Prevalência de doença renal crônica autorreferida em adultos na Região Metropolitana de Manaus: estudo transversal de base populacional, 2015

Prevalência de doença renal crônica autorreferida em adultos na Região Metropolitana de Manaus: estudo transversal de base populacional, 2015

Autores:

Ana Wanda Guerra Barreto Marinho,
Taís Freire Galvão,
Marcus Tolentino Silva

ARTIGO ORIGINAL

Epidemiologia e Serviços de Saúde

versão impressa ISSN 1679-4974versão On-line ISSN 2237-9622

Epidemiol. Serv. Saúde vol.29 no.1 Brasília 2020 Epub 17-Fev-2020

http://dx.doi.org/10.5123/s1679-49742020000100003

Resumen

Objetivo:

estimar la prevalencia de la enfermedad renal crónica autoinformada y factores asociados en adultos residentes en la Región Metropolitana de Manaus, Brasil.

Métodos:

estudio transversal de base poblacional realizado en 2015, con muestreo probabilístico para seleccionar adultos ≥18 años; los participantes fueron entrevistados en domicilio; los factores asociados al autoinforme de enfermedad renal fueron investigados por la regresión de Poisson, para calcular las razones de prevalencia (RP) jerárquica e intervalos de confianza del 95% (IC95%), considerando el muestreo complejo utilizado.

Resultados:

fueron entrevistadas 4.001 personas - 52,8% mujeres, 72,2% pardos y 19,7% hipertensos -; la prevalencia de enfermedad renal autoinformada fue del 2,1% (IC95% 1,6;2,5), asociada positivamente con la edad (en años: 35-44, PR=2,31, IC95% 1,02 a 5,21; 45-59, PR=2,52, IC95% 1,10 a 5,75; ≥60, PR=2,95, IC95% 1,21 a 7,16) y accidente cerebrovascular (PR=2,20, IC95% 1,09 a 4,45).

Conclusión:

dos de cada 100 adultos informó enfermedad renal crónica, más frecuente en adultos mayores con accidente cerebrovascular.

Palabras clave: Insuficiencia Renal Crónica; Adulto; Autoinforme; Prevalencia; Población; Estudios Transversales

Introdução

A doença renal crônica apresenta distribuição mundial, com prevalência estimada em até 15% da população, principalmente em países de baixa e média renda.1,2 O diagnóstico precoce da doença é fundamental para que estratégias terapêuticas sejam efetivas para (i) a prevenção ou retardamento de sua progressão e (ii) o ingresso do paciente na terapia renal substitutiva - diálise ou transplante renal.3 Uma revisão sistemática de estudos brasileiros, publicados até 2017, estimou que 3 em cada 100 brasileiros seriam portadores da doença e 5 em cada 10 mil se submeteriam a alguma modalidade dialítica.4

As principais causas de doença renal crônica são a hipertensão arterial e o diabetes mellitus, que predispõem a complicações vasculares, como infarto agudo do miocárdio e acidente vascular encefálico.5 Pessoas com nefropatias apresentam maiores riscos de mortalidade por doenças cardiovasculares, em todos os estágios evolutivos.6

A diálise - tratamento do último estágio evolutivo da doença renal crônica - é um procedimento de alto custo. No Brasil, essa terapia é quase exclusivamente oferecida pelo Sistema Único de Saúde (SUS), de forma direta ou indireta.7 Conhecer a prevalência da doença renal crônica é importante para o planejamento de ações de prevenção secundária e promoção da saúde entre a população.1 Para localidades de menor densidade de profissionais e serviços de saúde, como no estado do Amazonas, essa investigação adquire particular relevância.

O objetivo da presente pesquisa foi estimar a prevalência da doença renal crônica e fatores associados, em adultos residentes na Região Metropolitana de Manaus, Amazonas, Brasil.

