Prevalence and factors associated with the occurrence of adverse events following immunization in children

Prevalence and factors associated with the occurrence of adverse events following immunization in children

Autores:

Michelle Caroline da Silva Santos,
Valderlane Bezerra Pontes Netto,
Maria Sandra Andrade

ARTIGO ORIGINAL

Acta Paulista de Enfermagem

On-line version ISSN 1982-0194

Acta paul. enferm. vol.29 no.6 São Paulo Nov./Dec. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/1982-0194201600088

Introdução

As vacinas são consideradas produtos seguros, eficazes na prevenção de doenças e de custo-benefício favorável. Em seu contexto histórico, é possível identificar avanços importantes na redução dos índices de morbimortalidade e no controle das doenças transmissíveis, como por exemplo, a erradicação mundial da varíola e da febre amarela urbana, no Brasil.1-6

Para o alcance e manutenção dessas conquistas é necessário ampliar e manter altas e homogêneas coberturas vacinais. Importante destacar que, com a elevação da cobertura vacinal surge também a probabilidade da ocorrência de eventos adversos pós-vacinação (EAPV), uma vez que as vacinas são produtos farmacológicos e não estão isentas de ocasionar eventos adversos em determinados indivíduos.1-3, 7,8

Um EAPV é qualquer ocorrência indesejada após a vacinação e que, não necessariamente, possui uma relação causal com o uso de uma vacina ou outro imunobiológico. A grande maioria dos EAPV são locais e sistêmicos leves, por isso as ações de vigilância são voltadas para os eventos moderados e graves. Esses eventos estão relacionados a diversos fatores, como a tipologia da vacina, as condições de administração, armazenamento e as características dos vacinados. A intensidade dos mesmos, no entanto, pode variar desde efeitos leves e esperados, como as manifestações locais, até os eventos moderados, graves ou casos raros classificados como inesperados.1,3,7

Considerando as características dos vacinados, os grupos mais acometidos por EAPV são as crianças, principalmente no primeiro ano de vida. Destaca-se que é nessa faixa etária onde há maior concentração de vacinas ofertadas e doses aplicadas. Estudos realizados em São Paulo e Teresina demonstraram que a distribuição de EAPV, nessa faixa etária, foi de aproximadamente 80% em relação aos demais segmentos populacionais.7-9 Neste sentido, é importante realizar a triagem e o monitoramento pós-vacinação para que os EAPV sejam identificados e as medidas de intervenção adotadas em tempo oportuno, permitindo manter a qualidade, a segurança dos vacinados e a preservação da confiabilidade na vacinação.1,9

Os EAPV devem ser criteriosamente investigados na tentativa de evitar uma relação equivocada de causa e efeito com a vacinação, em especial, nos casos em que ocorre a associação temporal do agravo com a aplicação de vacinas. Em contrapartida, os casos confirmados de EAPV devem ser divulgados para que os profissionais de saúde possam tomar conhecimento e adotar medidas específicas de prevenção dos mesmos, assim como realizar as indicações de vacinação com maior segurança.1,3,6

Considerando a relevância das informações sobre EAPV para a saúde pública, para a segurança na vacinação e a manutenção dos avanços no controle das doenças imunopreveníveis, este estudo teve como objetivo caracterizar os EAPV ocorridos em crianças menores de um ano.

Métodos

Trata-se de um estudo transversal, retrospectivo, de abordagem quantitativa. A base de informações foi composta por dados secundários provenientes do Sistema de Imunização de Eventos Adversos Pós-Vacinação (SI-EAPV) do Programa Estadual de Imunização (PEI) do estado de Pernambuco, localizado na região Nordeste do Brasil, com população estimada de 9.208.550 habitantes, tendo 137.885 (1,5%) entre zero a um ano de idade.10

A amostra do estudo constituiu-se pela totalidade de casos de EAPV ocorridos em crianças menores de um ano (11 meses e 29 dias), no período de 2009 a 2013. A escolha do período se justifica pelo fato de, em 2009, ter sido organizado o fluxo de notificação de EAPV, além de ter ocorrido um treinamento com os profissionais da rede e 2013 por ser o último ano no qual o banco de dados se encontrava consolidado, no período da coleta dos dados. Foram excluídos três casos por falta de informações consideradas necessárias para análise do estudo, uma referente ao tipo do evento adverso e duas relacionadas ao tipo de vacina. A coleta de dados ocorreu entre setembro de 2014 e fevereiro de 2015.

