Prevalência de dor musculoesquelética em praticantes de caminhada: um estudo transversal

Prevalência de dor musculoesquelética em praticantes de caminhada: um estudo transversal

Autores:

Bruno Tirotti Saragiotto,
Fernando Pripas,
Matheus Oliveira de Almeida,
Tiê Parma Yamato

ARTIGO ORIGINAL

Fisioterapia e Pesquisa

versão impressa ISSN 1809-2950

Fisioter. Pesqui. vol.22 no.1 São Paulo jan./mar. 2015

http://dx.doi.org/10.590/1809-2950/13036422012015

RESUMEN

Este artículo tuvo el propósito de verificar la prevalencia de dolor musculo esquelético en practicantes de caminatas y los posibles factores asociados a esta práctica. Se trata de estudio transversal, que se realizó mediante un cuestionario aplicado a los practicantes de caminatas en parques y lugares que son comunes a esta actividad. El cuestionario se componía por informaciones personales de los practicantes, la rutina de la práctica, el historial de lesiones y la presencia de dolor musculo esquelético durante la entrevista. Para ello, se ha hecho un análisis descriptivo de las características de los participantes, y se han utilizados la prueba t independiente, la prueba de Mann-Whitney y la prueba de Chi Cuadrado para la comparación de los datos entre los participantes con y sin dolor en la ocasión de la entrevista. Se han entrevistados 136 practicantes de caminatas, y el 8% fue la prevalencia de dolor musculo esquelético encontrada. La zona más afectada por el dolor entre los participantes fue la articulación de rodilla (45%). Entre las variables evaluadas, se ha demostrado que la presencia de lesiones previas de los últimos 12 meses está asociada estadísticamente (p<0,05) a la presencia de dolor actual. Se concluyó que es baja la prevalencia de dolor musculo esquelético en practicantes de caminatas, sin embargo se la asocia a la presencia de lesiones previas de los últimos 12 meses.

Palabras-clave: Dolor musculoesquelético; Desportes; Caminata

INTRODUÇÃO

A prática regular de um exercício físico de nível moderado é considerada um importante fator para a qualidade de vida e o bem-estar da população, tendo seus benefícios relacionados à melhora do condicionamento físico, controle do peso, prevenção de doenças sistêmicas como diabetes e hipertensão, entre outros(1) , (2) , (3). A caminhada, quando realizada a uma velocidade maior ou igual a 5,5 km/h, tem sido sugerida cada vez maus como um exercício físico de nível moderado para a população(4). Podemos dizer que a caminhada é uma atividade de baixo custo, fácil execução e, aparentemente, relacionada a baixas taxas de lesão(5).

Alguns estudos mostram que as taxas de lesões em praticantes de caminhada podem variar entre 5% e 40%(8) , (9) , (10) , (11) , (12). Entretanto, outros incluíram em suas populações praticantes de caminhada e corredores de rua, o que pode superestimar as taxas de lesões encontradas para praticantes de caminhada, já que a corrida apresenta taxas de lesões superiores por ser uma atividade de maior intensidade(2) , (13) e maior impacto(14) , (15).

A promoção da caminhada como uma atividade moderada e acessível vem sendo realizada para que a população se torne cada vez mais fisicamente ativa(6) , (7). Entretanto, pouco se sabe sobre as taxas de lesões musculoesqueléticas associadas a esta prática. Este é o primeiro estudo com o objetivo de identificar a prevalência de dor de origem musculoesquelética em praticantes de caminhada no momento de sua prática e analisar os possíveis fatores associados à presença de dor.

METODOLOGIA

Trata-se de um estudo transversal no qual foram entrevistados 136 indivíduos praticantes de caminhada. Os critérios de inclusão para os participantes foram: (1) praticar caminhada por no mínimo 30 minutos ao dia, em uma frequência de pelo menos três vezes por semana, há mais de seis meses e (2) ter idade maior ou igual a 18 anos. Todos os participantes leram e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido após receberem informações referentes aos objetivos do estudo. O presente estudo obteve aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Cidade de São Paulo (protocolo nº 13685795).

As entrevistas foram realizadas em diferentes parques comuns à prática de caminhada na cidade de São Paulo. Os corredores foram abordados apenas uma vez, podendo ser antes, depois ou durante a prática da caminhada. Os dados foram coletados através de um formulário, desenvolvido pelos próprios pesquisadores do estudo. Este formulário era composto pelos seguintes tópicos: dados pessoais dos participantes (nome, idade, gênero, estatura, peso e contato); perfil de prática da caminhada (frequência semanal, duração e tempo de prática); questões referentes à prática de outro exercício físico (frequência semanal, tempo de prática e duração média dos treinos); presença de lesões prévias nos últimos 12 meses antecedentes à entrevista; questões relacionadas com a presença de dor musculoesquelética no momento da entrevista (localização, região, intensidade e se foi necessário interromper o treino de caminhada por causa da dor). O questionamento sobre dor no momento da entrevista foi direcionado apenas para dores decorrentes da caminhada e de origem musculoesquelética.

