Reabilitação auditiva por meio da Telemedicina para a melhoria das políticas públicas no Brasil

Reabilitação auditiva por meio da Telemedicina para a melhoria das políticas públicas no Brasil

Autores:

Silvio Pires Penteado,
Ricardo Ferreira Bento

ARTIGO ORIGINAL

Einstein (São Paulo)

versão impressa ISSN 1679-4508versão On-line ISSN 2317-6385

Einstein (São Paulo) vol.9 no.1 São Paulo jan./mar. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/s1679-45082011md1810

Numa revisão sobre a Telemedicina, Bashshur et al.(1) destacaram os primeiros relatos relacionados ao tema: em 1957, com a transmissão de imagens radiográficas do Hôtel-Dieu de Montreal, e em 1959, com o uso de circuito fechado de televisão na condução de sessões de terapia entre o Nebraska Psychiatric Institute e o Norfolk State Hospital, distantes 180 km. DeBakey realizou uma cirurgia de troca de válvula da aorta no Methodist Hospital do Texas, sendo observado por seus colegas no Geneva University Medical Faculty(2). A difusão de inovações nas ciências médicas aliada aos avanços da engenharia e da tecnologia da informação promoveram a fundação da estrutura da Telemedicina.

O Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos(3) define a Telemedicina como “o uso de tecnologia de telecomunicações para o diagnóstico médico, monitoramento e propósitos terapêuticos quando a distância separa os usuários”. Quanto às suas funções, Tohme et al.(4) relacionaram que a Telemedicina “deve fazer com que pacientes e profissionais da prática da medicina, ainda que localizados em regiões remotas, tenham a possibilidade de acesso primário ou de cuidados de especialistas com aumento na qualidade e com a minimização dos custos”. Belardinelli et al.(5) descreveram que o objetivo da Telemedicina é o de “aumentar o acesso das pessoas para um sistema de cuidados médicos de alta qualidade a preços razoáveis” e que “as tecnologias da Telemedicina podem ter um importante papel para a troca de informações médicas em meio a diferentes departamentos e profissionais”.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) descreveu a perda auditiva como uma epidemia(6). Todo portador de perda auditiva é um candidato ao uso de prótese auditiva acústica, um dispositivo eletrônico de amplificação seletiva cujo objetivo é minimizar os efeitos da privação auditiva quando não for possível ou indicado o tratamento medicamentoso, tampouco o procedimento cirúrgico(7). Uma prótese auditiva acústica, conhecida como aparelho de amplificação sonora individual (AASI), atende até as perdas auditivas sensorineurais classificadas como severas(8).

O governo brasileiro promulgou, em Outubro de 2004, um plano nacional de reabilitação auditiva, por intermédio da Portaria 587, doando AASI para a população através do Sistema Único de Saúde (SUS), cujos investimentos governamentais atingiram cerca de R$ 146 milhões em 2007. São cerca de 140 centros credenciados pelo SUS que realizam o atendimento público. Apesar da gratuidade para o paciente, há queixas que irremediavelmente levam a baixos índices de satisfação quanto ao uso de AASI.

Interessados nesse tema, pesquisadores do Departamento de Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) estudaram tal fenômeno e dispuseram os resultados no formato de diagrama causa-efeito (diagrama de Ishikawa), sendo que as causas principais foram divididas em: pacientes, fonoaudiólogos, ambientais, processos e AASI/programa de adaptação, conforme mostra a figura 1.

Figura 1 Diagrama de Causa e Efeito para estudo de ajustes ruins em AASI nos pacientes SUS 

Dentre as causas relacionadas à pacientes (causa Paciente) foram relatadas “dificuldades no deslocamento à clínica”. No tocante às causas relacionadas aos fonoaudiólogos (causa Fonoaudiólogos) foi apontado que há “muitos AASI de regulagens complexas”, que “muitos AASI demandam por treinamentos contínuos”, além de “pressa no atendimento”. Quanto à ambiência (causas Ambientais), foi relacionada, entre outras, “clínicas credenciadas distantes”. Nas causas relacionadas ao AASI (causa AASI/Programa de adaptação), foi observado que os “programas de adaptação são complexos e que demandam por treinamentos constantes”. Quanto às causas relacionadas aos processos (causa Processos) foram enumeradas: “ausência de suporte técnico on-line”, “ausência de plano de treinamento”, “poucos centros credenciados SUS”, além de “procedimentos não padronizados”, “sistema não informatizado” e que “não há acompanhamentos das ocorrências de AASI”, entre outros.