Métodos

Trata-se de estudo transversal de base populacional, realizado nos meses de maio a julho de 2015, com adultos residentes na Região Metropolitana de Manaus, constituída de oito municípios - Careiro da Várzea, Iranduba, Itacoatiara, Manacapuru, Novo Airão, Presidente Figueiredo, Rio Preto da Eva e Manaus - e população estimada em 2,1 milhões de residentes, mais de 60% dos habitantes do estado do Amazonas, de acordo com o Censo Demográfico 2010.8 Em 2013, a Região Metropolitana de Manaus apresentou índice de desenvolvimento humano (IDH) de 0,720.9

A presente análise faz parte de pesquisa com o propósito de estimar o uso de insumos e serviços de saúde na região.10

Adultos com idade ≥18 anos foram selecionados por meio de amostragem probabilística, em três estágios.8 No primeiro estágio, foram sorteados 400 setores primários e 20 de reposição, entre os 2.647 setores censitários urbanos da região metropolitana de Manaus.8 No segundo estágio, empregou-se amostragem sistemática para selecionar os domicílios: um número entre 1 e 20 foi sorteado para determinar o primeiro domicílio, a partir do qual, a cada 20 domicílios, um foi visitado até se completarem dez entrevistas por setor. Todos os moradores elegíveis presentes foram cadastrados no dispositivo eletrônico da entrevista e um foi sorteado a partir de cotas predefinidas de sexo e idade, baseadas nas estimativas oficiais.10

O tamanho da amostra foi calculado em 4.001 adultos, partindo de estimativa conservadora de 50% no uso de serviço de saúde, nível de confiança de 95%, precisão absoluta de 2%, efeito do desenho de 1,5 e 2.106.322 adultos na região.8

Entrevistadores treinados coletaram os dados utilizando-se de questionários semiestruturados, propostos aos participantes em entrevistas face a face. Todas as variáveis foram autorreferidas. O desfecho primário foi a prevalência autorreferida de doença renal crônica, aferida por meio da seguinte pergunta:

“Algum médico já lhe deu o diagnóstico de doença renal crônica?” (sim; não).

As demais variáveis adotadas nesta análise foram:

  • a) Sociodemográficas

  • - sexo (masculino; feminino);

  • - idade (em anos);

  • - peso (em kg);

  • - altura (em cm);

  • - nível educacional (superior ou mais; médio; fundamental; menos que fundamental);

  • - raça/cor da pele (branca; preta; amarela; parda; indígena);

  • - classificação econômica, de acordo com o Critério Brasil de classificação econômica (A, B, C ou D/E; onde A é o extrato mais rico e D/E o mais pobre);

  • - situação de trabalho (formal; informal; aposentado; estudante/dona de casa; não trabalha);

  • - localização da cidade de residência no estado (interior; capital);

  • b) Clínicas

  • - doenças crônicas autorreferidas - hipertensão, diabetes, cardiopatia, hipercolesterolemia e acidente vascular encefálico (sim; não);

  • - estado de saúde (muito bom; bom; regular; ruim; muito ruim);

  • - índice de massa corporal (IMC, em quilogramas por metro quadrado [kg/m2]: <25; 25-29,9; ≥30).

Os dados foram descritos em frequências absolutas e relativas. Razões de prevalência (RP) de doença renal segundo categorias das variáveis do estudo e intervalos de confiança de 95% (IC95%) foram calculados em análise bivariável. Utilizou-se regressão de Poisson com variância robusta para calcular as RPs ajustadas, seguindo modelo hierárquico considerando as variáveis distais e proximais ao desfecho.11 O primeiro bloco de questões foi composto pelas variáveis sociais (classificação econômica; situação de trabalho; escolaridade; localização da cidade). No segundo bloco, foram adicionadas as variáveis demográficas (sexo; idade; raça/cor da pele). As variáveis clínicas (doenças crônicas; estado de saúde; IMC) foram adicionadas no terceiro bloco de análise. Cada bloco foi ajustado pelas variáveis do bloco e do nível anterior. A significância estatística das variáveis com mais de duas categorias foi calculada pelo teste de Wald, após análise ajustada de cada bloco. As análises foram realizadas utilizande-se o software Stata 14.2 (StataCorp, College Station, Texas, USA), sendo considerado o delineamento complexo da amostra (comando svy).

O projeto da pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Amazonas (CEP/UFAN): Processo nº 974.428, de 3 de março de 2015 (Certificado de Apresentação para Apreciação Ética [CAAE] no 42203615.4.0000.5020). O Termo de Consentimento Livre e Esclarecido foi assinado por todos os participantes, como condição para realização da entrevista.

