Process of instrument sterilization in shops with manicure and pedicure services

Process of instrument sterilization in shops with manicure and pedicure services

Autores:

Cecília Harumi Yoshida,
Rosane Aparecida de Oliveira,
Patricia Granja Coelho,
Fernando Luiz Affonso Fonseca,
Rosangela Filipini

ARTIGO ORIGINAL

Acta Paulista de Enfermagem

On-line version ISSN 1982-0194

Acta paul. enferm. vol.27 no.1 São Paulo Jan./Feb. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/1982-0194201400005

Introdução

As hepatites virais são um grave problema de saúde pública em todo o mundo, devido ao fato de associar-se a elevado grau de cronificação e evolução para cirrose hepática e carcinoma hepatocelular.( 1 - 3 )

Estima-se que 240 milhões de pessoas têm infecção crônica pelo vírus da hepatite B e 170 milhões pelo vírus da Hepatite C em todo o mundo.(4) No Brasil entre os anos de 1999 e 2010, foram confirmados 104.454 casos de hepatite B e 60.908 casos de Hepatite C.( 5 , 6 )

O vírus da Hepatite B é transmitido por transfusão de sangue e hemoderivados, transplante de órgãos, hemodiálise, aleitamento materno, contaminação de agulhas, seringas e materiais intravenosos, e por via sexual, destacando-se o papel de fluidos orgânicos, como o sêmen e a saliva. ( 7 , 8 )

Como o vírus é altamente resistente, consegue sobreviver até uma semana fora do corpo humano, permanecendo altamente infectivo e sabe-se que uma só partícula viral é capaz de infectar o ser humano. Pode resistir durante 10 horas a 60 ºC, durante 5 minutos à 100º C, ao éter e ao álcool 90ºC.( 8 )

O vírus da Hepatite C é um agente infeccioso transmitido principalmente por sangue, seu potencial infeccioso por via sexual não é elevado e a transmissão vertical também é considerada pouco comum.( 9 )

Dentre as possíveis vias de contaminação destacam-se as transfusões sanguíneas, hemodiálise, contaminação por agulhas, seringas e materiais intravenosos.( 10 ) A sua resistência em ambiente externo é pouco definida, mas sabe-se que ele é mais lábil que o vírus da Hepatite B.( 8 )

São várias as situações que favorecem o risco de transmissão dessas hepatites, devido a possibilidades de compartilhamento de objetos cortantes de uso pessoal como lâminas, barbeadores, depiladores e alicates, fontes importantes na transmissão por via percutânea de hepatites.(10,11)

Em estabelecimentos comerciais que oferecem serviços de manicure e pedicuro, instrumentos como alicates de unhas e tesouras são muito utilizados.( 11 )

Estes instrumentos são descritos como possíveis transmissores do vírus e por isso, os estabelecimentos comerciais que prestam este tipo de serviço, deve ser objeto de ações educativas de conhecimento e conscientização para a adoção de medidas preventivas como proteção individual, cuidados específicos na manipulação dos instrumentos, higienização das mãos com água e sabão ou álcool a 70% e esterilização dos instrumentais.( 11 )

Outro problema é que nestes estabelecimentos comerciais não possuem espaço físico específico para que o processo de esterilização seja adequado. A esterilização dos materiais deve ser feita por equipamentos de esterilização, como a autoclave, que utiliza vapor saturado sob pressão, processo que oferece maior segurança e economia. Nestes estabelecimentos, chamados de salões de beleza, é muito utilizada a estufa, que proporciona esterilização por calor seco. Este tipo de esterilização requer maior tempo de exposição em temperaturas altas, para que a penetração e distribuição do calor seja uniforme.( 12 )

Ressalta-se ainda, que os processos de esterilização só podem ocorrer depois que os instrumentos foram lavados em água corrente com detergente para remoção das sujidades, diminuindo a quantidade de micro-organismos.( 13 )

O objetivo deste trabalho foi conhecer o processo de esterilização de instrumentais utilizados em estabelecimentos comerciais que oferecem ao público os serviços de manicures e pedicuros.

Métodos

Trata-se de um estudo transversal que incluiu 90 funcionários de estabelecimentos comerciais dos Municípios de Santo André e São Bernardo do Campo, estado de São Paulo, região sudeste do Brasil. Os dados foram coletados no período de quatro meses. Foram elegíveis para o estudo todos que exerciam a atividade de manicure e pedicuro foram excluídos os estabelecimentos que utilizavam materiais esterilizados por terceiros.

