Prevalência e fatores associados à anemia ferropriva e hipovitaminose A em crianças menores de um ano

Prevalência e fatores associados à anemia ferropriva e hipovitaminose A em crianças menores de um ano

Autores:

Mariane Alves Silva,
Carolina Abreu de Carvalho,
Poliana Cristina de Almeida Fonsêca,
Sarah Aparecida Vieira,
Andreia Queiroz Ribeiro,
Silvia Eloiza Priore,
Sylvia do Carmo Castro Franceschini

ARTIGO ORIGINAL

Cadernos Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1414-462Xversão On-line ISSN 2358-291X

Cad. saúde colet. vol.23 no.4 Rio de Janeiro out./dez. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/1414-462X2015000100047

Abstract

Objective

To assess the iron deficiency anemia and vitamin A deficiency prevalence and associated factors in children under one year.

Methods

Cross-sectional study with a sample of 93 children. Children with hemoglobin <11 g/dL were considered anemic. The cutoff point used for the classification of low levels of vitamin A was < 0.70 mMol/L and to characterize disability < 0.35 mmol/L. Statistical analyzes were carried out using Stata 10.0 software. Variables were presented in simple frequency and the association among the factors and deficiencies of iron and vitamin A was performed by the Pearson chi- square test. Mean hemoglobin and vitamin A were compared using the Student t test for parametric variables and Mann-Whitney test for nonparametric.

Results

The prevalence of anemia and vitamin A deficiency was 29.03% and 19.10%, respectively. It was found also low vitamin A values in 90.32% of children. The presence of iron deficiency anemia was associated to low maternal age and education. Low values of vitamin Awere significant in non-white mothers. The prevalence of inadequate iron intake and vitamin A was 23.66% and 22.58%, respectively.

Conclusion

This study evidences the high prevalence of these diseases, highlighting the importance of adopting preventive measures.

Key words: infant feeding; anemia; vitamin A

INTRODUÇÃO

A nutrição nos primeiros anos de vida é fundamental para o crescimento e desenvolvimento, portanto práticas alimentares inadequadas podem comprometer o estado nutricional das crianças1,2. A introdução precoce da alimentação complementar pode estar associada a maior risco de morbidades, ocorrência de alergias alimentares e menor absorção dos nutrientes. Em contrapartida, o seu fornecimento tardio pode prejudicar o crescimento e desenvolvimento das crianças e aumentar o risco de desnutrição e de outras carências nutricionais3,4.

As deficiências de ferro e de vitamina A na infância estão entre as carências com maior prevalência no mundo, sendo problemas nutricionais de relevância para a saúde pública na atualidade5. Acometendo principalmente menores de um ano de idade, a deficiência desses micronutrientes acarreta prejuízos ao crescimento e desenvolvimento infantil, o que justifica o estudo dos fatores associados6-8.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), anemia define-se por concentração de hemoglobina anormalmente baixa no organismo humano em consequência da carência de um ou mais nutrientes essenciais. Em nosso meio, a deficiência de ferro é a principal responsável pela anemia, nesse caso, ferropriva9.

O ferro apresenta como funções o transporte de oxigênio e elétrons para as células, além de integrar os sistemas enzimáticos de diversos tecidos. Sua deficiência pode comprometer o desenvolvimento mental, cognitivo e físico, além de diminuir a resistência às infecções, com repercussão no aumento da frequência de morbidades. Baixa escolaridade materna, número elevado de pessoas residentes no mesmo domicílio, reduzida duração do aleitamento materno exclusivo e baixo peso ao nascer são alguns dos principais fatores de risco para anemia7,10.

A vitamina A é um importante nutriente, destacando-se por sua função na integridade cutânea, proteção de estruturas e funções oculares, sistema imunológico e redução da morbimortalidade por doenças infecciosas, como diarreia, sarampo e malária. Sua carência leva a problemas oculares como xeroftalmia e cegueira noturna11. Entre os fatores que acarretam tal deficiência, tem-se: ingestão insuficiente de alimentos-fonte desse micronutriente, como produtos de origem animal, frutas e hortaliças; fatores sociodemográficos, maternos; e, ainda, a sinergia entre a carência dessa vitamina com processos inflamatórios12,13.

De acordo com a Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde, realizada em 2006, a prevalência de anemia ferropriva e deficiência de vitamina A na Região Sudeste foram de 22,6% e 21,6%, respectivamente. Tais valores são superiores aos encontrados nas demais regiões brasileiras, tendo apenas a Região Nordeste prevalências maiores14.

