Qualidade de vida e características dos pacientes diabéticos

Qualidade de vida e características dos pacientes diabéticos

Autores:

Karina Corrêa,
Giovana Renata Gouvêa,
Marco Antonio Viera da Silva,
Rosana de Fátima Possobon,
Luis Fernando de Lima Nunes Barbosa,
Antonio Carlos Pereira,
Luciane Guerra Miranda,
Karine Laura Cortellazzi

ARTIGO ORIGINAL

Ciência & Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1413-8123versão On-line ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.22 no.3 Rio de Janeiro mar. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/1413-81232017223.24452015

Introdução

A maior longevidade da população, juntamente com as alterações no estilo de vida, sobretudo o sedentarismo e as mudanças no padrão de alimentação, contribuem para o aumento do perfil de risco para doenças crônicas, como o diabetes mellitus (DM). A prevalência dessa doença tem se elevado vertiginosamente, representando importante problema de saúde pública em países da América Latina1.

Nos países em desenvolvimento, o aumento do diabetes ocorreu em todas as faixas etárias. No grupo de 45 a 64 anos a prevalência será triplicada até 2030 e duplicada nas faixas etárias de 20 a 44 anos e acima de 65 anos2.

Segundo a Sociedade Brasileira de Diabetes3, atualmente, existem mais de 12 milhões de portadores da doença. Os diabéticos tipo 2 (DM2) representam 90% a 95% dos casos, sendo que a grande maioria apresenta sobrepeso ou obesidade. Apesar de ocorrer em qualquer idade, geralmente o DM2 é diagnosticado após os 40 anos3. É importante ressaltar que o diabetes apresenta alta morbimortalidade, sendo uma das principais causas de mortalidade, insuficiência renal, amputação de membros inferiores, cegueira e de doença cardiovascular, incluindo doenças coronarianas e acidentes vasculares encefálicos4.

Pesquisas revelam que a qualidade de vida (QV) de pacientes com DM é menor do que naqueles sem a doença, e os aspectos envolvidos nessa relação ainda não são totalmente conhecidos. Cabe ressaltar que algumas variáveis tais como: tipo de DM, uso de insulina, idade, complicações, nível social, fatores psicológicos, etnias, educação, conhecimento sobre a doença, tipo de assistência, entre outras, pode interferir na QV destes pacientes5,6.

A melhoria da qualidade da assistência é uma preocupação na saúde pública mundial, visto que traz consequências importantes para o sucesso do tratamento e para a redução de danos7. Nessa perspectiva, uma das ações do Ministério da Saúde foi o Plano de Reorganização da Atenção à Hipertensão Arterial e ao Diabetes, o qual criou diretrizes e metas para a reestruturação e a ampliação do atendimento resolutivo e de qualidade para os portadores dessas patologias na rede pública de serviços de saúde8. Estabeleceu-se o encaminhamento para os demais níveis do sistema de saúde (no próprio município ou em vizinhos) daqueles que necessitassem de atendimento especializado ou hospitalar9. Destaca-se, assim, a importância da maior integração entre as unidades básicas e especializadas do SUS10. Embora seja reconhecido o impacto negativo do diabetes na qualidade de vida de seus portadores, bem como a presença de diversas variáveis envolvidas nesse processo, são escassas as pesquisas que revelem quais fatores da doença têm influenciado a QV. Assim, são oportunos estudos que busquem identificar essa relação, diante da importância que o DM tem assumido no cenário da saúde pública mundial.

Desta forma, o objetivo deste estudo foi avaliar a associação entre qualidade de vida e variáveis clínicas e sociodemográficas em pacientes diabéticos tipo 2, após o início do tratamento na Atenção Primária e Especializada no município de Piracicaba, SP.

Material e métodos

Tipo e local do estudo

Estudo transversal analítico desenvolvido na cidade de Piracicaba, SP, Brasil. O município dista 160 Km da capital São Paulo e tem uma população estimada em 385.287 habitantes, distribuídos em 63 bairros11.

