Prevalence and factors associated with the cooperation of arterial hypertension patients

Prevalence and factors associated with the cooperation of arterial hypertension patients

Autores:

Marília Gabrielle Santos Nunes,
Amanda Rosineide da Silva,
Amanda de Oliveira Bernardino,
Bruno de Luna Oliveira,
Augusto César Barreto Neto

ARTIGO ORIGINAL

Acta Paulista de Enfermagem

Print version ISSN 0103-2100On-line version ISSN 1982-0194

Acta paul. enferm. vol.28 no.4 São Paulo July/Aug. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/1982-0194201500055

Introdução

A hipertensão arterial sistêmica é uma síndrome multifatorial crônica caracterizada pela presença de níveis tensionais elevados associados a alterações metabólicas, hormonais e fenômenos tróficos, os quais consistem na hipertrofia cardíaca e vascular. A mortalidade por doença cardiovascular aumenta progressivamente com a elevação da pressão arterial a partir de 115/75 mmHg, de forma linear, contínua e independente.(1)

Compreender a sobrecarga da hipertensão como uma doença que pode ser prevenida e os fatores de risco associados, por meio da busca ativa da população, é o primeiro passo para o planejamento de todos os programas de prevenção eficazes. Os programas direcionados para a hipertensão pretendem reduzir a prevalência da doença hipertensiva; aumentar o grau de conhecimento da população sobre a importância do controle da pressão arterial; garantir o acesso aos serviços de saúde primários e medicamentos para hipertensos; e incentivar programas de base comunitária.(2) Estudo realizado na China comprovou que a prevalência de hipertensão também aumenta com o avanço da idade. A prevalência em pacientes chineses com idade igual ou superior a 60 anos é de 59,4%, ao passo que a prevalência de chineses com 75 anos com diagnóstico de hipertensão é de 72,8%. Isso significa uma crescente carga social e econômica naquele país.(3)

Dada a alta prevalência e altos índices de complicações, vários fatores mostram-se associados com o controle da doença, tais como falta de conhecimento e conscientização sobre diversos aspectos da hipertensão, hipertensão não diagnosticada e medicação inadequada ou insuficiente. Além disso, a maioria dos pacientes hipertensos acreditam que essa doença não é grave, e que a medicação só deve ser tomada quando do aparecimento dos sintomas hipertensivos.(4)

Embora a maior parte dos diagnósticos de hipertensão arterial sistêmica seja feita apenas quando os pacientes encontram-se em idade avançada, existem diversos estudos que indicam que a doença tem seu início na infância ou na adolescência. A pressão arterial elevada na infância comumente leva à hipertensão na vida adulta, levando, por conseguinte, a principal causa de morte prematura em torno dos mundo.(5)

A adesão ao tratamento é definida como “o grau em que o paciente segue as instruções que são dadas para os tratamentos prescritos”, sendo essencial para o sucesso da terapêutica. Nesse sentido, a adesão ao tratamento anti-hipertensivo é imprescindível ao controle dos fatores de riscos e, na ausência destes, a doença pode resultar em agravos mais complexos. A não adesão é identificada como causa principal da pressão arterial não controlada, representando, assim, um risco significativo de eventos cardiovasculares.(6)

A carga de doenças cardiovasculares soma 17 milhões de mortes por ano, ou seja, quase um terço do total de mortes. Destas, as complicações da hipertensão correspondem a 9,4 milhões de mortes no mundo a cada ano.(7) A prevalência de hipertensão é quase igual entre homens e mulheres. Mulheres afro-americanas têm uma das mais altas taxas de hipertensão no mundo: em torno de 44%. Entre os adultos hipertensos, aproximadamente 80% estão cientes de sua condição, 71% estão em uso de medicação anti-hipertensiva, e apenas 48% das pessoas que apresentam hipertensão têm a doença controlada.(8) Conhecer a taxa de detecção, o tratamento e o controle da hipertensão é essencial para traçar estratégias de promoção e prevenção em todos os níveis.(9)

