Relações de gênero e interdependências: reflexões a partir de mudanças na configuração hospitalar

Relações de gênero e interdependências: reflexões a partir de mudanças na configuração hospitalar

Autores:

Audrey Vidal Pereira,
Lúcia Rotenberg,
Simone Santos Oliveira

ARTIGO ORIGINAL

História, Ciências, Saúde-Manguinhos

versão impressa ISSN 0104-5970

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.20 no.3 Rio de Janeiro jul./set. 2013 Epub 14-Ago-2013

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702013005000009

ABSTRACT

The article analyzes changes that have occurred in hospitals over the years, with a focus on the dynamics of gender relations as experienced by healthcare workers. We use the notions of configuration and interdependence, taken from Norbert Elias' theory of the civilizing process, along with discussions of gender relations at work; drawing from Michel Foucault, we also reference the disciplinary practices employed down through hospital history. This linkage of discussions on gender issues and on interdependent relations opens up to a reflection on conflicts of interests, power struggles, and the balance of tensions, which in turn makes it possible to problematize gender inequalities with the ultimate aim of achieving an interdisciplinary effort that will promote health care of an integral nature.

Key words: gender relations; hospital; interdependence

A discussão aqui realizada tem como foco as transformações ocorridas no hospital ao longo do tempo, com destaque para as interações entre profissionais que nele trabalham, em especial, as que envolvem as relações de gênero.

Para analisar essas interações, lançamos mão da teoria do processo civilizador elaborada por Norbert Elias (1994), entendendo que possa subsidiar reflexões sobre as relações de gênero entre profissionais da saúde, utilizando, em especial, os conceitos de configuração e interdependência. Tais conceitos nos parecem essenciais na análise das relações de gênero uma vez que associam a dinâmica das interações sociais a formas de distribuição de poder. Para Elias (2008), o equilíbrio de poder não se dá apenas entre Estados, mas constitui elemento integrante de todas as relações humanas.

Iniciamos com uma exposição dos conceitos de configuração, interdependência, relações de gênero e divisão sexual do trabalho. Uma análise histórica do hospital, com base emFoucault (2011), também contribuiu para identificar mudanças ao longo dos anos, através de disputas de poder e conflitos de interesses referentes às relações de gênero.

A partir desse aporte teórico, buscamos compartilhar os seguintes questionamentos: o que torna possível a identificação do hospital como uma configuração de interdependências vivenciadas pelos profissionais de saúde? Ou, ainda, em que medida as mudanças que ocorreram ao longo dos anos na configuração do hospital influenciam as relações de gênero como interdependências vivenciadas pelos profissionais de saúde?

A teoria do processo civilizador: aproximações conceituais a partir de Norbert Elias

O advento da teoria do processo civilizador, publicada na Suíça pela primeira vez em 1939, nos remete à ampla discussão sobre a relação entre o indivíduo e a sociedade (Elias, 1993, 1994). Trata-se da descrição de um modelo considerado pelo autor a teoria central da sociologia, ou seja, que não se restringe a explicar um processo social particular, mas busca abordar "a questão do como e do porquê de processos sociais de longa duração" (Elias, 2001, p.146) a partir de elementos verificáveis empiricamente e refutáveis, caso necessário. Dessa forma, essa teoria não parte de esquemas teóricos preestabelecidos, mas da análise de modelos sociais apoiados em mudanças ocorridas na "sociedade de corte"1 ao longo de processos históricos. Desse modo, ao examinar o significado de civilização, Elias busca entender a relação existente entre a evolução desse conceito, sua consciência como processo e o desenvolvimento da sociedade, a partir da transformação de seus costumes em diferentes épocas e em países como França, Alemanha e Inglaterra.

