Qualidade de vida e autoestima de idosos na comunidade

Qualidade de vida e autoestima de idosos na comunidade

Autores:

Darlene Mara dos Santos Tavares,
Thaís Gabriela Cruz Matias,
Pollyana Cristina dos Santos Ferreira,
Maycon Sousa Pegorari,
Janaina Santos Nascimento,
Mariana Mapelli de Paiva

ARTIGO ORIGINAL

Ciência & Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1413-8123versão On-line ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.21 no.11 Rio de Janeiro nov. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/1413-812320152111.03032016

Introdução

O envelhecimento se constitui como um processo intrínseco, ativo e progressivo, acompanhado por alterações físicas, fisiológicas e psicológicas, as quais podem acarretar em prejuízos na capacidade do idoso em se adaptar ao meio em que vive1. Neste panorama, a própria ampliação da expectativa de vida passa a ser um fenômeno de interesse, em decorrência do impacto na qualidade de vida (QV) relacionado a essa fase2.

Assim, é relevante que os profissionais de saúde implementem estratégias de ação que estimulem o idoso a viver bem3, com o intuito de favorecer a melhor QV. A sensação de felicidade e de alegria, o sentimento de estar de bem com a vida e consigo é salutar no envelhecimento3. Chegar a esta fase da vida com otimismo, autocontrole e autoestima elevada poderá repercutir em maior segurança na vivência da última fase do ciclo vital e positivamente na QV3.

Pesquisa conduzida com idosos da comunidade de Montreal, no Canadá, verificou que o declínio nos níveis de autoestima pode contribuir para a desregulação do funcionamento do eixo hipotálamo-pituitária-adrenal, podendo predizer desfechos adversos à saúde do idoso, como isolamento social e escore negativo na QV4. Assim, o conhecimento sobre essa temática pode subsidiar a sistematização do cuidado ao idoso com baixo nível de autoestima.

Autoestima pode ser caracterizada como o sentimento, o apreço e a consideração que uma pessoa sente por si própria, ou seja, o quanto ela gosta de si própria, como ela se vê e o que pensa sobre si mesma5. Nesta conjuntura, destaca-se a investigação sobre QV e autoestima.

Assim como no conceito de autoestima, a QV também é considerada subjetiva e multidimensional, compreendendo aspectos positivos e negativos da vida6. É definida como a “percepção do indivíduo de sua posição na vida, no contexto da cultura e sistema de valores, nos quais ele vive e em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações”6.

Pesquisas nacionais realizadas com idosos que tiveram como objeto de estudo a autoestima não avaliaram a QV1,7 e envolveram pessoas que praticavam alguma atividade física1,7. Desta forma, considerando a escassez de estudos nacionais, bem como as possíveis divergências culturais e as especificidades dos idosos, questiona-se a associação entre os escores de QV e autoestima nestes na comunidade, mensurados por meio de instrumento específico para esta faixa etária.

Pretende-se com esta pesquisa contribuir para a ampliação do conhecimento nessa área, a fim de subsidiar estratégias de ação que levem em consideração os fatores que podem influenciar os domínios e as facetas da QV, a partir da manutenção da autoestima do idoso. Dessa forma, o objetivo deste estudo foi verificar a associação entre os escores de QV e autoestima de idosos na comunidade.

Metodologia

Inquérito domiciliar, com abordagem quantitativa, transversal e analítica, desenvolvido com idosos residentes em área urbana do município de Uberaba (MG), Brasil.

O presente estudo é oriundo de investigação iniciada em 20058, que considerou para o cálculo amostral uma população de 24.714 idosos, 95% de confiança, 80% de poder do teste, margem de erro de 4,0%, para as estimativas intervalares, e uma proporção estimada de p = 0,5 para as proporções de interesse. Assim, a amostra foi estimada em 2.116 idosos. Em 2012, os entrevistadores foram nos domicílios dos 2.116 idosos, dos quais 1.691 foram entrevistados tendo em vista os critérios de inclusão estabelecidos: ter 60 anos de idade ou mais, residir na área urbana do município e não apresentar declínio cognitivo. As exclusões e/ou perdas foram relacionadas a óbitos (265) e declínio cognitivo (160).

