Reabilitação (e fisioterapia) cardiovascular no Brasil

Reabilitação (e fisioterapia) cardiovascular no Brasil

Autores:

Marlus Karsten

ARTIGO ORIGINAL

Fisioterapia e Pesquisa

versão On-line ISSN 2316-9117

Fisioter. Pesqui. vol.25 no.1 São Paulo jan./mar. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/1809-2950/00000025012018

Embora alguns relatos sobre os benefícios da atividade física e do exercício físico para pacientes com doenças cardiovasculares possam ser encontrados na literatura internacional desde o século XVIII, foi somente a partir de meados do século passado que alguns estudos passaram a mostrar essa relação de maneira mais apropriada do ponto de vista científico. Naquela época, também foi apresentada uma proposta de organização de programas de reabilitação cardiovascular (RCV)1, que serviu de base para o desenvolvimento do que se conhece hoje nas diversas partes do mundo. Contudo, o grande desenvolvimento desses programas ocorreu entre as décadas de 1960 e 1970, quando as bases fisiopatológicas de algumas doenças cardiovasculares foram melhor estabelecidas e desenvolveram-se conceitos importantes da fisiologia do exercício e dos procedimentos de avaliação e treinamento físico.

No Brasil2, os primeiros programas de RCV surgiram entre o final da década de 1960 e início de 1970, sendo que as primeiras unidades foram estabelecidas no Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte. Naquela época, os programas atendiam principalmente os pacientes em fase de recuperação de infarto do miocárdio ou no período de pós-operatório de cirurgia cardíaca, especialmente a revascularização do miocárdio, ainda em seus primórdios. Mais recentemente, pacientes com outras condições clínicas e cirúrgicas (valvopatias, vasculopatias periféricas, miocardiopatias, insuficiência cardíaca crônica…) têm sido beneficiados pelos programas de RCV que, em geral, têm como principal enfoque o exercício físico prescrito, orientado e supervisionado pelos especialistas. Por aqui, assim como em outros países, os fisioterapeutas ocupam lugar de destaque na equipe e geralmente são os principais responsáveis pelas intervenções relacionadas ao exercício físico, particularmente nas fases I e II, assim como para os pacientes com moderado ou alto risco.

Segundo a Organização Mundial da Saúde3, a RCV caracteriza-se por ser um processo baseado na

soma de atividades e intervenções necessárias para promover mudanças favoráveis em relação aos fatores de risco cardiovascular, bem como para garantir as melhores condições físicas, mentais e sociais possíveis, de modo que os pacientes com doença cardiovascular crônica ou pós-aguda possam, por seus próprios esforços, preservar ou reassumir seu lugar na sociedade e levar uma vida ativa.

Assim, pode-se perceber que os programas devem ser estruturados com base em alguns preceitos, como: equipe multiprofissional e interdisciplinar, abordagem com múltiplos focos (exercício e atividade física, controle de fatores de risco, orientação ocupacional, aconselhamento sexual, educação, entre outros) e promoção de autonomia.

No entanto, embora haja uma série de benefícios relacionados à participação nos programas de RCV4, apenas uma pequena parte dos pacientes com indicação tem acesso à RCV, seja nos países desenvolvidos ou nos com moderado ou baixo nível de desenvolvimento5. Essa é uma situação altamente preocupante, tendo em vista que aproximadamente um terço das mortes no mundo está relacionado com as doenças cardiovasculares, principalmente as cardiopatias isquêmicas e doenças encefálicas.

Assim, além da abordagem preventiva, que deve ser fortemente estimulada, há necessidade de aumentar o número de programas disponíveis à população, bem como facilitar e ampliar o acesso dos pacientes, aprimorar as modalidades não convencionais e desenvolver estratégias complementares de RCV, especialmente nos países em desenvolvimento, como o Brasil. Nesse sentido, o International Council of Cardiovascular Prevention and Rehabilitation (ICCPR)* propôs recentemente uma abordagem mais simples para a realização dos programas de RCV6. Cerca de 30 associações de diversas partes do mundo, como a Associação Brasileira de Fisioterapia Cardiorrespiratória e Fisioterapia em Terapia Intensiva (Assobrafir), apoiam as iniciativas deste conselho e desenvolvem em seus países atividades de suporte para que as estratégias possam ocorrer no menor espaço de tempo e com a maior qualidade possível.

