Protocolo de enfermagem no implante de valva aórtica transcateter: um direcionamento para o cuidado

Protocolo de enfermagem no implante de valva aórtica transcateter: um direcionamento para o cuidado

Autores:

Giselle Cristina da Silva,
Denilson Campos de Albuquerque,
Ronilson Gonçalves Rocha,
Ronald Teixeira Peçanha Fernandes,
Luciana Cristina Lima Correia Lima,
Ana Paula Vieira Cabral

ARTIGO ORIGINAL

Escola Anna Nery

versão impressa ISSN 1414-8145versão On-line ISSN 2177-9465

Esc. Anna Nery vol.22 no.3 Rio de Janeiro 2018 Epub 27-Ago-2018

http://dx.doi.org/10.1590/2177-9465-ean-2017-0260

INTRODUÇÃO

O segmento populacional que mais aumenta na população brasileira é o de idosos. Em 40 anos, a população idosa vai triplicar no País e passará de 19,6 milhões (10% da população brasileira em 2010) para 66,5 milhões em 2050 (29,3%). As estimativas são de que a "virada" no perfil da população acontecerá em 2030, quando o número absoluto e o percentual de brasileiros com 60 anos ou mais de idade vão ultrapassar o de crianças de 0 a 14 anos.1

O rápido envelhecimento da população acarreta mudanças, tanto no perfil epidemiológico quanto estrutura etária, observando-se um quadro em que as Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT) predominarão.2 As DCNTs correspondem a 72% das causas de mortes, constituindo problema de saúde de maior magnitude.3 Dentre as DCNTs, as doenças cardiovasculares são a principal causa de morte no Brasil, ainda que a mortalidade causada por essas doenças tenha diminuído ao longo dos anos.4

Dentre as patologias cardiovasculares, a Estenose Aórtica (EAo) degenerativa é a doença valvar mais comum nos países desenvolvidos.5 Estima-se que, na população adulta com idade superior a 75 anos, a prevalência de EAo seja próxima a 5%.6 A cirurgia a céu aberto com substituição valvar, com prótese metálica ou biológica, é o tratamento considerado padrão-ouro, proporcionando melhora na qualidade de vida e maior sobrevida.7 Em pacientes mais idosos e com outras comorbidades, existe elevado risco cirúrgico, podendo determinar mortalidade perioperatória de até 50%. Nos pacientes com EAo degenerativa e que são considerados de alto risco cirúrgico, o TAVI é considerado uma nova opção de tratamento para a diminuição dos sintomas e aumento da expectativa de vida.8

O TAVI é um novo procedimento em que uma válvula bioprotética é inserida por intermédio de um cateter e implantada dentro da valva aórtica doente.9 A substituição da valva aórtica pelo transcateter é sem dúvida o avanço recente mais emocionante em cardiologia intervencionista e cirurgia cardiovascular.10

Os cuidados de enfermagem devem ser individualizados para determinadas condições do paciente. A elaboração e a implementação de protocolos devem ser entendidas como instrumento de auxílio para as ações necessárias, favorecendo o planejamento do cuidado e, consequentemente, a assistência.11

Os protocolos são recomendações desenvolvidas sistematicamente para auxiliar na assistência a um agravo de saúde, em uma circunstância clínica específica. A adoção de protocolos, respaldados e definidos a partir da melhor evidência científica disponível, colabora para a obtenção de melhores resultados de saúde da população - por meio de profissionais de saúde mais habilitados -, assim como para fazer frente à crescente incorporação tecnológica na assistência à saúde.11,12

Sendo assim, pretende-se contribuir com a prática assistencial mediante a validação de um protocolo de cuidados de enfermagem realizada por enfermeiros especialistas, com vistas a ser incorporado na rotina assistencial das equipes que trabalham com a troca valvar, prevenindo na identificação de complicações e contribuindo no manejo de possíveis intercorrências ou eventos adversos. Nesse sentido, o presente estudo objetivou a validar um protocolo de cuidados de enfermagem realizado por enfermeiros especialistas, contribuindo para a prática assistencial do paciente submetido à troca valvar percutânea.

MÉTODOS

Refere-se a uma pesquisa metodológica, transversal e prospectiva, com abordagem quantitativa, realizada em um hospital privado localizado no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro, referência no tratamento em alta complexidade.

