Reabilitação Cardíaca: Muito Além da Doença Coronariana

Reabilitação Cardíaca: Muito Além da Doença Coronariana

Autores:

Claudio Gil Soares de Araújo

ARTIGO ORIGINAL

Arquivos Brasileiros de Cardiologia

versão impressa ISSN 0066-782Xversão On-line ISSN 1678-4170

Arq. Bras. Cardiol. vol.105 no.6 São Paulo dez. 2015

https://doi.org/10.5935/abc.20160002

A reabilitação cardíaca (RC), como originalmente proposta nos meados do século passado, era voltada primariamente para tentar fazer o indivíduo retornar à normalidade de sua vida, com ênfase nos aspectos de plenitude física, mental e profissional. Ainda naquela época, foram modificados alguns paradigmas. Em vez de quatro a seis semanas de imobilização no leito após um infarto agudo do miocárdio, foi proposto que os pacientes passassem a se sentar em cadeiras no que foi descrito como "armchair treatment"; logo a seguir, começaram os estudos e resultados favoráveis com a deambulação precoce.1 Isso evoluiu de tal forma que atualmente há normatizações da Sociedade Brasileira de Cardiologia propondo e orientando a montagem e o funcionamento de programas de exercício supervisionado dentro do contexto da RC.2 Tais normatizações incorporam exercícios aeróbicos, de fortalecimento muscular e de flexibilidade, para serem iniciados tão logo haja a estabilização clínica após um infarto do miocárdio.

Na realidade, hoje o objetivo é que o paciente após a RC fique em condições melhores ou muito melhores do que aquelas em que se encontrava antes do evento cardíaco ou do diagnóstico de doença cardiovascular.

Muito embora a RC seja um tema frequente e recorrente de diversas apresentações nos congressos científicos da especialidade e, portanto, conhecida dos cardiologistas clínicos, é consenso mundial que apenas uma parcela muito pequena dos coronariopatas é habitualmente encaminhada pelos seus médicos assistentes para esses programas de RC. As razões para esse subencaminhamento são várias e não serão discutidas nesse editorial.

O presente editorial procura alertar para outro aspecto, esse certamente bem menos conhecido do cardiologista clínico. A RC e, em particular, os programas de exercício supervisionado devem ser indicados não apenas para os coronariopatas, mas também para um amplo leque de condições cardiovasculares e, em consequência, para praticamente todos os cardiopatas.

Conforme destacado em artigo recente nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia,3 há muito se sabe que um dos melhores, senão o melhor marcador do estado de saúde de um indivíduo e do seu prognóstico, seja saudável ou cardiopata, é a sua condição aeróbica. Essa é expressa pelo consumo máximo de oxigênio, preferencialmente medido através da análise de gases expirados, ou seja, no denominado teste cardiopulmonar de exercício ou ergoespirometria. Ainda que a condição aeróbica sofra importante influência genética, é consensual que níveis ótimos só podem ser alcançados através da prática regular de exercícios físicos de natureza predominantemente aeróbica. Dessa forma, tanto na prevenção primária como na secundária das doenças cardiovasculares, estar exercitante é fundamental para que se possa otimizar a condição aeróbica. Infelizmente, isso não é o que se verifica na nossa prática clínica nem nos dados epidemiológicos da população brasileira, com uma parcela majoritária dos cardiopatas permanecendo sedentários ou realizando doses subclínicas e insuficientes de exercício físico.

Nos últimos anos, com base no aumento do conhecimento disponível sobre as respostas e adaptações fisiológicas ao exercício físico em indivíduos de diferentes populações e características clínicas, diversos pesquisadores e serviços de RC passaram a explorar outras possibilidades de indicações e de atendimento de cardiopatas não coronarianos. Sendo assim, pode-se melhor conhecer os riscos e os benefícios da intervenção com exercício físico regular em um amplo espectro de cardiopatas não coronarianos, alguns deles considerados como tendo contraindicações absolutas até passado recente, e postular que esses pacientes sejam então encaminhados para os programas de RC.

O quadro 1 apresenta uma lista de 22 condições cardiovasculares,4-25 propositadamente excluindo a doença coronariana, para as quais já existe um ou mais estudos e evidências científicas sugerindo ausência de danos ou riscos importantes e significativos benefícios quando da participação em programas de RC e em sessões regulares de exercício físico com ou sem supervisão médica. As condições são ordenadas de modo decrescente para o grau de evidência, o nível de conhecimento disponível e a experiência clínica acumulada em relação aos benefícios do exercício físico regular. A indicação para cada uma delas é embasada em uma referência científica qualificada e recente, cujo resumo no PubMed pode ser obtido através do hyperlink apresentado.

Quadro 1 Lista de 22 condições cardiovasculares não coronarianas para as quais há evidências ou experiências clinicas de beneficio para intervenções de exercício físico 

Número Condição cardiovascular Referência PubMed URL
1 Insuficiência cardíaca (todas as classes funcionais) (4) http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24771460
2 Insuficiência cardíaca (com fração de ejeção preservada) (5) http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25399909
3 Cardiomiopatia dilatada (6) http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22739638
4 Transplante cardíaco (pós-cirurgia) (7) http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25840503
5 Cirurgia valvar cardíaca (pós-evento) (8) http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22024327
6 Doença arterial periférica (9) http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25766947
7 Hipertensão arterial sistêmica (10) http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23525435
8 Acidente vascular cerebral (pós-evento) (11) http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24142492
9 Acidente isquêmico cerebral transitório (pós-evento) (12) http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25023152
10 Hipertensão arterial pulmonar (13) http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26231884
11 Doença de Chagas (14) http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25098373
12 Cardiopatias congênitas (15) http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23746621
13 Taquicardia ventricular polimórfica catecolaminérgica (16) http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24837260
14 Disfunção erétil (etiologia vascular) (17) http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22435000
15 Síncope neurocardiogênica (18) http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24714795
16 Síndrome da taquicardia ortostática postural (19) http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25487551
17 Aneurisma de aorta abdominal (< 55 mm) (20) http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23793234
18 Cardiomiopatia hipertrófica assimétrica (21) http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23928567
19 Dispositivo de assistência ventricular esquerda (pós-implante) (22) http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25381335
20 Transposição de grandes vasos (adultos pós-cirurgia) (23) http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25809342
21 Fibrilação atrial (pós-ablação) (24) http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26113406
22 Implante transcateter de valva aórtica (25) http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25593575

Na realidade, essa lista deve ser compreendida como aberta e não restritiva, pois, com exceção de displasia arritmogênica do ventrículo direito,26,27 insuficiência cardíaca terminal e infecção miocárdica ou valvar aguda, quase sempre é possível obter algum benefício com a participação em programas de RC ou sessões de exercício supervisionado em doenças ou condições cardiovasculares, quando o paciente se encontra estável do ponto de vista clínico, hemodinâmico e eletrocardiográfico.

Espera-se que este editorial colabore para que os cardiologistas clínicos passem a incorporar, definitivamente, o exercício físico regular como uma das maiores prioridades no tratamento dos cardiopatas, não apenas para os já "conhecidos" coronarianos, mas também, e com grande ênfase, para os não-coronarianos. Em paralelo, os hospitais e clínicas públicas e privadas de Cardiologia e de Medicina do Exercício devem se preparar para poder atender adequadamente a essa nova demanda.

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