Prevalência de adiposidade abdominal em adultos de São Francisco do Conde, Bahia, Brasil, 2010

Prevalência de adiposidade abdominal em adultos de São Francisco do Conde, Bahia, Brasil, 2010

Autores:

Luciana Carneiro de Oliveira,
Luís Eduardo Macedo West,
Edberig Almeida Araújo,
Jamyllo Sales Brito,
Carlito Lopes Nascimento Sobrinho

ARTIGO ORIGINAL

Epidemiologia e Serviços de Saúde

versão On-line ISSN 2237-9622

Epidemiol. Serv. Saúde vol.24 no.1 Brasília jan./mar. 2015

http://dx.doi.org/10.5123/S1679-49742015000100015

ABSTRACT

OBJECTIVE:

to estimate the prevalence of abdominal obesity and to identify associated factors among adults in the municipality of São Francisco do Conde, state of Bahia, Brazil.

METHODS:

this was a cross-sectional study with a random sample of 456 individuals aged 18 years and above, enrolled in the Family Health Program in São Francisco do Conde-BA in 2010; the presence of abdominal adiposity was determined by measuring the waist circumference.

RESULTS:

overall abdominal obesity prevalence of was 62.1%. It was 76.9% in women and was associated with increasing age and having more than three children. Prevalence was 32.9% among men 32.9% and was and higher former smokers and those who had never smoked. Association between abdominal adiposity and systemic arterial hypertension was observed in both genders.

CONCLUSION:

there was high prevalence of abdominal obesity, especially in women.

Key words: Obesity, Abdominal; Waist Circumference; Cross-Sectional Studies

RESUMEN

OBJETIVO:

estimar la prevalencia de adiposidad abdominal e identificar factores asociados en adultos en el municipio de São Francisco do Conde, estado de Bahia, Brasil.

MÉTODOS:

estudio transversal con muestra aleatoria de 456 individuos con edad igual y superior a 18 años, registrados en la Estrategia Salud de la Familia del municipio de São Francisco do Conde-BA en 2010; la presencia de adiposidad abdominal fue determinada por la medida de la circunferencia de la cintura.

RESULTADOS:

la prevalencia de adiposidad abdominal fue de 62,1%; en las mujeres, esa prevalencia fue de 76,9% y estuvo asociada con mayor edad (más de 24 años) y con tener más de tres hijos; en los hombres, la prevalencia fue de 32,9%, superior entre los que refirieron nunca haber fumando o ser ex fumantes; también se observó asociación entre adiposidad abdominal e hipertensión arterial sistémica, en ambos sexos.

CONCLUSIÓN:

se observó elevada prevalencia de adiposidad abdominal, especialmente en mujeres.

Palabras-clave: Obesidad Abdominal; Circunferencia de la Cintura; Estudios Transversales

Introdução

O excesso de peso é um importante distúrbio nutricional, tanto nos países desenvolvidos como naqueles em desenvolvimento.1 , 2 Nos países de renda mais elevada, o excesso de peso atinge principalmente a população menos privilegiada, contrapondo-se aos dados de países em desenvolvimento onde a prevalência do excesso de peso é mais relevante na população de maior renda.3

No Brasil, desde meados da década de 1970, inquéritos nutricionais revelaram o crescimento da prevalência de sobrepeso e obesidade nos diversos grupos populacionais, atingindo cerca da metade dos brasileiros a partir de 1989. No entanto, estudos recentes têm apontado maior ocorrência do excesso de peso entre os mais pobres, especialmente entre as mulheres brasileiras.1 , 4 , 5

Alguns pesquisadores têm se preocupado em caracterizar o tipo de obesidade a atingir as populações, uma vez que o acúmulo de gordura abdominal oferece maior risco à saúde quando comparado com outras formas de distribuição da gordura no corpo.6 , 7

Medidas antropométricas, entre as quais a circunferência da cintura (CC), vêm sendo utilizadas em estudos populacionais por serem capazes de fornecer estimativas da gordura abdominal, diretamente relacionada à quantidade de tecido adiposo visceral,8 - 10 e por serem reconhecidas como fator de risco para distúrbios metabólicos e doenças cardiovasculares.11

Diversos fatores têm sido apontados como associados ao desenvolvimento de obesidade abdominal, destacando-se os fatores socioeconômicos e os comportamentais.6 , 12 Segundo estudo conduzido por Olinto e colaboradores no estado do Rio Grande do Sul, a baixa escolaridade foi identificada como a variável socioeconômica mais importante.12

No Brasil, ainda são poucos os estudos populacionais sobre a caracterização do estado antropométrico em adultos e a avaliação da distribuição de tecido adiposo na região abdominal,6 não obstante o padrão de distribuição da gordura corporal possa ter implicações diferenciadas na saúde dos indivíduos.