Para a avaliação do protocolo de cuidados, foram convidados enfermeiros especialistas (participantes do estudo) dos setores de pós-operatório e hemodinâmica, que tinham no mínimo 2 anos de experiência na área e pós-graduação Lato Sensu. Aos enfermeiros que aceitaram participar do estudo foram entregues o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), o instrumento para a avaliação do protocolo, bem como o protocolo de cuidados sugerido pelos autores.

Os enfermeiros avaliaram o protocolo, e com isso foi possível determinar o nível de concordância entre eles. A partir daí foi calculado o Índice de Validade de Conteúdo (IVC) para cada um dos itens e para o conjunto total de itens do instrumento, o que permitiu a definição do índice de concordância de todo o protocolo.13 Os itens de avaliação do conteúdo do protocolo foram: validade e pertinência, clareza dos itens e abrangência.

A validade do conteúdo permite verificar se o instrumento mede precisamente o que se propõe a mensurar. A pertinência do conteúdo considera se os itens do protocolo englobam todos os aspectos relacionados ao que se avalia; a clareza dos itens avalia se a construção do protocolo permite uma leitura adequada, favorecendo a compreensão; e a abrangência demonstra se o protocolo engloba todos os itens relacionados ao que se avalia.13

O IVC engloba um método muito utilizado na área de saúde. Permite medir a proporção ou porcentagem de participantes que estão em uniformidade sobre determinados aspectos do instrumento e de seus itens. Inicialmente, analisa cada item individualmente e depois o instrumento como um todo.14 Esse método aplicou uma escala tipo Likert, que consiste em uma somatória para medir atitudes e foi proposta por Rensis Likert em 1932. A escala envolve afirmações relacionadas ao objetivo pesquisado, e os participantes são solicitados a concordar ou discordar das afirmações, e também informar o seu grau de concordância/discordância dos itens avaliados por intermédio de numerações, para indicar a direção de atitude do participante, que varia de 1 a 4 ou de -2 a 2.15 Para avaliar a relevância/representatividade, as respostas podem incluir pontuações que variam de: 1 = não relevante ou não representativo; 2 = item necessita de grande revisão para ser representativo; 3 = item necessita de pequena revisão para ser representativo; 4 = item relevante ou representativo.14

O escore do índice é calculado por meio da soma de concordância dos itens que foram marcados por "3" ou "4" pelos especialistas. Os itens que receberam pontuação "1" ou "2" devem ser revisados ou eliminados. Desse modo, o IVC tem sido também definido como "a proporção de itens que recebe uma pontuação de 3 ou 4 pelos participantes do estudo". A fórmula para avaliar cada item individualmente pode ser descrita da seguinte forma: IVC = número de respostas 3 ou 4 dividido pelo número total de respostas. Para validar novos instrumentos, a concordância mínima deve ser 0,80.16

As questões que não atingiram essa taxa foram modificadas pelos autores, de acordo com as sugestões dos especialistas. Os dados obtidos foram tratados pelo programa Excel® do pacote da Microsoft Office 365, e analisados estaticamente aplicando-se o programa SPSS para Windows (versão 22.0).

O estudo foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e do Hospital Pró-Cardíaco, obtendo os números de Pareceres 2.051.273 e 2.082.236. Todas as informações relacionadas ao estudo foram mantidas em sigilo e o anonimato dos participantes garantido pelos pesquisadores.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

O setor de pós-operatório é composto por 28 enfermeiros, divididos entre plantonistas, rotina e coordenador do serviço, e o setor de hemodinâmica é composto por apenas dois enfermeiros. Foram distribuídos 30 questionários de avaliação do protocolo TAVI, juntamente com o TCLE, nos setores já citados anteriormente. Após o período estipulado na pesquisa (30 dias), obtivemos o retorno de 18 questionários devidamente preenchidos, juntamente com o TCLE. Após a leitura e a confirmação dos critérios de inclusão, um questionário foi excluído, pois não se encontrava dentro das especificações da pesquisa, totalizando 17 questionários, que atenderam aos objetivos do estudo. O número de participantes (especialistas na área) depende, muitas vezes, de quantas pessoas disponíveis e acessíveis o criador do instrumento pode identificar, não sendo um princípio estimado pela população existente de profissionais em questão. Cinco especialistas, no mínimo, proporcionam um nível suficiente de controle para a probabilidade de concordância dos itens avaliados.17

A maioria dos participantes era do sexo feminino (70,6%). O predomínio feminino na enfermagem é compartilhado por outros autores, refletindo a característica histórica da enfermagem, profissão exercida quase que exclusivamente por mulheres, desde os seus primórdios.18 Em relação à idade, a média encontrada foi de 35,88 anos -mínima de 26 e máxima de 51 -, notadamente uma faixa etária considerada jovem.

