Prevalência e fatores associados às quedas em idosos de Estação-RS: estudo transversal de base populacional

Prevalência e fatores associados às quedas em idosos de Estação-RS: estudo transversal de base populacional

Autores:

Alisson Padilha de Lima,
Ezequiel Vitório Lini,
Marcos Paulo Dellani,
Marilene Rodrigues Portella,
Marlene Doring

ARTIGO ORIGINAL

Cadernos Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1414-462Xversão On-line ISSN 2358-291X

Cad. saúde colet. vol.25 no.4 Rio de Janeiro out./dez. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/1414-462x201700040271

Abstract

Objective

This study evaluated factors associated with falls in the elderly from Estação, Rio Grande do Sul.

Method

A cross‑sectional study with 418 elderly. Questionnaires included personal and family information: sex, age, race, who they live with, neighborhood, marital status and retirement. Health and life habit such as chronic pain, self-feeding, self-bathing, and get in/out of bed, up/down stairs, arthritis/arthrosis, hearing impairment, visual impairment, hypertension, rheumatism, osteoporosis and ischemia brain. The dependent variable was “occurrence of falls in the last 12 months preceding the interview.” Calculated for relative and absolute frequency for sample characteristic. We tested the association between the outcome and independent variables through the chi‑square test gross and multivariate analyzes using Poisson regression, estimating gross and adjusted prevalence ratios, calculated the confidence intervals of 95% to a p≤0.05.

Results

The prevalence of falls in the year preceding the survey was 63.8%. After multivariate analysis the following variables remained significantly associated: illiteracy (PR = 1,67), chronic pain (PR = 2,34) and cerebral ischemia (PR = 2,30).

Conclusion

The research presented a high prevalence of falls among the elderly and shows that the associated factors are modifiable and preventable.

Keywords:  accidental falls; health status; demographic aging

INTRODUÇÃO

Os fatores associados e os índices de quedas estão entre as principais causas de morbidade e mortalidade por causas externas em adultos acima de 50 anos e são responsáveis por grande parte das incapacidades físicas decorrentes de lesões não intencionais, excluindo os acidentes de trânsito 1 . Ao longo da vida, na dimensão biológica, o processo de envelhecimento reduz as capacidades sensoriais e motores responsáveis pelo controle postural, resultando em um alto número de quedas entre os idosos 2 .

Modificações orgânicas de origem física e mental, como: diminuição das capacidades físicas e motoras, diminuição da capacidade funcional e cognitiva, aumento das doenças crônicas e psicológicas como as demências, estão associadas ao avanço da idade e fragilidade, aumentando a prevalência de lesões acometidas pelas quedas, pois todos os anos um terço dos idosos da comunidade correm o risco de cair, e cerca de 10 a 15% suportam uma lesão 3 .

Estudos têm apontado diversos fatores de riscos para quedas em idosos, como: idade avançada, sexo feminino, baixo nível de escolaridade, fragilidade física, fraqueza muscular, marcha instável e equilíbrio, apresentar isquemia cerebral, cognição prejudicada e sintomas depressivos 4,5 .

A literatura exibe um entendimento de que o evento de quedas é um deslocamento não intencional do corpo para um nível inferior à posição inicial, um desequilíbrio postural com incapacidade de correção em tempo hábil 6-9 . Há um consenso de que a ocorrência das quedas em idosos se deve à participação de fatores intrínsecos, definidos como aqueles relacionados ao próprio sujeito, e extrínsecos os relacionados aos aspectos físicos do ambiente no qual o indivíduo interage 10-12 .

As quedas repercutem de modo significativo na vida dos caidores, portanto, as ações centradas na prevenção das quedas e também aquelas que intervêm nas repercussões de forma a dirimi-las ou evitá-las são necessárias para a maximização da capacidade funcional 13 .

