Prevalência e fatores associados à experimentação e ao consumo de bebidas alcoólicas entre adolescentes escolares

Prevalência e fatores associados à experimentação e ao consumo de bebidas alcoólicas entre adolescentes escolares

Autores:

Luciene Dias Bispo Veiga,
Vanessa Cruz Santos,
Mayra Gomes dos Santos,
Jamilly Freitas Ribeiro,
Alda Silva Nery Amaral,
Adriana Alves Nery,
Cezar Augusto Casotti

ARTIGO ORIGINAL

Cadernos Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1414-462Xversão On-line ISSN 2358-291X

Cad. saúde colet. vol.24 no.3 Rio de Janeiro jul./set. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/1414-462x201600030037

Abstract

Introduction

Alcohol, despite being a psychoactive substance, is widely experienced and consumed by adolescents in several countries, including Brazil. Therefore, it is essential to identify the contributing factors to the occurrence of this problem. Therefore, this study aimed to identify the prevalence and factors associated with experimentation and consumption of alcoholic drinks among adolescent students.

Method

It is an epidemiological research, cross-sectional, held with 834 High School adolescents from public schools in urban and rural areas of the city of Jequié, Bahia. The data collection took place from self-administered questionnaire. The sample was a systematic random. Data were analyzed from descriptive statistics and regression logistics.

Results

The prevalence of experimentation of alcohol (80.75%) and alcohol consumption (37.75) was higher in males 57.91% and 59.66%, respectively. Of the factors with statistically significant positive association, the tobacco experience had greater impact on experiencing (PR=1.31; 95% CI=1.25-1.37) and consumption (PR=2.08; CI95=1.75 to 2.47%) of alcoholic beverages.

Conclusion

among the adolescents surveyed, the prevalence of alcohol experiencing and consumption is high, requiring actions to minimize especially the main associated factors.

Keywords:  alcoholic drinks; prevalence; adolescents; school health

INTRODUÇÃO

O álcool é a droga psicoativa mais usada na maioria dos países, tanto para a celebração como para o sofrimento, uma vez que é capaz de liberar as inibições de indivíduos que fazem uso dele. Seu consumo pode ser responsável por vários danos nas esferas sociais e individuais. Depois do tabaco, é a segunda maior causa de mortes relacionadas às drogas1.

Ao mesmo tempo, o álcool é um fator de risco para o consumo e experimentação de outras drogas, assim como para a ocorrência de morbimortalidade por doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) e por causas externas2.

No Brasil, o primeiro contato com as drogas lícitas ou ilícitas acontece, geralmente, na adolescência3, período que compreende a faixa de idade entre 10 e 19 anos4. Nesse grupo etário, o consumo pode levar a alterações nos âmbitos biológico, emocional, social e cognitivo, essenciais para o estabelecimento de hábitos e atitudes na idade adulta. Nesse sentido, consumir álcool na adolescência é um fator de exposição para futuros problemas de saúde, além de aumentar significativamente o risco de o indivíduo se tornar um consumidor em excesso ao longo da vida5, podendo trazer riscos à saúde de outrem.

A bebida alcoólica é uma das drogas mais citadas pelos estudantes brasileiros quando questionados sobre o uso destas no ano6. Diante desse padrão de consumo das drogas lícitas, a Organização Mundial da Saúde (OMS) incentiva os países a realizar levantamentos que evidenciem a realidade desse comportamento de risco entre escolares7.

Como proposta de prevenção ao uso de álcool, tabaco e outras drogas em escolares, foi criado o Programa Saúde na Escola (PSE) do Ministério da Saúde e do Ministério da Educação, instituído pelo Decreto Presidencial nº 6.286, de 5 de dezembro de 2007. Esse programa objetiva contribuir para a formação integral dos estudantes por meio de ações de promoção, prevenção e atenção à saúde, com vistas ao enfrentamento das vulnerabilidades que comprometem o pleno desenvolvimento de crianças e jovens da rede pública de ensino8.

