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Qualidade de vida e fatores associados em trabalhadores de uma Universidade do Sul de Santa Catarina

Qualidade de vida e fatores associados em trabalhadores de uma Universidade do Sul de Santa Catarina

Autores:

Fernanda de Oliveira Meller,
Antonio José Grande,
Micaela Rabelo Quadra,
Ramiro Doyenart,
Antônio Augusto Schäfer

ARTIGO ORIGINAL

Cadernos Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1414-462Xversão On-line ISSN 2358-291X

Cad. saúde colet. vol.28 no.1 Rio de Janeiro jan./mar. 2020 Epub 09-Abr-2020

http://dx.doi.org/10.1590/1414-462x202028010327

Abstract

Background

Life quality of workers influences on development and productivity of work and it can be influenced by several sociodemographic and labor factors.

Objective

To evaluate the associated factors with quality of life of University workers from southern Santa Catarina State.

Method

A cross-sectional study with 214 workers was carried out. WHOQOL-Bref was used to evaluate the quality of life. The quality of life domains were associated to exposure variables. The statistical analysis T-test for independent samples and analysis of variance, followed by the Bonferroni test were used.

Results

The mean of quality of life domains were: 74.64 (±13.52) for the physical domain, 71.12 (±12.85) for the psychological, 76.94 (±13.98) for social relations domain and 61.94 (±16.30) for the environment domain. Males presented higher mean for the physical, psychological and social relations domains. Workers older than 38 years of age presented higher means in the psychological domain. In the social relations domain, the highest mean was observed among individuals aged 18 to 27 years. In those individuals who slept less than 8 hours a day, the mean of the physical domain were smaller.

Conclusion

It is necessary the development of actions to prevent and promote life quality at work focusing on employees who had the lowest averages of the domains of that.

Keywords:  life quality; risk factors; employees; cross-sectional study

INTRODUÇÃO

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), qualidade de vida conceitua-se como a percepção que cada indivíduo possui em relação a sua disposição na vida: sua cultura, objetivos, padrões, preocupações e expectativas1. Já o Ministério da Saúde a define como o estado de satisfação das necessidades básicas dos seres humanos, como a alimentação, a educação, a habitação e o acesso a água potável2.

A qualidade de vida dos trabalhadores pode estar associada a diversos fatores3-5, sendo o principal deles o ambiente laboral5. De acordo com a literatura, condições físicas e instalações inadequadas e deficitárias, excesso de funções burocráticas, normas e procedimentos administrativos inadequados, remuneração insuficiente, longas jornadas de trabalho, falta de reconhecimento e desvalorização profissional podem tornar os funcionários menos motivados e, consequentemente, influenciar negativamente a qualidade de vida3,6.

Além disso, estudos têm evidenciado que variáveis sociodemográficas como sexo, idade e escolaridade interferem na qualidade de vida dos trabalhadores. Indivíduos do sexo feminino e com menor escolaridade tendem a apresentar menores médias para a maioria dos domínios de qualidade de vida, ou seja, físico, psicológico e de relações sociais, enquanto os adultos jovens apresentam maior média para o domínio de relações sociais5,7-12. Outro fator que tem papel importante na qualidade de vida de trabalhadores é o sono. De acordo com Marconato et al. (2015), existe uma associação direta entre horas de sono e domínio físico13.

Diante do exposto, torna-se fundamental estudar a qualidade de vida no ambiente laboral, uma vez que a avaliação da segurança física, mental, social, da saúde e do bem-estar permite identificar a satisfação pessoal do trabalhador, o que interfere na qualidade, no desenvolvimento e também na produtividade do trabalho14. Assim, o presente estudo objetivou avaliar a qualidade de vida e seus fatores associados em funcionários de uma Universidade do Sul de Santa Catarina.

MÉTODO

Estudo transversal realizado com trabalhadores de uma Universidade comunitária do Sul de Santa Catarina, Brasil, no período de dezembro de 2016 a janeiro de 2017.

A amostra foi calculada considerando o número total de trabalhadores da Universidade (n=584), prevalência do desfecho de 50% e nível de confiança de 95%, totalizando 232 pessoas. Após, acrescentou-se 15% para perdas e recusas, finalizando a amostra em 267 funcionários.

Amostragem proporcional por setores de trabalho da instituição foi realizada e, posteriormente, dentro de cada setor (total de 19), sortearam-se, aleatoriamente, os trabalhadores a serem entrevistados.