Em vista da gravidade do problema decorrente das quedas na população idosa, tanto pela prevalência quanto pelos danos causados aos idosos, a ocorrência de quedas é um tema relevante e que necessita de constante pesquisa para a compreensão dos fatores causais e elaboração de novas ações preventivas por parte dos órgãos públicos de saúde. Diante desse contexto, este estudo teve por objetivo verificar a associação dos fatores associados às quedas em idosos de Estação, Rio Grande do Sul.

MÉTODOS

Trata-se de um estudo transversal de base populacional com idosos residentes no município de Estação, estado do Rio Grande do Sul. Estação encontra-se na região Noroeste do estado, distante 256,17 km da capital, Porto Alegre. Possuía, no momento da coleta de dados, uma população de 6.253 habitantes, dos quais 992 com idade igual ou superior a 60 anos, representando 15,9% da população total.

A Secretaria Municipal da Saúde de Estação dispunha de um ambulatório, que atuava na prestação de assistência básica à saúde da população. Essa unidade ambulatorial abriga a Estratégia da Saúde da Família (ESF), com cobertura de 100% (cem por cento) de suas microáreas, um hospital de pequeno porte com fins lucrativos que mantém convênio com o município. A cidade referência em serviços de saúde para o município, que exigem infraestrutura com maior tecnologia, está localizada a uma distância de 31 km. Na prestação de serviços assistenciais, dispõem-se de um médico de clínica geral, dois médicos de ESF, um médico pediatra, um médico ginecologista, três cirurgiões-dentistas, dois enfermeiros, dois técnicos em enfermagem, três auxiliares de enfermagem, um psicólogo e doze agentes comunitários de saúde.

Nesse contexto, o município realiza a terceirização de alguns serviços de exames laboratoriais, procedimentos e consultas médicas, procurando atender à demanda de seus munícipes por essas necessidades. Estação possui, ainda, convênio com municípios considerados referência no atendimento de urgência e emergência.

Para a identificação e localização da população do estudo, utilizou-se o Sistema de Informação da Atenção Básica (SIAB) da Secretaria de Saúde do município para o ano de 2011. Para o cálculo amostral, o erro aceitável adotado foi de 0,05 e intervalo de confiança de 95%, resultando em 418 idosos. Considerando possíveis perdas de 10% (não elegibilidade, recusas, entre outras), um número adicional de idosos foi incluído como margem de segurança.

Conforme os dados apresentados pela Secretaria Municipal de Saúde, havia 992 idosos residentes em 12 microáreas de saúde no município de Estação-RS. Destas, oito são localizadas na zona urbana, com um total de 654 idosos; duas na zona rural, com 155 idosos; e duas estão distribuídas de forma mista (parte está localizada na zona urbana e parte na zona rural), com 183 idosos. Para a seleção dos participantes, com base nos registros da ESF levou-se em consideração a proporcionalidade da população investigada por sexo e zona de residência: 57% do sexo feminino e 43% do sexo masculino, 66% vivem na zona urbana, 16% na zona rural e 18% na zona mista.

Para cálculo do tamanho mínimo da amostra, adotou-se a Fórmula (1) segundo Calegari 14 , sendo:

A=N.1E²N+1E² (1)

A seguir, foram selecionados por amostragem aleatória, mantendo as proporções estipuladas pela amostra. Portanto, incluíram-se no estudo 277 idosos da zona urbana, desses 158 do sexo feminino, 119 do masculino; na zona rural 67 idosos, desses 38 do sexo feminino e 29 do masculino; na zona mista 76 idosos, desses 43 do sexo feminino, 33 do masculino.

Os critérios de inclusão foram: residir há pelo menos seis meses no território do município; possuir no ato da entrevista condições para responder ao questionário ou a presença de um familiar ou cuidador para auxiliar ou efetuar as respostas, não apresentar distúrbios psicológicos como: transtorno de comportamento e agressividade, não ter déficit cognitivo severo, não apresentar limitações físicas que comprometessem o deambular e aceitar participar do estudo. Consideraram-se como perdas os indivíduos que não foram localizados após três tentativas, em horários diferentes, e ao constatar com a vizinhança a ausência eram substituídos; mudança de residência para outro município; por óbito no período da coleta; indivíduos elegíveis que se recusaram a participar. Foram excluídos os idosos com dificuldades de comunicação que não tivessem um cuidador ou responsável para auxiliar na entrevista.

