Reabilitação pulmonar no Brasil

Reabilitação pulmonar no Brasil

Autores:

Cibele Cristine Berto Marques da Silva,
Rafaella Fagundes Xavier,
Celso Ricardo Fernandes Carvalho

ARTIGO ORIGINAL

Fisioterapia e Pesquisa

versão On-line ISSN 2316-9117

Fisioter. Pesqui. vol.24 no.4 São Paulo out./dez. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/1809-2950/00000024042017

A reabilitação pulmonar (RP) foi iniciada no Brasil pelo Dr. José Roberto Jardim, por volta de 1990, numa pequena sala com duas bicicletas de modelo residencial e uma esteira ergométrica que não possuía sequer inclinação. Somente em 1993, portanto, há menos de 25 anos, foi aberto oficialmente o Centro de Reabilitação no Lar Escola São Francisco, considerado o primeiro no Brasil. Lá haviam quatro esteiras ergométricas que foram progressivamente aumentando em número, junto com o número de atendimentos. Este centro foi o disseminador de fisioterapeutas respiratórios com formação em RP. No Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, a RP surgiu em 1998 devido ao grande número de pacientes e por sugestão do dr. Alberto Cukier. Atualmente, existem mais de 150 centros de RP, número muito maior que nos demais países sul- americanos, como Argentina (32), Colômbia (12), México (3) e Uruguai (2). Existem países sul-americanos que ainda contam com somente um Centro de RP, como Paraguai, Bolívia, Venezuela, Costa Rica, Honduras, Peru e Equador.

Com a evolução dos estudos, já foi amplamente demonstrado que a RP reduz a dispneia, aumenta a capacidade de exercício e melhora a qualidade de vida em indivíduos com doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) (1. Estes benefícios já ficaram tão estabelecidos na literatura que a Cochrane Library tomou uma decisão bastante incomum: o fechamento de submissões de revisões sobre o assunto2. Isto ocorreu porque as conclusões da atualização mais recente da revisão da Cochrane sobre RP em pacientes com DPOC estão de acordo com as versões anteriores, publicadas em 1996, 2002 e 20063)- (6. A decisão seguiu o manual da Cochrane : “uma revisão que já não está sendo atualizada é aquela que é altamente suscetível de manter sua relevância atual para o futuro previsível. Situações nas quais uma revisão pode ser declarada como não mais atualizada incluem: 1) a intervenção é substituída, tendo em mente que as revisões Cochrane devem ser internacionalmente relevantes e 2) a conclusão é tão certa que a adição de novas informações não a alterará, e lá não são efeitos adversos previsíveis da intervenção7”. Tais revisões são rotuladas no banco de dados Cochrane de análises sistemáticas como sendo “estáveis”.

As novas abordagens para o estudo da RP em pacientes com DPOC objetivam compreender como modificar o comportamento. Neste sentido, a definição mais recente de RP estabelece que “A RP é uma intervenção abrangente com base em uma avaliação minuciosa, seguida por terapias adaptadas ao paciente que incluem, mas não estão limitadas ao treinamento físico, educação e mudança de comportamento. Ela é projetada para melhorar a condição física e psicológica de pessoas com doenças respiratórias crônicas e para promover a adesão a longo prazo para comportamentos que melhoram a saúde8”. Neste sentido, o desenvolvimento de tecnologias que reduzam o nível de sedentarismo ou aumentem o nível de atividade física é considerado tema atual de estudo.

Apesar dos avanços da RP, ainda existem pelo menos quatro pontos a serem aperfeiçoados nos próximos anos. Em primeiro lugar, aumentar o acesso dos pacientes à RP em todo o mundo, compreendendo o seu efeito em pacientes hospitalizados por exacerbações, bem como avaliando sua efetividade em pacientes com doença respiratória crônica mais suave. Em segundo lugar, desenvolver modelos alternativos de RP, como o uso de novas tecnologias e a telerreabilitação. Em terceiro lugar, colocar em prática métodos que estimulem os pacientes a mudar seu comportamento de maneira significativa e sustentável (autogerenciamento). E, por último, compreender a heterogeneidade e complexidade multissistêmica da DPOC e de outras formas de doenças respiratórias crônicas, incluindo os diferentes fenótipos das doenças e o impacto da RP nestes fenótipos. Aguardemos os novos estudos para ver as novidades…

Cibele Cristine Berto Marques da Silva Rafaella Fagundes Xavier Celso Ricardo Fernandes Carvalho Departamento de Fisioterapia, Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo

REFERÊNCIAS

1. Nici L, Donner C, Wouters E, Zuwallack R, Ambrosino N, Bourbeau J, et al. American Thoracic Society/European Respiratory Society Statement on Pulmonary Rehabilitation. Am J Respir Crit Care Med. 2006;173(12):1390-413. doi: 10.1164/rccm.200508-1211ST
2. Lacasse Y, Cates CJ, McCarthy B, Welsh EJ. This cochrane review is closed: deciding what constitutes enough research and where next for pulmonary rehabilitation in COPD. Cochrane Database Syst Rev. 2015;(11). doi: 10.1002/14651858.CD003793.pub3
3. McCarthy B, Casey D, Devane D, Murphy K, Murphy E, Lacasse Y. Pulmonary rehabilitation for chronic obstructive pulmonary disease. Cochrane Database Syst Rev. 2015;23(2). doi: 10.1002/14651858.CD003793.pub2
4. Lacasse Y, Wong E, Guyatt GH, King D, Cook DJ, Goldstein RS. Meta-analysis of respiratory rehabilitation in chronic obstructive pulmonary disease. Lancet. 1996;348(9035):1115-9. doi: 10.1016/S0140-6736(96)04201-8
5. Lacasse Y, Brosseau L, Milne S, Martin S, Wong E, Guyatt GH, et al. Pulmonary rehabilitation for chronic obstructive pulmonary disease. Cochrane Database Syst Rev. 2002;(2):CD003793. doi: 10.1002/14651858.CD003793
6. Lacasse Y, Goldstein R, Lasserson TJ, Martin S. Pulmonary rehabilitation for chronic obstructive pulmonary disease. Cochrane Database Syst Rev. 2006;(2):CD003793. doi: 10.1002/14651858.CD003793.pub2
7. Higgins JPT, Green S, Scholten RJPM. Maintaining reviews: updates, amendments and feedback. In: Higgins JPT, Green S, editors. Cochrane handbook for systematic reviews of interventions: version 5.1.0 (updated March 2011). London: The Cochrane Collaboration; 2011. Available from:
8. Spruit MA, Singh SJ, Garvey C, ZuWallack R, Nici L, Rochester C, et al. Official American Thoracic Society/European Respiratory Society statement: key concepts and advances in pulmonary rehabilitation. Am J Respir Crit Care Med. 2013;188(8):e13-64. doi: 10.1164/rccm.201309-1634ST
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