Prevalência de dor crônica no Brasil: estudo descritivo

Prevalência de dor crônica no Brasil: estudo descritivo

Autores:

Fernando Holanda Vasconcelos,
Gessi Carvalho de Araújo

ARTIGO ORIGINAL

BrJP

versão impressa ISSN 2595-0118versão On-line ISSN 2595-3192

BrJP vol.1 no.2 São Paulo abr./jun. 2018

http://dx.doi.org/10.5935/2595-0118.20180034

INTRODUÇÃO

A dor é uma condição de difícil compreensão e multifatorial, definida pela International Association for the Study of Pain (IASP) como uma “experiência sensorial e emocional desagradável associada a uma lesão real ou descrita em tais termos”1. Quando aguda, possui um valor biológico importante de preservação da integridade do indivíduo, pois é um sintoma que alerta para ocorrências de lesões no corpo; já a dor crônica não possui essa característica2. Por causar absenteísmo, incapacidade temporária ou permanente, morbidade e elevados custos ao sistema de saúde, a dor tem sido considerada um problema de saúde pública3.

A IASP esclarece que o melhor ponto de partida na diferenciação entre dor crônica e aguda são três meses de ocorrência do agravo, mas para fins de pesquisa sugere um período de seis meses4. Estima-se que a prevalência de dor crônica no mundo esteja em torno de 10,1 a 55,5%, com uma média de 35,5%5. No Brasil, embora não haja muitos estudos epidemiológicos, algumas pesquisas confirmam incidência semelhante à estimada pela IASP6. Na Espanha, uma pesquisa por telefone em 5.000 casas encontrou prevalência de dor crônica de 23,4% da população geral7. Na Noruega, 24,4% de 4.000 noruegueses entrevistados responderam que tinham dor crônica, sendo que 65% destes indicaram que experimentavam a dor há mais de 5 anos8.

Muito pouco se conhece sobre a epidemiologia da dor crônica no Brasil, principalmente se tratando de pesquisas de prevalência de dores múltiplas. Estudos como esses, que avaliam a dor em vários locais do corpo, são importantes por contribuírem para a identificação de suscetibilidade à dor, poderem demonstrar a ocorrência de dores associadas, permitirem uma visão mais ampla do fenômeno na população e fornecerem subsídios para o planejamento de ações preventivas e organização dos serviços de saúde9. Estudos de prevalência de dores específicas, ligadas à clínica, são importantes para fornecer novas tecnologias no manuseio e avaliação da dor, mas não demonstram representatividade da população por apresentarem características que inviabilizam a generalização. Pesquisas na população geral são muito valiosas, no entanto há falta de publicações que retratem a população brasileira9.

Conhecer sobre a prevalência da dor crônica na população brasileira é um passo importante no sentido de revelar a abrangência e magnitude de seus efeitos, proporcionando um direcionamento para as estratégias preventivas e de intervenção, principalmente políticas públicas.

O objetivo deste estudo foi realizar uma revisão descritiva das publicações realizadas no Brasil para estimar a prevalência de dor crônica na população Brasileira.

CONTEÚDO

Foram incluídos todos os artigos indexados escritos em qualquer idioma, que reportavam dados sobre prevalência de dor crônica na população brasileira em geral ou em classes específicas desta, como estudantes, trabalhadores, idosos etc., independentemente do conceito de dor crônica estabelecido no estudo, da idade ou sexo, dos instrumentos de coletas de dados e da data de publicação. Foram excluídos trabalhos duplicados publicados em periódicos diferentes.

Foram consultadas as bases de dados indexadas do Portal de Periódicos da CAPES utilizando-se os Descritores em Ciências da Saúde (DeCS): “Prevalência” e “dor crônica” no mês de outubro de 2016. Os artigos foram selecionados com base na leitura do título ou do resumo. Os potencialmente elegíveis foram lidos na íntegra.

A busca encontrou um total de 91 artigos. Destes, após a triagem, foram incluídos 11 estudos. Foi excluído um artigo por apresentar a mesma publicação em duas revistas diferentes, totalizando uma amostra de 10 trabalhos9-18. A população total dos estudos selecionados foi de 8.508 indivíduos, dos quais as amostras variaram de 6015 e 2.29712 participantes.

As variáveis de interesse são primeiro autor, ano de publicação, tipo de estudo, instrumento de coleta, tamanho da amostra, população, idade, sexo, conceito de dor crônica, percentual de prevalência e local de dor de maior prevalência, foram transferidas por um dos autores para uma planilha eletrônica do Microsoft Word® (Tabela 1). Não foi possível realizar meta-análise devido à heterogeneidade dos trabalhos. Os dados de interesse foram trabalhados por meio de estatística descritiva.