Foi elaborado um instrumento do tipo questionário com perguntas abertas e fechadas estruturadas sobre as variáveis selecionadas referentes aos conhecimentos e procedimentos sobre desinfecção e esterilização.

O armazenamento e análise dos dados foram realizados com o uso do Software Estatístico Epi-Info, versão 6.0. A análise foi descritiva e os dados apresentados por meio de tabelas em números absolutos e relativos. Para as associações o nível de significância foi em 5%, com p<0,05.

O desenvolvimento do estudo atendeu as normas nacionais e internacionais de ética em pesquisa envolvendo seres humanos.

Resultados

Foram incluídas no estudo noventa funcionárias que executavam a função de manicures e pedicuros, todos do sexo feminino, sendo que 44,4% trabalham nos estabelecimentos comerciais na cidade de Santo André e 55,6% na cidade de São Bernardo do Campo. A idade média foi de 33,8 anos, com um desvio padrão elevado (11,4 anos).

As variáveis sociodemográficas (Tabela 1) não apresentaram significância estatística em relação à quantidade de instrumentos (alicates) utilizados (Tabela 2).

Tabela 1 Variáveis sociodemográficas 

Variáveis n(%)
Estado civil
Casado 43(47,8)
Solteiro 36(40,0)
Viúvo/ divorciado 10(11,1)
Ignorado 1(1,1)
Escolaridade
Ensino Fundamental 24(26,7)
Ensino Médio 61(67,8)
Ensino Superior 4(4,44)
Ignorado 1(1,1)
Residência
Própria 52(57,8)
Alugada/ Financiada 29(32,2)
Cedida 8(8,88)
Ignorado 1(1,1)
Renda
Até dois salários mínimos 59(65,5)
Acima de dois salários mínimos 21(23,4)
Ignorado 10(11,1)
Outra atividade
Sim 61(67,8)
Não 29(32,2)
Pessoas que contribuem com a renda familiar
Nenhuma 24(26,7)
1 36(40,0)
2 ou mais 20(22,2)
Ignorado 10(11,1)
Total 90(100)

Sessenta e cinco das funcionárias (72%) realizaram algum curso profissionalizante, possuem tempo de experiência superior a cinco anos e a maioria atua apenas em um estabelecimento comercial. Quanto aos processos de desinfecção utilizados, observa-se que 71,1% usaram soluções com produtos disponíveis para a limpeza dos instrumentais (Tabela 2).

Tabela 2 Variáveis relacionadas às atividades desempenhadas 

Variáveis n(%)
Tempo de Experiência
Menor de 5 anos 35(38)
Maior que 5 anos 53(59,0)
Ignorado 2(2,2)
Número de salões onde atua
1 76(84,4)
2 3(3,3)
Maior que 3 10(11,2)
Ignorado 1(1,1)
Clientes com instrumental particular (durante uma semana)
0 31(34,4)
1 22(24,4)
2 15(16,7)
3 ou mais 22(24,4)
Lavagem dos instrumentos
Com água e sabão 9(10,0)
Água, sabão e outras substâncias 12(13,3)
Somente outras substâncias 64(71,1)
Ignorado 5(5,5)
Total 90(100)

A Estufa de Pasteur foi o equipamento mais utilizado para a esterilização (84%), entretanto, 65,7% afirmaram abrir a estufa durante o processo de esterilização, ainda assim, 85,6% consideraram satisfatória. Apenas 15,7% referiram usar autoclave para esterilização de instrumentos, dado não significante estatisticamente.

A relação entre o tipo de aparelho e as diferenças de médias entre o preço do serviço, apresentou significância estatística (p<0,001) (Tabela 3), observando-se que os estabelecimentos no qual há o uso de autoclave, o preço médio é maior do naqueles que usavam a Estufa de Pasteur.

Tabela 3 Relação entre o valor cobrado pelas manicures e o tipo de aparelho utilizado 

Aparelho Obs** Min Min/Máx Desvio padrão p-value
Estufa 75 8,7 5/19 1,9 <0,001*
Autoclave 14 14,6 8/22 4,5

* p- value significativo para o teste de Kruskal-Wallis H;

**Obs - número de vezes que o aparelho fora citado quando utilizado como método de esterilização

Discussão

Os limites dos resultados deste estudo referem-se o desenho transversal que não permite o estabelecimento de relações de causa e efeito.