Em relação aos setores dos participantes, 88,24% eram do setor de pós-operatório, para onde os pacientes submetidos ao TAVI são transferidos logo após a realização do procedimento. As unidades pós-operatórias de cirurgia cardíaca evidenciam um palco de inovação e atendimento especializado de enfermagem a pacientes críticos, sendo necessárias práticas assistenciais específicas, seguras e contínuas. Os enfermeiros que atuam nessas unidades desenvolvem múltiplas tarefas, com alto grau de exigências e responsabilidades, que, dependendo dos seus conhecimentos, habilidades e atitudes, podem interferir de forma positiva ou negativa na assistência prestada ao paciente.19

Já no setor de hemodinâmica havia 11,76% dos participantes desse estudo. A unidade de hemodinâmica compreende o setor da realização do procedimento. O enfermeiro que trabalha em unidade de hemodinâmica desenvolve atividades assistenciais, gerenciais, de ensino e de pesquisa. Atua também no cuidado direto ao paciente, sendo encarregado pela assistência completa durante a realização dos procedimentos e deverá estar sempre atento às possíveis intercorrências.20

O tempo de experiência profissional dos participantes variou entre 2 a 15 anos. Cerca de 40,6% dos enfermeiros possuíam de 2 a 5 anos de experiência, 23,5% de 6 a 10 anos, 11,8% de 11 a 15 anos e 23,5% mais que 15 anos, totalizando uma média de 2,18 anos de experiência.

A experiência profissional, o envolvimento institucional e a estabilidade adquirida pelo tempo de serviço são motivos que incentivam a permanência dos profissionais em uma organização. Além disso, o tempo de trabalho em uma instituição pode estar associado, segundo nossa experiência, à proposta de trabalho de uma instituição e satisfação individual.21

A investigação da experiência, do conhecimento, da habilidade e da prática de cada enfermeiro, em relação ao que se deseja validar, são aspectos importantes a serem avaliados. Por conseguinte, nos estudos de validação de diagnósticos, intervenções ou resultados, a descrição detalhada dos critérios de seleção dos experts configura um passo fundamental para garantir a confiabilidade dos achados da pesquisa, bem como a replicação destes por outros pesquisadores.22

A Tabela 1 apresenta o IVC referente às questões do protocolo de cuidados de enfermagem aos pacientes submetidos ao TAVI.

Tabela 1 IVC dos itens de avaliação do protocolo de enfermagem para os pacientes submetidos ao TAVI 

Itens avaliados
Perguntas do instrumento de validação do conteúdo do protocolo Validade do conteúdo Pertinência Clareza Abrangência do conteúdo
1. A avaliação dos sinais vitais proposta pelo protocolo atinge aos objetivos propostos? 0,99 0,95 0,96 0,94
2. A avaliação neurológica é composta pela avaliação do nível de consciência, avaliação pupilar, sinais súbitos de AVC, Escala de Coma de Glasgow e padrão de sono. 0,96 0,89 0,94 0,78
3. Composta pela avaliação da frequência respiratória, sons respiratórios, ventilação espontânea, se o paciente encontra em oxigenoterapia ou ventilação mecânica, se o paciente necessita de aspiração de vias aéreas e cuidados pertinentes a cabeceira elevada e aos drenos torácicos. 0,96 0,93 0,88 0,85
4. Composta pela monitorização cardíaca contínua, alterações na condução e/ou ritmo, realização de ECG após o procedimento, ECG a cada 12 horas, ECG na dor, uso de marca-passo transvenoso, dor torácica presente, avaliação das enzimas cardíacas, parada cardiorrespiratória após o procedimento. 0,96 0,91 0,78 0,78
5. A avaliação gastrointestinal engloba se o paciente está em jejum ou com a dieta liberada, as características da dieta, se está com dieta enteral, registrar a presença de náuseas e vômitos, a perda do apetite e a data da última função intestinal. 0,98 0,96 0,88 0,88
6. Na avaliação renal é realizada a instalação de balanço hídrico rigoroso, avaliação do débito urinário, avaliação dos sinais de injúria renal, realização de nefroproteção e controle na infusão intravenosa. 1,00 0,99 0,92 0,93
7. Na avaliação hematológica/ vascular são envolvidos aspectos relacionados à descrição do local de acesso, presença de pulso, perfusão periférica, hematoma, sangramento, coloração e temperatura do membro, monitorização dos valores séricos de hemoglobina, hematócrito e plaquetas; coleta de amostras pré-transfusionais; manutenção do membro estendido nas primeiras 12 horas após o procedimento e avaliação de sangramento em mucosa oral, fezes, equimoses e urina. 0,87 0,86 0,66 0,71
8. Na avaliação da dor são englobados aspectos relacionados à presença de dor após o procedimento, presença de dor súbita, administração de analgésicos em caso de dor maior que 4 na escala verbal numérica. 0,99 0,95 0,95 0,95
9. Nesse segmento são englobados aspectos relacionados à mudança de decúbito, realização de HGT, manutenção do repouso no leito nas primeiras 24 a 48 horas após o procedimento e administração de antibióticos e antiagregantes plaquetários. 0,94 0,95 0,79 0,91