Foi aplicado, a todos os funcionários que participaram do estudo, um questionário contendo informações demográficas, socioeconômicas, antropométricas e comportamentais. Para avaliar a qualidade de vida dos trabalhadores, foi utilizado o WHOQOL-Bref, versão abreviada do WHOQOL-100. Este instrumento avalia a qualidade de vida em quatro domínios, sendo eles: físico, psicológico, relações sociais e ambiente. No domínio físico estão englobadas questões referentes a atividades de vida diária, dependência de substâncias medicinais e ajuda médica, energia e fadiga, mobilidade, dor e desconforto, sono e repouso, e capacidade para o trabalho. O domínio psicológico inclui imagem corporal e aparência, sentimentos positivos e negativos, autoestima, espiritualidade/religião/crenças pessoais, pensamento, aprendizagem, memória e concentração. No domínio relações sociais estão incorporadas questões sobre relações pessoais, suporte social e atividade sexual. Por fim, o domínio ambiente inclui recursos financeiros, liberdade, segurança, cuidado social e de saúde (acesso e qualidade), ambiente domiciliar, oportunidades para adquirir novas informações e habilidades, participação e oportunidades de recreação/atividade de lazer, ambiente físico (poluição/barulho/tráfego/clima) e transporte. O instrumento é composto por 26 questões, e a média do escore de cada domínio varia de 0 a 100. Quanto maior o escore, melhor a qualidade de vida15,16.

Esses questionários foram aplicados por entrevistadores treinados. Após a coleta dos dados, foi realizada dupla digitação no programa Excel versão 2010.

Para avaliar o estado nutricional dos entrevistados, foi calculado o índice de massa corporal (IMC)17 utilizando o peso e a altura autorreferidos. Os indivíduos com IMC <25 kg/m2 foram classificados como “sem excesso de peso”, e aqueles com IMC ≥25 kg/m2 como “com excesso de peso”. A duração o sono foi avaliada em horas por dia da semana, sendo dicotomizada em “<8 horas/dia” e “≥8 horas/dia”. As variáveis de exposição demográficas e socioeconômicas incluídas na análise foram sexo (masculino/feminino), idade (18-27, 28-37, 38-47, 48-60 anos), estado civil (solteiro(a), casado(a), separado(a)/divorciado(a), viúvo(a)) e escolaridade (0-4, 5-8, 9-11, 12 anos ou mais).

Foram realizadas análises descritivas das variáveis estudadas apresentando frequências absoluta e relativa das variáveis de exposição, além de seus respectivos IC95%. Foram também apresentadas as médias e os desvios-padrão dos quatro domínios da qualidade de vida.

Além disso, foi avaliada a associação de cada domínio com as variáveis de exposição estudadas, através do teste t para amostras independentes (variável de exposição dicotômica) ou análise de variância (variável de exposição politômica), seguida do teste de Bonferroni para múltiplas comparações. A significância estatística utilizada foi 5%.

Para a análise dos dados foi utilizado o programa estatístico Stata versão 12.1.

O presente estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade do Extremo Sul Catarinense sob protocolo nº 59682816.3.0000.0119. Todos os participantes que aceitaram participar do estudo assinaram um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

RESULTADOS

Dos 267 indivíduos elegíveis para o estudo, considerando o cálculo amostral mais 15%, 53 não participaram por não aceitarem ou não terem sido encontrados, sendo desenvolvido, então, com 214 participantes. A Figura 1 apresenta o fluxograma dos participantes do estudo.

Figura 1 Fluxograma dos participantes do estudo 

Na Tabela 1 estão apresentadas as características dos trabalhadores estudados. Pode-se observar que a grande maioria deles era do sexo feminino (65,3%; IC95% 58,8-71,7) e tinha 18 a 37 anos de idade (66,3%, IC95% 60,0-72,7). Quase metade dos entrevistados era solteiro (44,4%, IC95% 37,7-51,1) e tinha, no mínimo, doze anos de estudo (47,5%, IC95% 40,8-54,4). Mais da metade da amostra tinha excesso de peso (54,9%, IC% 48,0-61,8) e dormia menos de 8 horas por dia (67,1%, IC95% 60,8-73,5).