Os resultados indicaram que os funcionários dos estabelecimentos comerciais que prestam os serviços de manicure e pedicuro fazem parte de um grupo de risco, devido a utilização de instrumentos contaminados. Além disso, deve ser considerado o risco de infecção cruzada, devido ao fato das funcionárias utilizarem em si próprias os instrumentos.( 14 )

Os estabelecimentos comerciais que oferecem ao público os serviços de manicure e pedicuro devem seguir legislação sanitária vigente de forma a garantir a segurança dos clientes e a qualidade nos serviços prestados. As etapas para esterilização dos instrumentais mencionados são: lavagem, secagem e esterilização.

A lavagem dos instrumentos é de suma importância para a eficácia das demais etapas, pois nessa etapa ocorre a retirada de sujidades diminuindo a quantidade de micro-organismos existentes, e deve ser feita com o uso de detergentes, ação mecânica e uso de equipamentos de proteção individual.( 13 )

Nota-se que boa parte das entrevistadas desconhecia o significado de limpeza e de desinfecção, pois relataram o uso de álcool, acetona e outros produtos. Após a lavagem, os instrumentos devem ser enxaguados, secos e acomodados em embalagem apropriada para o processo de esterilização. Nesta embalagem deve constar a data de esterilização e o nome da pessoa responsável. Esta embalagem é válida por sete dias e deve ser aberta na frente do cliente.( 15 )

Ressaltamos ainda, que os processos de esterilização devem ser diariamente monitorados através de uma combinação de indicadores químicos, biológicos e controles físicos, que avaliam as condições de esterilização e a eficácia do ciclo de esterilização.( 16 )

Nos estabelecimentos que utilizavam a estufa não seguiam as recomendações sobre o tempo e à temperatura necessários para a esterilização, resultado também mencionado em outros estudos.( 14 , 17 )

A esterilização de materiais por vapor saturado sob pressão é a que oferece maior segurança e economia, os estabelecimentos comerciais com autoclave eram poucos e cobravam o dobro do valor pelos serviços prestados.

As funcionárias declararam que os processos de esterilização que utilizavam eram satisfatórios, o que indica a necessidade de capacitação sobre a prevenção das hepatites, uso de equipamentos de proteção individual, higienização das mãos, esterilização do instrumental. O governo brasileiro reconhece o exercício das atividades profissionais de manicure e pedicuro estabelece o seguimento de normas sanitárias em relação à esterilização dos materiais. No caso dos estabelecimentos comerciais, as normas técnicas relacionadas a biosssegurança devem ser elaboradas pelo município onde se situam.( 18 ) Municípios que criaram programas de capacitação das manicures e pedicuros tem obtido melhoria da qualidade e da segurança dos serviços prestados.( 11 )

Conclusão

O processo de esterilização de instrumentais utilizados em estabelecimentos comerciais que oferecem ao público os serviços de manicures e s apresentaram deficiências importantes relacionadas à limpeza e a esterilização dos instrumentais.

REFERÊNCIAS

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7. Centers for Disease Control and Prevention. Guidelines for viral hepatitis surveillance and case management. Atlanta: Centers for Disease Control and Prevention; 2005. [cited 2014 Fev 25]. Available from: http://www.cdc.gov/hepatitis/pdfs/2005guidlines-surv-casemngmt.pdf.
8. BRASIL. Ministério da Saúde. Programa Nacional para a Prevenção e Controle das Hepatites Virais: Manual de aconselhamento em Hepatites Virais. Brasília (DF); 2005. p. 43. C[itado 2014 Fev 23]. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/politicas/hepatites_aconselhamento.pdf.
9. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância Epidemiológica. A, B, C, D, E de hepatites para comunicadores Série F. Comunicação e Educação em Saúde. Brasília (DF): Ministério da Saúde; 2005. [citado 2014 Fev 23].Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/hepatites_abcde.pdf.
10. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde. Programa Nacional de Hepatites Virais. Hepatites Virais: o Brasil está atento. Brasília(DF): Ministério da Saúde; 2008. [citado 2014 Fev 23].Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/hepatites_virais_brasil_atento_3ed.pdf.
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