Universo do estudo

Este estudo foi conduzido na Clínica de Atenção Especializada e em 12 Unidades de Saúde da Família em pacientes com idade entre 25 e 90 anos, no período de novembro de 2012 a setembro de 2013.

A Clínica de Atenção Especializada funciona como serviço de referência para diabetes do município e contava com uma população de 1.312 usuários. O total de 4.213 pacientes diabéticos estavam cadastrados e eram acompanhados nas Unidades de Saúde da Família.

Do total das 46 USF implantadas no município, 17 estavam sem médico na equipe (devido à falta deste profissional na rede pública de saúde do município) e, portanto, não foram selecionadas, pois o seguimento dos pacientes estaria prejudicado. Das 29 Unidades restantes, foram eleitas as 12 USF nas quais havia dia específico para atendimento dos pacientes diabéticos, de forma a facilitar a coleta de dados e a entrevista, haja vista o grande número de sujeitos da amostra.

Foram incluídos pacientes diabéticos tipo 2 maiores de 18 anos em acompanhamento na Atenção Primária ou Especializada há pelo menos 12 meses, exceto gestantes e indivíduos com doença mental ou neurológica.

Amostra

Calculou-se um número amostral para cada grupo de 385 voluntários, considerando intervalo de confiança de 95% e erro amostral de 5%, tomando como critério de cálculo a proporção de 0,50 (50% de mesma resposta a qualquer das perguntas do questionário).

Coleta de dados clínicos e sociodemográficos

Os dados clínicos (tempo de diagnóstico, medicamentos em uso, últimos valores de glicemia de jejum, últimos valores de hemoglobina glicada, índice de massa corporal [IMC] e presença de complicações da doença) e sociodemográficos (sexo, idade, grau de escolaridade e estado civil) foram coletados do prontuário do paciente.

Aplicação do questionário Diabetes Quality Of Life Measure (DQOL-Brasil)

Trata-se de um instrumento validado, cujo objetivo é medir a percepção individual subjetiva de qualidade de vida, como impacto, satisfação e preocupação social, relacionada ao DM. É capaz de determinar mudanças após uma intervenção terapêutica, seja educativa ou farmacológica12. Foi desenvolvido pelo grupo Diabetes Control and Complications Trial (DCCT), originalmente em língua inglesa, para pacientes com diabetes tipo 1 e, posteriormente, utilizado também para diabetes tipo 2, sendo voltado para uso em adolescentes e adultos, sob diferentes tipos de tratamento para diabetes13,14.

O DQOL-Brasil, contém 44 questões de múltipla escolha organizadas em quatro domínios: satisfação (15 questões), impacto (18 questões), preocupações sociais/vocacionais (7 questões) e preocupações relacionadas ao diabetes (4 questões). As respostas estão organizadas em uma escala Likert de 5 pontos. A satisfação está distribuída em uma escala de intensidade (1 = muito satisfeito; 2 = bastante satisfeito; 3 = médio satisfeito; 4 = pouco satisfeito; 5 = nada satisfeito). As respostas dos domínios de impacto e das preocupações estão distribuídas em uma escala de frequência (1 = nunca; 2 = quase nunca; 3 = às vezes; 4 = quase sempre; 5 = sempre). Dessa maneira, quanto mais próximo de 1 estiver o resultado, melhor a avaliação da qualidade de vida12,15.

O questionário foi autoaplicado, com supervisão da pesquisadora em sala reservada, após a consulta médica. Para os sujeitos com dificuldade de leitura, as perguntas foram lidas na íntegra pela entrevistadora, com as opções de resposta propostas aos pacientes a cada pergunta.

Análise dos dados

Considerou-se como variável dependente a qualidade de vida, dicotomizada pela mediana em ≤ 2,32 (melhor QV) e > 2,32 (pior QV) para a Atenção Especializada e ≤ 2,02 (melhor QV) e > 2,02 (pior QV) para o grupo das USF. Para ambos os grupos, a pior qualidade de vida foi a categoria adotada como referência da variável dependente na análise dos dados.