Foi realizada uma análise descritiva dos dados coletados, com distribuição de frequência simples e cálculo dos percentuais para os dados categóricos, além de medidas de tendência central e dispersão para os dados contínuos. Foi realizada avaliação da normalidade dos dados contínuos através da análise da simetria da curva. Os dados com distribuição normal foram apresentados em média e desvio-padrão, enquanto os dados com distribuição não normal foram relatados por meio de mediana e intervalo interquartil. Para a comparação dos dados, os participantes foram divididos em dois grupos: 1) indivíduos que apresentavam queixa de dor musculoesquelética no momento da entrevista, intitulado "Grupo com dor", e 2) indivíduos que não relataram nenhuma dor no momento da entrevista, intitulado "Grupo sem dor". Para a análise da diferença entre os grupos foi realizado o teste t independente para os dados contínuos com distribuição normal; teste de Mann-Whitney para os dados contínuos com distribuição não normal; teste de qui-quadrado para os dados categóricos. Para todas as comparações foi adotado um valor (=0,05 e todas as análises foram realizadas por meio do software SPSS v.20.

RESULTADOS

Foram entrevistados um total de 136 praticantes de caminhada (85 mulheres e 51 homens). A prevalência de dor musculoesquelética nos participantes do estudo foi de 8% (n=11), e 5% afirmaram ter interrompido o treino por conta desta dor. A média de tempo desta dor no momento da entrevista foi de 1,5 anos, tanto para os homens quanto para as mulheres, e a intensidade média da dor foi de 3 pontos para os homens e 3,5 pontos para as mulheres, ambas relacionadas à Escala Visual Analógica (EVA). Em relação ao histórico de lesões dos participantes, 12% destes relataram que já sofreram lesões. As características de todos os participantes do estudo e as informações referentes à presença de dor prévia e no momento da entrevista estão apresentadas na Tabela 1.

Tabela 1 Características dos participantes do estudo 

Masculino (n=51) Feminino (n=85) Total (n=136)
Idade 60,3 (17,1) 52,4 (14,7) 55 (16,1)
IMC 26,3 (2,6) 23,7 (3,2) 24,7 (3,3)
Tempo de prática (anos) 10 (5-20) 10 (3-15) 10 (4-15)
Frequência semanal 4 (3-5) 3 (3-4,5) 4 (3-5)
Duração do treino (min) 60 (45-60) 60 (50-60) 60 (46-60)
Prática de outra atividade física
Sim 23 (45) 52 (61) 75 (55)
Não 28 (55) 33 (39) 61 (45)
Frequência semanal da outra atividade física 2 (2-3) 2 (2-3) 2 (2-3)
Lesões prévias (últimos 12 meses)
Sim 5 (10) 11 (13) 16 (12)
Não 46 (90) 74 (87) 120 (88)
Presença de dor no momento da entrevista
Sim 2 (4) 9 (11) 11 (8)
Não 49 (96) 76 (89) 125 (92)
Duração da dor (anos) 1,49 (0,7) 1,49 (2,69) 3,2 (4,0)
Intensidade da dor 3 (1,4) 3,5 (1,3) 3,3 (1,2)
Teve de interromper os treinos
Sim 0(0) 1 (5) 1 (5)
Não 2 (100) 8 (95) 10 (95)

Os dados contínuos estão expressos em média e desvio-padrão ou mediana e intervalo interquartil. Os dados categóricos estão descritos em número de participantes e porcentagem

Entre os participantes que reportaram a presença de lesões prévias (Tabela 2), o diagnóstico mais frequente foi artrose (33%). Em relação aos indivíduos que estavam sentindo dor no momento da entrevista (Tabela 3), 45% afi maram que a região acometida era o joelho. A Tabela 3 apresenta todas as regiões de dor referida pelos participantes no momento da entrevista.

Tabela 2 Diagnósticos referentes às lesões prévias dos últimos 12 meses 

n (%)
Artrose 3 (33)
Lombalgia 1 (11)
Lesão no menisco 1 (11)
Fasceíte plantar 1 (11)
Lesão muscular 1 (11)
Tendinite 1 (11)
Esporão de calcâneo 1 (11)

Tabela 3 Região do corpo relatada pelos participantes referentes à dor no momento da entrevista 

n (%)
Joelho 5 (45)
Coluna lombar 1 (9)
Pelve/sacro/nádega 1 (9)
Anterior da coxa 1 (9)
Posterior da coxa 1 (9)
Poplíteo 1 (9)
Posterior da perna/panturrilha 1 (9)

Foi encontrada uma diferença significativa entre os grupos com dor e sem dor no que diz respeito à porcentagem de indivíduos que relataram ter sofrido alguma lesão nos últimos 12 meses antes da entrevista (p=0,0001). O grupo com dor apresentou mais lesões prévias do que o grupo sem dor. Para todas as outras variáveis controladas, não houve diferença estatisticamente significante entre os grupos. A Tabela 4 apresenta a comparação entre os grupos com dor e sem dor para todas as variáveis.