Nesse sentido, o perfil dos adolescentes escolares, quando traçado, pode auxiliar no planejamento das ações dos profissionais envolvidos com o PSE e na elaboração de projetos que integrem saúde e educação, Esses dois fatores aproximam a comunidade da escola, possibilitando que a abordagem dos temas relacionados ao uso e abuso de álcool ou outras drogas ultrapassem os muros escolares9.

O desencadear de comportamentos de dependência e de violência, além da elevação da morbimortalidade mundial por DCNT e por causas externas devido ao uso de álcool e drogas, faz com que se tornem prementes estudos que identifiquem a prevalência desse consumo entre adolescentes, visto que o primeiro contato com essas substâncias tem ocorrido de forma precoce.

Nessa perspectiva, estudos sobre a experimentação e o consumo do álcool entre adolescentes, e dos possíveis fatores associados a essa droga, são justificáveis, haja vista que o uso de substâncias psicoativas, como o álcool, acarreta danos ao indivíduo e à sociedade. Assim, os resultados deste estudo poderão contribuir para implementação de políticas públicas específicas que assistam o adolescente de forma integral, bem como nortear profissionais de saúde e de educação que atuam em programas de promoção à saúde e prevenção de agravos, como o PSE, para que promovam ações que reduzam os fatores associados à experimentação do álcool entre os escolares adolescentes.

Logo, o objetivo deste estudo foi identificar a prevalência e os fatores associados à experimentação e ao consumo de bebidas alcoólicas entre adolescentes escolares.

MATERIAIS E MÉTODOS

Estudo epidemiológico, de corte transversal, realizado no município de Jequié, interior do Estado da Bahia, em 12 escolas públicas da rede estadual que oferecem o ensino médio na área urbana e rural do município.

A coleta de dados ocorreu no período de julho a setembro de 2012 com 834 escolares do ensino médio. Os critérios de inclusão adotados foram: ter idade entre 14 a 19 anos – faixa etária inserida na adolescência, que é de 10 a 19 anos10; estudar em escola pública estadual da zona urbana ou rural do município de Jequié; estar matriculado e frequentando regularmente o ensino médio no turno matutino, vespertino ou noturno; estar presente na sala de aula no momento da coleta de dados. Estabeleceu-se como critério de exclusão: os adolescentes que, após três visitas na escola em horários diferentes e agendados, não foram encontrados.

Para o cálculo da amostra, foram utilizados prevalência de 10% para o consumo do álcool, nível de confiança em 95% e grau de precisão de 2%, chegando a um número de 714 estudantes. Prevendo-se as perdas e as recusas, acrescentaram-se 30% a esse valor, chegando-se a 928 escolares. No entanto, foram pesquisados no total 834 estudantes. A amostra utilizada foi aleatória sistemática. Para identificar o intervalo amostral (n=4), dividiu-se a população de escolares pelo valor obtido no cálculo da amostra. Em seguida, sorteou-se o primeiro elemento amostral, ao qual foi acrescido sucessivamente o intervalo amostral.

Empregou-se instrumento de coleta autoaplicável, com base na classificação econômica da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (ABEP)11, para avaliar o consumo de bebidas alcoólicas. O questionário continha variáveis sociodemográficas (sexo, idade, classe econômica, raça/cor, escolaridade do pai e da mãe) e relacionadas às bebidas alcoólicas (experimentação e consumo).

A classe econômica, correspondente à classificação da ABEP, foi categorizada em “mais favorecidos economicamente (A1, A2, B1 e B2)” e “menos favorecidos economicamente (C1, C2, D e E)”. A escolaridade do pai e/ou da mãe foi classificada em baixa escolaridade (≤8 anos de estudo) e alta escolaridade (>8 anos de estudo). Já a classificação da raça/cor foi autodeclarada conforme categorias do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE): branca, preta, parda, amarela, indígena12, mas dicotomizada neste estudo em brancos (branca) e negros (preta e parda) por não haver estudantes classificados em outras categorias.