Diante da importância dos nutrientes – ferro e vitamina A – e os impactos que a deficiência deles causa na saúde, torna-se imprescindível analisar os fatores envolvidos na determinação dessas carências nutricionais em crianças com menos de um ano. O estudo de fatores de risco contribui para a adoção de medidas preventivas, que podem ter impacto na redução da prevalência dessas deficiências na população. Diante do exposto, este trabalho tem como objetivo avaliar a prevalência e os fatores associados à anemia ferropriva e deficiência de vitamina A em crianças de 6 a 12 meses de idade no município de Viçosa, MG.

METODOLOGIA

Trata-se de um estudo transversal aninhado a um estudo de coorte, realizado no período de 2011 a 2013, em Viçosa, MG. A amostra foi de conveniência e totalizou 93 crianças de ambos os sexos com idade de 6 a 12 meses . As crianças foram avaliadas no 6º e/ou 12º mês de vida na Policlínica Municipal de Viçosa e encaminhadas para a realização do exame de sangue no laboratório de análises clínicas da Divisão de Saúde da Universidade Federal de Viçosa.

Os critérios de inclusão foram: residir no município de Viçosa e pais ou responsáveis aceitarem participar do estudo, mediante a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Os critérios de exclusão foram: possuir doenças crônicas ou episódios de doenças agudas que alterassem o estado nutricional infantil; gestação gemelar; e consumo regular de medicamentos.

Durante a entrevista realizada com as mães ou responsáveis foi aplicado um questionário semiestruturado contendo questões referentes às condições de nascimento da criança, situação socioeconômica e ambiental. Além disso, para obtenção de informações sobre a alimentação da criança, foi aplicado um recordatório de 24 horas.

Foram coletados 8 mL de sangue venoso de cada criança, tendo sido os componentes sanguíneos (papa de hemácias, plasma e soro) separados e centrifugados. Foram analisados o hemograma completo e a proteína C reativa.

A dosagem de retinol sérico foi realizada por sistema de cromatografia líquida de alta eficiência (HPLC), modelo LC-10VP, Shimadzu®, de acordo com a metodologia descrita por Netto15. As crianças com hemoglobina inferior a 11 g/dL foram consideradas anêmicas, conforme recomendações da OMS16. O ponto de corte utilizado para a classificação de valores baixos de vitamina A foi < 20 mg/dL (< 0,70 mMol/L), e para caracterizar deficiência, < 10 mg/dL (< 0,35 mMol/L)17. Optou-se por realizar as análises dos fatores associados com o ponto de corte para “valores baixos de vitamina A”, uma vez que ele identifica precocemente crianças com risco de deficiência, o que é fundamental para a prevenção desse agravo nutricional.

As variáveis socioeconômicas analisadas foram: idade materna, escolaridade da mãe, raça materna, classificação da ABEP, trabalho materno e participação em programa assistencialista, como o Bolsa Família. A idade da mãe foi categorizada utilizando o ponto de corte de 19 anos para definir mães adolescentes e adultas18.

Quanto às crianças, as variáveis analisadas foram aleitamento materno, uso de suplementos alimentares e o consumo alimentar de ferro e vitamina A.

Os dados do consumo alimentar foram tabulados no software Avanutri®, sendo mensurados os micronutrientes ferro e vitamina A, e a quantidade desses foi comparada com as da Dietary Reference Intakes (DRI)19.

Calculou-se a prevalência de inadequação do consumo desses nutrientes utilizando-se como referências, para vitamina A, AI (Adequate Intake), para o ferro,a EAR (Estimated Average Requerement). Quando indisponível o valor EAR, foi usada a AI.

A digitação dos dados foi realizada na planilha de dados do Microsoft Office Excel 2010 e as análises estatísticas foram processadas no software Stata 10.0. As variáveis foram apresentadas em frequência simples e realizou-se a associação entre os fatores analisados e a deficiência de ferro e de vitamina A por meio do teste do qui-quadrado de Pearson. Para a comparação de médias de hemoglobina e vitamina A foi utilizado o teste t de Student para variáveis paramétricas e Mann-Whitney para as não paramétricas. Na discussão do estudo é apresentada a mediana da renda familiar de acordo com a raça da mãe. Nessa análise foi usado o teste Mann-Whitney para calcular a diferença entre a renda de mães brancas e não brancas. Para todos os testes, o nível de significância considerado foi de 5%.