Coletaram-se os dados por meio de inquérito domiciliar, utilizando-se o questionário da pesquisa “Saúde, Bem-estar e Envelhecimento” – SABE 15 . Instrumento esse validado no Brasil para pessoas com 60 anos ou mais, de fácil aplicabilidade e fidedignidade 15 . O instrumento completo inclui sete seções: A) Informações pessoais e familiares, B) Avaliação cognitiva, C) Condições de moradia, D) Condições de saúde e hábitos de vida, E) Avaliação funcional, F) Uso e acesso aos serviços de saúde e G) Apoio familiar e social.

Neste estudo analisaram-se as seções A (informações pessoais e familiares: sexo, faixa etária, cor, reside, zona de moradia, estado marital e aposentadoria) e D (condições de saúde e hábitos de vida, como: dor crônica, quedas no último ano, alimentar-se sozinho, banhar-se, deitar/levantar da cama, subir/descer escadas, artrite/artrose, dificuldade auditiva, dificuldade visual, hipertensão arterial, reumatismo, osteoporose e derrame/isquemia cerebral). As variáveis: dor crônica, dificuldade auditiva e dificuldade visual foram mensuradas a partir do autorrelato dos idosos, ou seja, da percepção de cada idoso.

Foi realizado um teste- piloto com 40 idosos para averiguar se as instruções estavam claras na aplicação do instrumento aos respondentes. Cabe ressaltar que o instrumento foi aplicado em forma de entrevista para que pudesse diminuir os possíveis erros, sempre realizado por um mesmo avaliador.

As variáveis independentes relacionadas às características sociodemográficas foram: sexo, faixa etária, cor, reside, estado marital e aposentadoria. Outros fatores possivelmente associados às quedas incluíram as variáveis: atividade física, zona moradia, escolaridade, medicamentos, alimentar-se, banhar-se, deitar/levantar da cama e subir/descer escadas, artrite/artrose, dor crônica, dificuldade auditiva, dificuldade visual, reumatismo, hipertensão arterial, osteoporose e derrame/isquemia cerebral.

O projeto desta pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade de Passo Fundo sob o parecer Nº 017/2011, CAAE nº 0281.0.398.000.11. A coleta de dados se deu conforme a resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde.

Realizou-se análise descritiva e bivariada dos dados. Inicialmente foi realizada frequência relativa e absoluta para caracterizar a amostra. Testou-se a associação entre o desfecho e as variáveis independentes através do teste qui-quadrado e análises brutas e multivariadas mediante regressão de Poisson, estimando-se as razões de prevalência brutas e ajustadas, calculados os respectivos intervalos de confiança de 95%, com nível de significância de 0,05. Entraram no modelo múltiplo todas as variáveis com p-valor≤0,20.

RESULTADOS

Participaram da pesquisa 418 idosos de ambos os sexos, tendo maior prevalência entre o sexo feminino com 56,8%, idade de 60 a 69 anos 50,0%, e 63,8% dos idosos apresentaram pelo menos uma queda no último ano. A Tabela 1 apresenta as características da amostra associadas às quedas, com destaque para o sexo feminino, a faixa etária de 80 anos ou mais, a cor branca e ser solteiro ou viúvo com maior percentual de ocorrência de quedas e estatisticamente significativo (p≤0,050).