Resultados

Foram incluídos na pesquisa 4.001 adultos (Tabela 1). A prevalência autorreferida de doença renal foi de 2,1% (IC95% 1,6;2,5). Na amostra, houve discreto predomínio de mulheres (52,8%), adultos jovens, de 25 a 34 anos (28,8%), pardos (72,1%; apenas 1,0% se consideravam indígenas), indivíduos da classe social C (35,6%), com ensino médio (47,5%) e na situação de trabalho informal (28,8%). A maioria dos entrevistados residia em Manaus (86,9%). As doenças crônicas mais referidas foram hipertensão (19,7%) e diabetes mellitus (6,2%). Mais da metade dos entrevistados referiram bom estado de saúde (54,3%).

Tabela 1 - Características da população incluída (n=4.001) e prevalência de doença renal crônica autorreferida na população da Região Metropolitana de Manaus, Amazonas, 2015 

Variável n %a Prevalência % (IC95% b)
Sexo
Masculino 1.888 47,2 1,7 (1,2;2,4)
Feminino 2.113 52,8 2,4 (1,8;3,1)
Faixa etária (em anos)
18-24 838 20,9 1,0 (0,5;1,9)
25-34 1.152 28,8 0,7 (0,3;1,4)
35-44 843 21,1 2,3 (1,5;3,6)
45-59 772 19,3 2,9 (2,0;4,4)
≥60 396 9,9 6,0 (4,0;8,8)
Raça/cor da pele
Branco 636 15,9 1,1 (0,5;2,2)
Preto 300 7,5 0,7 (0,2;2,6)
Amarelo 138 3,5 2,9 (1,1;7,4)
Pardo 2.886 72,1 2,4 (1,9;3,0)
Indígena 41 1,0 2,4 (0,3;15,4)
Classificação econômica
A 629 15,7 0,9 (0,4;2,1)
B 862 21,5 1,0 (0,5;2,0)
C 1.423 35,6 2,2 (1,5;3,1)
D/E 1.087 27,2 3,4 (2,4;4,6)
Educação
Superior ou mais 158 4,0 2,5 (0,9;6,4)
Médio 1.903 47,5 1,0 (0,6;1,6)
Fundamental 649 16,2 1,4 (0,7;2,6)
Menos que fundamental 1.291 32,3 3,9 (3,0;5,1)
Situação de trabalho
Formal 761 19,0 1,6 (0,9;2,7)
Informal 1.149 28,8 1,5 (1,0;2,4)
Aposentado 315 7,9 6,3 (4,1;9,6)
Estudante/dona de casa 1.199 29,9 2,3 (1,6;3,3)
Não trabalha 577 14,4 1,0 (0,5;2,3)
Cidade de residência
Interior 522 13,1 1,4 (0,7;2,8)
Capital 3.479 86,9 2,2 (1,7;2,7)
Doenças crônicas
Hipertensão 787 19,7 4,1 (2,9;5,7)
Diabetes 245 6,2 5,7 (3,4;9,4)
Cardiopatia 203 5,1 6,9 (4,1;11,3)
Hipercolesterolemia 596 14,9 5,0 (3,5;7,1)
Acidente vascular encefálico 104 2,6 10,5 (5,9;18,0)
Estado de saúde
Muito bom 471 11,8 0,8 (0,3;2,2)
Bom 2.175 54,3 1,4 (0,9;1,9)
Regular 1.108 27,6 2,9 (2,0;4,1)
Ruim 193 4,9 6,2 (3,5;10,5)
Muito ruim 54 1,4 9,3 (3,9;20,4)
Índice de massa corpórea (kg/m2)
<25 1.591 39,8 2,0 (1,4;2,8)
25-29,99 1.554 38,9 1,6 (1,1;2,3)
≥30 852 21,3 3,0 (2,1;4,4)

a) Percentual ponderado pela amostragem complexa empregada.

b) IC95%: intervalo de confiança de 95%.

A análise bruta revelou que a doença renal crônica foi significativamente mais frequente entre pessoas mais velhas, aposentadas e autodeclaradas de raça/cor da pele parda (Tabela 2). Fatores clínicos positivamente associados incluíram hipertensão, diabetes, cardiopatia, hipercolesterolemia e acidente vascular encefálico (p<0,001). Após ajustes, a doença renal crônica foi positivamente associada a idade (em anos: 35-44, RP=2,31, IC95% 1,02;5,21; 45-59, RP=2,52, IC95% 1,10;5,75; e ≥60, RP=2,95, IC95% 1,21;7,16), ser aposentado (RP=2,18, IC95% 1,05;4,51) e ter sofrido acidente vascular encefálico (RP=2,20, IC95% 1,09;4,45). Na comparação com nível de educação superior, pessoas com nível médio tiveram - significativamente - menor prevalência de doença renal autorreferida (RP=0,34, IC95% 0,11;0,99).