Por meio dessa tese, Elias (1993, 1994) discute o desenvolvimento dos modos de conduta e a civilização dos costumes, apontando como aconteceram as mudanças e as forças que as motivaram. As reflexões sobre tais mudanças foram elaboradas a partir de exemplos a respeito dos hábitos alimentares, da etiqueta, da sexualidade, das funções corporais e das relações de gênero. O autor ressalta que a civilização ocidental se modificou através de um processo de interiorização de códigos, condutas, gestos e controle das emoções, formando sociedades e Estados medievais e feudais, e modernos. Ao longo dos séculos, os contextos de violência, turbulência e atitudes desregradas deram lugar à interiorização de costumes de delicadeza, cordialidade, autodisciplina, coerção externa e contenção dos afetos. Somados aos sentimentos de vergonha, repugnância e embaraço, influenciaram a adequação das emoções às condutas e aos padrões civilizados, conforme as racionalidades ocidentais numa perspectiva eurocêntrica. Desde o século XIV, o uso de manuais ou livros de "boas maneiras" permitiu moldar a transformação de crianças e "nobres guerreiros" em "nobres da corte", obrigados a assumir posturas românticas, regras de etiqueta, padrões coletivos e condutas coercitivas (Elias, 1994).

Elias (1994) utiliza as observações sobre o aprimoramento progressivo dos comportamentos e as mudanças nos costumes das sociedades europeias ao longo de gerações para compreender o que denomina processo civilizador. Assim, examina as mudanças supondo que as emoções individuais são progressivamente autocontroladas em paralelo às transformações ocorridas na sociedade, referentes ao processo de pacificação e controle da violência, de complexidade do espaço social e da especialização das funções.

Tal teorização parte da premissa de que não há como compreender a vida social caso se considere cada indivíduo separadamente, uma vez que os indivíduos tomados isoladamente nunca vivem de maneira totalmente fortuita ou arbitrária (Elias, 2001). Para o autor, "o fato de que os outros, como a própria pessoa, tenham uma vontade própria impõe limites à vontade individual de cada um dentre eles, dá uma estrutura e uma dinâmica próprias à sua vida em comum" (Elias, 2001, p.154). Trata-se, nesse sentido, de considerar que os seres humanos vivem interagindo em redes ou "teias" de dependências mútuas. Dessa forma, Elias (1994) critica a velha imagem do homem como "personalidade fechada" e isolada, e propõe sua substituição pela imagem de "personalidade aberta" e orientada para o outro, que tem maior ou menor grau de autonomia fundamentalmente direcionada para a interação e a interdependência, formando um nexo denominado configuração.

O conceito de configuração tem em vista afrouxar o constrangimento de falarmos e pensarmos como se o indivíduo e a sociedade fossem antagônicos e diferentes, evitando polarizações conceituais que atribuam maior valor a um em detrimento do outro. Os modelos de interpenetração evidenciam a formação de configuração cujas ações são interdependentes. Como categorias recorrentes em suas obras2, o conceito de configuração chama a atenção para a interdependência das pessoas, constituindo relações específicas e móveis ao longo do tempo (Elias, 2008).

O autor constrói assim um modelo conceitual que inova a maneira de perceber as relações entre indivíduo e sociedade. Capaz de generalizar e abordar mudanças sociais de longa duração, que assumem a forma de processo social, possibilita-nos visualizar pistas sobre os movimentos que levam os indivíduos a estar ligados uns aos outros e a ser dependentes uns dos outros (Elias, 1993, 1994). Pretende, assim, escapar do dilema tradicional da sociologia, expresso na dicotomia indivíduo/sociedade, ressaltando que as pessoas devem ser pensadas como indivíduos e em sociedade, concomitantemente (Elias, 2006).