Fonte: Elaborado por Giselle Cristina da Silva, na dissertação de Mestrado “Protocolo de enfermagem na substituição percutânea da valva aórtica: um direcionamento para o cuidado”. Ano 2017.

Na avaliação do primeiro item do protocolo, que é referente à avaliação dos sinais vitais, os participantes apresentaram uma concordância relevante em relação à validade de conteúdo (IVC = 0,99), pertinência (IVC = 0,95), clareza (IVC = 0,96) e abrangência do conteúdo (IVC = 0,94). Essa concordância se dá pelo fato de que a avaliação dos sinais vitais são importantes indicadores de saúde e preconizam a eficiência das funções corporais. Esses parâmetros, medidos de forma seriada, contribuem para que o enfermeiro identifique os diagnósticos de enfermagem, avalie as intervenções implementadas e tome decisões sobre a resposta do paciente à terapêutica.23

No item avaliação neurológica, a média de valores obtidos foi: validade de conteúdo recebeu (IVC = 0,96), pertinência (IVC = 0,89), a clareza (IVC = 0,94) e abrangência do conteúdo (IVC = 0,78). Tal fato está relacionado à dúvida que dois participantes apresentaram em relação ao momento em que deveria ser realizada essa avaliação, e os outros dois participantes entenderam que não era necessário avaliar a Escala de Coma de Glasgow (ECG) dos pacientes - já que eles estavam sob efeito sedativo - e por isso realizam a escala de sedação de Ramsay.

A Escala de Coma de Glasgow (ECG) é empregada mundialmente para: identificar disfunções neurológicas e acompanhar a evolução do nível de consciência; predizer prognóstico; e padronizar a linguagem entre os profissionais de saúde.24 A escala de Ramsay é o escore mais utilizado para avaliação do nível de sedação, e consiste em critérios clínicos para classificá-lo, seguindo a numeração de 1 a 6 para graduar de ansiedade, agitação ou ambas, até coma irresponsivo.25

Alguns autores relatam que realizaram, no período de julho a novembro de 2009, cinco procedimentos de substituição percutânea da válvula aórtica sob sedação consciente.26

Como o protocolo sugerido é válido para as 48 horas de internação, nem sempre o paciente estará sob sedação em todo esse período. A situação exposta fez com que o protocolo de cuidados ganhasse mais um subitem - avaliação da escala de sedação Ramsay - para contemplar as sugestões dos participantes que avaliaram o protocolo.

O item 3 do protocolo, que é composto pela avaliação respiratória, a média de valores obtidos foi: a validade de conteúdo recebeu (IVC = 0,96), a pertinência (IVC = 0,93), clareza (IVC= 0,88) e abrangência do conteúdo (IVC= 0,85). Tal concordância entre os participantes demonstrou a importância da avaliação desse item, já que o sistema respiratório tem como principal função a promoção das trocas gasosas e a observação desses parâmetros são essenciais para uma recuperação plena e satisfatória.27 Cerca de 29,4% dos participantes que avaliaram o protocolo sugeriram algumas inclusões nesse item como: avaliação da frequência respiratória, dados sobre o dreno torácico; tipo de oscilação, volume drenado, pressão do Cuff do tubo orotraqueal, aspiração subglótica e uso de traqueostomia.