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Federal de Viçosa sob número de protocolo 051/2012/CEPH e financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (APQ 00846-11). Todas as mães ou responsáveis pelas crianças assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

RESULTADOS

A amostra constituiu-se de 93 crianças, das quais 50,5% (47) eram do sexo feminino e tinham seis meses de idade. A idade média das mães foi 26,1 anos, sendo que a maioria era adulta (86,0%), não branca (53,8%) e tinha mais de nove anos de estudo (65,6%).

No que se refere à classificação da ABEP, 60,2% das famílias encontravam-se na categoria C, D e E e 11,8% contavam com o auxílio do Programa Bolsa Família.

Quanto às crianças, 65,6% estavam em aleitamento materno e 50,5% utilizavam suplemento alimentar (Tabela 1).

Tabela 1 Fatores associados a anemia ferropriva e valores baixos de vitamina A em crianças de 6 a 12 meses de idade, Viços, MG, 2011/2013 

Variáveis Anemia ferropriva p valor Valores baixos de vitamina A p valor
Sim Não Sim Não
% (n) % (n) % (n) % (n)
Idade materna
Adulta 25,0 (20) 75,0 (60) 0,03* 90,0 (72) 10,0 (8) 0,79
Adolescente 53,9 (7) 46,1 (6) 92,3(12) 7,7 (1)
Mãe
Branca 27,9 (12) 72,1 (31) 0,83 83,7 (36) 16,3 (7) 0,04*
Não branca 30,0 (15) 70,0 (35) 96,0 (48) 4,0 (2)
Escolaridade da mãe
Até 8 anos 43,8 (14) 56,2 (18) 0,02* 90,6 (29) 9,4 (3) 0,94
> = 9 anos 21,3 (13) 78,7 (48) 90,2 (55) 9,8 (6)
Classificação ABEP
A e B 25,9 (7) 74,1(20) 0,67 92,6 (25) 7,4 (2) 0,63
C, D e E 30,3 (20) 69,7 (46) 89,4 (59) 10,6 (7)
Trabalho materno
Sim 25,6 (10) 74,4 (29) 92,3 (36) 7,7 (3)
Não 31,4 (16) 68,6 (35) 0,55 88,2 (45) 11,8 (6) 0,52
Bolsa Família
Sim 18,2 (2) 81,8 (9) 0,50 81,8 (9) 18,2 (2) 0,31
Não 30,5 (25) 69,5 (57) 91,5 (75) 8,5 (7)
Aleitamento materno
Sim 26,2 (16) 73,8 (45) 90,2 (55) 9,8 (6)
Não 34,5 (10) 65,5 (19) 0,42 89,7 (26) 10,3 (3) 0,94
Usa suplemento
Sim 30,2 (13) 69,8 (30) 95,3 (41) 4,7 (2)
Não 27,7 (13) 72,3 (34) 0,79 85,1 (40) 14,9 (7) 0,11

*Valor de p < 0,05

teste X2

A prevalência de anemia foi de 29,0% e de deficiência de vitamina A, de 19,1%. Encontrou-se ainda que 90,3% das crianças da amostra apresentavam valores baixos de vitamina A. A Tabela 1 apresenta os fatores associados à anemia ferropriva e baixos valores de vitamina A. A presença de anemia ferropriva foi significativamente maior entre mães adolescentes e aquelas que tinham até oito anos de estudo. Já os valores baixos de vitamina A foram mais prevalentes em mães não brancas.

A Tabela 2 mostra os valores medianos e os intervalos interquartílicos dos níveis de hemoglobina e vitamina A sérica das crianças, de acordo com as variáveis socioeconômicas, aleitamento materno e uso de suplemento. Encontraram-se maiores níveis de hemoglobina em mães assistidas pelo Bolsa Família.