Os dados foram coletados no domicílio do idoso, em espaço reservado, por dez (10) entrevistadores selecionados e previamente treinados pelo pesquisador responsável a respeito da forma de abordagem, aplicação dos questionários e aspectos éticos que envolvem a pesquisa. As entrevistas eram revisadas por supervisores de campo, que verificavam a existência de dados incompletos ou inconsistência nas respostas. Caso estas situações ocorressem: o questionário era devolvido ao entrevistador, que entrava em contato com o idoso para o preenchimento adequado.

Inicialmente, procedeu-se a avaliação do estado cognitivo por meio do Mini Exame de Estado Mental (MEEM), traduzido e validado no Brasil9, cujos escores variam de 0 a 30 pontos, com questões agrupadas em sete categorias: orientação para tempo e local; registro de três palavras; atenção e cálculo; lembrança das três palavras; linguagem e capacidade construtiva visual. No MEEM, o ponto de corte para declínio cognitivo considera o nível de escolaridade do entrevistado, correspondendo a 13 pontos para analfabetos, 18 ou menos para aqueles de 1 a 11 anos de estudo e 26 para escolaridade superior a 11 anos8.

A avaliação da QV foi realizada por meio do World Health Organization Quality of Life Bref (Whoqol-Bref), o qual possui 26 questões, sendo duas gerais, relacionadas à QV global e à saúde global e 24 que compõem os quatros domínios: físico, psicológico, relações sociais e meio ambiente10. Também foi utilizado o módulo World Health Organization Quality of Life Old (Whoqol-Old), validado para a população idosa brasileira, que consiste em 24 itens atribuídos a seis facetas: funcionamento dos sentidos, autonomia, atividades passadas, presentes e futuras, morte e morrer e intimidade11. O Whoqol-Old11 é um instrumento específico para a avaliação da QV em idosos e deve ser aplicado conjuntamente com o Whoqol-bref. Os escores são calculados por uma sintaxe e variam de 0 a 100, sendo que o maior número corresponde à melhor QV.

A autoestima foi verificada por meio da Escala de Autoestima de Rosenberg, que contém 10 itens distribuídos aleatoriamente. A cada item é atribuído um valor de 0 a 3, sendo que o resultado da soma de todas as questões varia de 0 a 30 pontos5. O menor escore associa-se a uma elevada autoestima.

Algumas variáveis (idade, sexo, escolaridade, renda, número de doenças, incapacidade funcional para Atividades Básicas da Vida Diária (ABVD) e Atividades Instrumentais da Vida Diária (AIVD) e indicativo de depressão) foram consideradas como potencial fator de confusão na análise de associação. Assim, realizou-se ajuste para estas variáveis.

Na caracterização da amostra estudada e para as variáveis de ajuste utilizou-se: instrumento construído pelo Grupo de Pesquisa em Saúde para os dados socioeconômicos e demográficos e morbidades autorreferidas; Escala de Independência para ABVD (Escala de Katz)12 e Escala de Lawton e Brody (1969)13 para avaliação das AIVD.

O idoso que não apresentou dificuldade para a realização de qualquer das ABVD e AIVD foi considerado independente; e dependente aquele com dificuldade para realizar uma ou mais atividades. Além desses, aplicou-se a Escala de Depressão Geriátrica (GDS-15) adaptada no Brasil; considerou-se indicativo de depressão quando o idoso obteve pontuação superior a 514.

Selecionou-se as seguintes variáveis para o estudo: sexo (masculino/feminino); faixa etária em anos (60├70, 70├80 e 80 ou mais); estado conjugal (nunca se casou ou morou com companheiro (a); mora com esposo(a) ou companheiro(a); viúvo(a); separado(a), desquitado(a) ou divorciado(a), ignorado); escolaridade, em anos de estudo (sem escolaridade, 1├4, 4├8, 9├11, ≥ 11); renda individual mensal em salários mínimos (sem renda, < 1, 1, 1├3, 3├5, > 5); número de morbidades autorreferidas; incapacidade funcional para as ABVD (dependente/independente) e AIVD (dependente/independente); indicativo de depressão (sim/não); autoestima; QV: domínios (físico, psicológico, relações sociais e meio ambiente) e facetas (funcionamento dos sentidos, autonomia, atividades passadas, presentes e futuras, participação social, morte e morrer e intimidade).

Para proceder às análises, foi construída uma planilha eletrônica no programa Excel®. Os dados coletados foram processados em duas bases de dados para verificar a consistência. Na existência de dados inconsistentes, retomava-se à entrevista original para correção. Posteriormente, os dados foram exportados para o software Statistical Package for Social Sciences (SPSS), versão 17.0.