O presente estudo objetiva estimar a prevalência de adiposidade abdominal e identificar fatores associados em adultos residentes no município de São Francisco do Conde, estado da Bahia, Brasil.

Métodos

Trata-se de um estudo transversal de base populacional derivado do projeto de pesquisa intitulado 'Proposta de Vigilância à Saúde para a detecção de distúrbios psíquicos menores e hipertensão arterial em São Francisco do Conde-Bahia-Brasil', realizado em 2010. A pesquisa foi aprovada e financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (FAPESB), e conduzida por pesquisadores da Sala de Situação e Análise Epidemiológica e Estatística (SSAEE) da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), na Bahia, de outubro a dezembro de 2010.

São Francisco do Conde-BA é um município localizado na mesorregião do Recôncavo Baiano, distando 67 km da capital do estado, Salvador-BA. Em 2010, esse município possuía 31.703 habitantes, distribuídos por sexo em 16.073 mulheres (50,7%) e 15.630 homens (49,3%). São Francisco do Conde-BA apresenta a maior arrecadação per capita entre todos os municípios da América Latina, valores estes oriundos da arrecadação de impostos de uma das maiores refinarias de petróleo do Brasil e única do Norte-Nordeste. O município apresentava população predominantemente negra e índice de desenvolvimento humano (IDH) de 0,65.13

Foram coletados dados de uma amostra aleatória de indivíduos com idade igual ou superior a 18 anos, cadastrados junto à Estratégia Saúde da Família (ESF) local. O tamanho da amostra considerou uma prevalência global da hipertensão arterial no Brasil de 25% da população adulta,14 intervalo de confiança de 95% (IC95%) e um erro amostral de 5%. Foi considerado um efeito de desenho (DEFF = design effect) de 1,5 para corrigir o tamanho da amostra, levando-se em conta que a população foi proveniente de várias unidades da ESF. Com essa correção, o tamanho da amostra foi definido em 450 indivíduos com idade igual ou superior a 18 anos (300 x 1,5=450). Essa amostra permite estimar a prevalência de adiposidade abdominal como resultado deste estudo, com um poder estatístico de 99%.

Para proceder à seleção dos sujeitos da pesquisa, foi utilizada a técnica de amostragem aleatória estratificada e sistemática. Foram identificadas 29 microáreas cadastradas no Sistema de Informação da Atenção Básica (Siab), da ESF. Cada microárea apresentava aproximadamente 150 famílias e foram sorteadas 10% do total das famílias cadastradas por microárea. Dessa forma, obteve-se uma amostra com aproximadamente 450 famílias. Afinal, foram sorteadas 456 famílias e de cada família foi selecionado, para entrevista, um indivíduo adulto que atendesse aos critérios de inclusão. Caso o indivíduo sorteado não fosse encontrado após duas visitas ou em caso de óbito do mesmo, fazia-se sua substituição por outro indivíduo da mesma família, buscando-se manter a semelhança em relação a faixa etária e sexo. Caso não fosse possível manter as mesmas características em relação à faixa etária e sexo, outro indivíduo era entrevistado, buscando-se garantir o prazo de 90 dias para a realização da coleta de dados. Foram excluídos do estudo indivíduos acamados, gestantes e portadores de deficiência mental. Foram considerados recusas os indivíduos que decidissem não participar do estudo após a leitura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

A coleta de dados foi realizada no período de outubro a dezembro de 2010, por meio de visitas domiciliares agendadas e realizadas com os participantes em seu respectivo endereço, respeitando-se a distribuição por microárea pertencente à área de abrangência da unidade de Saúde da Família. Entrevistadores (10 estudantes de medicina) previamente treinados aplicaram questionário padronizado contendo informações sobre condições socioeconômicas, demográficas e hábitos de vida, além da aferição de medidas de pressão arterial, peso, estatura e circunferência da cintura.

Com o objetivo de estimar o tempo necessário para aplicação do instrumento, bem como sua clareza e entendimento, foi realizado estudo-piloto em uma microárea pertencente à USF George Américo III, no município de Feira de Santana-BA. A coleta de dados foi iniciada após os ajustes sugeridos pelo estudo-piloto.