Tabela 1 Características da amostra associadas às quedas dos idosos de Estação, RS, Brasil, 2011 (n = 418)  

Variáveis Quedas p*
Sim Não
n (%) n (%)
Sexo 0,005
Feminino 72 (30,3) 166 (69,7)
Masculino 33 (18,3) 147 (81,7)
Faixa etária 0,014
60 a 69 anos 45 (21,4) 165 (78,6)
70 a 79 anos 39 (24,8) 118 (75,2)
>80 anos 21 (41,2) 30 (58,8)
Cor 0,045
Branca 97 (26,8) 265 (73,2)
Parda/Negra 8 (14,3) 48 (85,7)
Reside 0,103
Sozinho 21 (33,3) 42 (66,7)
Acompanhado 84 (23,7) 271 (76,3)
Estado marital 0,005
Casado 61 (21,2) 227 (78,8)
Solteiro/viúvo 44 (34,1) 85 (65,9)
Aposentadoria 0,322
Não 15 (20,5) 58 (79,5)
Sim 90 (26,1) 255 (73,9)

*Teste qui-quadrado de Pearson

Na análise bruta a não realização de atividade física mostra-se inicialmente associada à queda, tal como o analfabetismo e a presença de dificuldades para as tarefas básicas da vida diária (alimentação, banho, deitar e levantar da cama, subir e descer escadas) ( Tabela 2 ). Ainda, a análise bruta revela associação entre histórico de quedas e presença de dor crônica (p<0,001), osteoporose (p=0,002) e isquemia cerebral (p<0,001).

Tabela 2 Associação bruta entre os fatores associados às quedas nos idosos de Estação, RS, Brasil, 2011 (n = 418)  

Variáveis Quedas RP bruta
(IC 95%)
p*
Sim Não
n (%) n (%)
Atividade física
Sim 44 (18,7) 191 (81,3) 1,00
Não 61 (33,3) 122 (66,7) 0,56 (0,40-0,79) 0,001
Zona moradia
Rural 35 (31,0) 78 (69,0) 1,00
Urbano 70 (23,0) 235 (77,0) 0,74 (0,53-1,04) 0,087
Alimentar-se
Sem dificuldade 92 (23,2) 304 (76,8) 1,00
Com dificuldade 13 (59,1) 9 (40,9) 2,54 (1,72-3,76) <0,001
Banhar-se
Sem dificuldade 88 (23,1) 293 (76,9) 1,00
Com dificuldade 17 (45,9) 20 (54,1) 1,99 (1,34-2,95) 0,001
Deitar/levantar cama
Sem dificuldade 82 (22,3) 285 (77,7) 1,00
Com dificuldade 23 (45,1) 28 (54,9) 2,02 (1,41-2,89) <0,001
Subir/descer escadas
Sem dificuldade 52 (19,0) 222 (81,0) 1,00
Com dificuldade 53 (36,8) 91 (63,2) 1,94 (1,40-2,68) <0,001
Artrite/artrose
Não 78 (23,8) 250 (76,2) 1,00
Sim 27 (30,0) 63 (70,0) 1,26 (0,87-1,83) 0,219
Dor crônica
Não 26 (13,8) 163 (86,2) 1,00
Sim 79 (34,8) 148 (65,2) 2,53 (1,70-3,77) <0,001
Dificuldade auditiva
Não 67 (22,8) 227 (77,2) 1,00
Sim 38 (30,9) 85 (69,1) 1,36 (0,97-1,90) 0,078
Dificuldade visual
Não 24 (28,2) 61 (71,8) 1,00
Sim 81 (24,4) 251 (75,6) 0,86 (0,59-1,27) 0,461
Escolaridade
> 4 anos 48 (20,3) 188 (79,7) 1,00
1 a 3 anos 30 (25,9) 86 (74,1) 1,27 (0,85-1,89) 0,237
Analfabeto 27 (41,5) 38 (58,5) 2,04 (1,39-3,00) <0,001
Reumatismo
Não 86 (24,2) 270 (75,8) 1,00
Sim 19 (30,6) 43 (69,4) 1,27 (0,84-1,93) 0,264
Hipertensão arterial
Não 36 (22,6) 123 (77,4) 1,00
Sim 69 (26,6) 190 (73,4) 1,18 (0,83-1,67) 0,364
Medicamentos
Não 24 (23,1) 80 (76,9) 1,00
Sim 81 (25,8) 233 (74,2) 1,12 (0,75-1,66) 0,583
Osteoporose
Não 87 (23,1) 289 (76,9) 1,00
Sim 18 (42,9) 24 (57,1) 1,85 (1,25-2,75) 0,002
Isquemia cerebral
Não 95 (23,7) 306 (76,3) 1,00
Sim 10 (58,8) 7 (41,2) 2,48 (1,61-3,83) <0,001