Os instrumentos foram aplicados nas salas de aula ou no auditório das escolas onde os adolescentes estudavam por uma equipe previamente qualificada. No momento da entrega do fôlder explicativo sobre a pesquisa e das cópias do Termo de Consentimento Livre Esclarecido (TCLE) aos alunos sorteados, os pesquisadores apresentaram os objetivos e a relevância científica e social do estudo. Além disso, foram abordados os aspectos éticos e informado o caráter voluntário da participação, além de serem garantidos o anonimato e o sigilo das informações.

Posteriormente à devolução do TCLE devidamente assinado pelo pai e/ou responsável, realizou-se a coleta de dados. A priori, solicitou-se aos estudantes sorteados que saíssem da sala de aula e fossem para outro local (sala ou auditório), na própria escola, para responderem ao instrumento de coleta de dados. Na ocasião, foram reforçadas a relevância da pesquisa, a garantia do sigilo e do anonimato, além do oferecimento de esclarecimentos sobre as questões que seriam respondidas. Após, houve a leitura de questões e as explicações necessárias para o seu correto preenchimento.

Durante a coleta, os professores e/ou coordenadores não estavam presentes nas salas para evitar ou minimizar a inibição dos escolares. A equipe responsável pela coleta dos dados esteve nas salas durante todo o período em que os estudantes respondiam ao questionário, mantendo a devida distância, no intuito de evitar interferência nas respostas. Quando havia dúvida sobre alguma questão, um dos componentes da equipe oferecia suporte ao escolar para interpretá-la.

Cada estudante recebia um comprovante com a numeração do questionário que havia respondido, para que, dessa maneira, fosse garantido ao adolescente o direito de retirar o consentimento caso apresentasse interesse. No final da coleta, os questionários respondidos foram colocados, pelos próprios escolares, em uma caixa (urna) apropriada para essa finalidade, de modo a preservar e garantir o anonimato dos informantes.

Para o processamento e análise dos dados, inicialmente realizou-se a codificação das variáveis pesquisadas. Em seguida, fez-se uma análise dos questionários, excluindo aqueles que não haviam sido respondidos de forma adequada. Para análise descritiva, utilizaram-se média, mediana e moda.

Inicialmente, foi realizada a análise estatística descritiva utilizando medidas de frequências absolutas e relativas. A associação realizada para a experimentação e consumo de bebidas alcoólicas (variáveis categóricas) com sexo, faixa etária, escolaridade, raça/cor da pele, crença religiosa, trabalho remunerado, reside com, provedor familiar, classificação econômica, escolaridade do pai, escolaridade da mãe e experimentação de tabaco (variáveis de exposição) foi testada por meio da regressão logística bivariada, com o uso da razão de prevalência (RP) e respectivos intervalos de confiança em 95% (IC95%). Em todas as análises, a significância estatística adotada foi de (p<0,05). Os dados foram tabulados e analisados no The Statistical Package for Social Sciences, versão 21.0, para Windows.

Os participantes do estudo menores de 18 anos, além de terem o TCLE assinado pelos pais, tiveram que assinar o termo de assentimento, enquanto que os adolescentes de 19 anos assinaram somente o TCLE. A pesquisa ocorreu respeitando a Resolução nº 196/1996 do Conselho Nacional de Saúde – atualizada pela Resolução nº 466, de 12 de dezembro de 2012 – e foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (CEP/UESB), sob protocolo nº 212/2011 e CAAE nº 00183.0.454.000-11.

RESULTADOS

Dos adolescentes pesquisados, 80,80% já experimentaram bebidas alcoólicas e 37,75% as consumiam, com maior predominância no sexo masculino, com 57,91 e 59,66%, respectivamente.

A partir das características sociodemográficas, verificou-se que 59,8% são do sexo feminino. A média de idade foi de 16,50 anos (±1,33), a mediana, de 16,0, e a moda, de 16. Houve predominância de: adolescentes que cursam o 1º ano; negros; com crença religiosa; sem trabalho remunerado; que moram com o pai e a mãe e que os tem como provedores familiares; classificados como menos favorecidos; tendo pai e mãe baixa escolaridade; com maior ocorrência na faixa-etária de 14 a 17 anos de idade; que já experimentaram tabaco (Tabela 1).