Os enfermeiros devem incorporar competências específicas para prestarem cuidados de promoção da saúde para pacientes com hipertensão arterial. O desenvolvimento e a elaboração de estratégias direcionadas aos usuários portadores de hipertensão ainda são escassos. O enfermeiro tem um papel fundamental na assistência a esses usuários, pois as intervenções para a promoção e o controle da doença são imprescindíveis para o tratamento, prevenindo complicações e atuando para uma melhor qualidade de vida dos hipertensos.(10)

Para tanto, o objetivo deste estudo foi analisar a prevalência e os fatores associados a cooperação do paciente portador de hipertensão arterial na atenção primária.

Métodos

Tratou-se de um estudo transversal realizado no período de outubro de 2013 a março de 2014.

A população elegível para o estudo foi composta pelos portadores de hipertensão arterial, de ambos os sexos, cadastrados no Sistema de Informação da Atenção Básica (Programa de Controle da Hipertensão Arterial), das zonas urbana e rural do município de Vitória de Santo Antão, estado do Pernambuco, região nordeste do Brasil. Foram excluídos da amostra os portadores de problemas de saúde mental (relatado pelos familiares ou autorrelatado), físico (deficiência física que impediu a avaliação antropométrica), patologias clínicas (lúpus eritematoso sistêmico, diabetes e Aids) e gravidez (autorrelatada).

Para estimar o tamanho da amostra, utilizou-se o programa SampleXS (Brixton Health, Brixton, UKI2, Reino Unido), que se utiliza da fórmula: n = A/(E*E+(A/N)), sendo que n corresponde ao tamanho da amostra; A=3,8416PQW, P é a prevalência da população em porcentagem; Q=(100–P); E é o erro máximo da amostra aceitável; w corresponde ao efeito provável do desenho; N é o tamanho da população. Para tanto, foram adotados os seguintes critérios: (a) população-alvo de 10.088 hipertensos (definida pela Secretaria de Saúde do município); (b) prevalência de adesão de 51%; (c) intervalo de confiança de 95%; (d) erro amostral de 5% e (e) efeito do delineamento do estudo de 1. O tamanho mínimo da amostra ficou em 391 hipertensos (acrescidos de 10% de eventuais perdas, n=435 usuários). Neste estudo, 8 usuários se recusaram a participar da pesquisa e, após coleta, a amostra final compreendeu 457 usuários analisados.

Visando imprimir a proporcionalidade necessária em uma amostra do tipo estratificada, as amostras foram organizadas por partilha proporcional para cada Unidade Básica de Saúde e selecionadas aleatoriamente com uso de uma tábua de sorteio aleatório, criada no programa Randomizer (Social Psychology Network Association, Middletown, Connecticut, Estados Unidos). A coleta de dados foi realizada por meio de questionário aplicado aos portadores de hipertensão arterial, baseando-se, principalmente, na adesão ao tratamento farmacológico e não farmacológico da hipertensão arterial, e enfocando as atividades desenvolvidas no Programa Hiperdia.

A adesão dos usuários foi avaliada por três testes padronizados: Batalla, Haynes-Sackett e Morisky-Green.(11-13) O teste Batalla é composto por três perguntas e mensura a adesão por meio do conhecimento do usuário sobre sua doença. De forma distinta, o teste de Morisky-Green é composto por quatro perguntas e mensura adesão por meio das atitudes do usuário quanto à utilização dos medicamentos. Ambos os testes consideram aderentes os usuários que respondem corretamente todos os questionamentos. No teste de Haynes-Sackett, o usuário faz um autorrelato da adesão ao tratamento por meio de uma pergunta, cuja resposta afirmativa classifica o indivíduo como não aderente. Como desfecho clínico, foi realizada a medida da pressão arterial, considerando-se não aderente quem apresentasse uma medida ≥140mmHg de pressão sistólica e 90mmHg de pressão diastólica.

