Qualidade de Vida em Insuficiência Cardíaca: Um Objetivo Importante no Tratamento

Qualidade de Vida em Insuficiência Cardíaca: Um Objetivo Importante no Tratamento

Autores:

Brenno Rizerio Gomes,
Edimar Alcides Bocchi

ARTIGO ORIGINAL

Arquivos Brasileiros de Cardiologia

versão impressa ISSN 0066-782Xversão On-line ISSN 1678-4170

Arq. Bras. Cardiol. vol.114 no.1 São Paulo jan. 2020 Epub 10-Fev-2020

https://doi.org/10.36660/abc.20190741

O Brasil é o país com a maior prevalência de transtornos de ansiedade segundo a Organização Mundial da Saúde e figura em 5º lugar em relação à prevalência de depressão.1 Os transtornos de humor, que englobam ansiedade e depressão, são frequentemente negligenciados na prática clínica,2,3 e seu diagnóstico em pacientes com insuficiência cardíaca (IC) é ainda mais desafiador, tendo em vista a sobreposição de diversos sintomas, como fadiga, perda ponderal e distúrbios do sono.4,5

Nesta edição dos Arquivos, o estudo transversal de Figueiredo et al.,6 avaliou em uma população de 99 pacientes com IC de fração de ejeção reduzida, quais variáveis clínicas, sociodemográficas e psicológicas têm maior correlação com a qualidade de vida avaliada pelo Minnesota Living with Heart Failure Questionnaire. Os principais fatores associados a pior qualidade de vida foram classe funcional avançada de dispneia (New York Heart Association III e IV), internação hospitalar prévia e sintomas de ansiedade. A depressão não foi associada de forma independente à redução de qualidade de vida, porém diversos outros estudos já encontraram essa associação.7,8 O estudo revela ainda prevalência alarmante de sintomas de ansiedade nesses pacientes de 50% em comparação a 9,3% na população geral.1

A interação entre doenças cardiovasculares e transtornos do humor ocorre de forma bidirecional.9 Recentemente, foi descrito que o otimismo está associado a menor risco de eventos cardiovasculares e mortalidade por qualquer causa.10 O risco de se desenvolver IC em pacientes com depressão é 1,5 a 2,6 vezes maior do que na população geral.11 Naqueles indivíduos com diagnóstico de IC, a depressão indica pior prognóstico, e está associada a maiores taxas de hospitalização e mortalidade.11 Possíveis mecanismos para explicar essa associação envolvem a menor aderência ao tratamento farmacológico e não farmacológico em pacientes com depressão e a maior propensão a hábitos de vida não saudáveis.12,13 Quanto mais avançada a classe funcional de dispneia, piores os sintomas de depressão e a qualidade de vida.8,11

Em relação aos transtornos de ansiedade, indivíduos acometidos também parecem ter maior risco de desenvolver IC ao longo da vida.14 Naqueles diagnosticados com IC, a presença de ansiedade está associada a pior qualidade de vida,15 entretanto a correlação com aumento de mortalidade é bem menos estabelecida.16,17

As evidências são limitadas para o tratamento dos transtornos de humor em pacientes com IC. A terapia cognitiva comportamental foi testada em um estudo randomizado com 158 pacientes com diagnósticos de depressão maior e insuficiência cardíaca.18 A psicoterapia esteve associada a remissão de depressão (46% vs. 19%, NNT = 3,8), além de melhora de qualidade de vida, ansiedade e fadiga.

O tratamento farmacológico de primeira escolha para transtornos do humor consiste nos inibidores seletivos da recaptação de serotonina.19,20 Quanto a pacientes com IC de fração de ejeção reduzida, dois estudos randomizados de destaque testaram essas terapias em indivíduos com depressão maior: 1) MOOD-HF,21 que incluiu 372 pacientes para receberem escitalopram ou placebo por 3 meses, e 2) SADHART-CHF,22 que incluiu 469 pacientes para receberem sertralina ou placebo por 18 meses. Ambos foram negativos para o desfecho primário, não demonstrando benefício de terapias farmacológicas no tratamento da depressão em pacientes com IC.

Um programa de educação e cuidados estruturados e multidisciplinares para o manejo de IC implementado em 350 pacientes em nosso serviço demonstrou redução em hospitalizações não planejadas23 e melhora da qualidade de vida principalmente no que tange ao domínio emocional,23,24 sugerindo que essa abordagem pode ser benéfica para pacientes com transtornos do humor.

O estudo de Figueiredo et al.,6 padece das limitações usuais de uma avaliação unicêntrica, transversal e observacional, e o pequeno número de pacientes impede a tomada de conclusões mais robustas. O desfecho primário avaliado foi a qualidade de vida, mas resta saber, de forma prospectiva, se a ansiedade tem impacto em desfechos clínicos como internações hospitalares ou mortalidade.

Em conclusão, o presente artigo de Figueiredo et al.,6 reforça a importância de uma abordagem holística para pacientes com IC ao demonstrar que fatores negligenciados como transtornos de ansiedade são muito prevalentes nessa população e podem impactar a qualidade de vida. O campo do tratamento dos transtornos do humor foi pouco explorado e merece maior atenção em futuros estudos randomizados.

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