Elegeu-se como variável dependente o evento adverso pós-vacinação, classificado de acordo com as opções contidas na ficha de notificação. Nesse contexto, foram considerados os dez eventos mais frequentes. Os demais foram categorizados como outros e representaram 27(3,3%) do total dos EAPV.

As variáveis independentes foram as relacionadas ao vacinado (sexo, idade - com base nos intervalo e número de vacinas do calendário nacional de vacinação); ao tempo (intervalo entre a aplicação da vacina e a ocorrência do evento adverso - tempo decorrido); ao imunobiológico (vacina associada ao evento adverso, dose vacinal); e desfecho do caso relacionado à intensidade do evento, à conduta adotada e à evolução do caso. A variável intensidade do EAPV foi categorizada em eventos graves (consistem nos casos que necessitaram de internação por pelo menos 24 horas, de acordo com o Manual de Vigilância Epidemiológica de Eventos Adversos Pós-Vacinação) e não graves.1 As categorizações das variáveis independentes estão descritas no quadro 1.

Quadro 1 Categorização das variáveis independentes relacionadas ao vacinado, tempo, imunobiológico e desfecho do caso 

Itens avaliados Variável Categorização
Relacionados ao vacinado Sexo Masculino; Feminino
Idade em meses Menos de 3; de 3 a menos de 6; de 6 a menos de 9; de 9 a menos de 1 ano
Relativos ao tempo Tempo decorrido Menos de 24 horas; de 1 a 7 dias; maior do que 7 dias
Relativos ao imunobiológico Vacina associada ao evento Tetravalente; Pentavalente; Vacina Oral de Rotavírus Humano (VORH); BCG; Pneumocócica 10 valente (Pn10); Meningocócica C (MnC); Hepatite B (HB); Influenza (INF); Outros (DTP, Tríplice viral, VIP/VOP) *
Dose vacinal 1ª; 2ª; 3ª; Outros (1º Reforço e campanha)
Desfecho do caso Intensidade Grave e não grave
Conduta Mantido esquema vacinal; contraindicação com e sem troca do esquema vacinal; sem conduta
Evolução Com sequelas e sem sequelas

*A nomenclatura das vacinas está de acordo com o Calendário Nacional de Vacinação do Ministério da Saúde

Foi realizada a análise descritiva dos dados a partir das distribuições de frequências relativa e absoluta para todas variáveis. O coeficiente de incidência do EAPV foi calculado considerando o número de eventos notificados pelo quantitativo das doses de vacinas aplicadas no período do estudo, multiplicado por 100.000 doses. A associação entre a variável dependente e as independentes foi realizada utilizando o teste qui-quadrado de Pearson. Para as associações foram consideradas as diferenças entre todas as vacinas e uma comparação entre as vacinas com maior frequência de EAPV na população em estudo. A significância estatística adotada foi de 5% (p < 0,05) e o software utilizado para análise foi o STATA versão 12.0.

O estudo está de acordo com a Resolução 466/12 do Conselho Nacional de Saúde e foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa do Hospital Universitário Oswaldo Cruz/Pronto-Socorro Cardiológico de Pernambuco, sob o protocolo nº 741.975/2014.

Resultados

Entre 2009 e 2013 foram notificados ao Programa Estadual de Imunização de Pernambuco 1.167 casos de EAPV, dos quais 810 (69,4%) foram em menores de um ano de idade. As maiores frequências de notificação de casos ocorreu em 2012 (33,9%) e 2013 (30,2%) e a menor frequência em 2009 (3,2%). Em 2010, ocorreram 10,9% casos e em 2011 (21,7%). A incidência média de EAPV por doses aplicadas no período estudado foi de 6,76 por 100.000 doses.

Observou-se que 711 (87,9%) dos casos de eventos adversos foram relacionados às duas primeiras doses de vacina. A ocorrência dos eventos predominou nas primeiras 24 horas (Tabela 1), sendo 515 (82,7%) ocorrido nas primeiras seis horas a partir do momento da vacinação.