As variáveis independentes foram: sexo (feminino e masculino), idade (não idosos: < 65 anos e idosos: ≥ 65 anos), Índice de Massa Corporal – IMC (peso adequado, sobrepeso e obesidade), tempo de diagnóstico de diabetes mellitus em anos (dicotomizado pela mediana em ≤ 13 e > 13 para a Atenção Especializada e ≤ 05 e > 05 para as USF), valor da última glicemia de jejum – considerando o alvo glicêmico sugerido pela International Diabetes Federation16 – (≤ 100mg/dl e > 100mg/dl), valor da última hemoglobina glicada – considerando a meta da Sociedade Brasileira de Diabetes3 – (≤ 7% e > 7%), presença de complicações (sim e não), realização de dieta para o diabetes (sim e não), prática de atividade física (sim e não), medicamento em uso (somente antidiabético oral e insulina) e escolaridade em anos de estudo (≤ 08 – ensino fundamental incompleto e > 08 – ensino fundamental completo).

Realizou-se análise descritiva por meio de média, desvio padrão, frequência absoluta e relativa. Aplicou-se o teste t de student para comparar as médias do score da qualidade de vida geral e dos respectivos domínios entre os grupos estudados. Posteriormente, realizou-se análise bivariada pelo teste de Qui-quadrado para testar a associação entre a variável dependente com as independentes. A seguir, as variáveis que apresentaram valor de p < 0,20 foram testadas no modelo de regressão logística múltipla com procedimento stepwise. Os Odds Ratio (OR) e os respectivos intervalos de 95% de confiança (IC) foram estimados para as variáveis que permaneceram no modelo. Todos os testes estatísticos foram realizados pelo programa SAS 9.2 considerando o nível de significância de 5%.

Aspectos éticos

O presente estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa (CEP) da Faculdade de Odontologia de Piracicaba – FOP/Unicamp.

Resultados

Na amostra da Clínica de Atenção Especializada houve predomínio do sexo feminino (65,2%), 86,5% referiram 8 anos ou menos de estudo e 37,9% eram idosos (≥ 65 anos), sendo que a média de idade nesse grupo foi de 61 anos (dp = 10,6). Quanto ao tempo de diagnóstico do diabetes, 45,5% relataram presença da doença há mais de 13 anos. Em relação ao Índice de Massa Corporal (IMC), a maioria dos pacientes apresentou obesidade (60,6%), enquanto que 26,2% estavam com sobrepeso e apenas 13% com peso adequado. Observou-se que 82,8% dos diabéticos apresentaram última glicemia de jejum acima de 100mg/dl e 85,3% tiveram o valor de hemoglobina glicada mais recente acima de 7%. Quanto ao tratamento não medicamentoso, 44,2% dos entrevistados relataram fazer dieta para controle do diabetes e 28,3% praticavam atividade física. Sobre a medicação em uso, a maioria (94,8%) fazia uso de insulina.

Houve diferença significativa entre as médias do escore geral e de cada domínio do DQOL-Brasil entre os grupos estudados, sendo que o grupo da Atenção Especializada apresentou os maiores valores e, consequentemente, pior qualidade de vida (Tabela 1).

Tabela 1 Comparação entre os domínios do instrumento de qualidade de vida dos pacientes atendidos na Clínica de Atenção Especializada e nas Unidades de Saúde da Família (USF). Piracicaba, SP, Brasil, 2013. 