A tabulação dos dados foi efetuada com o auxílio do programa Excel. Os dados foram analisados com o auxílio do programa estatístico Statistical Package for the Social Sciences, versão 17.0. (SPSS Inc., Chicago, Illinois, Estados Unidos).

Na descrição das proporções, procedeu-se a uma aproximação da distribuição binomial à distribuição normal pelo intervalo de confiança de 95%. Na comparação das proporções, utilizaram-se o teste de Mantel-Haenszel e Qui-quadrado de Pearson ou tendência linear.

A análise multivariada foi utilizada para estimar a contribuição independente de cada variável para a chance de apresentar adesão ao tratamento da hipertensão. Para a construção do modelo, foram testadas as variáveis da análise bivariada com probabilidades de 20%. Para tanto, empregou-se a regressão logística binária por meio do método backward. Para efeito de interpretação, o limite do erro tipo I foi de até 5% (p≤0,05).

O desenvolvimento do estudo atendeu as normas nacionais e internacionais de ética em pesquisa envolvendo seres humanos.

Resultados

Todos os usuários responderam aos três instrumentos de pesquisa. As prevalências encontradas para adesão ao tratamento anti-hipertensivo foram 26,6%, 16,6% e 85,6% para os instrumentos de Morisky-Green, Batalla e Haynes-Sackett, respectivamente.

Natabela 1, verificou-se que a maioria dos usuários que aderiam ao tratamento tinha concluído os estudos no Ensino Fundamental, evidenciado significativamente com p=0,03. Quando questionados sobre a adição de sal às comidas, a maioria dos entrevistados que aderiam ao tratamento respondeu que não costumava adicionar ainda mais sal ao prato (p=0,010). Quanto à atividade física, a maioria dos entrevistados que aderiam ao tratamento reportou ser ativa (p≤0,001).

Tabela 1 Variáveis socioeconômicas, comportamentais e parâmetros antropométricos de acordo com o teste de Morisky-Green (TMG) 

Variáveis TMG RP (IC95%) p-value*
Com adesão 122 Sem adesão 335
n(%) n(%)
Sexo 1,29(0,91-1,82) 0,157
Masculino 29(32,6) 60(67,42)
Feminino 93(25,2) 276(74,8)
Raça 1,25(0,91-1,72) 0,164
Brancos 40(31,2) 88(68,8)
Não brancos 82(24,8) 248(75,2)
Residência 1,09(0,74-1,62) 0,641
Urbana 99(27,1) 266(72,9)
Rural 23(24,7) 70(75,3)
Classes sociais**
B/C 40(26,3) 112(73,7) 1 -
D 77(26,2) 217(73,8) 1,00(0,72-1,39) 0,977
E 4(36,4) 7(63,6) 0,72(0,31-1,65) 0,469
Situação conjugal
Sozinho 12(21,8) 43(78,2) 1 -
Com companheiro 19(20,7) 73(79,3) 1,05(0,55-2,0) 0,867
Com familiares 91(29,3) 220(70,7) 0,74(0,43-1,26) 0,258
Escolaridade
Analfabetos 68(31,1) 151(68,9) 1 -
Ensino Fundamental 44(22,1) 155(77,9) 1,40(1,01-1,94) 0,039
Ensino Médio e Superior 10(25) 30(75,0) 1,24(0,70-2,20) 0,443
Consumo de álcool 1,02(0,61-1,70) 0,920
Sim 12(27,3) 32(72,7)
Não 110(26,6) 304(73,4)
Uso de cigarro 1,44(0,90-2,28) 0,143
Sim 13(37,1) 22(62,9)
Não 109(25,8) 314(74,2)
Uso de sal
Normal 36(25,7) 104(74,3) 1 -
Pouco 85(27,7) 222(72,3) 0,92(0,66-1,29) 0,663
Salgado 1(9,1) 10(90,9) 2,82(0,42-18,72) 0,218
Saleiro à mesa 1,37(0,93-2,03) 0,123
Sim 20(35,1) 37(65,0)
Não 102(25,4) 299(74,6)
Adição de sal à comida 0,66(0,47-0,93) 0,014
Sim 36(20,3) 141(79,7)
Não 86(30,7) 194(69,3)
IMC 1,19(0,87-1,63) 0,265
Com obesidade 73(28,5) 183(71,5)
Sem obesidade 48(23,9) 153(76,1)
CC*** 1,18(0,86-1,63) 0,295
Eutrófico 40(30,1) 93 (69,9)
Obesidade abdominal 82(25,3) 242 (74,7)
CP**** 1,00(0,61-1,64) 0,992
Eutrófico 13(26,5) 36(73,5)
Excesso de peso 108(26,5) 300(73,5)
Pressão arterial 1,02(0,75-1,40) 0,865
Normal 49(27,1) 132(72,9)
Hipertenso 73(26,4) 204(73,6)
Atividade física 0,55(0,40-0,75) <0,001
Ativo 84(23,0) 282(77,0)
Insuficiente ativo 38(41,3) 54(58,7)