O conceito de configuração pode ser compreendido como formação social ou rede de interação permanente, em que os indivíduos ou grupos estão ligados uns aos outros por um modo específico de dependências recíprocas. Vivenciam processos de agrupamentos através de inúmeras cadeias invisíveis de relacionamentos, nas quais os equilíbrios de poder tendem a determinar a conduta das pessoas (Elias, 1993, 2006, 2008). A configuração deve ser entendida como um padrão mutável no jogo das relações, cuja interdependência supõe um entrelaçamento flexível em constante movimento (Elias, 2001, 2008). Esse padrão pode ser aplicado nas análises micro ou macrossociológicas, tendo em vista que tanto em pequenos grupos quanto em sociedades constituem-se cadeias de interdependência mais simples, como famílias, jogadores de carteado, alunos em sala de aula, ou mais complexas, como cidades ou países (Elias, 2001, 2006, 2008).

Para ilustrar seu viés analítico, Elias utiliza o "modelo de jogos" (2008) ou da "dança" (1994) como metáfora, cuja proposta é demonstrar uma visão dinâmica das estruturas sociais. Tanto o jogo quanto a dança não têm existência própria fora dos jogadores ou dançarinos, não sendo composições externas à pluralidade de indivíduos que os pratica. Dessa maneira, as posições e os comportamentos dos jogadores ou dançarinos, em correlação estreita uns com os outros, são direcionados pelas interdependências no contexto da configuração. Ainda que a configuração seja igual, cada jogo ou dança é único, possibilitando variações segundo as regras, intenções ou recursos pactuados pelos envolvidos.

Ao tratar os modelos de jogo, Elias (2008) elabora discussão sobre os processos de interpenetração com normas ou regras não só enfatizando o caráter processual das relações de interdependências, como também mostrando o modo como a teia de relações humanas muda de acordo com a distribuição do poder.

Com base nesses modelos explicativos, analisa as tensões e mensura forças e disputas de poder, demonstrando o caráter relacional entre as pessoas nas constantes interdependências. Esse envolvimento de pessoas que jogam ou dançam com outras pessoas forma configurações que podem sofrer alterações no decorrer do tempo por meio de conflitos que constituem o foco central em sua teoria sociológica. Elias (2008, p.191) afirma que "A ascensão e queda de grupos dentro das configurações e as tensões e conflitos estruturais concomitantes são centrais em todos os processos evolutivos".

A partir da concepção de que as pessoas estão interligadas e se relacionam, como nos exemplos do jogo ou da dança, é possível observar que elas estabelecem ações com outras pessoas, para as outras pessoas e entre si. São atravessadas também por diferenças e disputas de poder e pelos conflitos de interesses que consolidam os elos de interdependência. Com base nessa abordagem relacional, Elias (2001) observa que as diferenças dessas dependências constituem o núcleo das relações de poder entre os indivíduos de uma dada sociedade e, portanto, são (ou deveriam ser) o centro da pesquisa sociológica.

O autor faz alusão a esses conceitos alertando-nos de que as tensões estão presentes no cotidiano das relações sociais. Ao refletir sobre os processos de interdependência, entretanto, brinda-nos com conceitos de equilíbrio, contribuindo para tornar maleável a rigidez remetida aos conceitos de tensão, disputa e conflito. Segundo Elias (2008), os conceitos de equilíbrio são mais adequados à análise das relações funcionais entre seres humanos interdependentes do que os conceitos modelados em objetos imóveis. Estão estreitamente aproximados, permitindo deslocar diversas oposições clássicas, herdadas da tradição filosófica ou sociológica (razão x emoção, objetividade x subjetividade e individual x coletivo), como pode ser observado em Corcuff (2001).

Abrimos um parêntese para observar como Elias (2008) faz referência às relações funcionais e/ou como trata o conceito de função. Em sua opinião, o conceito dá-nos um exemplo da natureza de múltiplas perspectivas, sendo atributo das relações humanas, nas quais os indivíduos e instituições nunca desempenham funções exclusivas, tendo ora função de "eu", ora função de "ele".