Os enfermeiros contribuem significativamente para o tratamento de pacientes com alterações respiratórias mediante a realização da anamnese e do exame físico do tórax. Essa avaliação propicia a oportunidade de estabelecer uma base de informações, além de garantir uma estrutura para a detecção de algumas alterações na condição respiratória do paciente. Como o enfermeiro está mais próximo ao paciente, é ele quem, com frequência, detecta mudança clínicas.27

Na avaliação cardiológica, a média de valores obtidos foi: validade de conteúdo recebeu (IVC = 0,96), pertinência (IVC = 0,91), clareza (IVC = 0,78) e abrangência de conteúdo (IVC = 0,78). Os itens clareza e abrangência de conteúdo receberam IVC mais baixo, pois 35,29% dos participantes sugeriram a inclusão do registro dos parâmetros do marca-passo transvenoso, como: cuidados com a mobilização do paciente pelo risco de desposicionamento, dependência e o tempo de conexão. Já 17,6% dos participantes solicitaram que se especificasse que o eletrocardiograma estivesse relacionado à dor torácica e não a qualquer tipo de dor. O subitem "Enzimas Cardíacas" foi citado por 5,8% dos participantes, solicitando mais clareza na sua avaliação, como a descrição de quais enzimas seriam avaliadas no período de 24 horas após o procedimento.

A avaliação cardiológica é de suma importância, visto que os sintomas que os pacientes podem manifestar estabelecem prioridades no atendimento. O sistema cardiovascular tem um papel importante na manutenção do organismo humano. Sua função principal e levar sangue oxigenado aos tecidos e remover sangue com CO2.27

A utilização de marca-passos cardíacos devolve qualidade de vida e muda o prognóstico dos portadores de bradiarritmias ou distúrbios potencialmente deletérios do sistema de condução cardíaco.28 Os implantes de marca-passos transvenosos provisórios auxiliam na valvuloplastia por balão e/ou no implante da prótese, por meio de indução de taquicardia, permanecendo em modo demanda por 48 horas, e evitando assim maiores problemas relacionados aos distúrbios de condução.26

Na avaliação gastrointestinal, a média de valores obtidos foi: validade de conteúdo recebeu (IVC = 0,98), pertinência (IVC = 0,96), clareza (IVC = 0,88) e abrangência de conteúdo (IVC = 0,88), demonstrando total concordância nesse item. Mesmo com IVC satisfatório, 35,2% dos participantes sugeriram acrescentar subitens como: características da dieta via oral, uso de medicamentos para a proteção gástrica, posicionamento da sonda nasoenteral e presença de peristalse. Tais itens sugeridos são de grande importância na avaliação da função gastrointestinal realizada pelo enfermeiro, pois o conhecimento das alterações de saúde do paciente, bem como a coleta e a interpretação dos achados, é essencial para a obtenção de subsídios necessários à prestação da assistência.27

A avaliação renal obteve concordância satisfatória entre os participantes. A média de valores obtidos foi: validade de conteúdo recebeu (IVC = 1,0), pertinência (IVC = 0,99), clareza (IVC = 0,92) e abrangência do conteúdo (IVC = 0,93). A avaliação do sistema renal é de extrema importância para a homeostasia do organismo, pois livra o corpo dos produtos da degradação que são ingeridos ou produzidos, e controla o volume e a composição dos líquidos corporais.29

A avaliação hematológica/vascular foi o item com menos concordância do protocolo. A média de valores obtidos foi: validade de conteúdo (IVC = 0,87), pertinência (IVC = 0,86), clareza (IVC = 0,66) e abrangência de conteúdo (IVC = 0,71). Nesse item, 41,1% dos participantes sugeriram a inclusão ou alteração de subitens, fato que coaduna com os valores de IVC abaixo dos valores considerados mínimos para a validação. Considerando o número total de especialistas participantes do estudo, 17,6% sugeriram que deveria aumentar o intervalo entre as verificações do pulso, da perfusão, da presença de hematomas e sangramentos, da coloração e temperatura da pele. O protocolo sugere a avaliação a cada 15 minutos durante a 1ª hora, de 30 em 30 minutos na 2ª hora e avaliação horária a partir da 3ª hora.