*Teste Qui-quadrado de Pearson; **Critério de classificação da Associação Brasileira de Estudos Populacionais; ***I ≥ P85 para o excesso de peso; II ≥ P90 para obesidade; III ≥0,5 para obesidade; **** CP>35,5cm para masculino; CP>32cm para feminino. RP – Razão de Prevalência; IC95% - intervalo de confiança de 95%; IMC - índice de massa corporal; CC - circunferência da cintura; CP - circunferência do pescoço

Atabela 2constata que houve associação entre os entrevistados que pertenciam a classe econômica E com a adesão ao tratamento (p<0,001). Foi observada também associação estatisticamente significante entre os hipertensos com adesão e que conviviam com companheiros e com os hipertensos com adesão que conviviam com os familiares (p=0,020), e também entre os hipertensos que haviam cursado o Ensino Fundamental (p=0,010). A maioria dos entrevistados apresentou obesidade quando avaliada pelo índice de massa corporal e pela circunferência da cintura, mostrando ter associação com a adesão ao tratamento anti-hipertensivo (p<0,050).

Tabela 2 Variáveis socioeconômicas, comportamentais e parâmetros antropométricos de acordo com o teste de Haynes -Sackett 

Variáveis Teste de Haynes-Sackett RP(IC95%) p-value*
Com adesão 392 Sem adesão 66
n(%) n(%)
Sexo 0,93(0,83-1,03) 0,160
Masculino 72(80,9) 17(19,1)
Feminino 320(86,7) 49(13,3)
Raça 1,01(0,93-1,10) 0,668
Brancos 111(86,7) 17(11,3)
Não brancos 281(85,2) 49(14,8)
Residência 0,97(0,89-1,06) 0,643
Urbana 311(85,2) 54(14,8)
Rural 81(87,1) 12(12,9)
Classes sociais**
B/C 138(90,8) 14(9,2) 1 -
D 249(84,7) 45(15,3) 1,07(0,99-1,14) 0,072
E 4(36,4) 7(63,6) 2,49(1,14-5,46) 0,000
Situação conjugal
Sozinho 41(74,5) 14(25,5) 1 -
Com companheiro 82(89,1) 10(10,9) 0,83(0,70-0,99) 0,021
Com familiares 269(86,5) 42(13,5) 0,86(0,73-1,01) 0,023
Escolaridade
Analfabetos 178(81,3) 41(18,7) 1 -
Ensino Fundamental 178(89,4) 21(10,6) 0,90(0,83-0,98) 0,019
Ensino Médio e Superior 36(90,0) 4(10,0) 0,90(0,79-1,01) 0,181
Consumo de álcool 1,03(0,92-1,16) 0,545
Sim 39(88,6) 5(11,4)
Não 353(85,3) 61(14,7)
Uso de cigarro 1,07(0,96-1,19) 0,306
Sim 32(91,4) 3(8,6)
Não 360(85,1) 63(14,9)
Uso de sal
Normal 121(86,4) 19(13,6) 1 -
Pouco 262(85,3) 45(14,7) 1,01(0,93-1,09) 0,761
Salgado 9(81,8) 2(18,2) 1,05(0,79-1,40) 0,671
Saleiro à mesa 0,86(0,77-0,96) 0,385
Sim 45(86,5) 7(13,5)
Não 5(100) 0(0)
Adição de sal à comida 0,98(0,91-1,06) 0,694
Sim 150(84,7) 27(15,3)
Não 241(86,1) 39(13,9)
IMC 0,84(0,78-0,91) 0,000
Com obesidade 203(79,3) 53(20,7)
Sem obesidade 188(93,5) 13(6,5) 0,87(0,78-0,96) 0,001
CC***
Eutrófico 103(77,4) 30(22,6)