Tabela 1 Características sociodemográficas dos adolescentes escolares em Jequié, na Bahia, 2014 

Variável/categorias %
Sexo (N=821)
Masculino 330 40,20
Feminino 491 59,80
Idade (N=817)
14 a 16 400 48,90
17 a 19 417 51,10
Escolaridade (ensino médio) (N=834)
1º ano 333 39,90
2º ano 282 33,80
3º ano 219 26,30
Raça/cor (N=814)
Brancos 158 19,40
Não brancos 656 80,60
Crença religiosa (N=830)
Sim 701 84,50
Não 129 15,50
Trabalho remunerado (N=813)
Sim 248 30,50
Não 565 69,50
Reside com (N=828)
Pai e mãe 436 52,70
Pai/mãe/outros 392 47,30
Provedor familiar (N=824)
Pai/mãe 676 82,00
Outros 148 18,00
Classificação econômica (N=832)
Mais favorecidos 206 24,75
Menos favorecidos 626 75,25
Escolaridade do pai (N=793)
Baixa escolaridade 654 82,47
Alta escolaridade 139 17,53
Escolaridade da mãe (N=820)
Baixa escolaridade 654 79,76
Alta escolaridade 166 20,24
Idade que experimentou bebida alcoólica (anos) (N=829)
Nunca bebi bebida alcoólica 159 19,18
9 anos ou menos 66 7,96
De 10 a 13 214 25,81
De 14 a 17 376 45,36
18 ou mais 14 1,69
Idade que iniciou o consumo de bebida alcoólica regularmente (N=788)
Nunca bebi bebida alcoólica 249 31,60
09 anos ou menos 24 3,05
De 10 a 13 100 12,69
De 14 a 17 386 48,98
18 ou mais 29 3,68
Experimentação de tabaco (N=821)
Sim 182 22,15
Não 482 77,85

A Tabela 2 apresenta os fatores associados à experimentação de bebidas alcoólicas.

Tabela 2 Fatores associados à experimentação de bebidas alcoólicas entre adolescentes escolares, de acordo respectivas razão de prevalência (RP) e intervalos de confiança (IC95%), em Jequié, na Bahia, 2014 

Variável/categorias Experimentação de bebidas alcoólicas RP (IC95%)
Sim Não
n % n %
Sexo (N=819)
Feminino 395 80,60 95 19,40 1,00
Masculino 267 81,20 62 18,80 1,00 (0,94-1,07)
Faixa etária (N=815)
14 a 16 300 75,20 99 24,80 1,00
17 a 19 358 86,10 58 13,90 1,14 (1,06-1,22)
Escolaridade (ensino médio) (N=832)
1º ano 253 76,20 79 23,80 1,00
2º ano 237 84,00 45 16,00 1,10 (1,02-1,19)
3º ano 182 83,50 36 16,50 1,09 (1,01-1,19)
Raça/cor da pele (N=812)
Brancos 123 77,80 35 22,20 1,00
Negros (pardo e preto) 533 81,50 121 18,50 1,04 (0,92-1,14)
Crença religiosa (N=828)
Sim 556 79,50 143 20,50 1,00
Não 113 87,60 16 12,40 1,10 (1,02-1,18)
Trabalho remunerado (N=811)
Não 453 80,50 110 19,50 1,00
Sim 204 82,30 44 17,70 1,02 (0,95-1,09)
Reside com (N=826)
Pai e mãe 331 76,30 103 23,70 1,00
Pai/mãe/outros 338 86,30 54 13,70 1,13(1,05-1,20)
Provedor familiar (N=822)
Pai/mãe 537 79,70 137 20,30 1,00
Outros 129 87,20 19 12,80 1,09 (1,01-1,17)
Classificação econômica (N=830)
Mais favorecidos 176 26,25 76 47,50 1,00
Menos favorecidos 494 73,75 84 52,50 1,22 (1,12-1,36)
Escolaridade do pai (N=791)
Baixa escolaridade 521 79,90 131 20,10 1,00
Alta escolaridade 114 82,00 25 18 1,02 (0,94-1,11)
Escolaridade da mãe (N=818)
Alta escolaridade 132 80,00 33 20 1,00
Baixa escolaridade 527 80,70 126 19,30 1,00 (0,91-1,07)
Experimentação de tabaco (N=821)
Não 482 75,50 156 24,50 1,00
Sim 182 99,50 1 0,50 1,31(1,25-1,37)