Elias (1993) alerta para o fato de que, a partir da crescente divisão de funções na sociedade e na mesma medida em que se amplia e adensa a interdependência social, existente nas relações entre os indivíduos e também entre estratos funcionais, manifesta-se uma multiplicidade de interesses que, de modo simultâneo, são parcialmente iguais e opostos. Além disso, cada uma dessas funções pode predominar de acordo com o modo de distribuição de poder, e elas só existem quando nos referimos às interdependências que constrangem as pessoas como elemento de coerção mútua.

Assim, em seu percurso teórico encontramos mais uma aproximação (relações funcionais e distribuição de poder) que tem correlação com as reflexões inerentes à teoria da configuração, ao mencionar que, tal como o conceito de poder, o de função deve ser compreendido como conceito de relação (Elias, 2008).

Dessa maneira, sejam grandes ou pequenas as diferenças de poder, de modo flutuante e elástico, o equilíbrio de poder está presente sempre que houver interdependência funcional desempenhada por uma pessoa em relação a outra ou um grupo em relação a outro em meio às configurações mutáveis. Ainda que esse equilíbrio tenha sido extremamente desigual durante o processo de desenvolvimento das sociedades humanas, de acordo com circunstâncias pessoais e sociais poderá ser estável ou instável, movendo-se para diante e para trás ou primeiro para um lado e depois para o outro (Elias, 2008).

Nessa perspectiva, o autor sinaliza que o equilíbrio de poder está presente tanto nas relações bipolares entre pai e filho ou de senhor e escravo quanto nas relações em que estão envolvidas muitas pessoas. "O poder não é um amuleto que um indivíduo possua e outro não; é uma característica estrutural das relações humanas - de todas as relações humanas" (Elias, 2008, p.81).

Em artigo de 1987, Elias realiza ampla análise das mudanças nas relações de poder entre os sexos, a partir de estudo da Roma Antiga. Inicia o texto com a descrição de tipos de relações entre homens e mulheres em diversas sociedades, mostrando como a desigualdade é codificada nos grupos sociais, pois "se torna não só personalizada, mas também um hábito, parte do habitus social dos indivíduos" (p.288).3

Ele argumenta que enquanto a guerra e outras formas de violência faziam parte da vida cotidiana, as mulheres dependiam da habilidade de luta de seus parentes do sexo masculino. Assim, a inferioridade social das mulheres estava ligada a sua relativa fraqueza física. Ao analisar historicamente as relações entre os sexos, observa que as principais situações de mudança no equilíbrio de poder estiveram vinculadas à maior atuação do Estado como detentor da violência e, no nível individual, ao aumento do autocontrole sobre as emoções e os impulsos. Assim, para Elias (1987, p.308), "Uma das condições para diminuir a desigualdade entre homens e mulheres em uma sociedade foi o crescimento de uma organização de Estado, particularmente de suas instituições jurídicas e policiais, capaz de impedir os homens de usar sua força ou influência para impor sua vontade sobre as mulheres". Dessa forma, com base em arcabouço teórico calcado na análise de processos sociais de longo prazo, o autor articula as mudanças no equilíbrio de poder entre os sexos com a pacificação, expressa por meio da organização do Estado.

Ao comentar a discussão atual acerca do equilíbrio de poder entre os sexos, Elias (1987) critica a tendência à noção de voluntarismo, como se as mudanças dependessem da boa vontade, ou não, das pessoas em questão. Trata-se, para ele, de relações cujo jogo de forças apresenta mudanças ao longo do tempo que não podem ser compreendidas sem se considerar o desenvolvimento da sociedade como um todo. Para o autor, distanciar-se das questões contemporâneas pode permitir alcançar uma forma sociológica de lidar com as mudanças de equilíbrio de poder entre os sexos, o que pode ser útil na compreensão dos problemas atuais.

Embasados, assim, no referencial teórico de Norbert Elias, trabalhamos com os conceitos de conflitos de interesses e ambivalência de interesses (Elias, 1993), disputas de poder (Elias, Scotson, 2000), equilíbrio de poder e equilíbrio das tensões (Elias, 2001, 2008), articulando-os ao conceito de interdependências funcionais (Elias, 2008), que julgamos importante para a análise das relações entre profissionais de saúde no hospital com foco nas questões de gênero.