Tabela 1 Características demográficas, socioeconômica, antropométrica e comportamental dos trabalhadores de uma Universidade do Sul de Santa Catarina, 2016/2017. (n=214) 

Variáveis n % (IC95%)
Sexo
Masculino 74 34,7 (28,3-41,2)
Feminino 139 65,3 (58,8-71,7)
Idade (em anos)
18-27 70 32,7 (26,4-39,0)
28-38 73 34,1 (27,7-40,5)
>38 71 33,2 (26,8-39,5)
Estado civil
Solteiro 95 44,4 (37,7-51,1)
Casado 99 46,2 (39,5-53,0)
Separado/divorciado/viúvo 20 9,4 (5,4-13,3)
Escolaridade (em anos completos)
0-8 24 11,5 (7,1-15,8)
9-11 86 41,0 (34,2-47,7)
12 ou mais 100 47,5 (40,8-54,4)
Estado nutricional
Sem excesso de peso 92 45,1 (38,2-52,0)
Com excesso de peso 112 54,9 (48,0-61,8)
Duração do sono (horas/dia)
<8 143 67,1 (60,8-73,5)
8 ou mais 70 32,9 (26,5-39,2)

Percentual máximo de observações desconhecidas para a variável escolaridade: 4,7% (n=10)

A Tabela 2 mostra as médias dos quatro domínios de qualidade de vida dos trabalhadores, sendo elas: 74,64 (±13,52) para o domínio físico, 71,12 (±12,85) para o psicológico, 76,94 (±13,98) para o de relações sociais e 61,94 (±16,30) para o domínio ambiente.

Tabela 2 Média e desvio-padrão dos domínios de qualidade de vida dos trabalhadores de uma Universidade do Sul de Santa Catarina, 2016/2017. (n=214) 

Domínios n Média Desvio-padrão
Físico 213 74,64 13,52
Psicológico 210 71,12 12,85
Relações sociais 211 76,94 13,98
Ambiente 213 61,94 16,30

Percentual máximo de observações desconhecidas para o domínio aspecto psicológico: 1,9% (n=4)

A associação entre os domínios e as variáveis de exposição estudadas está apresentada na Tabela 3. Pode-se observar que o sexo masculino apresentou maiores médias para os domínios físico (p=0,001), psicológico (p<0,001) e de relações sociais (p<0,001), quando comparado ao sexo feminino. A variável idade também se mostrou associada aos domínios psicológico e relações sociais. Aqueles trabalhadores com idade maior do que 38 anos apresentaram maiores médias no domínio psicológico do que aqueles com idade entre 28 e 38 anos (p=0,029). No domínio relações sociais, as maiores médias foram observadas entre os indivíduos de 18 a 27 anos de idade quando comparados àqueles com 28 a 38 anos (p=0,035). Além disso, as médias do domínio físico foram menores nos indivíduos que dormiam menos de 8 horas por dia (p=0,036). As demais variáveis não estiveram associadas com os domínios da qualidade de vida.

Tabela 3 Médias e desvio-padrão (DP) dos domínios da qualidade de vida conforme variáveis de exposição estudadas dos trabalhadores de uma Universidade do Sul de Santa Catarina, 2016/2017. (n=214) 

Variáveis Físico Psicológico Relações sociais Ambiente
Média (DP) p Média (DP) p Média (DP) p Média (DP) p
Sexo* 0,001 <0,001 <0,001 0,363
Masculino 79,05 (12,59) 75,58 (9,88) 81,78 (13,97) 63,24 (17,61)
Feminino 72,32 (13,50) 68,66 (13,57) 74,32 (13,37) 61,10 (15,54)
Idade (em anos)** 0,114 0,029 0,035 0,063
18-27 76,38 (12,62) 71,54 (12,73) 79,21 (14,61)*** 63,70 (16,31)
28-38 72,00 (13,61) 68,13 (11,61)*** 73,51 (12,99)*** 58,32 (16,42)
>38 75,68 (14,05) 73,80 (13,70)*** 78,16 (13,82) 63,96 (15,74)
Estado civil** 0,435 0,516 0,165 0,778
Solteiro 75,98 (13,51) 72,27 (12,79) 78,65 (14,32) 62,80 (16,64)
Casado 73,58 (13,68) 70,16 (13,51) 76,22 (14,00) 61,13 (16,46)
Separado/divorciado/viúvo 73,50 (12,89) 70,45 (9,57) 72,55 (11,39) 61,80 (14,27)
Escolaridade (em anos completos)** 0,511 0,902 0,916 0,081
0-8 73,48 (14,72) 71,52 (14,20) 77,33 (11,90) 57,35 (18,86)
9-11 73,61 (15,05) 71,69 (14,62) 77,53 (15,23) 60,42 (17,45)
12 ou mais 75,78 (12,04) 70,84 (10,99) 76,67 (13,53) 64,52 (14,53)
Estado nutricional* 0,675 0,119 0,882 0,972
Sem excesso de peso 75,14 (12,71) 69,48 (13,51) 76,81 (15,42) 62,25 (16,68)
Com excesso de peso 74,36 (13,73) 72,34 (12,28) 77,11 (12,83) 62,17 (15,83)
Duração do sono (horas/dia)* 0,036 0,815 0,672 0,868
<8 73,35 (14,25) 71,27 (13,65) 77,24 (14,68) 61,80 (16,56)
8 ou mais 77,49 (11,51) 70,83 (11,13) 76,37 (12,66) 62,20 (15,98)