Realizou-se análise estatística descritiva por meio de distribuição de frequências absolutas e percentuais para as variáveis categóricas e médias e desvios-padrão para as numéricas. Cada domínio do Whoqol-Bref e faceta do Whoqol-Old foram ponderados isoladamente, com as suas respectivas sintaxes.

Utilizou-se o modelo de regressão linear (método enter) para verificar a associação entre os domínios do Whoqol-Bref e as facetas do Whoqol-Old com os escores de autoestima, por meio da análise ajustada para as variáveis: idade, sexo, escolaridade, renda, número de doenças autorreferidas, incapacidade funcional para as ABVD e AIVD e indicativo de depressão (p < 0,05). As variáveis idade, escolaridade, número de doenças autorreferidas, incapacidade funcional para as ABVD e AIVD e indicativo de depressão foram consideradas quantitativas. Foram considerados os pré-requisitos mínimos necessários, incluindo as análises de resíduos (normalidade, linearidade e homocedasticidade) e de multicolinearidade.

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (CEP/UFTM). Aos idosos, solicitou-se assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) antes da condução da entrevista.

Resultados

Dentre os 1.691 entrevistados, predominou o sexo feminino, faixa etária entre 70 e 79 anos, casados, com 1 a 4 anos de escolaridade e renda individual mensal de um salário mínimo, Tabela 1.

Tabela 1 Distribuição de frequência das variáveis sociodemográficas e econômicas dos idosos residentes em área urbana. Uberaba, MG, Brasil, 2012. 

Salário mínimo durante o período de coleta de dados: R$ 678,00; * 0,1% (n = 1); ** 0,1% (n = 2); *** 0,2% (n = 3) (não responderam).

Verificou-se um maior percentual de idosos com cinco ou mais morbidades, independentes para ABVD e AIVD, e sem indicativo de depressão, Tabela 2.

Tabela 2 Distribuição de frequência das variáveis clínicas e de saúde dos idosos residentes em área urbana. Uberaba, MG, Brasil, 2012. 

ABVD: Atividades Básicas de Vida Diária; AIVD: Atividades Instrumentais de Vida Diária.

Constatou-se que o domínio relações sociais (71,19) e a faceta morte e morrer (74,30) apresentaram os maiores escores médios de QV entre os idosos; enquanto os menores foram observados no domínio meio ambiente (60,39) e na faceta participação social (63,06), Tabela 3. Os escores de autoestima apresentaram média de 9,36 ± 4,09.

Tabela 3 Distribuição dos escores de QV dos domínios do WHOQOL-BREF e facetas do WHOQOL-OLD dos idosos residentes em área urbana. Uberaba, MG, Brasil, 2012. 

Na análise da associação da QV com a autoestima realizou-se ajustes para as variáveis: idade, sexo, escolaridade, renda, número de doenças, incapacidade funcional para ABVD e AIVD e indicativo de depressão, objetivando evitar o potencial fator de confusão. Os pré-requisitos mínimos necessários considerados foram atendidos e os coeficientes de determinação na análise ajustada variaram de 0,160 a 0,534.

Os menores escores de QV de todos os domínios e facetas de QV (exceto para a faceta morte e morrer) associaram-se aos piores níveis de autoestima (p < 0,001), com destaque para o domínio psicológico e a faceta intimidade, Tabela 4.

Tabela 4 Análise de regressão linear ajustada para os domínios do Whoqol-Bref e facetas do Whoqol-Old com os escores de autoestima. Uberaba, MG, Brasil, 2012. 

R2 = Coeficiente de determinação; β = Coeficiente de regressão linear padronizado; *Ajustado para idade, sexo, escolaridade, renda, número de doenças, incapacidade funcional para ABVD e AIVD e indicativo de depressão;

**p < 0,05.

Discussão

Os resultados referentes aos dados sociodemográficos e econômicos corroboram com estudo brasileiro realizado com idosos na comunidade, em que houve predomínio de mulheres, com baixos níveis de escolaridade e renda, média de idade de 72 anos e casados15.

Concernente às condições clínicas, resultado divergente foi encontrado em estudo conduzido com idosos na comunidade em São Paulo, em que o maior percentual apresentava uma morbidade (65,1%)16.

Referente às condições de saúde, o predomínio de idosos independentes para as ABVD e AIVD são condizentes com resultados encontrados em pesquisa realizada na cidade de Montes Claros – MG17. Dado divergente foi verificado em relação ao indicativo de depressão em pesquisa entre idosos na cidade de Alfenas – MG15.