As complicações vasculares representam 26% das complicações existentes nos pacientes submetidos ao TAVI, sendo também a porcentagem de maior valor referente aos eventos adversos do procedimento. Com muitos estudos apontando essas complicações, fica clara a necessidade de se avaliar intensamente os sinais precoces de complicações hematológicas, como sugere o protocolo.30

No item avaliação da dor, a média de valores obtidos foi: validade de conteúdo (IVC = 0,99), pertinência (IVC = 0,95), clareza (IVC = 0,95) e abrangência de conteúdo (IVC = 0,95), alcançando concordância de todos os participantes. Os ajustes solicitados foram a inclusão do tempo de avaliação da dor de 4 em 4 horas e medidas não farmacológicas que pudessem ajudar na diminuição da dor no paciente.

Em janeiro de 2000, a Joint Comission on Accreditation on Heathcare Organizations (JCAHO) publicou norma que descreve a dor como quinto sinal vital. A equipe de enfermagem, pela maior proximidade com o paciente, identifica, avalia e notifica a dor, programa a terapêutica farmacológica prescrita, prescreve algumas medidas não farmacológicas e avalia a analgesia. Ou seja, na prática, é quem organiza o gerenciamento da dor.31

No item avaliações adicionais, a média de valores obtidos foi: validade de conteúdo (IVC = 0,94), pertinência (IVC = 0,95), clareza (IVC = 0,79) e abrangência de conteúdo (IVC = 0,91). A clareza obteve o IVC mais baixo, pois os participantes entenderam que a posição em que está o item avaliado leva a entender este que faz parte da avaliação respiratória. De acordo com a solicitação, o item de avaliações adicionais foi retirado do local de origem e posicionado de uma forma mais clara, não deixando dúvidas em relação a sua avaliação.

O último item do protocolo é referente à recomendação do protocolo de cuidados para utilização na prática. Cerca de 64,7% dos participantes recomendam a utilização do protocolo, 35,3% recomendam com modificações e nenhum dos participantes disse que não recomendaria o uso do protocolo. A recomendação por parte dos participantes demonstrou a necessidade da implementação do protocolo na prática assistência, visando a melhoria, a qualidade da assistência e a diminuição de danos em decorrência da não avaliação de itens importantes na recuperação do paciente.

O anexo evidencia o protocolo de cuidados de enfermagem ao paciente submetido ao TAVI, sugerido pelos participantes do estudo. Após a realização da avaliação do IVC para cada item do instrumento de validação do protocolo, a média dos valores obtidos foi: validade de conteúdo (0,96), pertinência (0,93), clareza (0,86) e abrangência de conteúdo (0,85). Todos os itens ficaram com a média maior que o valor considerado mínimo para o IVC, que é acima de 0,80. Vale ressaltar que os itens abaixo dessa média foram incluídos com as modificações sugeridas pelos pesquisa. A média da concordância entre todos os itens do protocolo foi de (0,90), demonstrando que o protocolo tem grande pertinência no cenário prático e auxiliará na conduta de cuidados dos enfermeiros frente ao paciente submetido ao TAVI.

A utilização de protocolos não objetiva fragmentar, generalizar ou "endurecer" o cuidado de enfermagem, e, sim, conta com ações que vão do geral para o especifico, direcionando o cuidado de enfermagem na tentativa de englobar as necessidades que naquele momento estão afetadas.11

Sendo assim, a versão final do protocolo proposto pelos especialistas é apresentada na forma de suplemento deste artigo.

CONCLUSÃO

Neste estudo, destaca-se que, dentro da equipe multiprofissional, o enfermeiro é o profissional responsável pelos cuidados pós-operatórios e pela identificação das complicações, sendo primordial que esse cuidado seja mais rápido e direcionado para a correção do problema. Quanto mais o enfermeiro tiver conhecimento das complicações existentes, mais cedo elas são abordadas.

O protocolo foi validado por enfermeiros especialistas da área, que puderam avaliar todos os seus itens e agregar contribuições técnico-científicas por meio das suas experiências profissionais.

O implante de valva aórtica transcateter é uma técnica estabelecida com indicações precisas e em fase de expansão, que oferece melhoria na qualidade de vida aos pacientes com EAo degenerativa, que não podem ser submetidos a cirurgia convencional. O desenvolvimento de um protocolo de cuidados, voltado para os pacientes submetidos ao TAVI, possibilita o aumento da sua segurança, minimização dos agravos a saúde e a melhoria na qualidade do cuidado, sendo um fator essencial na implementação de estratégias específicas desenvolvimento nas ações que o enfermeiro desempenha nas unidades hospitalares.

REFERÊNCIAS

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