Tabela 2 Valores de mediana e intervalos interquartílicos de hemoglobina e vitamina A de acordo com as variáveis socioeconômicas, aleitamento materno e uso de suplementos de mães e crianças de 6 a 12 meses de idade, Viçosa, MG, 2011/2013 

Variáveis Hemoglobina p valor Vitamina A p valor
Mediana (p25-p75) Mediana (p25-p75)
Idade materna
Adulta 11,4 (10,9-11,9) 0,05 0,3 (0,3-0,5) 0,46
Adolescente 10,9 (10,3-11,4) 0,4 (0,3-0,5)
Mãe
Branca 11,3 (10,9-11,9) 0,47 0,4 (0,3-0,6) 0,38
Não branca 11,4 (10,8-11,9) 0,3 (0,3-0,5)
Escolaridade da mãe
Até 8 anos 11,0 (10,6-11,8) 0,17 0,4 (0,3-0,5) 0,53
> = 9 anos 11,4 (11,0-11,9) 0,3 (0,3-0,5)
Classificação ABEP
A e B 11,4 (10,9-12,0) 0,61 0,4 (0,3-0,6) 0,06
C, D e E 11,3 (10,9-11,9) 0,3 (0,3-0,5)
Trabalho materno
Não 11,3 (10,7-12,1) 0,88 0,3 (0,3-0,5) 0,45
Sim 11,4 (10,9-11,9) 0,4 (0,3-0,5)
Bolsa Família
Sim 11,9 (11,2-12,5) 0,02* 0,4 (0,2-0,6) 0,77
Não 11,3 (10,8-11,7) 0,3 (0,3-0,5)
Aleitamento materno
Sim 11,4 (10,8-11,9) 0,3 (0,3-0,5)
Não 11,2 (10,9-11,9) 0,82 0,4 (0,3-0,6) 0,14
Usa suplemento
Sim 11,3 (10,9-11,9) 0,3 (0,2-0,5)
Não 11,4 (10,7-12,1) 0,94 0,4 (0,3-0,5) 0,14

*Valor de p < 0,05

teste X2

A prevalência de inadequação do consumo de ferro entre as crianças foi de 23,7% e a do consumo de vitamina A, de 22,6%. A Tabela 3 mostra as medianas de consumo de ferro e vitamina A entre anêmicos e não anêmicos e com ou sem deficiência de vitamina A. Embora sem significância estatística, foi encontrada maior mediana de consumo de ferro e de vitamina A entre as crianças que não apresentavam anemia e baixos níveis de vitamina A.

Tabela 3 Comparação entre o consumo de ferro e vitamina A de acordo com a frequência de anemia e deficiência de vitamina A, em crianças de 6 a 12 meses de idade, Viçosa, MG, 2011/2013 

Variáveis Consumo de ferro p valor Consumo de vitamina A p valor
Mediana (p25-p75) Mediana (p25-p75)
Anemia
Sim 2,8 (1,3-4,8) 0,27 560,6 (392,5-860,1) 0,81
Não 4,1 (2,0-6,6) 561,3 (349,6-735,8)
Baixos valores de vitamina A
Sim 3,8 (1,8-6,4) 0,41 541,8 (343,6-737,9) 0,36
Não 3,3 (1,2-4,2) 613,8 (581,0-640,0)

Teste X2

DISCUSSÃO

A prevalência de anemia encontrada nas crianças foi de 29,0%, configurando-se problema de saúde pública na população estudada. Essa prevalência mostrou-se mais baixa quando comparada ao estudo de Oliveira et al.4 realizado em Belo Horizonte, MG, com crianças de 6 a 62 meses, no qual a prevalência de anemia foi de 38,3%. No entanto, muito semelhante ao encontrado por Leal et al.20 em estudo realizado em Pernambuco, de 32,8%.

Crianças com idade entre 6 e 24 meses se caracterizam como grupo de risco para a anemia, sendo fatores curto período de aleitamento materno, que muitas vezes não se dá de maneira exclusiva, baixa ingestão de alimentos ricos em ferro, crescimento acelerado, além da substituição do leite materno por leite de vaca e/ou outros alimentos com menor biodisponibilidade de ferro7,21.

No que se refere à idade materna, foi maior a prevalência de anemia entre filhos de mães adolescentes. Estudos recentes demonstram resultados semelhantes, justificando para esse achado o fato de filhos de mães adolescentes tenderem a nascer com menor peso, o que pode estar relacionado a uma menor reserva de ferro da criança, além de à inexperiência materna nos cuidados com o recém-nascido21,22.

Dentre as variáveis analisadas, foi encontrada relação significante entre a escolaridade materna e a prevalência de anemia, sendo essa maior entre as mães que tiverem até oito anos de estudo. A incidência dessa deficiência de ferro tem sido relacionada a áreas menos desenvolvidas, associando-se à condição socioeconômica da família10.