É nesse contexto que apresentamos, no item que se segue, a conceituação de relações de gênero aplicada à divisão do trabalho. Em que pese a distinção quanto à terminologia, pois Elias (2008) utiliza relações "entre os sexos", trata-se, a nosso ver, de abordagens afins, no sentido de atuar como conceitos centrados em relações de poder construídas nos processos sociais.

Relações de gênero e divisão sexual do trabalho

A partir da entrada crescente da mulher no meio de produção econômica no século passado, acompanhada pela reivindicação de igualdade de direitos e oportunidades, as reflexões e indagações sobre as disparidades entre homens e mulheres tomaram proporção significativa nos discursos do movimento feminista.

Até então, homens e mulheres estavam diferentemente disponíveis para as atividades de trabalho, uma vez que eram atribuídos aos homens o lugar de provedor da renda e a vivên-cia de uma profissão na vida pública, enquanto às mulheres ficava reservado o espaço privado das responsabilidades domiciliares (Hirata, Kergoat, 2007; Rosa, 2003). Assim, os ambientes externos da casa eram atrelados às atividades de produção. O comando era legitimado pelo homem, a partir do enfoque da racionalidade científica do trabalho atrelada à dominação de "masculinidade hegemônica"4, às detenções de poder, à autonomia e à força bruta (Eccel, 2009). A vivência das relações domésticas, por sua vez, vinculava as mulheres aos espaços da reprodução, da introjeção reforçada por hábitos que configuram os desejos, a sensibilidade e a emoção (Miranda, 2006).

Os sentidos tradicionais presentes nas relações entre os sexos são recorrentes na construção de identidades e imagens que, por meio do desempenho de funções e papéis de gênero, são, a partir de aspectos biológicos em oposição, identificadas de modo polarizado e naturalizado como masculinos ou femininos.

Essa divisão, ao longo dos anos, tem delimitado para homens e mulheres lugares simbólicos diferenciados. Assim, as relações de gênero devem ser entendidas a partir de visão ampla, que abrange múltiplas relações sociais, organizações, discursos, símbolos e signos, tratando-se de modelagem social não necessariamente referida ao sexo (Saffioti, 2001).

Esses elementos tanto instituem como são instituídos dialeticamente. As respectivas relações resultam em posicionamentos que formam complexa rede de interações e reações. Articulam-se por relações de poder e resistências entre as pessoas, conforme a visão de grupos sociais que exteriorizam intenções e ações diferenciadas em espaços de disputas. Assim, a construção da identidade de gênero se dá por meio das relações sociais, a partir da linguagem que designa o sistema de significação e ordem simbólica, nas quais são percebidas as manifestações tanto biológicas e intelectuais quanto as emocionais, culturais, políticas e históricas (Scott, 1990).

Para Hirata e Kergoat (2007), a socialização em relação às diferenças de gênero se inicia nas relações intrafamiliares e prossegue com a educação escolar e a instituição religiosa, delimitando espaços de influências nas relações sociais que se expressam na divisão sexual do trabalho. A origem desse conceito se deu no movimento de mulheres a partir de indagações sobre a invisibilidade do trabalho doméstico, que pouco a pouco foi sendo abordado como atividade de trabalho tanto quanto o trabalho profissional, o que permitiu considerar simul-taneamente as atividades desenvolvidas nas esferas doméstica e profissional e abriu caminho para se pensar a divisão sexual do trabalho (Kergoat, 2000; Hirata, Kergoat, 2007).