Tabela 2 - Razão de prevalência e intervalo de confiança de 95% para doença renal crônica autorreferida na população (n=4.001) da Região Metropolitana de Manaus, Amazonas, 2015 

Variável RPa bruta (IC95% b) Valor pc RPa ajustada (IC95% b) Valor pc Blocod
Sexo 0,112 0,668
Masculino 1,00 1,00
Feminino 1,43 (0,92;2,21) 1,05 (0,64 ;1,57)
Faixa etária (em anos) <0,001 0,004
18-24 1,00 1,00
25-34 0,72 (0,27;1,92) 0,72 (0,27;1,95)
35-44 2,46 (1,09;5,55) 2,31 (1,02;5,21)
45-59 3,08 (1,39;6,85) 2,52 (1,10;5,75)
≥60 6,24 (2,83;13,78) 2,95 (1,21;7,16)
Raça/cor da pele 0,125 0,231
Branco 1,00 1,00
Preto 0,61 (0,13;2,92) 0,51 (0,10;2,44)
Amarelo 2,68 (0,79;9,04) 2,34 (0,70;7,76)
Pardo 2,20 (1,02;4,77) 1,77 (0,81;3,91)
Indígena 2,27 (0,29;18,01) 1,39 (0,20;9,57)
Classificação econômica 0,001 0,135
A 1,00 1,00
B 1,11 (0,40;3,11) 1,15 (0,42;3,17)
C 2,30 (0,97;5,50) 2,11 (0,88;5,08)
D/E 3,59 (1,52;8,46) 2,29 (0,95;5,55)
Educação <0,001 0,006
Superior ou mais 1,00 1,00
Médio 0,41 (0,14;1,18) 0,34 (0,11;0,99)
Fundamental 0,56 (0,18;1,81) 0,41 (0,13;1,27)
Menos que fundamental 1,59 (0,58;4,35) 0,90 (0,32;2,57)
Situação de trabalho <0,001 0,276
Formal 1,00 1,00
Informal 0,98 (0,48;2,03) 0,75 (0,37;1,52)
Aposentado 4,04 (2,00;8,17) 2,18 (1,05;4,51)
Estudante/dona de casa 1,45 (0,74;2,84) 1,08 (0,55;2,13)
Não trabalha 0,66 (0,25;1,76) 0,56 (0,21;1,46)
Cidade de residência 0,244 0,138
Interior 1,00 1,00
Capital 1,54 (0,74;3,18) 1,72 (0,84;3,50)
Doenças crônicase
Hipertensão 2,59 (1,68;4,01) <0,001 0,93 (0,53;1,65) 0,808
Diabetes 3,12 (1,78;5,46) <0,001 1,05 (0,59;1,87) 0,860
Cardiopatia 3,84 (2,20;6,70) <0,001 1,46 (0,76;2,83) 0,255
Hipercolesterolemia 3,28 (2,11;5,09) <0,001 1,59 (0,91;2,76) 0,103
Acidente vascular encefálico 5,75 (3,14;10,53) <0,001 2,20 (1,09;4,45) 0,029
Estado de saúde <0,001 0,175
Muito bom 1,00 1,00
Bom 1,61 (0,57;4,54) 1,07 (0,37;3,11)
Regular 3,42 (1,22;9,63) 1,41 (0,47;4,27)
Ruim 7,31 (2,39;22,41) 2,23 (0,66;7,51)
Muito ruim 10,99 (3,04;39,72) 2,71 (0,70;10,49)
Índice de massa corpórea (kg/m2) 0,059 0,344
<25 1,00 1,00
25-29,9 0,79 (0,47;1,33) 0,76 (0,45;1,27)
≥30 1,51 (0,91;2,52) 1,12 (0,66;1,90)

a) RP: razão de prevalência.

b) IC95%: intervalo de confiança de 95%.

c) Teste de Wald.

d) Bloco de entrada na análise, ajustado pelas variáveis do bloco e do nível acima.

e) Referência: ausência da doença. a) RP: razão de prevalência.

b) IC95%: intervalo de confiança de 95%.

c) Teste de Wald.

d) Bloco de entrada na análise, ajustado pelas variáveis do bloco e do nível acima.

e) Referência: ausência da doença.