Entre os pesquisados, foram variáveis associadas positivamente em níveis de significância estatística à experimentação de álcool: faixa etária (RP=1,14; IC95%=1,06-1,22); 2º ano de escolaridade (RP=1,10; IC95%=1,02-1,19) e 3º ano (RP=1,09; IC95%=1,01-1,19); crença religiosa (RP=1,10; IC95%=1,02-1,18); residem com (RP=1,13; IC95%=1,05-1,20); provedor familiar (RP=1,09; IC95%=1,01-1,17); classificação econômica (RP=1,22; IC95%=1,12-1,36); experimentação de tabaco (RP=1,31; IC95%=1,25-1,37).

Na Tabela 3, estão descritos os fatores associados ao consumo de bebidas alcoólicas.

Tabela 3 Fatores associados ao uso de bebidas alcoólicas entre adolescentes escolares, de acordo respectivas razão de prevalência (RP) e intervalos de confiança (IC95%), em Jequié, na Bahia, 2014 

Variável/categorias Consumo de bebidas alcoólicas RP (IC95%)
Sim Não
n % n %
Sexo (N=736)
Feminino 161 35,40 294 64,60 1,00
Masculino 117 41,65 164 58,35 1,17 (0,97-1,41)
Idade (N=747)
14 a 16 111 39,36 249 60,64 1,00
17 a 19 168 59,57 203 40,43 1,46 (1,21-1,77)
Escolaridade (ensino médio) (N=747)
1º ano 109 36,95 186 63,05 1,00
2º ano 84 33,85 164 66,15 0,91 (0,72-1,15)
3º ano 89 43,60 115 56,40 1,18 (0,95-1,46)
Raça/cor da pele (N=747)
Brancos 49 34,75 92 65,25 1,00
Negros (pardo e preto) 233 38,45 373 61,55 1,10 (0,86-1,41)
Crença religiosa (N=717)
Sim 209 34,90 390 65,10 1,00
Não 62 52,54 56 47,46 1,50 (1,22-1,84)
Trabalho remunerado (N=729)
Não 177 34,60 335 65,40 1,00
Sim 100 40,10 117 59,90 1,33 (1,10-1,60)
Reside com (N=741)
Pai e mãe 137 26,00 253 74,00 1,00
Pai/mãe/outros 144 41,00 207 59,00 1,16 (0,97-1,40)
Provedor familiar (N=662)
Outros 18 31,05 40 68,95 1,00
Pai/mãe 228 37,74 376 62,25 0,82 (0,55-1,22)
Classificação econômica (N=743)
Menos favorecidos 207 37,25 349 62,75 1,00
Mais favorecidos 75 40,10 112 59,90 1,07 (0,87-1,32)
Escolaridade do pai (N=713)
Baixa escolaridade 228 38,60 363 61,40 1,00
Alta escolaridade 48 39,35 74 60,65 1,02 (0,80;1,30)
Escolaridade da mãe (N=735)
Alta escolaridade 57 37,00 97 63,00 1,00
Baixa escolaridade 223 38,40 358 61,60 1,03 (0,82-1,30)
Experimentação de tabaco (N=739)
Não 176 30,50 401 69,50 1,00
Sim 103 63,60 59 36,40 2,08 (1,75-2,47)

Na população de adolescentes estudada, estimou-se uma associação positiva, estatisticamente significativa, entre consumo de bebida alcoólica e faixa etária (RP=1,46; IC95%=1,21-1,77), crença religiosa (RP=1,50; IC95%=1,22-1,84), trabalho remunerado (RP=1,33; IC95%=1,10-1,60) e experimentação de tabaco (RP=2,08; IC95%=1,75-2,47).