Essa divisão é percebida a partir do princípio de que os "trabalhos de homens" estão separados e hierarquicamente valem mais do que os "trabalhos de mulheres", reduzindo as práticas sociais ao destino naturalizado de cada sexo (Hirata, Kergoat, 2007). O valor desigual do trabalho de homens e mulheres possibilita identificar causas que estão associadas ao processo de qualificação masculina articulada à desqualificação feminina. Os trabalhos realizados por mulheres, por estarem associados a saberes e "habilidades naturais" (destreza, paciência, sensibilidade, cuidado, considerados qualidades femininas), fazem parte da socialização de meninas. Já os trabalhos realizados por homens, na maior parte das vezes, estão dissociados da vida privada e da socialização de meninos. Ao sair de casa e inserir-se em atividades na vida pública, os homens necessitariam de um tipo de conhecimento que não foi aprendido no espaço doméstico. Por sua vez, essa associação à necessidade de capacitação e formação para homens proporciona status à qualificação masculina.

Para Hirata (2002), o trabalho tido como feminino é caracterizado por reduzida necessidade de qualificação. Em contrapartida existe progressiva qualificação masculina mediante o avanço tecnológico. Assim, torna-se possível inferir que as mulheres, na maioria das vezes, estão absorvidas pelos trabalhos considerados não qualificados ou de "qualificação tipicamente feminina" (associados ao âmbito doméstico), não reconhecida socialmente; e os homens, atrelados aos trabalhos qualificados, técnicos, complexos e de prestígio (existentes nos espaços públicos). Assim, a divisão social do trabalho é estabelecida aqui, como ponto de partida para refletir sobre a permanência dicotomizada de mulheres e homens nas relações de trabalho e as possíveis implicações nos modos de vida.

Segundo Hirata e Kergoat (2007), a partir da "divisão sexual do trabalho", é possível estudar a distribuição diferencial de homem e mulheres nos ofícios, profissões e mercados e as respectivas variações no tempo e no espaço. Tal estudo permite ainda análises de como essa distribuição se articula com a divisão desigual do trabalho doméstico entre os sexos.

No âmbito do setor saúde, a divisão sexual do trabalho pode ser observada pela associação da medicina ao universo masculino e pela aproximação de profissões não médicas, como enfermagem, nutrição e serviço social, ao universo feminino (Osorio-Silva, 2002; Silva, 2006; Aperibense, Barreira, 2008). A medicina é aproximada às práticas de tratamento, científicas, de qualificação profissional, portadoras de valor, de visibilidade e de poder, ao passo que a enfermagem se associa às práticas de cuidado, traduzindo invisibilidades, ligações com a natureza e associações com empirismo e qualidades tidas como femininas (Lopes, Leal, 2005).

Também verificamos uma divisão sexual no interior da medicina: especialidades como pediatria, ginecologia e obstetrícia são prioritariamente exercidas por mulheres, e especialidades correlacionadas às intervenções cirúrgicas, em especial a cirurgia cardíaca e neurológica, por homens, sendo a inserção das mulheres ao longo dos anos seguida de desprestígio social e econômico (Fiore, Yasigi, 2005).

No exercício profissional da enfermagem também existem lugares de pertencimento e de poder diferentes para homens e mulheres. Um exemplo é a restrita frequência masculina em determinadas áreas, como pediatria e obstetrícia, e estímulo para sua inserção em outras, como ortopedia, urologia e emergência (Pereira, 2008).

A divisão sexual do trabalho, adaptada historicamente e a cada grupo social como a forma de divisão do trabalho social decorrente das relações sociais de sexo, traduz, portanto, uma relação de poder. Assim, as relações sociais de sexo foram incorporadas pelas instituições como família e trabalho (vida privada e pública), sendo atravessadas por conflitos entre grupos de interesses antagônicos ("grupo social homens" e "grupo social mulheres"), que estão em tensão permanente em torno da questão do trabalho e de suas divisões, cristalizadas historicamente a partir das relações de poder (Kergoat, 2000).

Tendo em vista o exposto, o item que se segue analisa as relações de gênero à luz do conceito de interdependências no sentido de evidenciar possíveis transformações do equilíbrio de poder entre os gêneros no que tange, em nosso caso, ao trabalho de profissionais de saúde em hospitais.