Obesidade abdominal 288(88,9) 36(11,1)
CP**** 0,79(0,65-0,95) 0,000
Eutrófico 34(69,4) 15(30,6)
Excesso de peso 357(87,5) 51(12,5)
Pressão arterial 1,02(0,94-1,10) 0,571
Normal 157(86,7) 24(13,3)
Hipertenso 235(84,8) 42(15,2)
Atividade física 1,06(0,95-1,18) 0,214
Ativo 317(86,6) 49(13,4)
Insuficiente ativo 75(81,5) 17(18,5)

*Teste Qui-quadrado de Pearson; **Critério de classificação da Associação Brasileira de Estudos Populacionais; ***I ≥ P85 para o excesso de peso; II ≥ P90 para obesidade; III ≥0,5 para obesidade; ****CP>35,5cm para masculino; CP>32cm para feminino. RP - Razão de Prevalência; IC95% - intervalo de confiança de 95%; IMC - índice de massa corporal; CC - circunferência da cintura; CP - circunferência do pescoço.

Na análise multivariada por meio da regressão logística empregada com o teste de Morisky-Green (Tabela 3), permaneceram como fatores de risco independentes para a adesão ao tratamento da hipertensão arterial a classe econômica (odds ratio de 3,574; intervalo de confiança de 95% de 1,012-12,624) e o fumo (odds ratio de 0,427; intervalo de confiança de 95% de 0,161-1,134). E como fatores de risco independentes para a adesão ao tratamento da hipertensão arterial encontrados foram classe econômica (odds ratio de 0,055; intervalo de confiança 95% de 0,013-0,230), situação conjugal (odds ratio de 2,454; intervalo de confiança 95% de 1,184-5,088) e o índice de massa corporal (odds ratio de 4,118; intervalo de confiança de 95% de 2,088-8,120).

Tabela 3 Preditores independentes para a cooperação do paciente portador de hipertensão arterial por meio dos testes de Morisky-Green e de Haynes-Sackett, segundo a análise multivariada da regressão logística 

Fatores de riscos Modelo final
OD ajustada* IC95% p-value**
Morisky-Green
Classe econômica ABEP <0,05
B/C 1 Ref
D 1,807 [1,121-2,912]
E 3,574 [1,012-12,624]
Fumo 0,088
Sim 1
Não 0,427 [0,161-1,134]
Haynes-Sackett
Classe econômica ABEP
B/C 1
D 0,726 [0,376-1,402] 0,340
E 0,055 [0,013-0,230] <0,001
Situação conjugal 0,016
Sozinho 1
Com companheiro/familiares 2,454 [1,184-5,008]
IMC <0,001
Obeso 1
Normal 4,118 [2,088-8,120]

*Modelo ajustado para as variáveis: uso do saleiro, adição de sal ao prato, situação conjugal, nível de atividade física, raça, medição da circunferência da cintura, índice de massa corporal e sexo; ** razão de verossimilhança para heterogeneidade de proporções. OD – odds ratio; IC95%: intervalo de confiança de 95%; ABEP - Associação Brasileira de Estudos Populacionais; Ref: categoria de referência; IMC − índice de massa corporal.

