Quem precisa do que e quando, e como resolvemos isso?,

Quem precisa do que e quando, e como resolvemos isso?,

Autores:

Antoine Guedeney

ARTIGO ORIGINAL

Jornal de Pediatria

versão impressa ISSN 0021-7557versão On-line ISSN 1678-4782

J. Pediatr. (Rio J.) vol.94 no.5 Porto Alegre set./out. 2018

http://dx.doi.org/10.1016/j.jped.2017.11.001

Escolher uma pergunta clinicamente relevante mas documentada de forma insuficiente é o primeiro passo de uma pesquisa clínica sólida. É exatamente isso que Baptista et al. têm feito.1

Eles começam por nos lembrar que 15 milhões de bebês nascem prematuros em todo o mundo e com um número cada vez maior deles. As mães de múltiplos prematuros e seus parceiros estão expostos a um risco cada vez maior de depressão, ansiedade e estresse. Com esse número de bebês prematuros em todo o mundo, claramente temos um problema de saúde mental. Ademais, pouco se sabe sobre as variáveis intermediárias, que podem atenuar ou aumentar o efeito negativo de um nascimento de múltiplos prematuros sobre a capacidade de fornecer cuidados dos pais, agir em um espiral transacional negativo.2

Os resultados do estudo de Baptista et al.1 são, portanto, importantes. Eles são impressionantes. Há um efeito claro dos nascimentos de múltiplos prematuros, porém apenas no contexto de desvantagem socioeconômica. O que é novo aqui é o tamanho do efeito (F [(1,95) = 5,25). Se é verdade que a marca de uma boa pesquisa é o fato de que ela é uma surpresa, então esse é um bom exemplo. Contrariamente ao que podemos esperar, não surge diferença entre as mães de múltiplos prematuros em comparação com as mães de filhos únicos em termos de ansiedade e estresse da mãe. Então, queremos saber mais. Obviamente, somente quando um estudo é concluído que você vê exatamente como você deveria tê-lo feito. Por exemplo, gostaríamos de saber mais sobre os efeitos do nascimento de múltiplos prematuros sobre os pais. Eles mostram o mesmo impacto que as mães, com a mesma influência do status socioeconômico ou da desvantagem socioeconômica? Qual é o papel, se houver, da aliança coparentalidade na ansiedade, no estresse e na depressão associados ao nascimento de múltiplos prematuros e, por fim, no impacto sobre o relacionamento? Responder essas perguntas é essencial, porém precisamos de uma estrutura de pesquisa diferente.

Para ir mais além nas relações causais, precisamos passar de uma estrutura de pensamentos única para uma estrutura mais sequencial, mais desenvolvida e mais probabilística.3 Buscamos fatores que possam influenciar de forma positiva e negativa as trajetórias de desenvolvimento dos neonatos, bem como as capacidades dos cuidadores, considerar a susceptibilidade genética dos dois pais em sua reação individual ao estresse. Esses estudos foram feitos, por exemplo, por Costa & Figuereido,4,5 em uma amostra não clínica seguida do nascimento e, por Baptista et al.,6 em uma amostra institucionalizada portuguesa.

Esses estudos exigem muito poder e muito controle das variáveis. Exige também um modelo longitudinal, caso tenhamos que responder algumas perguntas mais complicadas: Qual é o papel da capacidade da criança de lidar com o estresse proveniente das dificuldades interativas dos pais? Esse estudo foi feito por Costa & Figuereido4 ao explorar as várias trajetórias de desenvolvimento do neonato, dependem da interação complexa entre o temperamento do neonato e sua capacidade de desenvolver uma reação de retraimento social em vista de uma depressão materna.

Os estudos que tentam obter a interação complexa de fatores, relacionais e temperamentais, bem como fatores genéticos ou epigenéticos, exigem que tenham ferramentas de avaliação que analisam diretamente a experiência da criança e seu comportamento diante de riscos relacionais.

Por isso criamos a escala Alarm Distress Baby.7-9 Entre as várias validações da escala, duas foram feitas no Brasil, uma em uma creche e a outra nas clínicas Well Baby.10,11

Por fim, o principal problema é entender os motivos pelos quais alguns apresentam melhor desempenho que outros? Essa pergunta nos leva a saber como podemos escolher os mais vulneráveis para ajudá-los mais precocemente e de maneira mais efetiva.12 Para atingir esse objetivo, precisamos de avaliações simples e validadas da capacidade dos cuidadores, mas também algumas ferramentas que analisem diretamente a reação defensiva da criança diante de dificuldades de relacionamento.

REFERÊNCIAS

1 Baptista J, Moutinho V, Mateus V, Guimarães H, Clemente F, Almeida S, et al. Being a mother of preterm multiples in the context of socioeconomic disadvantage: perceived stress and psychological symptoms. J Pediatr (Rio J). 2018;94:491-7.
2 Seifer R, Sameroff AJ, Baldwin CP, Baldwin A. Child and family factors that ameliorate risk between 4 and 13 years of age. J Am Acad Child Adolesc Psychiatry. 1992;31:893-903.
3 Rutter M. Protective factors in children's response to stress and disadvantage. In: Kent MW, Rolf JE, editors. Primary prevention and psychopathology: vol. 3. Social competence in children. Hanover, NH: University Press of New England; 1979. p. 49-74.
4 Costa R, Figueiredo B. Infants' behavioral and physiological profile and mother-infant interaction. Int J Behav Dev. 2012;36:205-14.
5 Costa R, Figueiredo B. The Alarm Distress Baby Scale (ADBB) in a longitudinal Portuguese study reanalyzed with attachment data. Infant Ment Health J. 2013;34:553-61.
6 Baptista J, Belsky J, Martins C, Silva J, Marques S, Mesquita A, et al. Social withdrawal behavior in institutionalized toddlers: individual, early family and institutional determinants. Infant Ment Health J. 2013;34:562-73.
7 Accueil [Internet]. Alarme Destresse (ADBB). A. Guedeney; 2012. Available from: [cited 24.10.17].
8 Guedeney A, Fermanian J. A validity and reliability study of assessment and screening for sustained withdrawal reaction in infancy: the alarm distress baby scale. Infant Ment Health J. 2001;5:559-75.
9 Guedeney A, Matthey S, Puura K. Social withdrawal behavior in infancy: a history of the concept and a review of published controlled studies using the Alarm Distress Baby Scale. Infant Ment Health J. 2013;34:1-16.
10 Assumpção FB, Kuczynski E, Rego MG, Rocca CC. A scale to evaluate the withdrawn reaction in infancy. Arq Neuropsiquiatr. 2002;60:56-60.
11 Lopes S, Ricas J, Mancini MC. Evaluation of the psychometric properties of the Alarm Distress Baby scale among 122 Brazilian children. Infant Ment Health J. 2008;29:153-73.
12 Luthar SS, Cicchetti D, Becker B. The construct of resilience: a critical evaluation and guideline for future work. Child Dev. 2000;71:543-62.
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