Quanto à QV mensurada pelo Whoqol-Bref, é possível que os maiores escores no domínio relações sociais estejam relacionados às maiores oportunidades, dos idosos deste estudo, de vivenciar e de participar de atividades cotidianas, especialmente na comunidade, conforme itens avaliados nesse domínio10.

Referente aos maiores escores na faceta morte e morrer, destaca-se que o processo de finitude da vida, ainda que pouco discutido na sociedade, faz parte da existência humana, finalizando o ciclo vital, iniciado pelo nascimento e seguido pelo crescimento e desenvolvimento18. Nesta pesquisa, a percepção sobre a morte não influenciou de forma negativa a QV dos idosos.

Inquérito realizado com idosos no município de São Paulo obteve menores escores de QV no domínio meio ambiente, assim como na presente investigação18. Supõe-se que este resultado possa ter relação com os baixos recursos financeiros dos idosos, o que adicionalmente pode contribuir para menor acesso aos serviços de saúde e condições mais escassas de segurança, habitação e oportunidades de recreação e lazer; itens esses avaliados por esta faceta10.

No estudo de Curitiba (PR), condizentes com os achados desta pesquisa, os menores escores de QV foram encontrados na faceta participação social19, a qual avalia a satisfação do idoso quanto à participação em atividades cotidianas, especialmente na comunidade10. Nesta perspectiva, é importante que a equipe de saúde, juntamente com o apoio dos familiares, estimule o idoso a participar de atividades proporcionadas pela comunidade, favorecendo a (re) inserção ou ampliação da participação no meio social.

Os resultados apontaram para elevados níveis de autoestima entre idosos, condizente com outros estudos realizados no Brasil, com pessoas nessa faixa etária20,21.

Adicionalmente, evidenciou-se que os idosos com menor autoestima apresentaram escores inferiores de QV. Os conceitos de autoestima5 e QV6 mostram-se inter-relacionados, uma vez que tratam de percepções subjetivas do indivíduo em relação a si próprio5,6 e à vida6. Desse modo, era esperado que a obtenção de menores escores de autoestima implicasse em pior escore de QV.

Soma-se a isso que, na literatura científica, a autoestima está correlacionada com os resultados de vida, dentre eles as relações humanas, o trabalho, a saúde e, consequentemente, o envelhecimento saudável22,23. Neste contexto, é importante que a equipe de saúde identifique os fatores que possam estar interferindo sobre a autoestima desses idosos, no sentido de intervir sobre tais aspectos, favorecendo melhorias na QV.

Concernente à relação entre os baixos níveis de autoestima e os escores do domínio físico, é possível, embora não investigado, que seja devido ao encerramento das atividades profissionais com o advir da aposentadoria. O encerramento das atividades no mercado de trabalho pelos idosos pode resultar em insatisfação, menor participação social e, consequentemente, favorecer preocupações com a sua renda. Desse modo, é preciso reconhecer como importante estratégia nessa fase da vida, a escuta qualificada e a reinserção do idoso à sociedade, não apenas pelas atividades laborais, mas também a partir de espaços que propiciem a satisfação pessoal e o desenvolvimento de novos projetos, beneficiando a melhoria da QV24.

Pesquisas realizadas com idosos têm demonstrado a relação entre autoestima e autoimagem25 e com as queixas sobre o comprometimento da memória26, aspectos estes avaliados no domínio psicológico. Destaca-se que a satisfação com a autoimagem pode interferir, direta ou indiretamente, na manutenção de um estilo de vida saudável e ativo, repercutindo nas ações de cuidado à saúde27, podendo favorecer a QV. No que condiz às queixas relacionadas à memória, frequentes entre os idosos, devem ser investigadas, procurando identificar seus fatores relacionados, uma vez que por si só já representam uma insatisfação com suas habilidades, podendo influenciar negativamente o bem-estar e a QV26.