Discussão

O estudo apresentou limitações que devem ser levadas em consideração na interpretação dos resultados. Isso porque se tratou de um estudo transversal, em que relações de causa e efeito não podem ser determinadas; a população era muito homogênea do ponto de vista étnico, apesar de a amostra ter sido criteriosamente selecionada para excluir os fatores de confusão na análise; o fato de as entrevistas terem sido realizadas nas residências dispensou um maior tempo para as coletas, ocasionando dificuldades operacionais para obtenção da amostra. Outra limitação foi o teste de Batalla, no modelo de análise multivariada da regressão logística, ter sido inconclusivo, provavelmente por alguma inconsistência de dados.

A aplicabilidade dos resultados deste estudo referiu-se a subsídios para o planejamento de criação de novas políticas públicas, vinculadas ao Programa Hiperdia e voltadas ao atendimento à condição da adesão ao tratamento da hipertensão arterial na Atenção Primária.

Entre os pontos positivos do presente estudo, podem ser destacadas a obtenção das medidas antropométricas e da pressão arterial por mensuração direta e não por autorreferência; e a abrangência geográfica deste estudo, que foi realizado em todas as unidades de saúde do município distantes da região metropolitana. Outro ponto a ser considerado é o número da amostra, que foi suficiente para garantir estimativas de prevalência, além da capacidade de identificação de fatores associados à adesão ao tratamento, com o uso da odds ratio, viabilizada pela análise multivariada da regressão logística. O fato de terem sido utilizados três instrumentos para medição da adesão possibilitou a avaliação da adesão sob diferentes aspectos.

A prevalência da adesão usando-se o teste de Morisky-Green foi apenas 26,6% dos usuários. Estudo na Polônia realizado em 2013 evidenciou resultado semelhante ao deste estudo, com uma adesão de 32,4%.(14) Já outro estudo, com usuários hipertensos, encontrou valores maiores de adesão ao tratamento: aproximadamente 85,7% dos pacientes referiram ser aderentes ao tratamento.(15) Esse teste é bastante utilizado, porém podem ocorrer alguns problemas quanto às autoinformações, tais como omissão, falhas de memória e falhas no processo comunicativo.(16)

O teste de Batalla passou a ser usado como um preditor da adesão ao tratamento pela forte correlação existente entre a adesão e o conhecimento. Quanto à verificação da adesão pelo teste de Batalla, 83,2% dos usuários foram considerados não aderentes ao tratamento, sendo encontrado um valor de 76,6% em estudo(17) semelhante. Com base na avaliação realizada pelo teste de Haynes-Sackett, o valor encontrado para a adesão foi o maior, se comparado ao teste de Morisky-Green e ao de Batalla, corroborando achados anteriores.(1)

Comparando os três testes utilizados, houve diferença entre a não adesão, estimada tanto pelos testes de Batalla e como de Morisky-Green, em comparação com Haynes-Sackett. Isso porque os dois primeiros são testes que medem indiretamente a adesão, mediante perguntas de conhecimento ou relativas à atitude dos usuários, e o teste de Hayne- Sackett é um autorrelato da não adesão, diminuindo o número de falsos sem adesão. A escolaridade reduzida pareceu se relacionar à não adesão ao tratamento,(18) não sendo esta observada na presente casuística por meio do teste de Morisky-Green. Isso pode ser explicado, ao menos em parte, pela associação da escolaridade com diversas outras variáveis socioeconômicas, que podem ter influenciado neste resultado.