Tabela 4 Comparação entre os grupos com dor e sem dor 

Com dor Sem dor Valor p
Idade 54 (19) 55 (15,9) 0,098
IMC 23,3 (2,2) 24,8 (3,3) 0,966
Gênero
Feminino 9 (81) 76 (61) 0,167
Masculino 2 (19) 49 (39)
Tempo de prática (anos) 8 (2-10) 10 (4-15) 0,348
Frequência semanal 4 (3-5) 3 (3-5) 0,323
Tempo por treino (min) 50 (40-60) 60 (50-60) 0,075
Prática de outro exercício físico
Sim 6 (55) 69 (55) 0,967
Não 5 (45) 56 (45)
Presença de lesão nos últimos 12 meses
Sim 6 (55) 10 (8) 0,0001*
Não 5 (45) 115 (92)

Os dados contínuos estão expressos em média e desvio-padrão ou mediana e intervalo interquartil. Os dados categóricos estão descritos em número de participantes e porcentagem

DISCUSSÃO

Este é o primeiro estudo que se propôs a investigar a prevalência de dor em praticantes de caminha no momento de sua prática. Na comparação entres os grupos de participantes com dor e sem dor no momento da entrevista, verificou-se que a presença de lesões prévias nos últimos 12 meses esteve associada com a prevalência de dor nestes participantes.

A taxa de dor musculoesquelética no momento da prática da caminhada foi baixa neste estudo (8%). Alguns estudos que investigaram as taxas de lesões na caminhada encontraram uma variação de 5 a 40%(8) , (9) , (10) , (11) , (12), porém a maioria destes estudos observou a prevalência de lesão (ao invés de dor), podendo ter diferenças quanto à sua definição entre os estudos, alterando as taxas encontradas. Além disso, alguns dos estudos realizados com praticantes de caminhada incluíram corredores recreacionais em sua amostra, que possuem taxas de lesões superiores as de praticantes de caminhada(8) , (13). Porém, de um modo geral, as taxas de lesão na caminhada são consideradas baixas quando comparadas a outros esportes, sendo essa atividade recomendada como uma atividade de menor impacto e muitos benefícios(8) , (16).

Foi encontrada uma associação significativa entre a presença de dor musculoesquelética e a presença de lesões prévias nos últimos 12 meses. Este dado corrobora com os achados de outros estudos com praticantes de caminhada(8) , (9), que encontraram a mesma associação entre um histórico de lesões e a ocorrência de uma nova lesão. Praticantes de caminhada com histórico de lesões podem ter optado pela prática da caminhada, que é uma atividade de intensidade moderada e com baixas taxas de lesões(4), pelo fato de não estarem completamente recuperados desta lesão prévia ou, por possuírem lesões prévias crônicas em estruturas com baixo potencial regenerativo, como cartilagem e meniscos, já que a região mais acometida neste estudo foi o joelho.

O principal diagnóstico relacionado às lesões prévias foi a artrose de joelho e, a média de dor relatada no momento da entrevista foi de 1,5 anos de duração com uma intensidade de 3 pontos na EVA, na região do joelho, o que pode ser caracterizado como um desconforto crônico de baixa intensidade e por um longo período. Sendo assim, existiu uma certa relação entre o relato de lesões prévias e a queixa de dor atual relatada pelos participantes. Além disso, a artrose é uma condição dolorosa que afeta aproximadamente 1 em cada 10 adultos com mais de 60 anos de idade, justamente a média de idade da população deste estudo(17). A prática da caminhada é extremamente recomendada para a redução da dor e melhora funcional em indivíduos com artrose de joelho, o que justifica a maior parcela de indivíduos com esta condição praticando caminhada(17).

Uma das limitações deste estudo se deve ao instrumento utilizado na avaliação dos sujeitos. Mesmo que a dor seja um fator subjetivo, optou-se por utilizar um questionário com o intuito de investigar a prevalênica da dor referida pelos participantes, sem qualquer avaliação clínica. Outra limitação pode ser considerada em relação ao delineamento transversal do estudo, o qual não nos permite ter um controle rigoroso das queixas registradas e torna o estudo sujeito ao viés de memorização dos participantes(18).

De acordo com os achados do presente estudo, a prática da caminhada possui baixo risco de lesões e deve ser recomendada como exercício físico, porém deve-se levar em consideração o histórico de lesões como um possível fator relacionado às lesões futuras destes indivíduos. Sugerimos que mais estudos com delineamento prospectivo na população de praticantes de caminhada sejam realizados para que profissionais que trabalham com esta atividade possam conhecer seus riscos e benefícios, e assim, recomendar sua prática de forma mais segura.

CONCLUSÃO

A prevalência de dor musculoesquelética em praticantes de caminhada foi de apenas 8% no presente estudo e esteve associada à presença de lesões prévias nos últimos 12 meses. A região mais acometida pela dor nos praticantes de caminhada foi a articulação do joelho.

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