Discussão

Dois adultos em cada 100 residentes da Região Metropolitana de Manaus referiram ser portadores de doença renal crônica, correspondendo a mais de 40.000 pessoas. A enfermidade foi positivamente associada a maior idade, aposentadoria e acidente vascular encefálico. A prevalência encontrada foi um pouco superior à observada para o conjunto do país, tendo-se como referência os dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2013. A PNS, a exemplo do presente estudo, tampouco observou diferenças quanto a sexo, escolaridade e raça/cor da pele.11

O desfecho primário desta análise baseou-se no autorrelato de uma doença de características silenciosas, passível de ser confundida com doenças urológicas, levando a erro de classificação no desfecho. O emprego de ferramentas diagnósticas, baseadas em análise laboratorial com a dosagem de creatinina sérica e pesquisa de proteinúria para comprovação da doença renal, aumentaria a confiança nos resultados.12

A prevalência de doença renal crônica cresceu com o avanço da idade e também se mostrou mais frequente entre aposentados. Estes resultados podem refletir tanto o processo natural de envelhecimento e senescência renal como os danos promovidos pelas comorbidades adquiridas ao longo da vida, a exemplo do diabetes mellitus e da hipertensão arterial.13

De acordo com este estudo, somente o acidente vascular encefálico revelou-se associado à doença renal. Tal condição resulta, principalmente, de hipertensão arterial não controlada e outros problemas cardiovasculares, igualmente fatores de risco para doença renal crônica.5 Doenças cardiovasculares em pacientes com doença renal crônica são mais frequentes e mais graves que na população sem comprometimento renal; certamente, o acidente vascular encefálico contribui para o excesso de risco de mortalidade observado.1 Possivelmente devido à baixa prevalência de doença renal crônica, não se observou associação entre a doença e a maioria das variáveis estudadas. A hipertensão foi a doença crônica mais autorreferida pela população estudada, e ainda assim não se mostrou associada à doença renal.

A associação entre doença renal crônica e classe econômica não foi significativa. Contudo, é sabido que pessoas pertencentes à classe social inferior, em sociedades desiguais, estão mais expostas aos desfechos desfavoráveis das doenças crônicas, revelando o caráter social da doença.14 O diagnóstico e o tratamento adequado da doença dependem do acesso aos serviços de saúde, das políticas públicas para controle do diabetes mellitus e da hipertensão, e de educação básica em saúde.

Uma Atenção Básica organizada é essencial para a prevenção e controle precoce da doença renal crônica.12 As principais causas da doença são hipertensão e diabetes, os quais, quando bem controlados na Atenção Básica, inibem o surgimento da doença renal e retardam o início da diálise,15,16 além de tal controle contribuir para a redução das complicações cardiovasculares, como infarto e acidente vascular encefálico, que podem levar a óbito.15

A baixa prevalência da doença renal, encontrada neste estudo, pode refletir o desconhecimento do próprio estado de saúde, dada a dificuldade de acesso ao sistema de saúde, além de uma demanda não atendida de exames laboratoriais, como dosagem de creatinina sérica e proteinúria para se confirmar a injúria renal.12,17

Manaus é a única cidade do estado do Amazonas a oferecer terapia renal substitutiva para pessoas com doença renal em estágio avançado.7 Estimativa da Sociedade Brasileira de Nefrologia sugere que a prevalência de pacientes submetidos a diálise no Amazonas é de 229 por cada milhão de habitantes.7 Provavelmente, os dados estão subestimados, haja vista o isolamento geográfico característico das populações distribuídas pela extensa região Norte e a dificuldade de acesso aos serviços de saúde.10 Os residentes na região metropolitana estudada, entretanto, seriam justamente aqueles com mais facilidade de acesso a serviços de saúde e tratamento dialítico no estado.

Em conclusão, a doença renal crônica foi autorreferida por 2 em cada 100 adultos da região metropolitana de Manaus. A relativamente baixa consciência da doença pode refletir pouco acesso aos serviços de saúde, em especial à Atenção Básica. Estudos representativos, com emprego de ferramentas diagnósticas, são necessários para melhor estimar a prevalência da doença renal crônica na região.

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