$ 4.754,00) 157 (45,9) 1,29 ± 0,54      
 Classe C (R$ 962,00 a R$ 1.459,00) 35 (10,2) 1,16 ± 0,60      

* Diferença estatística significativa para α = 0,05; a,b,c letras iguais indicam similaridade estatística.

Observa-se que a maior parte dos estudantes concentra-se no primeiro ano e no período integral do curso. Também se nota que a maioria nunca recorreu a professores particulares, escolheu o curso de Farmácia-Bioquímica como primeira opção no vestibular, nunca necessitou tomar medicamentos por causa dos estudos, não possui atividade laboral concomitante aos estudos, apresenta suas expectativas iniciais em relação ao curso atendidas e considera-se como bons alunos. O IMC médio dos estudantes foi de 22,6 (DP = 3,8) kg/m2. Quanto ao estado nutricional, a maior parte dos estudantes foi classificada como eutrófica.

Na tabela 2 apresenta-se a distribuição de frequências das respostas dadas aos itens do BSQ.

Tabela 2 Distribuição de frequências [n(%)] de respostas dadas ao Body Shape Questionnaire (BSQ) pelos discentes participantes da amostra (São Paulo, 2013) 

Item n (%)
Nunca Raramente Às vezes Frequentemente Muito frequentemente Sempre
It 1 58 (16,8) 65 (18,8) 123 (35,7) 53 (15,4) 28 (8,1) 18 (5,2)
It 2 80 (23,1) 54 (15,6) 67 (19,4) 46 (13,3) 48 (13,9) 51 (14,7)
It 3 158 (45,7) 48 (13,9) 54 (15,6) 29 (8,4) 22 (6,4) 35 (10,1)
It 4 60 (17,4) 37 (10,8) 82 (23,8) 52 (15,1) 52 (15,1) 61 (17,7)
It 5 48 (13,9) 54 (15,6) 99 (28,6) 57 (16,5) 50 (14,5) 38 (11,0)
It 6 112 (32,4) 78 (22,5) 77 (22,3) 29 (8,4) 25 (7,2) 25 (7,2)
It 7 208 (60,3) 80 (23,2) 35 (10,1) 5 (1,4) 4 (1,2) 13 (3,8)
It 8 268 (77,9) 35 (10,2) 23 (6,7) 10 (2,9) 4 (1,2) 4 (1,2)
It 9 88 (25,4) 70 (20,2) 93 (26,9) 41 (11,8) 25 (7,2) 29 (8,4)
It 10 186 (53,8) 53 (15,3) 56 (16,2) 13 (3,8) 22 (6,4) 16 (4,6)
It 11 202 (58,4) 75 (21,7) 43 (12,4) 14 (4,0) 6 (1,7) 6 (1,7)
It 12 47 (13,6) 88 (25,4) 106 (30,6) 47 (13,6) 33 (9,5) 25 (7,2)
It 13 238 (68,8) 63 (18,2) 24 (6,9) 8 (2,3) 7 (2,0) 6 (1,7)
It 14 113 (32,7) 81 (23,4) 71 (20,5) 31 (9,0) 19 (5,5) 31 (9,0)
It 15 111 (32,1) 77 (22,3) 69 (19,9) 32 (9,2) 32 (9,2) 25 (7,2)
It 16 167 (48,3) 45 (13,0) 57 (16,5) 37 (10,7) 21 (6,1) 19 (5,5)
It 17 125 (36,1) 64 (18,5) 62 (17,9) 32 (9,2) 38 (11,0) 25 (7,2)
It 18 251 (72,8) 51 (14,8) 30 (8,7) 4 (1,2) 5 (1,4) 5 (1,2)
It 19 204 (59,0) 53 (15,3) 50 (14,5) 15 (4,3) 15 (4,3) 9 (2,6)
It 20 112 (32,6) 109 (31,7) 70 (20,3) 28 (8,1) 19 (5,5) 6 (1,7)
It 21 149 (43,2) 56 (16,2) 57 (16,5) 39 (11,3) 25 (7,2) 19 (5,5)
It 22 161 (46,5) 60 (17,3) 38 (11,0) 26 (7,5) 31 (9,0) 30 (8,7)
It 23 126 (36,4) 63 (18,2) 61 (17,6) 42 (12,1) 26 (7,5) 28 (8,1)
It 24 98 (28,3) 62 (17,9) 71 (20,5) 53 (15,3) 33 (9,5) 29 (8,4)
It 25 245 (71,2) 44 (12,8) 24 (7,0) 12 (3,5) 10 (2,9) 9 (2,6)
It 26 322 (93,1) 10 (2,9) 8 (2,3) 4 (1,2) 1 (0,3) 1 (0,3)
It 27 268 (77,5) 43 (12,4) 19 (5,5) 9 (2,6) 5 (1,4) 2 (0,6)
It 28 123 (35,5) 78 (22,5) 62 (17,9) 27 (7,8) 32 (9,2) 24 (6,9)
It 29 117 (33,8) 110 (31,8) 58 (16,8) 31 (9,0) 17 (4,9) 13 (3,8)
It 30 121 (35,0) 82 (23,7) 66 (19,1) 31 (9,0) 25 (7,2) 21 (6,1)
It 31 124 (35,9) 88 (25,5) 55 (15,9) 29 (8,4) 27 (7,8) 22 (6,4)
It 32 324 (93,9) 10 (2,9) 5 (1,4) 2 (0,6) 2 (0,6) 2 (0,6)
It 33 106 (30,6) 100 (28,9) 77 (22,3) 33 (9,5) 17 (4,9) 13 (3,8)
It 34 46 (13,3) 36 (10,4) 61 (17,6) 60 (17,3) 58 (16,8) 85 (24,6)