Tabela 1 Distribuição dos casos de eventos adversos pós-vacinação em menores de um ano (n=810) 

Variáveis n(%)
Idade
Menos de 3 meses 166(20,5)
De 3 a menos de 6 meses 399(49,2)
De 6 a menos de 9 meses 187(23,1)
De 9 a menos de 1 ano 58(7,2)
Sexo
Feminino 392(48,4)
Masculino 418(51,6)
Dose
1ª dose 476(58,9)
2ª dose 235(29,0)
3ª dose 80(9,8)
Outros 19(2,3)
Tempo decorrido*
Menos de 24 horas 623(80,2)
De 1 a 7 dias 124(16,0)
Mais de 7 dias 30(3,8)

*33 casos sem informação do tempo do evento

Do total de eventos adversos 668 (82,5%) foram relacionados às vacinas tetravalente e pentavalente e 142 (17,5%) as seguintes vacinas: VORH 27 (3,3%), BCG 26 (3,1%), Pn10 17 (2,1%), MnC 17 (2,1%), HB 14 (1,8%), INF 14 (1,8%) e outras vacinas (VIP/VOP, raiva humana e febre amarela) 27 (3,3%). Os casos de eventos adversos relacionados à vacina tetravalente (difteria, tétano e pertussis combinada com a vacina Haemophilus influenzae tipo b) corresponderam a 365 (45,1%) e os relacionados com a vacina pentavalente (difteria, tétano, pertussis, hepatite B (recombinante) e Haemophilus influenzae tipo b) 303 (37,4%). As associações dos casos de EAPV segundo as vacinas aplicadas estão demonstradas na tabela 2.

Tabela 2 Associação de eventos adversos pós-vacinação em menores de um ano segundo o imunobiológico administrado e as variáveis analisadas 

Variáveis Imunobiológicos p-value p-value Tetra versus Penta
Tetravalente (n=365) Pentavalente (n=303) Outras (n = 142)
Idade
Menos de 3 meses 51(14,0) 71(23,5) 44(31,0) < 0,001 < 0,001
De 3 a menos de 6 meses 188(51,5) 167(55,1) 44(31,0)
De 6 a menos de 9 meses 105(28,8) 51(16,8) 31(21,8)
De 9 a menos de 1 ano 21(5,7) 14(4,6) 23(16,2)
Sexo
Feminino 169(46,3) 148(48,8) 75(52,8) 0,411 0,512
Masculino 196(53,7) 155(51,2) 67(47,2)
Dose
1ª dose 183(50,1) 207(68,3) 86(60,6) < 0,001 < 0,001
2ª dose 129(35,3) 73(24,1) 33(23,2)
3ª dose 53(14,6) 23(7,6) 4(2,8)
Outros 0(-) 0(-) 19(2,3)
Tempo decorrido
Menos de 24 horas 306(86,9) 246(84,8) 71(52,6) < 0,001 0,145
De 1 a 7 dias 46(13,1) 41(14,2) 37(27,4)
Mais de 7 dias 0(-) 3(1,0) 27(20,0)
Conduta
Contra indicação com troca de esquema 246(67,4) 191(63,1) 20(14,2) < 0,001 0,003
Contra indicação sem troca de esquema 3(0,8) 1(0,3) 28(19,8)
Mantido o esquema 102(28,0) 110(36,3) 54(38,3)
Sem conduta 14(3,8) 1(0,3) 39(27,7)

Associação estatisticamente significante (p < 0,05)

Ao associar as vacinas com os tipos de EAPV o episódio hipotônico hiporresponsivo (EHH) foi o mais frequente entre os casos de EAPV. Observa-se diferença estatisticamente significante do EHH relacionada a vacina tetravalente quando comparada com a pentavalente e as outras vacinas (Tabela 3).

Tabela 3 Associação dos casos de eventos adversos pós-vacinação em menores de um ano segundo o imunobiológico administrado e a reação adversa 

Evento adverso Imunobiológicos p-value p-value Tetra versus Penta
Tetravalente (n = 365) Pentavalente (n = 303) Outras (n = 142)
Episódio Hipotônico Hiporresponsivo 142(38,9) 69(22,8) 8(5,6) < 0,001† 0,001†
Febre > 39,5ºC 14(3,8) 20(6,6) 1(0,7)
Dor, rubor e calor 6(1,7) 5(1,6) 12(8,5)
Febre < 39,5ºC 31(8,5) 26(8,6) 5(3,5)
Choro persistente 34(9,3) 30(9,9) 18(12,7)
Outros eventos graves e/ou inusitados 56(15,3) 41(13,5) 10(7,0)
Convulsão febril 7(1,9) 6(1,9) 7(4,9)
Abscesso local quente 9(2,5) 16(5,3) 19(13,4)
Exantema generalizado 30(8,2) 39(12,9) 10(7,0)
Urticária generalizada 6(1,7) 12(4,0) 6(4,3)
Outros eventos 30(8,2) 39(12,9) 46(32,4)