*Utilizado teste t para amostras independentes

**Utilizada análise de variância

***Teste Bonferroni para múltiplas comparações (p<0,05)

DISCUSSÃO

No presente estudo, foi possível observar que, entre os quatro domínios de qualidade de vida estudados, o que apresentou a maior média entre os funcionários foi de relações sociais, seguido dos domínios físico, psicológico e ambiente. Resultados similares foram encontrados por outros autores estudando trabalhadores de diferentes classes laborais7,8,10,13,18, o que indica uma tendência que se aplica a outras categorias profissionais10.

Assim como no presente estudo, o questionário utilizado por esses autores para avaliar a qualidade de vida dos trabalhadores foi o WHOQOL Bref, permitindo a comparabilidade dos achados com os do presente estudo. É importante destacar que tal questionário, desenvolvido pelo grupo World Health Organization Quality of Life, visa avaliar a qualidade de vida das populações, considerando aspectos como a percepção que as pessoas têm de si mesmas e de seu entorno, bem como a avaliação que cada pessoa faz de objetivos, expectativas, padrões e preocupações pessoais, dentro de um contexto cultural, social e ambiental19. Este instrumento permite a comparação entre estudos de diversos países e culturas, já que se encontra disponível em diferentes idiomas1.

O domínio de relações sociais atinge questões como relacionamentos, suporte e apoio1. O fato de este domínio ter apresentado a maior média nos estudos realizados com trabalhadores pode estar relacionado ao convívio saudável com os colegas de trabalho, o que acaba contribuindo para um suporte social satisfatório entre os trabalhadores20. No local onde foi desenvolvido o presente estudo, observa-se o suporte social fornecido também pelos gestores da Universidade, o que favorece relações saudáveis com os funcionários. Além disso, as diversas atividades integrativas frequentemente realizadas neste ambiente laboral podem ter contribuído para os resultados encontrados no estudo, uma vez que integra os funcionários de diferentes setores da Universidade.

Uma possível explicação para o domínio ambiente ter apresentado a menor média seria que nesse domínio estão incluídas condições como lazer e educação10, além de acesso à saúde, segurança e infraestrutura do país13, que são dependentes de fatores sociais e também financeiros. De acordo com alguns autores, indivíduos com maior renda e maior escolaridade apresentam melhor qualidade de vida, principalmente no domínio ambiente10,18. Além disso, características do local de trabalho, como baixa iluminação, ruídos, falta de ventilação, elevadas horas de trabalho e mudanças climáticas, também influenciam negativamente o domínio ambiente21-23. Teles et al.24 trazem, ainda, que o comprometimento excessivo com o trabalho associado com a baixa realização e insatisfação laboral está relacionado com as menores médias no domínio ambiente, já que são capazes de afetar a percepção de um indivíduo sobre o ambiente em que vive24.

Em relação à associação entre os domínios da qualidade de vida e as variáveis de exposição estudadas, o presente estudo encontrou maiores médias nos domínios físico, psicológico e de relações sociais entre o sexo masculino. Não foi observada relação entre sexo e o domínio ambiente. Outros estudos encontraram resultados semelhantes6,8,10,25, evidenciando que os homens apresentaram médias mais elevadas para a maioria dos domínios de qualidade de vida.