Nota-se que a maioria dos itens foi preenchida e que alguns concentraram as respostas em uma opção, por exemplo, grande parte dos estudantes indicou a opção “nunca” nos itens 26 e 32, o que comprometeu a sensibilidade psicométrica desses itens.

A análise fatorial confirmatória do BSQ revelou ajustamento insatisfatório à amostra (χ2/gl = 4,04, CFI = 0,81, NFI = 0,76, RMSEA = 0,09) e baixos pesos fatoriais nos itens 26 (λ = 0,35) e 32 (λ = 0,33). Assim, realizou-se o refinamento do modelo excluindo-se esses itens. Na figura 1 apresenta-se o modelo refinado ajustado do BSQ para a amostra de estudo.

Figura 1 Modelo fatorial refinado do BSQ ajustado à amostra de estudantes de Farmácia-Bioquímica (χ2/gl = 3,29; CFI = 0,87; NFI = 0,82; RMSEA = 0,08. São Paulo, 2013). 

No modelo refinado, foram inseridas correlações entre os erros dos itens 2 e 21, 3 e 10, 6 e 17, 7 e 18, 10 e 27, 24 e 28 e 28 e 30. Após o refinamento e a inserção das correlações, o BSQ apresentou ajustamento satisfatório à amostra (χ2/gl = 3,29, CFI = 0,87, NFI = 0,82, RMSEA = 0,08).

A validade convergente do BSQ foi adequada (VEM = 0,50; CC = 0,97) e foi verificada adequada consistência interna (α = 0,97) do instrumento.

Para a amostra de estudo, a preocupação com a forma do corpo pôde ser equacionada conforme apresentado a seguir:

BSQ=0,016*it1+0,019*it2+0,015*it3+0,008*it4+0,026*it5+0,012*it6+0,011*it7+0,011*
					it8+0,023*it9+0,018*it10+0,008*it11+0,008*it12+0,021*it13+0,028*it14+0,006*it15+
					0,022*it16+0,017*it17+0,02*it18+0,033*it19+0,01*it20+0,021*it21+0,021*it22+0,008*
					it23+0,023*it24+0,011*it25+0,012*it27+0,011*it28+0,015*it29+0,023*it30+0,006*it31
					+0,015*it33+0,006*it34

A comparação do escore médio de preocupação com a forma do corpo segundo as variáveis de interesse encontra-se na tabela 1.

Nota-se relação significativa entre a preocupação com a forma do corpo e o sexo, a avaliação em relação ao curso, o consumo de medicamentos por causa dos estudos, o pensamento em desistir do curso e o estado nutricional. As mulheres apresentam maior preocupação com a forma do corpo que os homens. Os indivíduos mais preocupados com a forma corporal foram aqueles com avaliação em relação ao curso pior do que a expectativa inicial, que consomem medicações por causa dos estudos, que já pensaram em desistir do curso e os que foram classificados em sobrepeso/obesidade.