O fato dos usuários não adicionarem sal a comida é um fator que favorece a adesão ao tratamento. Resultados de metanálises demonstraram que a redução de sódio tem um pequeno, porém, significativo efeito sobre a pressão arterial,(19) principalmente em pessoas idosas e nos que apresentam pressão arterial mais elevada.(20) Há necessidade de redução moderada de sal na dieta e de aumento de alimentos ricos em potássio, não apenas como um primeiro passo no tratamento de indivíduos com hipertensão, mas também como medida preventiva para a redução da prevalência da hipertensão arterial e suas complicações na população.(21) A elevação da escolaridade aumenta a adesão ao tratamento da hipertensão, quando utilizado o instrumento de Batalla. O nível educacional tem sido apontado como o fator socioeconômico mais importante no estado de saúde, principalmente na saúde cardiovascular.(22)

Comparando indivíduos com sobrepeso e indivíduos com peso normal, o risco de desenvolver hipertensão aumenta em 180%. Diante disso, o incentivo para a redução do peso deve ser considerado prioritário, pois até mesmo pequenas perdas podem resultar em significativa queda da pressão arterial. Além disso, há uma relação importante da não adesão ao tratamento anti-hipertensivo em indivíduos com sobrepeso. A prevalência de não adesão foi significativamente maior em usuário com valores de índice de massa corporal e de circunferência da cintura indicativos de obesidade, corroborando dados de estudo semelhante a este.(23)

A dificuldade na adesão e o desinteresse pelo tratamento aumentaram quando não houve envolvimento da família no cuidado diário com o doente e quando o relacionamento entre seus membros era conflituoso. No entanto, quando a família assume seu papel de cuidador, percebe-se resposta satisfatória no controle da doença, como comprovado pela análise de Haynes-Sackett na presente casuística e em estudos anteriores.(24,25)

Na análise multivariada com o teste de Morisky-Green, foi verificado que pessoas que têm baixa classe social aderem mais ao tratamento quando comparadas a pessoas de alta classe social. Isso é justificado, pois o teste de Morisky-Green pode ser interpretado como pouco relacionado com as condições socioeconômicas, perdendo sua sensibilidade se comparado ao teste de Haynes-Sackett.

Com relação à análise multivariada empregando o teste de Haynes-Sackett, pode-se verificar que indivíduos de baixa classe social apresentam menor adesão ao tratamento. Nesse sentido, alguns estudos corroboram uma prevalência de não aderência à terapia anti-hipertensiva fortemente associada aos usuários das classes sociais mais baixas.(25,26)

No tocante ao estado civil, o fato de morar com o companheiro foi identificado como um fator de risco para a adesão ao tratamento, pois observou-se que hipertensos que moravam acompanhados apresentaram incremento de 145% de serem aderidos ao tratamento. Ainda, o presente estudo teve como significante o fato de os hipertensos estarem casados ou conviverem com familiares com a adesão ao tratamento, conforme evidenciado na literatura.(27) O mesmo também foi observado na Etiópia, onde participantes casados eram duas vezes mais propensos a aderir a medicação anti-hipertensiva em comparação com divorciado.(28)

A associação entre hipertensão arterial e obesidade foi comprovada por diversos estudos.(29,30) Na presente casuística, pessoas eutróficas tiveram 4,11 mais probabilidade de aderir ao tratamento do que as obesas. A obesidade diminui a adesão ao tratamento. Isso requer a adoção de medidas ofertadas como estratégias agregadas da adesão, incentivo e orientações sobre a importância da prática de atividades físicas, e controle do peso, as quais constituem medidas essenciais para a redução dos níveis pressóricos e, consequentemente, para a promoção da saúde e a redução da incidência dos eventos cardiovasculares.(24)

Conclusão

A prevalência de adesão ao tratamento variou de acordo com o instrumento de avaliação utilizado. Os fatores preditores associados à adesão ao tratamento foram: classe socioeconômica elevada, morar com companheiro e ser eutrófico.

REFERÊNCIAS

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