Domínios Clínica de Atenção Especializada Unidades de Saúde da Família

média desvio padrão IC95% média desvio padrão IC95% p valor
Satisfação 2,67 0,73 2,60-2,74 2,42 0,75 2,34-2,49 < 0,0001
Impacto 2,43 0,79 2,35-2,51 2,10 0,76 2,03-2,18 < 0,0001
Preocupações sociais e vocacionais 1,50 0,69 1,43-1,57 1,25 0,51 1,20-1,30 < 0,0001
Preocupações relacionadas ao diabetes 2,68 1,09 2,57-2,79 2,19 1,06 2,09-2,30 < 0,0001
Geral 2,39 0,62 2,31-2,44 2,08 0,58 2,01-2,13 < 0,0001

IC = intervalo de confiança

Somente a variável atividade física apresentou associação significativa pela análise bivariada com a pior qualidade de vida para pacientes da Atenção Especializada (Tabela 2). Na Tabela 3 são apresentadas as variáveis que permaneceram no modelo de regressão logística múltipla. Os indivíduos que realizaram atividade física tiveram menos chance (OR = 0,49) de apresentar pior qualidade de vida do que aqueles que não praticavam exercício físico. Já aqueles com diagnóstico de diabetes mellitus há ≤ 13 anos apresentaram 1,52 vezes mais chance de ter uma pior qualidade de vida do que aqueles com maior tempo de diagnóstico.

Tabela 2 Associação entre qualidade de vida e variáveis clínicas e sociodemográficas dos pacientes atendidos na Clínica de Atenção Especializada. Piracicaba, SP, Brasil, 2013. 

Qualidade de vida

Pior Melhor

n % n % OR bruto IC95% p valor
Sexo
Feminino 125 49,80 126 50,20 1,05 0,69-1,60 0,8928
Masculino 65 48,51 69 51,49 1
Idade
< 65 anos 117 48,95 122 51,05 0,96 0,63-1,45 0,9250
≥ 65 anos 73 50,00 73 50,00 1
Índice de Massa Corporal (IMC)
Peso adequado 28 56,00 22 44,00 1
Sobrepeso 46 45,54 55 54,46 0,66 0,33-1,30 0,2999
Obesidade 116 49,57 118 50,43 0,77 0,42-1,43 0,5033
Tempo de diagnóstico do Diabetes Mellitus
≤ 13 anos 112 53,33 98 46,67 1,42 0,95-2,13 0,1074
> 13 anos 78 44,57 97 55,43 1
Glicemia jejum
≤ 100 27 40,91 39 59,09 0,67 0,39-1,15 0,1851
> 100 161 50,79 156 49,21 1
Hemoglobina glicada
≤ 7% 22 39,29 34 60,71 0,63 0,35-1,13 0,1551
> 7% 165 50,61 161 49,39 1
Complicações do diabetes
Com 49 52,69 44 47,31 1,19 0,75-1,90 0,5352
Sem 141 48,29 151 51,71 1
Dieta
Sim 77 45,29 93 54,71 0,75 0,50-1,12 0,2047
Não 112 52,34 102 47,66 1
Atividade física
Sim 41 37,61 68 62,39 0,52 0,33-0,81 0,0060
Não 148 53,82 127 46,18 1
Medicação
Oral 6 30,00 14 70,00 0,42 0,16-1,12 0,1216
Insulina 184 50,41 181 49,59 1
Escolaridade
≤ 8 anos de estudo 165 49,55 168 50,45 1,06 0,59-1,90 0,9614
> 8 anos de estudo 25 48,08 27 51,92 1

OR = Odds Ratio; IC = Intervalo de Confiança.

Tabela 3 Regressão logística múltipla para a pior qualidade de vida dos pacientes atendidos na Clínica de Atenção Especializada. Piracicaba, SP, Brasil, 2013. 

Pior Qualidade de vida

n % OR ajustado IC95% p valor
Atividade física
Sim 41 37,61 0,49 0,31-0,78 0,0028
Não 148 53,82 1
Tempo de diagnóstico do diabetes mellitus
≤ 13 anos 112 53,33 1,52 1,01-2,29 0,0448
> 13 anos 78 44,57 1

OR = Odds Ratio; IC = Intervalo de Confiança.

Pela análise bivariada apresentada na Tabela 4, observou-se que as variáveis sexo, dieta, hemoglobina glicada e medicação tiveram associação significativa com a pior qualidade de vida para os pacientes das USF. Sexo feminino foi fator de risco para a pior qualidade de vida. Por outro lado, realizar dieta, apresentar valores de hemoglobina glicada ≤ 7% e fazer uso de medicação oral foram fatores de proteção para a pior qualidade de vida.