DISCUSSÃO

Entre os escolares analisados, houve alta prevalência da experimentação e consumo de bebidas alcoólicas, com valores obtidos próximos aos de uma pesquisa nacional6 e de outras realizadas com escolares de capitais brasileiras e de um município do interior da Bahia5,13,14. Entretanto, houve divergência com um estudo realizado na zona rural de um município de pequeno porte do Sul do Brasil15.

Neste estudo, adolescentes de 14 a 19 anos apresentaram prevalências de 1,14 e 1,46 a mais para experimentação e consumo de bebidas alcoólicas, respectivamente, em comparação ao grupo etário de 14 a 16, havendo associação positiva com os desfechos estudados. Esses achados são similares aos resultados de um inquérito realizado na Espanha16, assim como em outra pesquisa de base populacional realizada no Brasil17.

Os adolescentes, por vezes, iniciam o consumo bebida alcoólica precocemente e em excesso, o que o torna em um complexo problema de saúde pública no Brasil. Afinal, quanto maior for o número de consumidores dessa substância psicoativa, maior será a possibilidade de esses indivíduos estarem vulneráveis às consequências biopsicossociais14. Esses dados evidenciam a necessidade de implementação de políticas públicas para minimizar a exposição a esse fator de risco em adolescentes brasileiros2.

Nesta investigação, a experimentação da bebida alcoólica esteve associada com a escolaridade, corroborando estudos realizados com o mesmo público em outros Estados brasileiros, como Minas Gerais e Amazonas18,19.

Quanto à raça/cor da pele, não houve associação significativa dessa variável com a experimentação e/ou consumo do álcool. Entretanto, ressalva-se que a proporção de adolescentes negros que experimentaram bebidas alcoólicas foi 1,04 maior em comparação aos não negros, assim como para o consumo de álcool, que foi de 1,10. Resultados de outro estudo evidenciou associação positiva entre consumo de álcool e vítimas de violência com indivíduos negros e do sexo masculino, atendidos em serviços de emergência no Brasil20.

Entre os escolares analisados, não ter crença religiosa influenciou em 1,10 e 1,50 a mais, respectivamente, na experimentação e no consumo de bebidas alcoólicas em relação aos que tinham crença. Outras pesquisas apontam que adolescentes sem crença religiosa experimentam e consomem mais álcool21-23. A religiosidade e a espiritualidade constituem fatores importantes para que os adolescentes assumam comportamentos saudáveis; assim, independentemente da religião praticada, o jovem poderá não consumi-lo24.

O consumo de bebidas alcoólicas foi 1,33 maior entre adolescentes com trabalho remunerado do que aqueles sem – diferença estatisticamente significante –, guardando similaridade com estudo realizado com adolescentes escolares de Feira de Santana, no Estado da Bahia, em que também houve associação positiva com o padrão de consumo de álcool mais frequente entre adolescentes que trabalhavam25.

Neste estudo, identificou-se associação entre experimentação de bebidas alcoólicas com os membros familiares com quem reside o adolescente e com o provedor familiar. Entretanto, não houve associação ao uso de álcool por parte do escolar, mas sim em como se dá a relação recíproca entre familiares e adolescentes. Estudo sobre uso de álcool na adolescência e sua relação com problemas familiares3 revela que a família é considerada como protetora para a construção de hábitos saudáveis.