De acordo com Araújo et al.26, além do trabalho profissional, as mulheres, muitas vezes, precisam se dedicar também às tarefas domésticas, matrimoniais e maternas26, o que pode prejudicar a construção de relações sociais dentro e fora do ambiente de trabalho8. Além disso, por questões físicas, elas estão mais expostas a sintomas osteomusculares e ao cansaço, especulando-se, assim, o porquê das menores médias nos domínios físico e de relações sociais entre o sexo feminino27. Além disso, os homens, geralmente, ocupam posições mais altas quando se refere ao ambiente profissional e, por consequência, recebem salários mais altos quando comparados com as mulheres26, o que pode explicar as maiores médias encontradas no domínio psicológico.

Corroborando os achados do presente estudo, alguns autores também evidenciaram que o sexo não influencia o domínio ambiente21-23,28. Kara28 demonstrou que homens e mulheres se preocupam igualmente com as necessidades econômicas, familiares, sociais e de conhecimento28.

Outro achado do presente estudo foi a associação entre idade e os domínios da qualidade de vida. Os trabalhadores com mais de 38 anos de idade, no domínio psicológico, apresentaram as maiores médias quando comparados aos trabalhadores de 28 a 38 anos. Já no domínio de relações sociais, observou-se a maior média nos trabalhadores entre 18 e 27 anos de idade em comparação àqueles com idade entre 28 e 38 anos. Tais achados corroboram aqueles encontrados por outros autores8,11. Os demais domínios, no presente estudo, não apresentaram associação com a variável idade.

Possível explicação para os resultados encontrados é que pessoas com mais idade demonstram ter maior satisfação com a vida quando comparadas àquelas mais jovens29. Segundo Steptoe et al.30, com o envelhecimento as pessoas se tornam mais sábias e seletivas, limitando suas atividades, eventos e experiências para aquilo que lhes é mais satisfatório emocionalmente, mantendo ou até mesmo melhorando o seu bem-estar psicológico30. Pesquisa sugere que indivíduos que ainda não são idosos apresentam mais sintomas de depressão e ansiedade31, enquanto os idosos apresentam uma melhora dos fatores relacionados à saúde mental31.

Por outro lado, Valinote et al.7 sugerem que pessoas acima dos 40 anos podem possuir maior média no domínio de relações sociais por serem mais maduras e manterem relacionamentos sólidos7. No entanto, segundo Souza e Hutz32, as pessoas procuram relacionamentos de acordo com o momento em que se encontram durante a vida e com as necessidades que possuem32. Estudo de revisão afirma que o tipo de relacionamento de amizade que o indivíduo possui, por exemplo, na adolescência, não será o mesmo mantido ao longo da vida adulta33. Durante o início da vida adulta, as pessoas se encontram no ápice dos relacionamentos sociais, pois ainda não assumiram papéis mais sérios que integram o seu ciclo de vida33, como o casamento e a criação de filhos. Estes papéis são costumeiramente mais desenvolvidos próximos à faixa etária dos 30 anos, o que condiz com a redução do número de relacionamentos sociais a partir desta idade33.

Muitas vezes, o aumento da idade e, consequentemente, o envelhecimento são acompanhados por problemas de saúde que podem afetar a qualidade de vida34. Por outro lado, segundo Almeida et al.29, a presença de dor e sua intensidade, assim como a ocorrência de acidentes de trabalho, não estão associadas à idade dos trabalhadores29. Este fato corrobora o presente estudo, que não encontrou associação entre idade e o domínio físico. Corroborando os achados do presente estudo, Nunes e Mascarenhas25 não encontraram associação entre a situação conjugal e os quatro domínios de qualidade de vida25. Já outro estudo observou influência do estado civil nos domínios de relações sociais e ambiente11. Segundo esta pesquisa, os indivíduos que eram casados ou moravam com o companheiro apresentaram a maior média no domínio de relações sociais, enquanto os indivíduos viúvos tiveram a maior média para o domínio ambiente11.

Alguns autores sugerem que ter um relacionamento pode, muitas vezes, significar plenitude pessoal e econômica. Além disso, um relacionamento saudável pode gerar bons sentimentos, autoestima, compartilhamento de situações cotidianas e melhores relações sociais35. Entretanto, o estado conjugal não parece ser capaz de influenciar grandemente os domínios da qualidade de vida, mesmo que ele possa sugerir companheirismo ou isolamento para as pessoas36.