Entre as ações realizadas nos últimos anos pela Assobrafir**, podem ser destacados o trabalho desenvolvido para que a especialidade profissional de Fisioterapeuta Cardiovascular fosse reconhecida pelo Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (Coffito), em 20157, e o apoio à realização de eventos com essa temática, como o I Congresso Brasileiro de Fisioterapia Cardiovascular, que ocorreu em 2016 durante o XVIII Simpósio Internacional de Fisioterapia Cardiorrespiratória e Fisioterapia em Terapia Intensiva, em Belo Horizonte, que contou com a presença da atual presidente do ICCPR, além de outros convidados internacionais e nacionais.

Além disso, anualmente são realizados eventos em todas as 25 representações regionais da Assobrafir, sempre com a inclusão de temas relacionados à fisioterapia e à reabilitação cardiovascular, bem como com a possibilidade de apresentação de resultados de trabalhos científicos. Dessa maneira, a Assobrafir tem contribuído para a produção, disseminação e divulgação científica, para a representação e valorização dos profissionais dedicados à especialidade e para as relações institucionais com outras associações e conselhos com vistas ao aprimoramento da fisioterapia e da reabilitação cardiovascular.

Por fim, vale destacar que, devido à ótima qualidade assistencial e de pesquisa, a fisioterapia brasileira tem contribuído para o avanço da reabilitação cardiovascular, com reconhecimento em nível internacional. Assim, gostaria de incentivar os colegas e acadêmicos de fisioterapia a continuar desenvolvendo seus estudos e a prática assistencial de excelência nesse campo do conhecimento, para que possamos proporcionar a melhor experiência aos pacientes. Com isso, é certo que os fisioterapeutas cardiovasculares alcançarão a merecida valorização social e profissional.

Marlus Karsten Diretor científico geral da Assobrafir Departamento de Fisioterapia e Programa de Pós-Graduação em Fisioterapia Universidade do Estado de Santa Catarina

REFERÊNCIAS

1. Hellerstein, HK, Ford AB. Rehabilitation of the cardiac patient. JAMA. 1957;164(3):225-231.
2. Godoy M, editor. I Consenso Nacional de Reabilitação Cardiovascular: fase crônica. Arq Bras Cardiol. 1997;69(4):267-91.
3. World Health Organization. Rehabilitation after cardiovascular disease, with special emphasis on developing countries: report of a WHO expert committee. World Health Organ Tech Rep Ser. 1993;831:1-122.
4. Anderson L, Taylor RS. Cardiac rehabilitation for people with heart disease: an overview of Cochrane systematic reviews. Cochrane Database Syst Rev. 2014 dez;(12):[9 p.].
5. Babu AS, Lopez-Jimenez F, Thomas RJ, Isaranuwatchai W, Herdy AH, Hoch JS, et al. Advocacy for outpatient cardiac rehabilitation globally. BMC Health Services Research. 2016;16:[9 p.]. doi: 10.1186/s12913-016-1658-1
6. Grace SL, Turk-Adawi KI, Contractor A, Afrey A, Campbell N, Derman W, et al. Cardiac rehabilitation delivery model for low-resource settings. Heart. 2016;102(18):1449-55.
7. Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional. Resolução nº 454, de 25 de abril de 2015. Reconhece e disciplina a Especialidade Profissional de Fisioterapia Cardiovascular [Internet]. Diário Oficial da União. Brasília, DF; 2015 maio 14 [citado em 2018 fev 9]. Seção 1, n. 90, p. 96-7. Disponível em: <Disponível em: < >.
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