Associação estatisticamente significante (p < 0,05)

A evolução dos casos de EAPV para 807 (99,6%) foi de cura sem sequelas. Um caso, classificado como um evento grave e/ou inusitado, evoluiu para cura com sequela e dois casos, classificados como febre maior de 39,5oC e abscesso local frio, não registraram a evolução. Quanto à conduta adotada pela equipe de saúde, 457 (56,4%) consideraram como contraindicação a vacinação e consequente troca de esquema, 267 (32,9%) mantiveram o esquema, 54 (6,7%) não adotaram nenhuma conduta e 32 (3,9%) consideraram como contraindicado, porém sem troca de esquema. Em relação à intensidade do evento, 776 (95,8%) dos eventos notificados foram classificados como não graves e 34 (4,2%) como graves.

Discussão

O presente estudo possui limitações comuns àqueles que utilizam dados secundários, podendo existir subnotificação da ocorrência de EAPV e preenchimento inadequado da ficha de investigação, interferindo na qualidade das informações coletadas. Apesar disso, considerando o tamanho da amostra, os resultados do estudo fornecem informações importantes para as ações de monitoramento de EAPV, além de contribuir para atualização dos profissionais de saúde e gestores de serviços que atuam na área de vacinação. Destaca-se ainda que são escassos os artigos publicados que analisam a ocorrência de EAPV no primeiro ano de vida.

Destaca-se que o aumento do percentual de EAPV durante o período estudado, deve, provavelmente, ao treinamento realizado com os profissionais da rede e a organização do fluxo de notificação no estado, em 2009, que pode ter contribuído para uma melhoria no registro e detecção de novos casos. É importante, no entanto, salientar que desde 2005 a notificação de qualquer caso suspeito ou confirmado de EAPV já era considerada obrigatória em todo território nacional.

Discussões sobre os riscos da vacinação devem ser equilibrados pelo reconhecimento dos benefícios já bem estabelecidos na prevenção de doenças e nas incapacidades e mortes causadas pelas doenças infecciosas. Nesse sentido, a identificação dos EAPV possibilita o aprimoramento das rotinas de atenção à saúde da criança e contribui para intervenções visando à segurança dos vacinados, uma vez que a vigilância passiva de EAPV pode ser considerada útil no monitoramento da segurança vacinal.2,6,7

A equipe de Enfermagem desempenha uma destacada atuação como vacinadores e supervisores de sala de vacina, monitorando os aspectos técnicos e operacionais, além de exercer um papel importante na triagem e no acompanhamento da situação vacinal dos usuários, em especial na atenção primária à saúde. Dessa forma, os estudos sobre EAPV podem contribuir na identificação de oportunidades de melhorias das ações desenvolvidas em salas de vacinação. Pode, ainda, contribuir para reduzir as perdas de oportunidades de vacinação, visto que as decisões por ocasião da triagem vacinal e acompanhamento pós-vacinação serão tomadas com maior segurança.3,11,12

Medidas específicas para prevenir EAPV, incluindo a triagem adequada para verificar possíveis contra indicação ou necessidades de adiamento da vacinação, capacitação continuada dos vacinadores e a educação em saúde podem contribuir para a qualidade e segurança da vacinação. E assim assegurar os avanços verificados na erradicação e no controle das doenças prevenidas pela imunização. Uma vez que, as evidências sobre a segurança e eficácia das vacinas aplicadas na rotina de vacinação em crianças e adultos são bastante favoráveis.1,2,12,13

Os índices de coberturas vacinais no Brasil são considerados elevados, principalmente tratando-se da população infantil, conferindo ao país um reconhecimento mundial quanto às ações de vacinação, considerada uma medida de destacada abrangência social.1,14 A alta frequência de EAPV em crianças menores de um ano, encontrada nesta pesquisa, foi também evidenciado em outros estudos.7,8,15 Destaca-se que nesta faixa etária há uma maior concentração de vacinas aplicadas e o sistema imunológico ainda está imaturo, aumentando a probabilidade de processo infeccioso, alergias e alterações clínicas que podem ser associadas à vacinação.13,14,16,17

Constatou-se neste estudo que os EAPV foram predominantes nas crianças com idade entre 3 a 6 meses de vida. Nessa idade é recomendado seis das 15 doses de vacinas para menores de um ano. Observou-se, também, registro de EAPV em crianças entre nove meses a um ano de idade, período em que não há doses de vacinas recomendadas, especificamente. O que sugere a vacinação de crianças com o esquema vacinal atrasado ou de início tardio.