A medida da circunferência da cintura foi realizada com fita métrica inelástica (confeccionada em material de fibra de vidro, ou fiberglass), com capacidade de até 150 cm e grau de precisão de 1 cm. Os indivíduos foram medidos descalços, em posição ereta, braços ao longo do corpo, pés juntos, com o olhar voltado para o horizonte, com o peso dividido entre ambas as pernas, posicionados com os pés unidos e contra uma superfície plana (parede). A medida da CC foi tomada no ponto médio da distância entre a borda inferior do gradil costal e o ilíaco, no plano horizontal.15 Os pontos de corte dessa medida estabelecem o grau de risco para doenças crônicas não-transmissíveis. A circunferência da cintura foi categorizada utilizando-se os seguintes pontos de corte: normal (<80 cm para mulheres; e <94 cm para homens); de risco elevado (80≥CC<88 cm para mulheres; e 94≥CC<102 cm para homens); e de risco muito elevado (≥88 cm para mulheres; e ≥102 cm para homens).16 Para o presente estudo, utilizou-se pontos de corte da presença de adiposidade abdominal: nas mulheres, de CC≥80 cm; e entre os homens, de CC≥94 cm. A padronização e a aferição das medidas antropométricas foram realizadas dentro das recomendações do Departamento de Nutrição da Universidade de São Paulo.17

As variáveis socioeconômicas e demográficas estudadas foram:

  • idade em anos completos no momento da entrevista, posteriormente categorizada em seis estratos: 18-24, 25-34, 35-44, 45-54, 55-64 e 65 ou mais anos;

  • renda familiar per capita, de acordo com informação dos componentes da família, estratificada segundo a renda mensal familiar em salários mínimos (SM) - menor que um (<1 SM), entre 1 e 2 (1-2 SM) e igual ou maior que 3 salários mínimos (≥3 SM) -, sendo o valor do salário mínimo vigente, à época do estudo, de R$ 510,00;

  • escolaridade, coletada em nível de estudo e categorizada como Analfabeto a Ensino Fundamental incompleto, Ensino Fundamental completo a Ensino Médio incompleto e Ensino Médio completo a Ensino Superior; e

  • situação conjugal, dividida em duas categorias: solteiro/separado/viúvo; e casado/união estável.

Em relação aos hábitos de vida, a variável tabagismo foi categorizada de acordo com o uso referido: não fuma, fuma diariamente e ex-fumante.

A variável relacionada à prática de atividade física foi dicotomizada em 'sim' ou 'não', e a respectiva frequência foi dividida em três estratos: pratica uma vez na semana, pratica 2 a 4 vezes na semana e mais de 4 vezes na semana.

A variável hipertensão arterial também foi dicotomizada em 'sim' ou 'não', segundo a resposta do entrevistado (morbidade referida) e/ou o resultado da medida de pressão arterial (PA): ≥140 mmHg para PA sistólica; e/ou ≥90 mmHg para a PA diastólica. No presente estudo, não foi investigado o uso de medicamentos anti-hipertensivos.

Com o intuito de detectar possíveis erros de digitação, foram construídos dois bancos de dados pelo programa EpiData versão 3.1. Após a verificação de erros e inconsistências, a análise dos dados utilizou-se dos programas Statistical Package for the Social Sciences (SPSS(r)) versão 9.0 for Windows18 e OpenEpi versão 3.03.

A adiposidade abdominal foi considerada como variável-desfecho. Foram calculadas as frequências absolutas e relativas das variáveis qualitativas e as medidas de tendência central e de dispersão das variáveis numéricas. Realizou-se a análise bivariada entre as variáveis sociodemográficas, socioeconômicas, hábitos de vida e estado nutricional por meio do teste de x² (qui-quadrado) de Pearson e do teste exato de Fisher. Outrossim, foram calculadas as razões de prevalência (RP) e respectivos intervalos de confiança de 95%. Nas análises, considerou-se o nível de significância estatística de 5%.

O estudo foi aprovado pela Secretaria Municipal de Saúde de São Francisco do Conde-BA e pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS): Certificado de Apresentação para Apreciação Ética (CAAE) no 0008.0.059, em conformidade com a Resolução do Conselho Nacional de Saúde (CNS) no 466, de 12 de dezembro de 2012.