A variável escolaridade também não esteve associada aos domínios de qualidade de vida dos funcionários do presente estudo, o que corrobora os achados de outros estudos7,25,37. Em contrapartida, no estudo de Mascarenhas et al.9, desenvolvido com profissionais de saúde, foi encontrada relação entre escolaridade e os domínios psicológico e relações sociais, apresentando menores médias os indivíduos que possuíam apenas o ensino fundamental9. Outro trabalho, realizado com enfermeiros, identificou que os indivíduos que tinham ensino superior apresentaram maiores médias no domínio ambiental12.

De acordo com Palhares et al.12, a menor escolaridade dos trabalhadores pode levar a um maior estresse no ambiente laboral12. Já segundo Valinote et al.7, quanto mais escolarizado é o indivíduo, maior o seu nível de estresse7, ou seja, mais crítico ele se torna, e os aspectos bons e ruins da sua vida se tornam mais nítidos36.

De acordo com Jahnke et al.38, o excesso de peso representa um risco para a saúde e para a ocorrência de acidentes relacionados ao ambiente laboral38, o que poderia afetar os domínios de qualidade de vida, uma vez que estão associados a questões como desconforto, dor, mobilidade e auxílio médico15. No entanto, é importante destacar que, no estudo de Marconato e Monteiro13, os indivíduos adultos com excesso de peso consideraram que seu estado nutricional não afetava a sua saúde, e relataram possuir uma saúde igual ou até mesmo melhor do que a das outras pessoas com a mesma faixa etária, porém sem excesso de peso13. Outros pesquisadores avaliaram a associação entre o percentual de gordura corporal e os quatro domínios de qualidade de vida, e constataram que a gordura corporal não influencia na qualidade de vida39. Tais achados corroboram os do presente estudo, que também não encontrou relação entre estado nutricional e qualidade de vida dos funcionários.

Outro achado do presente estudo é que os trabalhadores que dormiam menos de 8 horas por dia apresentaram menor média no domínio físico quando comparados àqueles que dormiam, pelo menos, 8 horas por dia. Os demais domínios não estiveram associados com a duração do sono. Similarmente, o estudo de Marconato e Monteiro13 encontrou correlação positiva entre horas de sono e domínio físico13. Os distúrbios no sono são capazes de afetar diretamente a qualidade de vida do indivíduo, podendo causar problemas de saúde, afetar o desempenho no ambiente de trabalho, o desenvolvimento de relacionamentos e a convivência40, além de dificultar a execução de tarefas diárias41. Segundo Pereira et al.41, pessoas que possuem qualidade de sono ruim podem apresentar, também, dor e desconforto41. As consequências da má qualidade do sono podem ser de curto, médio e longo prazo38. As primeiras consequências estão ligadas à parte biológica do organismo dos seres humanos e seu efeito é imediato, causando cansaço, mudanças no humor, fadiga, dificuldade de memória e atenção, ou seja, questões relacionadas ao domínio físico38. Logo após surgem as complicações funcionais em médio prazo, relacionadas ao desenvolvimento de atividades cotidianas, como o trabalho e relacionamentos38. Em longo prazo, as complicações afetam gravemente a qualidade de vida diária, podendo acarretar situações como problemas de saúde e perda de emprego38.

Estudos afirmam que pessoas com menor duração do sono possuem um risco aumentado de desenvolver doenças42, como a obesidade, uma vez que podem ter seu sistema endócrino alterado, passando a indicar de maneira aumentada a fome e o apetite43. Além disso, a privação constante do sono desregula o metabolismo dos carboidratos, podendo levar ao risco de desenvolver diabetes mellitus tipo 244.

Diante dos resultados encontrados, pode-se concluir que os funcionários apresentaram menor média no domínio ambiente. Além disso, médias mais baixas para os domínios físico, psicológico e de relações sociais foram encontradas entre as mulheres. Os trabalhadores com idade entre 28 e 38 anos tiveram média inferior nos domínios psicológico e de relações sociais, e aqueles com duração do sono inferior a 8 horas por dia apresentaram menor média no domínio físico.

Considerando-se a importância da qualidade de vida na saúde dos indivíduos e sua influência no desenvolvimento e na produtividade no ambiente de trabalho, faz-se necessário o desenvolvimento de ações de prevenção e promoção da qualidade de vida no trabalho direcionadas aos funcionários que apresentaram as menores médias nos domínios de qualidade de vida.

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