Prescrição de medicamentos potencialmente inapropriados em instituições de longa permanência para idosos

Prescrição de medicamentos potencialmente inapropriados em instituições de longa permanência para idosos

Autores:

Marcos Hortes N. Chagas,
Ana Carolina Chini,
Rebeca Mendes de Paula Pessoa

ARTIGO ORIGINAL

Jornal Brasileiro de Psiquiatria

versão impressa ISSN 0047-2085versão On-line ISSN 1982-0208

J. bras. psiquiatr. vol.66 no.1 Rio de Janeiro jan./mar. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/0047-2085000000151

PREZADO EDITOR,

Os critérios de Beers publicados pela Sociedade Americana de Geriatria são utilizados para identificar medicamentos de uso potencialmente inapropriados (MPIs) em idosos1. Em 2012, os critérios foram atualizados considerando método baseado em evidências. Esse instrumento pode ser empregado facilmente por especialistas e não especialistas no auxílio do manejo farmacológico de pacientes idosos, contribuindo para prescrição médica mais adequada e evitando a polifarmácia.

Recentemente, Andrade et al. publicaram um estudo nesta revista apontando a elevada frequência de prescrição desses medicamentos em idosos institucionalizados em um hospital psiquiátrico do interior da Bahia2. Nesse estudo, um ou mais medicamentos potencialmente inapropriados estavam presentes em 90% das prescrições2.

Da mesma forma, realizamos um estudo na cidade de Ribeirão Preto, estado de São Paulo, com o objetivo de avaliar a cognição e o comportamento de idosos internados em instituições de longa permanência (ainda não publicado) e encontramos alta frequência de prescrição de MPIs. O estudo foi transversal e realizado em quatro instituições (duas filantrópicas e duas privadas). Foram excluídos pacientes com incapacidade clínica ou neuropsiquiátrica grave. Os dados relativos às medicações foram extraídos diretamente das folhas de prescrições. A pesquisa foi aprovada no Comitê de Ética em Pesquisa para seres humanos (CAAE: 22872813.5.0000.5440).

Foram avaliados 51 idosos, dos quais 64,7% eram mulheres (n = 33). A média de idade foi de 78,1 anos (DP: ±9,8) e a média do escore total do Miniexame do Estado Mental foi de 18,2 (DP: ±5,4). MPIs estavam presentes em 52,9% das prescrições, além disso, duas prescrições apresentavam “fórmulas manipuladas” sem a descrição de seus componentes. As MPIs mais prescritas foram antipsicóticos que estavam presentes em 31,4% (n = 16) das prescrições, sendo a quetiapina a mais presente (n = 7). Os benzodiazepínicos encontravam-se prescritos para 25,4% (n = 13) dos idosos. Nesta classe, o diazepam foi o mais prescrito (n = 8). Foi encontrada polifarmácia (≥ 5 medicamentos) em 39,2% dos casos (n = 20).

Outros estudos também encontram prevalência semelhante de prescrição de MPIs em idosos, e os psicotrópicos estão entre os mais prescritos3. Especialmente em idosos, os profissionais de saúde, incluindo psiquiatras e psicogeriatras, devem ficar atentos para o uso indiscriminado de antipsicóticos e benzodiazepínicos. Os antipsicóticos aumentam a mortalidade em idosos, além de efeitos adversos como parkinsonismo, patologias cerebrovasculares, síndrome metabólica, entre outros, de acordo com as características específicas de cada antipsicótico4. Os benzodiazepínicos apresentam potencial elevado de causar tolerância e dependência química e estão associados com maior risco de queda e piora da cognição5.

Apesar do alerta, os aspectos singulares de cada paciente devem ser ponderados na prescrição. O estudo de Andrade et al.2 foi realizado em instituição psiquiátrica e a maioria dos participantes apresentava diagnóstico que implicava o uso crônico de medicações. Além disso, os pacientes apresentavam prevalência elevada de outras comorbidades não psiquiátricas, o que também pode ter contribuído para a polifarmácia e a alta frequência de prescrição de MPIs. Da mesma forma, nosso estudo foi realizado em instituições de longa permanência com elevado número de idosos com sintomas neuropsiquiátricos e outras comorbidades clínicas. Desse modo, deve-se destacar que os dados não devem ser extrapolados para a população idosa de forma geral.

Por fim, deve-se ressaltar que os psicotrópicos presentes na lista de MPIs só devem ser usados com indicação precisa e na menor dose possível. Deve-se considerar ainda que medidas não farmacológicas podem ser implementadas para reduzir sintomas comportamentais e psicológicos em idosos.

REFERÊNCIAS

1. American Geriatrics Society 2012 Beers Criteria Update Expert Panel. American Geriatrics Society updated Beers Criteria for potentially inappropriate medication use in older adults. J Am Geriatr Soc. 2012;60(4):616-31.
2. Andrade KVF de, Silva Filho C da, Junqueira LL. Prescrição de medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: um estudo transversal em instituição psiquiátrica. J Bras Psiquiatr. 2016;65(2):149-54.
3. Hill-Taylor B, Sketris I, Hayden J, Byrne S, O’Sullivan D, Christie R. Application of the STOPP/START criteria: a systematic review of the prevalence of potentially inappropriate prescribing in older adults, and evidence of clinical, humanistic and economic impact. J Clin Pharm Ther. 2013;38(5):360-72.
4. Gareri P, De Fazio P, Manfredi VGL, De Sarro G. Use and safety of antipsychotics in behavioral disorders in elderly people with dementia. J Clin Psychopharmacol. 2014;34(1):109-23.
5. Lader M. Benzodiazepines revisited-will we ever learn? Addiction. 2011;106(12):2086-109.
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