O domínio relações sociais avalia, entre outros fatores, a satisfação com a atividade sexual9. Estudo de revisão da literatura destaca que a satisfação sexual aliada à autoestima, melhora a saúde sexual, mental e física. Sendo que para que haja uma sexualidade positiva, refere-se ao reconhecimento e valorização das experiências sexuais vivenciadas28. Contudo, sabe-se que o processo de envelhecimento, as modificações fisiológicas do corpo, além do preconceito, dos estereótipos e da cultura da assexualidade na terceira idade, podem repreender os desejos e o ato sexual29. Ações de educação em saúde podem ser estratégias relevantes para auxiliar na melhora das relações sociais, por meio da inclusão de informações e instruções sobre como obter uma vida sexual positiva, incluindo a comunicação sexual, o entendimento sobre os fatores fisiológicos e a autoconfiança28.

Em relação ao domínio meio ambiente, cabe ressaltar, que idosos quando possuem a oportunidade de caminhar pelas calçadas ou parques, ou mesmo utilizar um meio de transporte, com segurança, têm maior possibilidade de ser física e socialmente mais ativos30. Dessa forma, seria necessário o desenvolvimento de ações políticas que oportunizassem maior segurança no lar e no ambiente externo. Essas medidas poderiam possibilitar que o setor saúde estimulasse a inserção do idoso em atividades no domicílio, além da ampliação do convívio social, melhorando os seus níveis de autoestima e da QV para o domínio meio ambiente.

As alterações sensoriais que ocorrem com o processo de envelhecimento podem interferir negativamente sobre a QV do idoso, visto que as funções sensoriais estabelecem a conexão do indivíduo com o mundo, podendo influenciar no seu padrão de conduta31. Este fato poderia justificar a associação entre a faceta ‘funcionamento dos sentidos’ e os menores índices de autoestima.

Os menores escores de QV na faceta autonomia, entre aqueles com índices inferiores de autoestima, podem estar relacionados à menor capacidade de decisão conforme o aumento a faixa etária, corroborando com estudo realizado com idosos da Paraíba32. Tal fato pode impactar na autoestima do idoso, e uma das formas para minimizar este processo é a garantia da manutenção da autonomia e da independência33.

As atividades passadas, presentes e futuras retratam a satisfação com as conquistas realizadas e as esperanças futuras11. A partir dos resultados obtidos, supõe-se que os idosos com menores escores nas facetas atividades passadas, presentes e futuras podem não estar satisfeitos com suas conquistas ou possuem poucas perspectivas com o futuro, influenciando na baixa autoestima. Grupos para idosos podem potencializar as habilidades destes em idealizar e realizar projetos34, e indiretamente trabalhar o aumento da autoestima.

Na faceta participação social mensura-se a satisfação com a participação em atividades rotineiras, especialmente na comunidade11. Neste estudo, os idosos que referiram escores inferiores de QV apresentaram menor autoestima, fato que deve ser mais bem investigado pela equipe de saúde. Destaca-se que o envolvimento em atividades no meio social pode oferecer benefícios no que tange aos aspectos físicos, cognitivos, funcionais e na própria longevidade. Ademais, contribui para a ampliação das trocas de experiências e para o sentimento de sentir-se útil e pertencente à sociedade35. Assim, a inserção do idoso em atividades em sua comunidade deve ser estimulada pelos familiares, profissionais de saúde e pessoas do seu convívio.

No que se refere à faceta intimidade, avalia-se a capacidade para as relações pessoais e íntimas11. Tal achado pode ser explicado pela insatisfação dos idosos da pesquisa na convivência com seus companheiros e com aqueles que os cercam. Neste sentido, as relações íntimas devem ser consideradas pelos profissionais de saúde durante a avaliação e acompanhamento de idosos que apresentem comprometimento da autoestima. Para tanto, é importante atividades de capacitação profissional para trabalhar a questão das relações íntimas junto a idosos e seus familiares, ainda que sejam temáticas delicadas de se abordar.

Cabe destacar que a escassez de pesquisas a respeito da relação entre QV e autoestima em idosos dificultou a discussão dos resultados, de forma a estabelecer comparações com outros estudos. Este estudo apresentou algumas limitações como o delineamento transversal, que não permite estabelecer relações de causalidade; e o uso de questionário, o qual pode subestimar ou superestimar algumas informações encontradas.

Os dados analisados permitem concluir que os menores escores de QV em todos os domínios e facetas associaram-se com piores níveis de autoestima, com exceção da faceta morte e morrer. Destaca-se que o domínio mais impactado foi o psicológico e a faceta participação social.

Os resultados deste estudo podem favorecer a elaboração de ações em saúde, considerando as especificidades que envolvem o processo de envelhecimento, a partir da melhor compreensão dos aspectos que influenciam a QV de idosos, devido à redução da autoestima.

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