O hospital como uma configuração de interdependências

Acreditamos que o hospital possa ser compreendido como uma configuração que apresenta interdependências no que se refere às relações de gênero entre os profissionais. Inserido em configuração mais extensa, que diz respeito ao campo da saúde, movimenta transformações que perpassam as relações humanas entre homens e mulheres na sociedade em geral.

A área da saúde estrutura-se ao longo da história, colocando-se em cada momento com novas exigências e faz emergirem inúmeras redes de interdependências funcionais entre os vários níveis, unidades, setores e profissionais que compõem o sistema e/ou as equipes de saúde. Encontramos em Campos e Amaral (2007) registros identificando o hospital contemporâneo como uma organização complexa inserida nessa rede de atenção à saúde. Em Lima (2009), também nos deparamos com a afirmativa de que os hospitais e o sistema de saúde, na literatura organizacional, são considerados as organizações que apresentam a mais elevada interdependência entre seus processos de trabalho.

Procuramos identificações a partir do pensamento de Norbert Elias a respeito do conceito de configuração, sob a perspectiva do modelo explicativo do jogo, capaz de suscitar reflexões que dizem respeito às interdependências funcionais e suas cadeias de relações. Esse modelo também auxilia a refletir sobre as disputas pelo poder, os processos de conflitos e tensões existentes nesse contexto hierárquico de normas e regras que configura a rede de interdependências no hospital. Assim, pensar as relações de interdependências nessa configuração é buscar compreender o equilíbrio de poder, que possa existir entre os profissionais, capaz de fomentar mediações que minimizem desigualdades históricas com relação às questões de gênero envolvendo as variadas profissões.

No caso do presente ensaio, são relações constituídas por profissionais que se pressionam mutuamente no jogo simbólico de disputas por espaços de poder e conflitos de interesses, que acabam provocando transformações nas relações de gênero na configuração hospitalar. Às vezes são mudanças de difícil visualização, a não ser por meio de estudos de longa duração, cuja contextualização temporal e histórica se apresenta necessária para apreender as respectivas interdependências.

Abordagem histórica do hospital

Para aprofundarmos a compreensão histórica da configuração hospitalar, nos reporta-mos neste estudo aos escritos de Michel Foucault (2011) com ênfase no livro Microfísica do poder(primeira tradução no Brasil em 1979), e de outros pesquisadores, como Costeira (2003) e Bellato, Pasti e Takeda (1997), abordando apontamentos históricos referentes ao hospital.

Como instrumento terapêutico, o hospital é invenção relativamente nova, que data do final do século XVIII. A consciência de que ele pode e deve ser um instrumento destinado à cura aparece em torno de 1780. Antes do século XVIII, tratava-se essencialmente de instituição de assistência material e espiritual aos pobres e de isolamento dos doentes. Como instrumento de manutenção da ordem social, disciplinarização da pobreza, assistência e transformação espiritual, visava à proteção da população contra o perigo representado pelos doentes, à diminuição do sofrimento material e à salvação do doente e das pessoas envolvidas com a realização do cuidado de modo caritativo (Foucault, 2011).

Além da desordem epidêmica, o hospital da época ainda apresentava problemas de ordem econômica. Através dele, se fazia, na França e na Inglaterra, tráfico de mercadorias, objetos preciosos e especiarias, trazidos das colônias. Foi a partir da tentativa de anulação dos efeitos nocivos que o hospital apresentava para o doente e para a sociedade que a configuração hospitalar modifica sua finalidade e seu espaço (Foucault, 2011).