Tabela 4 Associação entre qualidade de vida e variáveis clínicas e sociodemográficos dos pacientes atendidos nas Unidades de Saúde da Família (USF). Piracicaba, SP, Brasil, 2013. 

Qualidade de vida
Pior Melhor

n % n % OR bruto IC95% p valor
Sexo
Feminino 138 52,47 125 47,53 1,59 1,03-2,45 0,0468
Masculino 50 40,98 72 59,02 1
Idade
< 65 anos 123 52,79 110 47,21 1,50 0,99-2,26 0,0688
≥ 65 anos 65 42,76 87 57,24 1
Índice de Massa Corporal (IMC)
Peso adequado 19 39,58 29 60,42 1
Sobrepeso 62 47,69 68 52,31 1,39 0,71-2,73 0,4269
Obesidade 107 51,69 100 48,31 1,63 0,86-3,09 0,1766
Tempo de diagnóstico do Diabetes Mellitus
≤ 05 anos 102 50,00 102 50,00 1,10 0,74-1,65 0,7003
> 05 anos 86 47,51 95 52,49 1
Glicemia jejum
≤ 100 33 52,38 30 47,62 1,18 0,68-2,02 0,6480
> 100 155 48,29 166 51,71 1
Hemoglobina glicada
≤ 7% 91 43,33 119 56,67 0,55 0,36-0,85 0,0084
> 7% 87 58,00 63 42,00 1
Complicações do diabetes
Com 32 46,15 42 53,85 0,87 0,53-1,44 0,6870
Sem 152 49,51 155 50,49 1
Dieta
Sim 63 39,38 97 60,63 0,52 0,34-0,78 0,0025
Não 125 55,56 100 44,44 1
Atividade física
Sim 34 45,33 41 54,67 0,84 0,51-1,39 0,5846
Não 154 49,68 156 50,32 1
Medicação
Oral 139 46,03 163 53,97 0,59 0,36-0,97 0,0481
Insulina 49 59,04 34 40,96 1
Escolaridade
≤ 8 anos de estudo 162 48,07 175 51,93 0,78 0,43-1,44 0,5247
> 8 anos de estudo 26 54,17 22 45,83 1

OR = Odds Ratio; IC = Intervalo de Confiança.

Na Tabela 5 são apresentadas as variáveis que permaneceram no modelo de regressão logística múltipla. Os indivíduos que realizaram dieta (OR = 0,33) para diabetes e que apresentaram hemoglobina glicada ≤ 7% (OR = 0,55) tiveram menos chance de ter pior qualidade de vida. Já aqueles do sexo feminino tiveram 1,61 vezes mais chance de apresentar uma pior qualidade de vida do que os do sexo masculino para os pacientes das USF.

Tabela 5 Regressão logística múltipla para a pior qualidade de vida dos pacientes atendidos nas Unidades de Saúde da Família (USF). Piracicaba, SP, Brasil, 2013. 

Pior Qualidade de vida

n % OR ajustado IC95% p valor
Dieta
Sim 63 39,38 0,331 0,331-0,786 0,0023
Não 125 55,56 1
Hemoglobina glicada
≤ 7% 91 43,33 0,557 0,361-0,859 0,0081
> 7% 87 58,00 1
Sexo
Feminino 138 52,47 1,610 1,018-2,547 0,0419
Masculino 50 40,98 1

OR = Odds Ratio; IC = Intervalo de Confiança.

Discussão

A manutenção do controle metabólico satisfatório garante ao diabético uma redução no risco dessas complicações17,18. Para que isso ocorra é necessário que esses indivíduos tenham acesso a serviços de saúde de qualidade, os quais garantam uma assistência contínua e integral, em diferentes níveis de complexidade, exigidos no manejo da doença19. É perceptível que a Atenção Primária não esgota seus recursos terapêuticos, encaminhando uma demanda gigantesca de pacientes para a Atenção Secundária, a qual atua, muitas vezes, de maneira reducionista sobre o indivíduo, considerando apenas a doença.