A Telemedicina pode ser encarada como uma política na melhoria ou mesmo para solução dos pontos destacados no parágrafo anterior. Trabalhos pioneiros do grupo proveram treinamento e adaptação à distância de AASI, entre as cidades de São Paulo (Unidade Especializada) e Pouso Alegre e Campinas (Unidades Remotas), cujo diagrama simplificado é ilustrado na figura 2.

Figura 2 Diagrama simplificado de uma sessão de Telemedicina em reabilitação auditiva 

A Portaria n.º 402 do Ministério da Saúde, de Fevereiro de 2010, instituiu, em âmbito nacional, o programa Telessaúde Brasil, estruturado no formato de Telemedicina, tendo como objetivos quantificar, ampliar a resolubilidade e fortalecer as estratégias da saúde da família. O Conselho Federal de Fonoaudiologia publicou a Resolução n.º 366, de Abril de 2009, que definiu a Telessaúde como exercício legal em Fonoaudiologia, com o uso de tecnologia da informação (TI). Desse modo, vislumbra-se a oportunidade de melhorar a condução das políticas públicas relacionadas à reabilitação auditiva, calcadas tanto nos preceitos do conhecimento em geral, da tecnologia existente, quanto da legislação vigente.

Com a implementação da Telemedicina, podem-se habilitar mais centros credenciados que facilitam o acesso dos pacientes encaminhados pelo SUS a centros mais próximos de seus domicílios, trazendo comodidade aos pacientes. As queixas contundentes de que os treinamentos contínuos são necessários podem ser endereçadas aos treinamentos via teleconferência, ou mesmo a busca de uma segunda opinião informativa no instante que dela se necessita. Com exceção desses aspectos técnicos, há que de destacar a relevância da economia e da organização da saúde, pois a Telemedicina aplicada na reabilitação da saúde auditiva permite o gerenciamento integrado de todos os centros credenciados, de modo a compreender sistemicamente todas suas ocorrências. Wesendahl(9) empregou recursos tecnológicos propícios de 2003 para descrever adaptações e ajustes finos de AASI a destacar que com “o conceito da Telemedicina permite que um fonoaudiólogo altamente experiente esteja presente em áreas remotas sem restrição de tempo e de localização geográfica”.

Como resultados dos trabalhos pioneiros, os pesquisadores concluíram que por meio de recursos da internet, as fonoaudiólogas da Unidade Remota puderam receber treinamento da Unidade Especializada concernentes às características de um novo AASI e ao seu programa de adaptação. A Unidade Especializada apresentou e discutiu as características e os recursos eletroacústicos desse AASI junto à Unidade Remota. Os pacientes interagiram com as fonoaudiólogas de ambas as unidades e aprovaram a adaptação à distância, destacando a boa qualidade subjetiva de amplificação do AASI testado.

REFERÊNCIAS

1. Bashshur RL, Reardon TG, Shannon GW. Telemedicine: a new health care delivery system. Annu Rev Public Health. 2000;21:613-37.
2. DeBakey ME. Telemedicine has now come of age. Telemed J. 1995;1(1):3-4.
3. U.S. Department of Health and Human Services. Telemedicine for the Medicare Population: Evidence Report/Technology Assessment Number 24. July 2001.
4. Tohme WG, Hayes WS, Mun SK, Komo D, Meissner MC. Designing a telemedicine platform for three different medical applications. Proceedings of 4th International Conference on Image Management and Communication (IMAC's 95),1995:86.
5. Belardinelli A, Franchi D, Bedini R, Ripoli A, Palagi G. Ward informative system: hospital application of telemedicine. Computers in Cardiology.1999;26: 413-6.
6. World Health Organization. Situation review and update on deafness, hearing loss and intervention programmes: proposed plans of actions for prevention and alleviation of hearing impairment in countries of the South-East Asia Region. SEA-Deafness-10;Dec. 2007.
7. World Health Organization. Deafness and hearing impairment survey: Report of the consultative meeting of principal investigators. SEA-Deaf-4; 2001.
8. Bento RF, Miniti A, Marone SAM. Tratado de otologia. São Paulo: EDUSP; 1998.
9. Wesendahl T. Hearing aid fitting: application of Telemedicine in Audiology. Int Tinnitus J. 2003;9(1):56-8.
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