Tabela 1 Taxa de prevalência de dor crônica na população brasileira 

Autores Tipos de
estudos
Tipos de
coleta
Tamanho da amostra (n) Sexo População Idade média (anos) Conceito de dor crônica Prevalência de dor crônica Local da dor de maior prevalência Maior prevalência entre os sexos
Krelling, da Cruz and Pimenta9 Transversal Entrevista 539 54,1% Feminino Servidores da
Universidade Estadual de Londrina
40,5 Duração maior que 6 meses. 61,4% Cabeça, face e boca
26,7%
69,2% Feminino
Dellaroza, Pimenta and
Matsuo10
Transversal Entrevista domiciliar 451 64,7%
Masculino
Idosos servidores municipais de Londrina-PR 68,6 Duração igual ou superior a 6 meses 51,4% Região dorsal
21,7%
31,9%
Masculino
Silva et
al.11
Transversal Entrevista 211 Não informado Estudantes universitários de Enfermagem da Universidade Federal de Goiás 21,1 Sentida há 6 meses ou mais em um mesmo lugar 59,7% Cabeça
28%
97,6% Feminino
Sá et al.12 Transversal Entrevista domiciliar 2.297 55,5% Feminino Adultos residentes em Salvador, BA 40,9 Superior a 6 meses. 41,4% Região lombar
16,3%
48,4%
Feminino
Almeida et al.13 Transversal de base populacional Entrevista 205 64,9%
Masculino
Adultos com diagnóstico de esquizofrenia atendidos em hospital público do município de São Paulo 37 Não informado. 36,6% Abdômen
30,7%
57,3% Masculino
Vieira et
al.14
Transversal de base populacional Entrevista domiciliar 1.597 66,4% Feminino Adultos residentes no município de São Luís, MA 37,6 Duração de pelo menos 6 meses. 42,3% Mulheres - cabeça 40,46%
Homens - lombar 39,47%
45,4%
Feminino
Reis, Torres and Reis15 Transversal Entrevista 60 50%
Masculino
Idosos da Fundação Leur Britto - Jequié, BA 77,6 Não informado 73,3% Costas
31%
58,4% Masculino
Dellaroza
et al.16
Transversal Entrevista domiciliar 172 40,7%
Feminino
Idosos da região norte de Londrina, PR 68,9 Duração de mais de 6 meses. 62,2% Membros inferiores
31,4%
65,4% Feminino
Dellaroza
et al.17
Transversal Entrevista domiciliar 1.271 59,6% Feminino Idosos residentes em São Paulo do projeto Saúde, Bem-estar e Envelhecimento (SABE) 69,5 Duração igual ou superior a 6 meses. 29,7% Região lombar
25,4%
Não informado
dos Santos et al.18 Transversal Entrevista domiciliar 1.705 62,5%
Feminino
Idosos residentes em Florianópolis 70,7 Duração igual ou superior a seis meses, de caráter contínuo ou recorrente. 29,3% Não informado 62,5%
Feminino

A partir dos estudos elegíveis, observou-se que a prevalência de dor crônica é uma preocupação recente pois as publicações referem-se ao período de 2006 a 2015. A idade média da população dos artigos variou entre 21,111 e 77,6 anos15, cinco deles foram realizados somente com idosos10,15-18, quatro com adultos que incluíram também pessoas idosas9,12-14 e um com indivíduos mais jovens, estudantes de Enfermagem11. Nenhum abrangeu crianças. O fato da população de quase todas os trabalhos incluírem ou possuírem idosos nas populações das pesquisas retornou valores de prevalência relativamente altos, pois a ocorrência da dor aumenta com o aumento da idade19.

Os presentes resultados demonstraram heterogeneidade nos métodos, tipos de população estudada e resultados, impedindo qualquer agrupamento significativo dos dados. A preferência por classes ligadas a projetos ou instituições pode ter ocorrido pela facilidade na obtenção dessas amostras.

O método de pesquisa utilizado por todos foi o transversal. A coleta de dados da maioria dos trabalhos foi realizada por inquérito nas casas dos indivíduos, somente 4 foram realizados em instituições9,11,13,15. O resultado mais interessante que pode ser observado nesta revisão é que a prevalência de dor crônica foi significativa em todos os estudos, a menor foi em Florianópolis (Santa Catarina) de 29,3%18 e a maior em Jequié (Bahia) de 73,3%15. Apesar da maioria das pesquisas9,10-16 encontrarem uma porcentagem maior que a estimada pela população mundial5, não se pode afirmar que a prevalência de dor crônica da população brasileira seja maior, uma vez que os valores refletem apenas dados regionais. Uma revisão da literatura sobre a prevalência de dor crônica na Holanda encontrou uma variação de prevalência entre 2 e 40% da população20, divergente dos valores encontrados neste trabalho. No Reino Unido 46,5% da população geral do país também vive com dor crônica21.

A definição de dor crônica como variável independente não foi apresentada em 2 trabalhos13,15, nos outros a definição foi equivalente a preconizada pela IASP4. O local mais prevalente de dor crônica foi a região dorsal/lombar10,12,14,15,17, seguido da cabeça9,11,14, apenas um dos estudos informou a localização da dor somente por sexo14, um estudo não apresentou os locais de dor18. Em uma pesquisa realizada com amostra representativa nos Estados Unidos22 mostrou que o local mais prevalente de dor também foi as costas (10,1%), seguido de pernas/pés (7,1%), braços/mãos (4,1%) e cabeça (3,5%).

Todos os estudos incluíram homens e mulheres. O sexo feminino foi mais presente na maioria das amostras9,12,14,16-18, em apenas dois o sexo masculino prevaleceu10,13, um não apresentou a quantidade da amostra distribuída por sexo11 e uma das amostras trouxe representação igualitária entre os pares15. Os que tiveram maior número de homens na amostra obtiveram maior prevalência de dor crônica no sexo masculino e os que apresentaram maior número de mulheres, uma prevalência maior no sexo feminino. Somente um dos trabalhos não apresentou a prevalência por sexo17. Portanto, a prevalência da dor crônica dos trabalhos foi maior em mulheres que em homens. Essa prevalência pelo sexo feminino também é demonstrada em outros trabalhos7,8,22-27.

CONCLUSÃO

Os estudos encontrados demonstraram um recente interesse sobre a epidemiologia da dor crônica no país, todos da última década, porém ainda há a necessidade de mais estudos para se obter uma prevalência representativa da população do Brasil. Não foi possível afirmar que a prevalência de dor crônica na população brasileira esteja no intervalo encontrado nos estudos, tendo em vista a heterogeneidade e regionalidade dos trabalhos.

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