Os resultados deste estudo revelam certa homogeneidade entre os dois grupos no que se refere aos dados sociodemográficos. Houve predomínio do sexo feminino, corroborando com os resultados da pesquisa VIGITEL – Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico20, que revelou que as mulheres lideram o número de casos de diabetes. A prevalência feminina pode estar relacionada à tendência das mulheres de estarem mais presentes nos serviços de saúde, favorecendo o diagnóstico da doença21.

Dados clínicos, como valor da hemoglobina glicada, uso de insulina e obesidade, sugerem, como é esperado, que os pacientes encaminhados para a Atenção Secundária apresentem maior dificuldade em manter o controle metabólico. Os casos que requerem esquemas mais complexos são, em geral, acompanhados pela Atenção Especializada22. Possivelmente, isso justifique a pior percepção da qualidade de vida por este grupo, (valores obtidos no DQOL- Brasil), tanto nas médias de cada domínio, quanto do escore geral.

Além disso, no grupo referente à Atenção Especializada, os resultados mostraram que os indivíduos diagnosticados com DM tipo 2 há ≤ 13 anos apresentaram menos chance de ter uma pior qualidade de vida [conferir] do que aqueles com maior tempo de diagnóstico. Provavelmente, por terem menos tempo de adaptação com a doença e seu tratamento, os indivíduos com menor tempo de diagnóstico sofrem com repercussões mais imediatas, como a dificuldade em aceitar o tratamento com aplicações de insulina, automonitorização glicêmica, restrição alimentar, possíveis episódios de hipoglicemia, entre outras condições relacionadas à doença e seu tratamento. De acordo com Faria et al.23, o maior tempo de diagnóstico do DM tipo 2 resulta em maior conhecimento sobre a doença, bem como melhor entendimento e manejo do esquema terapêutico. Intervenções educativas destinadas a facilitar o desenvolvimento de habilidades específicas para o enfrentamento do diabetes podem melhorar a qualidade de vida dos pacientes com essa doença24.

O diabetes tipo 2, em geral, revela-se numa fase da vida na qual o indivíduo já possui hábitos bastante consolidados25, sendo importante as ações educativas e grupos de discussão para a aquisição de conhecimento e habilidades sobre o autocuidado diário exigido para o manejo da doença4. Tendo em vista a complexidade do seu tratamento, a educação em diabetes é o pilar para o manejo e o controle da doença, de maneira que o paciente alcance ou preserve sua qualidade de vida26.

Para o grupo da atenção especializada, os resultados apontaram que os pacientes que praticavam atividade física tinham menos chance de pior QV. Bennett et al.27, concluiu que a melhor aptidão física interferiu positivamente na qualidade de vida relacionada à saúde (QVRS) de pessoas com diabetes tipo 2. Em outro estudo, Daniele et al.28 concluíram que os pacientes diabéticos sedentários apresentaram pior QV. De acordo com a SBD – Sociedade Brasileira de Diabetes3, o exercício age de forma específica sobre a resistência insulínica além de atuar na redução do peso corporal, que, por si só, já reduz o risco de DM23.

Em relação ao grupo do PSF, os resultados deste estudo evidenciaram que, apesar das mulheres frequentarem mais os serviços de saúde, elas tinham mais chance de ter uma pior qualidade de vida. Este dado corrobora o estudo de Penckofer et al.29, que evidenciaram que a sobrecarga de responsabilidade perante os cuidados com a família é um fator que contribui para a não efetivação do autocuidado. Krug et al.30 constataram que o casamento e o cuidado dos filhos levaram mulheres a deixar de fazer atividades físicas. Ainda, os indivíduos que apresentaram hemoglobina glicada ≤ 7% tiveram menos chance de apresentar pior qualidade de vida. Goddijn et al.31 investigaram a associação entre a melhora do controle glicêmico (HbA1c menor que 8%) e a qualidade de vida em pacientes diabéticos tipo 2 durante 1 ano de tratamento e evidenciaram associação positiva entre essas variáveis. Estudo de metanálise demonstrou que reduções acima de 0,3% da hemoglobina glicada são clinicamente benéficas para o controle do diabetes e, como consequência, melhoram a QV do portador32.