*p-valor obtido pelo teste de Wald da regressão de Poisson

No modelo ajustado apresentado na Tabela 3 para os fatores associados às quedas, permaneceram significativas as variáveis: ser analfabeto, apresentar dor crônica e ter sofrido isquemia cerebral.

Tabela 3 Razões de prevalência (RP) ajustadas e intervalos de confiança (IC95%) para os fatores associados às quedas nos idosos de Estação, RS, Brasil, 2011. (n = 418)  

Variáveis RP ajustada
(IC 95%)
p*
Atividade física
Sim 1,00
Não 0,74 (0,50-1,11) 0,150
Zona moradia
Rural 1,00
Urbano 0,88 (0,61-1,27) 0,495
Escolaridade
> 4 anos 1,00
1 a 3 anos 1,19 (0,78-1,79) 0,416
Analfabeto 1,67 (1,10-2,53) 0,016
Alimentar-se
Sem dificuldade 1,00
Com dificuldade 1,99 (0,93-4,26) 0,077
Banhar-se
Sem dificuldade 1,00
Com dificuldade 0,74 (0,31-1,80) 0,513
Deitar/levantar cama
Sem dificuldade 1,00
Com dificuldade 1,21 (0,62-2,35) 0,582
Subir/descer escadas
Sem dificuldade 1,00
Com dificuldade 1,38 (0,90-2,13) 0,145
Dor crônica
Não 1,00
Sim 2,34 (1,55-3,53) <0,001
Dificuldade auditiva
Não 1,00
Sim 1,17 (0,83-1,65) 0,363
Osteoporose
Não 1,00
Sim 1,32 (0,88-1,97) 0,182
Isquemia cerebral
Não 1,00
Sim 2,30 (1,54-3,42) <0,001

*p-valor obtido pelo teste de Wald da regressão de Poisson

DISCUSSÃO

Diante dos resultados expostos no modelo ajustado para os fatores associados às quedas, a prevalência de queda de nosso estudo (63,8%) vai ao encontro de pesquisa realizada no Nordeste brasileiro por Santos et al. 16 com percentual de 53,6% e corrobora ainda com a prevalência de 54% encontrada em Cuiabá 17 . Em estudo que utilizou como instrumento de pesquisa o SABE, a prevalência de quedas nos últimos 12 meses foi de 56,3%, o que está de acordo com os dados encontrados em nosso estudo 18 .

Em relação à escolaridade, os idosos analfabetos apresentaram maior ocorrência de quedas, quando comparadas aos escolarizados. Em estudo realizado no Rio Grande do Sul, Pereira et al. 19 , ao avaliarem 6.751 idosos, com média de idade de 70,3 anos, constataram que os idosos com maior escolaridade, ou seja, com grau superior, 94,4% apresentaram-se sem risco de quedas. Os autores creem que a maior escolaridade está associada a uma tendência a melhor renda, consequentemente melhores condições de moradia e acesso à saúde.

Em diversos estudos que investigaram os fatores associados às quedas em idosos, a escolaridade não se mostrou estatisticamente significativa 20-23 . Isso nos leva a concordar, portanto, com a afirmação da Organização Mundial da Saúde, de que o risco de quedas está ligado às condições socioeconômicas desfavoráveis, tais como situações de pobreza, rendimentos incertos ou insuficientes para garantir as necessidades básicas e acesso dificultado aos serviços de saúde 6 , e não somente ao grau de escolaridade, como encontrado em nossos resultados, o que torna a questão muito mais complexa e abrangente do que a contagem de anos que o indivíduo frequentou a escola.