Resultados

Dos 456 indivíduos inicialmente elegíveis para o estudo, 72 (15,8%) não foram encontrados no momento da visita, sendo substituídos com base nos critérios adotados pelo estudo. Não houve recusas. A maioria dos participantes foi do sexo feminino (66,2%) e sua média de idade foi de 43,2 anos (desvio-padrão: 15,6). A distribuição por sexo das características sociodemográficas e socioeconômicas e hábitos de vida da população avaliada consta na Tabela 1. A maior parte da amostra estudada encontrava-se nas faixas etárias de 25-34 (25,9%) e 35-44 anos (21,1%). Observou-se maior número de indivíduos casados, com atividade remunerada e renda mensal de 1 a 2 salários mínimos.

Tabela 1 Caracterização da amostra estudada segundo sexo no município de São Francisco do Conde, Bahia, 2010 

Nota: dados válidos, excluídos os ignorados.

A prevalência de adiposidade abdominal nos adultos de São Francisco do Conde-BA foi de 62,1%, sendo de 76,9% para o sexo feminino e de 32,9% para o sexo masculino, especialmente no subgrupo de risco substancialmente aumentado (Tabela 1).

No sexo masculino, observou-se maior prevalência de adiposidade abdominal entre os indivíduos na faixa etária de 35 a 44 anos, ex-fumantes ou que indicaram nunca terem fumado, e com hipertensão arterial sistêmica referida (1,75; IC95%: 1,12-2,71) (Tabela 2).

Tabela 2 Prevalência de adiposidade abdominal segundo característica socioeconômica, hábitos de vida e hipertensão autorreferida da população masculina adulta ≥18 anos de idade (n=456) no município São Francisco do Conde, Bahia, 2010 

a) Respostas válidas, excluídas as ignoradas.

b) RP: razão de prevalência

c) IC95%: intervalo de confiança de 95%

d) Teste do qui-quadrado de Pearson

e) Teste exato de Fisher

No sexo feminino, a maior prevalência de adiposidade abdominal ocorreu na faixa etária de 55 a 64 anos; mulheres mais jovens (18-24 anos) apresentaram menor prevalência de adiposidade abdominal (0,56; IC95%: 0,35-0,89) do que aquelas com mais de 65 anos. As mulheres que informaram ter mais de 3 filhos apresentaram maior prevalência do desfecho. Entre aquelas que referiram hipertensão arterial, a prevalência do desfecho foi 1,24 (IC95%: 1,10-1,39) vezes superior quando comparada com as respectivas prevalências observadas em mulheres que não referiram a morbidade (Tabela 3).

Tabela 3 Prevalência de adiposidade abdominal segundo características socioeconômicas, hábitos de vida e hipertensão autorreferida da população feminina adulta ≥18 anos de idade (n=456) no município de São Francisco do Conde, Bahia, 2010 

a) Respostas válidas, excluídas as ignoradas.

b) RP: razão de prevalência

c) IC95%: intervalo de confiança de 95%

d) Teste do qui-quadrado de Pearson

e) Teste exato de Fisher

Discussão

Verificou-se elevada prevalência de adiposidade abdominal entre os indivíduos estudados, principalmente quando mulheres. Essa maior ocorrência esteve associada com o (i) aumento da faixa etária e (ii) ter mais de três filhos. Para os homens, a prevalência de adiposidade abdominal foi superior entre aqueles que referiram nunca terem fumado ou serem ex-fumantes. Observou-se também, em ambos os sexos, associação entre adiposidade abdominal e hipertensão arterial sistêmica.

Prevalência elevada de adiposidade abdominal (51,9%) também foi observada em adultos residentes no estado de Pernambuco, graças a estudo conduzido por Pinho e colaboradores.19 No entanto, outros estudos populacionais realizados na região Nordeste, como em Salvador-BA20 e no estado do Maranhão,21 obtiveram prevalências inferiores, de 28,1% e 46,3% respectivamente. A maior prevalência encontrada no presente estudo pode estar relacionada à composição da amostra do estudo: indivíduos com baixo nível socioeconômico (baixa renda e baixa escolaridade). Normalmente, esse grupo apresenta maior consumo de alimentos ricos em gorduras e açúcares - mais palatáveis e baratos - e pobres em proteínas - em geral, mais caros.4

No presente estudo, o fato de as mulheres apresentarem maior prevalência de adiposidade abdominal corrobora os resultados de outras pesquisas.19 , 21 , 22 Uma possível explicação para esses achados pode estar relacionada às gestações, à ação dos hormônios femininos e seu impacto sobre o armazenamento de gorduras no corpo.23