Quando a mãe apresenta melhor nível de instrução, tem-se uma maior prevenção e busca por serviços de saúde. Ademais, de maneira indireta, a escolaridade repercute na inserção da mulher no mercado de trabalho, tendo como consequência um aumento da renda familiar6,21.

Como se trata de uma doença multifatorial, é possível que a deficiência de ferro esteja relacionada a maior dificuldade de acesso a alimentos ricos nesse nutriente e em vitamina C, a início precoce da alimentação complementar e às condições sanitárias precárias das habitações, que podem favorecer a instalação de parasitoses intestinais9.

Os resultados obtidos neste estudo quanto ao consumo alimentar e à mediana de hemoglobina e vitamina A não foram diferentes do ponto de vista estatístico, no entanto muitos estudos têm encontrado essa correlação positiva, demonstrando que as quantidades de ferro e de vitamina A ingeridas têm associação com o estado nutricional do indivíduo7,23,24.

Esse achado possivelmente se deve ao fato de ter sido aplicado um único inquérito alimentar a cada criança, não demonstrando-se, então, a sua ingestão habitual. Ressalta-se ainda que nessa faixa etária tem-se uma dieta à base de legumes e cereais, alimentos com baixa biodisponibilidade de ferro. Além disso, crianças alimentadas com leite de vaca estão mais propensas a desenvolverem anemia ferropriva e deficiência de vitamina A, pois nesse alimento o conteúdo desses nutrientes é reduzido e de baixa biodisponibilidade7,10.

Tanto a deficiência de ferro quanto de vitamina A tiveram maior prevalência no grupo das crianças que não eram assistidas pelo Programa Bolsa Família. Os resultados encontrados não foram significativos, no entanto vão de encontro aos achados por Pedraza et al.25, os quais observaram um resultado positivo da efetividade do programa na recuperação e manutenção do estado nutricional infantil adequado. Isso se deve à forte relação entre a deficiência de nutrientes e os grupos de baixo nível socioeconômico. Para Vasconcelos et al.22, as famílias beneficiadas pelo programa utilizam grande parte do recurso na aquisição de alimentos, o que contribui para uma melhora na qualidade e quantidade da alimentação das famílias.

Segundo os critérios adotados pela OMS17, classificam-se como pontos de corte para a deficiência de vitamina A: valores abaixo de 0,70 mMol/L são considerados baixos, valores inferiores a 0,35 mMol/L denominam-se deficientes. Ainda segundo a OMS, a prevalência de deficiência de vitamina A de 19,1% constitui problema de saúde pública moderado, demandando atenção das autoridades competentes. Estudos recentes, como o apresentado por Queiroz et al.11, que encontrou na Paraíba prevalência de 21,8%, também têm encontrado altas prevalências de carência desse nutriente.

Alguns fatores dietéticos podem levar à carência desse nutriente, não apenas a ingestão deficiente da vitamina, como também a desnutrição energético-proteica e dieta pobre em lipídios, uma vez que esses auxiliam na absorção da vitamina A, levando então a uma menor reserva hepática dessa vitamina10,11.

Condições socioeconômicas desfavoráveis repercutem em piores resultados na saúde da população12. Neste trabalho, a prevalência de valores baixos de vitamina A foi maior entre mães não brancas. Acredita-se que esse achado esteja relacionado à mediana de renda familiar, que foi maior entre mães brancas em comparação às não brancas (R$ 1,300,00 versus R$ 850,00, p = 0,005). Possivelmente, devido à maior oportunidade, mães de cor branca tiveram melhor renda, o que repercute positivamente na alimentação e saúde de suas crianças.

Uma limitação que deve ser destacada neste estudo é a possibilidade de viés de seleção, uma vez que a amostra não foi aleatorizada. Entretanto, destaca-se a relevância desse estudo na investigação dos fatores associados à deficiência de ferro e de vitamina A, que são agravos nutricionais de grande relevância no cenário da saúde pública mundial.

CONCLUSÃO

Este estudo identificou elevada prevalência de anemia ferropriva e hipovitaminose A nas crianças avaliadas. Além disso, conclui-se que crianças filhas de mães adolescentes e com escolaridade inferior a oito anos estão mais propensas a apresentar anemia ferropriva na infância, bem como crianças de mães não brancas apresentaram maior prevalência de valores baixos de vitamina A. Esses resultados ressaltam a importância da adoção de medidas preventivas, atuando-se na redução da prevalência dessas deficiências na população por meio da melhoria das condições de vida da criança e de sua família.

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