Não há na literatura uma ampla investigação sobre a associação entre dor e queda, conforme Cruz et al. 18 , que ao avaliarem o índice de quedas em 213 idosos de São Paulo, acima de 60 anos e com dor crônica há mais de um ano, identificaram uma prevalência de queda autorreferida pelos idosos nos últimos 12 meses de 56,29% [IC95%: 47,33–65,24]. Referiram queda 63,43% dos idosos com dor intensa e 52,27% daqueles com dor moderada (p=0,04). Nesse contexto, a incapacidade física provocada pela dor pode possuir múltiplas variações, dependendo da localização e intensidade desta dor, entre outras características, como interferir nas atividades básicas da vida diária 24 .

Segundo Morais et al. 25 , ao analisarem o risco de quedas em 37 idosos com acidente vascular cerebral, com média de idade de 70,6 anos, constataram que o histórico de quedas nos últimos 6 meses foi menor do que o presente estudo, com 40,5%. E 54% dos idosos não utilizavam dispositivo auxiliares de locomoção, ou seja, outro agravante para o risco de quedas foi a presença do acidente vascular cerebral, interferindo de forma negativa na mobilidade física dos idosos.

Os idosos que sofreram algum acidente vascular encefálico (AVE) apresentam maiores riscos de quedas, dados esses afirmados pela pesquisa de Costa et al. 26 ao identificar o risco de quedas em todos os participantes da pesquisa de uma amostra de 73 idosos, com média de idade de 69,5 anos, baixo nível de escolaridade com 4,9 anos. Dentre os fatores de risco encontrados, aqueles percebidos em aproximadamente 50% ou mais dos participantes de ambos os sexos foram: força diminuída nas extremidades inferiores, mobilidade física prejudicada, dificuldades na marcha, agentes anti-hipertensivos, equilíbrio prejudicado, idade acima de 65 anos e inibidores da enzima conversora angiotensina 26 .

Portanto, o risco de quedas decorrentes do processo de envelhecimento deve ser analisado como multifatorial, ou seja, diferentes fatores intrínsecos e extrínsecos podem vir a contribuir na ocorrência do número de quedas. Como exemplo pode se citar o risco de quedas em idosos que sofreram AVE, que pode chegar 102 vezes maior quando comparado aos idosos não acometidos por essa doença. Risco este ocasionado pelo equilíbrio prejudicado, decorrente da fraqueza muscular e espasticidade que dificultam a coordenação dos movimentos 27 .

Este estudo apresenta aspectos positivos como: um método rápido, prático e de baixo custo para testar o efeito e interação de um grande número de fatores que se relacionam com o evento estudado, neste caso a queda. Sugere-se que sejam desenvolvidos estudos com delineamento que permite estimar a incidência dos novos casos de quedas e seus motivos, ou seja, a cronologia nítida entre a exposição e o aparecimento do fator de risco que pode interferir na queda.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A prevalência de quedas entre idosos apresentou percentuais alarmantes, bem como demonstrado por diversos estudos nacionais, o que confere à queda entre os idosos um tema de discussão no âmbito da saúde pública.

Dentre os fatores relacionados às quedas, identificaram-se associação com o analfabetismo, às dores crônicas e os casos de isquemia cerebral. A investigação demonstra que os fatores associados às quedas são modificáveis e evitáveis. Atitudes voltadas à educação, saúde e prevenção podem interferir positivamente e reduzir as chances de quedas.

Dessa forma, recomenda-se que outros estudos de base populacional e com métodos mais complexos possam ser executados a fim de obter parâmetros sobre os fatores associados às quedas da população idosa brasileira em geral, para que se possa aplicar e criar programas de prevenção e educação em saúde que busquem o envelhecimento saudável.

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