Os indivíduos atendidos no PSF que referiram dieta alimentar tiveram menos chance de ter pior qualidade de vida. Sabe-se que a adequação de hábitos alimentares dos pacientes diabéticos, juntamente aos demais cuidados, é essencial para manutenção do controle glicêmico ideal, para se evitar possíveis complicações. Segundo relatório recente da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre dieta, nutrição e prevenção de DCNT, é convincente a associação entre o ganho de peso, obesidade abdominal, sedentarismo e o desenvolvimento de diabetes mellitus tipo 233. Grande parte dos diabéticos tipo 2, que representam 90% a 95% da população diabética, apresenta sobrepeso ou obesidade3. Contudo, novas pesquisas devem ser feitas para se enfatizar o impacto direto da dieta para diabetes na qualidade de vida de seus portadores.

Com exceção do tempo de diagnóstico e gênero, as demais variáveis que impactaram diretamente na qualidade de vida dos diabéticos são fatores modificáveis, reforçando a importância da educação em saúde nos serviços públicos para o tratamento dessa doença, como também a identificação destes fatores pelos profissionais da saúde, a fim de permitir que o paciente transforme sua atitude frente à mesma34.

Portanto, o reconhecimento destes fatores deve estar fundamentado em modelos conceituais que possibilitem identificar os desvios de saúde desta população, sendo o modelo conceitual de Orem um dos mais utilizados pelos enfermeiros na identificação de diagnósticos em pacientes com doenças crônicas35. Nesse sentido, o diagnóstico preciso é elaborado para guiar ações educativas significativas.

Segundo Alves e Aerts36, para que a educação tenha significado ao educando, os conhecimentos sobre saúde devem ser debatidos com os pacientes a fim de que, após esta discussão, eles possam optar por uma vida mais saudável e mudanças no estilo de vida. Além disso, a educação em saúde deve ser instrumentalizada, em sua prática diária, com estratégias práticas, simples, breves, de fácil aplicação e baixo custo, podendo ser incorporadas à rotina da equipe multidisciplinar no cuidado ao paciente diabético em seguimento na rede pública37.

O presente estudo possui algumas limitações. Por se tratar de um estudo transversal, procuram-se inferências a fatores causais, sem, contudo, estabelecer uma relação temporal. A questão alimentar para o diabetes pode ser compreendida de diferentes maneiras, dependendo do indivíduo e de acordo com o que ele acredita ser uma dieta adequada. No município em questão, a Atenção Primária não conta com nutricionista na equipe, enquanto que a Especializada oferece tal serviço, porém o mesmo não é capaz de atender toda a demanda, sendo priorizados alguns casos. Na prática de atividade física, não foi questionado sobre o tipo e a frequência da mesma, o que pode ter gerado diferentes interpretações por parte dos entrevistados.

Este estudo contribuiu para apontar os fatores que afetam a qualidade de vida dos pacientes com diabetes tipo 2 atendidos na Atenção Básica e Especializada. Conclui-se que com exceção do tempo de diagnóstico e sexo, as demais variáveis que influenciaram na qualidade de vida dos diabéticos foram fatores modificáveis (valor de hemoglobina glicada, adesão à dieta alimentar e prática de atividade física), evidenciando que a educação em saúde é um componente fundamental no tratamento do diabetes. A identificação destes fatores de risco nos diferentes níveis de atenção em saúde possibilita aos gestores e profissionais envolvidos no cuidado do diabetes reavaliarem políticas públicas e serviços destinados ao tratamento desta patologia, de forma a qualificar os pontos de atenção e garantir uma assistência adequada a estes pacientes, qualificando a linha de cuidados.

REFERÊNCIAS

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