A paridade tem sido associada à presença de adiposidade abdominal.20 , 23 O estudo em tela constatou que as mulheres com mais de 3 filhos apresentaram maior prevalência do desfecho. As alterações hormonais experimentadas pelas mulheres, decorrentes do período gravídico-puerperal, estão relacionadas ao aumento da deposição de gordura na região abdominal.23 Ademais, o estiramento da musculatura abdominal resultante das gestações, fenômeno indispensável ao crescimento uterino, leva à separação dos feixes dos músculos retos abdominais e portanto, favorece a obesidade abdominal.24

A prevalência de adiposidade abdominal também se apresentou elevada entre os adultos jovens, mesmo tendo aumentado com o crescimento da faixa etária, corroborando o resultado de estudo realizado em Teresina, estado do Piaui.25 Tal situação pode estar relacionada à ingestão de alimentos ricos em gorduras e açúcares e pobres em fibras, típicos da dieta ocidental, adotada pelas sociedades contemporâneas em nível global.4

Não fumantes e ex-fumantes apresentaram maiores prevalências de adiposidade abdominal do que os fumantes, o que corrobora resultados de outros estudos.19 , 20 , 23 A maioria das pesquisas mostra que a suspensão do hábito de fumar parece resultar em ganho ponderal, principalmente pelo aumento da ingestão calórica, destacando-se o consumo de alimentos ricos em açúcares e gorduras, a que se soma o fato de a suspensão do tabagismo acarretar uma diminuição da taxa metabólica basal, que pode variar entre 4 e 16% - o que representaria menos de 40% do ganho ponderal.26 No entanto, um resultado como esse deve ser analisado cuidadosamente, pois, como salientam Sousa e colaboradores,27 mesmo que o hábito de fumar exerça efeito sobre o ganho de peso, a adoção de estilo de vida mais saudável garante maiores benefícios aos indivíduos.

A disposição da gordura na região abdominal é reconhecida como fator de risco para distúrbios metabólicos e doenças cardiovasculares.28 , 29 Neste estudo, foram observadas maiores prevalências de adiposidade abdominal entre os indivíduos que referiram hipertensão arterial embora, aqui, não se tenha investigado o uso de medicamentos anti-hipertensivos, o que pode ter levado a um viés de aferição.

O delineamento transversal desta pesquisa constitui uma das limitações ao desenvolvimento de análises das relações entre as variáveis preditoras (características socioeconômicas, demográficas e hábitos de vida) e o desfecho (adiposidade abdominal) por não ser possível estabelecer um nexo causal, dada a possibilidade de ocorrência do viés de causalidade reversa. Além disso, não foram realizadas análises ajustadas que permitissem o controle sobre potenciais fatores de confusão, tampouco o teste de interações, o que indica a necessidade de manter cautela na interpretação dos resultados encontrados.30

Outra limitação deste estudo refere-se à possibilidade de ocorrência de viés de seleção, uma vez que a maioria das pessoas entrevistadas nas visitas domiciliares foi de mulheres (66,2%), situação inalterada mesmo quando realizadas visitas de reposição em horários alternativos com o propósito de minimizar a perda de indivíduos do sexo masculino.

Um aspecto importante a ser discutido refere-se ao ponto de corte adotado para determinar a adiposidade abdominal (≥80 cm para mulheres; ≥94 cm para homens), também utilizado em outros estudos,20 , 23 que garante maior preditividade em relação a outros pontos de corte. Baixos valores da medida da circunferência abdominal (baixa adiposidade abdominal) já configuram risco para as doenças cardiovasculares.19

Por meio de um estudo transversal de base populacional e posterior análise, foi possível estimar a prevalência de adiposidade abdominal e identificar fatores associados em adultos de São Francisco do Conde-BA. A compreensão de como a adiposidade abdominal encontra-se distribuída na população e seus fatores associados aponta para a necessidade do planejamento e implementação de ações voltadas ao controle e prevenção desse relevante problema de saúde. Recomenda-se a inclusão dessas ações nas atividades de responsabilidade dos agentes comunitários de saúde vinculados às unidades de Saúde da Família, pelo rastreamento da adiposidade abdominal com a aferição da circunferência da cintura na população adscrita à ESF. A implementação de atividade física em praças públicas e centros esportivos, a divulgação de informações relativas aos fatores de risco e às consequências do excesso de peso, bem como a realização de ações intersetoriais visando ações políticas e sociais de maior amplitude, são medidas importantes na prevenção e no controle da adiposidade abdominal.

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