Ainda, nestes resultados, identificou-se que os adolescentes escolares menos favorecidos experimentaram 1,22 mais bebida alcoólica quando comparados aos mais favorecidos. Em Passo Fundo, no Estado de Minas Gerais, também avaliando escolares do ensino médio, verificou-se associação positiva entre o consumo de bebidas alcoólicas e a baixa renda do chefe da família18. No entanto, em outro estudo, não foi possível associar esse fator individualmente ao consumo de bebidas alcoólicas17, porém, em parcial dissensão26, acredita-se que o fator renda pode, em conjugação com outros fatores, influenciar esse consumo. Vale destacar que o Brasil27 tem um mercado consumidor de bebidas alcoólicas composto, em sua maioria, por jovens e que as classes C, D e E (menos favorecidos) respondem por 70% do consumo.

Nesse sentido, cabe ainda enfatizar o papel da família como norte essencial na prevenção do uso de álcool18,28,29. Considerar a diversidade de fatores e hábitos do adolescente, assim como da família, é importante na caracterização do grupo mais susceptível ao uso de álcool30.

Ao se referir à experimentação do tabaco, essa variável associou-se positivamente à experimentação e consumo de bebida alcoólica, com maior impacto em ambos os desfechos, respectivamente: 1,31 e 2,08 vezes a mais quando comparado ao grupo dos que não experimentaram tabaco. Em outros estudos, essa correlação também foi evidenciada. Isso sugere que quanto maior a dependência à nicotina, maior será o consumo de álcool29.

Diante do contexto, ratifica-se que educação e saúde devem se articular no intuito de prevenir fatores que estejam relacionados à experimentação do álcool entre escolares adolescentes e que possam acarretar danos à saúde do indivíduo, família, sociedade, assim como para o sistema de saúde pública. Nesse sentido, é merecido fazer menção ao PSE,8 que foi implantado nessa perspectiva. Logo, estudos que visem identificar o perfil dos adolescentes que usam drogas nas escolas facilitam a intervenção das equipes de saúde que atuam nesse programa9.

Sendo assim, com a tendência de expansão do consumo de drogas vista na contemporaneidade, bem como a iniciação cada vez mais precoce, fica evidente a necessidade de realização de ações e de medidas de prevenção, evitando, dessa maneira, a experimentação e a progressão para o uso regular, abuso e, por conseguinte, a dependência. Para tanto, é essencial compreender as situações e os fatores que propiciam a um indivíduo experimentar e usar drogas, o que não é simples, assim como não existem respostas e explicações definitivas, pois vários fatores se interagem e definem cada situação e realidade31.

CONCLUSÃO

Entre os adolescentes escolares pesquisados, a prevalência da experimentação e do consumo de bebidas alcoólicas é elevada. O primeiro contato com essa substância ocorre precocemente e é maior entre os meninos. Os fatores que associaram tanto a experimentação como o consumo de álcool foram: idade, crença religiosa, trabalho remunerado, escolaridade do pai e experimentação de tabaco.

Ao conhecer a magnitude e os fatores associados à experimentação e ao consumo de bebidas alcoólicas entre adolescentes escolares,, será possível intervir no nível local visando ao controle dessa droga. Isso porque gestores, professores e outros profissionais das escolas estudadas terão subsídios para implementar ações educativas voltadas para a promoção da saúde e prevenção do uso dessas drogas, em articulação com profissionais da área da saúde, por exemplo, por meio do PSE.

Ressalta-se que este estudo teve algumas limitações com o formato selecionado, haja vista que, em estudos transversais, a exposição e o efeito são medidos concomitantemente, impossibilitando, assim, o estabelecimento da sequência temporal dos eventos e, por conseguinte, a separação da causa e do efeito.

O estudo teve também como limitação o fato de a coleta de dados compreender exclusivamente adolescentes escolares matriculados em escolas públicas do município. A aplicação do questionário no espaço escolar pode ter influenciado o estudante a omitir a condição de experimentar e/ou consumir bebidas alcoólicas, ou ainda de fumante. Deve-se também considerar que é preciso ter cautela ao interpretar as estimativas de prevalência, principalmente no que diz respeito à possibilidade de viés de informação, pois, mesmo com a garantia do anonimato, pode ter ocorrido subestimação das prevalências.

REFERÊNCIAS

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