Apesar da leve predominância percentual do sexo masculino, não houve diferença estatística significante de EAPV entre os sexos. Em estudo do CDC,12 com crianças, as notificações foram na mesma proporção entre os sexos. Estudo realizado no Uruguai,16 observou uma maior frequência para o sexo masculino entre dois meses e 17 anos e em estudo realizado no Brasil evidenciou o predomínio do sexo feminino.15

As vacinas, tetravalente e a pentavalente foram as que apresentaram maior frequência de EAPV. Outros estudos associaram EAPV com a DTP15 e BCG.8 A vacina tetravalente foi implantada na rotina de vacinação do Sistema Único de Saúde em 2002 e a vacina pentavalente em 2012. A combinação de vacinas possibilita a redução de custos operacionais e logísticos e fornece maior conforto aos usuários (deslocamentos a unidade de saúde, número de injeções aplicadas e redução da ocorrência de manifestações locais, associadas a menor exposição).1,18 Esses aspectos podem contribuir para o aumento da adesão a vacinação.

O componente vacinal relacionado a toxina pertussis, utilizado na prevenção da coqueluche, é considerada altamente imunogênico. No entanto, pode ocasionar diversas alterações da resposta imune, como a hipersensibilidade e desenvolvimento de doenças autoimunes. A associação de EAPV com as vacinas DPT, tetravalente e pentavalente que contém esta toxina não pode ser confirmada, a menos que testes específicos sejam realizados para comprovar a relação causal considerando todos os componentes presentes nesses imunobiológicos.7,17,19

Entretanto, após a implantação da vacina tetravalente, alguns estados registraram aumento de EAPV, principalmente o EHH.19 Neste estudo, o EHH foi o evento mais prevalente, além de se registrar outros eventos graves e inusitados, associados à vacina tetravalente e pentavalente. Em estudos realizados em Teresina e Campo Grande o EHH ficou no segundo e quarto8,15 evento mais predominante, a febre > 39,5ºe a dor, rubor e calor como mais prevalente.

Existem poucos estudos específicos de frequência de EHH associado a vacina pentavalente. O EHH é caracterizado pela tríade: diminuição do tônus muscular, ausência de respostas aos estímulos e alteração na cor da pele. A patogenia do EHH ainda é desconhecida, sendo uma condição rara e que resulta em sinais transitórios. A maioria dos casos é relatada em crianças com menos de dois anos de idade.1,20

Quanto ao desfecho dos EAPV a conduta na maioria dos casos foi a contraindicação com troca do esquema vacinal, especialmente relacionadas as vacinas tetravalente e pentavalente. Na maioria dos casos a intensidade do EAPV foram consideradas não grave e a evolução cura sem sequelas. Outros autores também relataram um desfecho semelhante.8,12,13

As informações sobre a segurança das vacinas, as contraindicações e a possível ocorrência de EAPV são necessárias para o controle de doenças imunopreveníveis. O desconhecimento da população pode comprometer a confiabilidade no produto e a cobertura vacinal, como já observado com a vacina contra a influenza em 2012.20,21

Diante do exposto, sugere-se o aprimoramento das ações de vigilância quanto ao EAPV, o rigor no preenchimento da ficha de notificação, a educação continuada nos serviços de saúde, com o intuito de atualizar os profissionais que atuam em sala de vacinas e orientar a população sobre a temática, para aumentar a confiabilidade, a qualidade e a segurança da vacinação.1,2,22

Conclusão

Os EAPV foram mais frequentes nas vacinas pentavalentes e tetravalentes e nestes casos foram associados com a idade (crianças menores) e a dose (primeira dose). O EHH foi o evento mais prevalente. A identificação dos EAPV pode contribuir para o aprimoramento da vigilância, das rotinas de atenção à saúde da criança e contribuir para intervenções visando a segurança dos vacinados. Sugere-se a realização de estudos que possibilitem o aprofundamento das relações causais dos EAPV com os componentes vacinais dos imunobiológicos mais reatogênicos.

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