DISCUSSÃO

Destaca-se a contribuição deste estudo ao comparar a preocupação com a forma do corpo de estudantes de Farmácia-Bioquímica segundo características sociais, laborais e o estado nutricional. Cabe ressaltar, ainda, que neste trabalho, para cômputo do escore global de preocupação com a forma do corpo, utilizou-se o algoritmo respeitando as propriedades psicométricas do BSQ na amostra, aumentando, portanto, a precisão da estimativa realizada, sustentando, assim, a adequada validade e confiabilidade dos dados obtidos.

A análise fatorial confirmatória revelou que o BSQ apresentou adequada validade e confiabilidade, para a amostra, sem a presença dos itens 26 e 32. Esses resultados corroboram a literatura22,24,32, reforçando que esses itens estão direcionados a comportamentos característicos de severas alterações relacionadas à alimentação e, portanto, não são capazes de contribuir, nessa escala, para a avaliação da preocupação com a forma do corpo em população normativa (Tabela 2).

A relação significativa verificada entre a preocupação com a forma do corpo e as variáveis sexo, avaliação em relação ao curso, uso de medicamentos por causa dos estudos, pensamento em desistir do curso e estado nutricional tem sido explicada em estudos anteriores.

A maior preocupação com a forma do corpo é encontrada entre as estudantes do sexo feminino19,29,31,41. De acordo com Miranda et al.41 e Branco et al.19, as mulheres apresentam maiores preocupações com a aparência física, considerando as fortes pressões estabelecidas pela cultura e pela sociedade em que vivem, sendo condicionadas a manter o corpo no padrão desejável “magro”, apontado como adequado. Apesar de os homens também apresentarem preocupações relacionadas ao corpo, estas estão voltadas a aspectos mais específicos como ganho de massa muscular, calvície e virilidade8,42,43. Essas características peculiares ao sexo masculino não são abordadas nos itens da escala BSQ, assim esse fato pode justificar a baixa preocupação com a forma do corpo encontrada nesse estudo nesses indivíduos e alertar para o fato de que instrumentos que captam as especificidades dessa população poderiam capturar de maneira mais acurada a preocupação dos homens quanto ao corpo.

A maior preocupação com a forma do corpo dos indivíduos cuja avaliação do curso foi pior que as expectativas iniciais, que usam medicamentos por causa dos estudos e que já pensaram em desistir do curso sugere que pode existir tensão e ansiedade nesses estudantes no ambiente universitário e esses aspectos podem estar interferindo nas suas percepções em relação ao corpo. Yanover e Thompson44 destacam que as fortes pressões estabelecidas na universidade estão diretamente relacionadas às preocupações voltadas ao corpo e ainda acrescentam que, quanto maior a apreensão e/ou insatisfação dos jovens com o curso escolhido, maiores são as preocupações com a aparência física.

Outro resultado encontrado nesse estudo, que é sustentando pela literatura41,45,46, é a relação significativa entre a preocupação com a forma do corpo e o estado nutricional. Ferrari et al.45 destacam que os indivíduos classificados com sobrepeso/obesidade apresentam maiores preocupações quanto à aparência física. Outros estudos19,41 ainda acrescentam que, quanto maior o peso corporal dos indivíduos, maiores são as preocupações em relação ao corpo.

Esse estudo buscou investigar características importantes relacionadas à preocupação com a forma do corpo de estudantes de Farmácia-Bioquímica. Foram identificadas variáveis significativas que podem ser utilizadas em protocolos educativo-preventivos para minimizar os dados decorrentes da exacerbada preocupação com o corpo e também auxiliar na área de pesquisa em imagem corporal, destacando pontos que podem ser investigados para o rastreamento de percepção alterada em relação ao corpo.

CONCLUSÃO

A preocupação dos estudantes universitários com a forma do corpo esteve relacionada com o sexo, a avaliação em relação ao curso, a ingestão de medicamentos por causa dos estudos, o pensamento em desistir do curso e o estado nutricional.

REFERÊNCIAS

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