Ao estabelecer relações com as questões políticas e econômicas, a configuração hospitalar vai-se modificando a fim de atender às necessidades vigentes da sociedade. Paralelamente às transformações ocorridas no meio militar, com a necessidade de diminuição da mortalidade e obtenção de cura dos soldados em face das intensas epidemias nos períodos de guerra, surgem no contexto hospitalar uma reorganização administrativa e um esquadrinhamento do poder, da disciplina e do espaço. A partir do controle constante da vigília dos indivíduos, ou seja, da introdução dos mecanismos disciplinares no espaço confuso do hospital, a medicina vivencia seu processo de inserção (Foucault, 2011), caracterizada paralelamente pela presença hegemônica da figura masculina.

Mediante a necessidade de controlar as ações no hospital e diante das transformações ocorridas com o saber médico, a disciplina passa a ser confiada ao médico, influenciando o nascimento do hospital como centro de cura ou meio de intervenção e controle do cor-po doente. Assim, o domínio pelo poder no interior do hospital terapêutico, inicialmente passa do pessoal religioso/administrativo, cujo foco era caritativo e salvacionista, para as mãos do médico, o que já enfatizava o caráter científico e racional. As visitas médicas irregulares são cada vez mais frequentes e regulamentadas até a valorização de sua presença permanente, residindo no hospital (Foucault, 2011).

Assim, no passado as intervenções religiosas administravam e direcionavam a presença do médico para atendimento dos indivíduos mais doentes. Com o tempo, os médicos foram se inserindo na dinâmica hospitalar não só desempenhando as funções que eram vivenciadas no domicílio do doente como se apropriando de espaços de poder administrativo a fim de efetivar, através da disciplina, suas intervenções que atendiam às necessidades da sociedade (Foucault, 2011).

Essa inversão das relações hierárquicas no hospital, com tomada de poder pelo médico, se apresenta como o início de uma série de situações que vão se transformando lentamente durante gerações, tensionando mudanças que também influenciam as disputas de poder e as relações de gênero.

Como podemos identificar, a colaboração de atores como Florence Nightingale, a partir de sua experiência na Guerra da Crimeia (1853-1856), não só construiu um modelo para profissionalização da enfermagem, como também influenciou a reorganização da configuração hospitalar a partir da proposta da construção de enfermarias com conceitos de ventilação, iluminação, higiene e distribuição de pacientes, cujos modelos serviram para implantação de hospitais durante muitos anos (Costeira, 2003). As condições precárias dos hospitais para o advento de cura adentram o século XIX trazendo a necessidade de regulamentação e novas perspectivas para o espaço terapêutico e de cuidado à saúde, que, por meio desse processo de transformação, aproxima as práticas médicas e de enfermagem (Bellato, Pasti, Takeda, 1997).

Num contexto de sucessivas mudanças, ainda que existisse maior apropriação da racionalidade científica e dos espaços de poder pelo médico, é possível encontrar a presença de personagens não médicos, além do pessoal religioso, influenciando a organização do espaço hospitalar. E, conforme acreditamos, contribuindo para tensionar os espaços de poder ao longo do percurso histórico.

Ainda nos reportando aos escritos de Foucault (2011), observamos que a partir do enfoque dado aos registros permanentes de documentos que passaram a ser valorizados no interior do hospital da época, através do saber clínico médico como dimensão essencial, encontramos também sinalizações referentes aos registros da enfermeira chefe e da farmácia durante esse período da história hospitalar. É possível observar que os diferentes registros posicionam a existência de interdependência de outras profissões, ainda que o destaque nesse momento esteja direcionado para a figura do médico.

Trata-se, dessa forma, de analisar a dinâmica das relações de gênero como inter dependências na configuração hospitalar. Ao relembrar o modelo esquemático do jogo elaborado por Elias, percebemos a viabilidade de correlações, a partir das transformações ocorridas ao longo dos anos. De espaço pouco regrado, destinado à morte do paciente, o hospital passa a atuar como configuração dotada de regras e códigos de condutas. Cabe ressaltar, ainda, os acordos capazes de tensionar disputas pela apropriação de poder a partir da realização de trabalho dividido historicamente. As categorias profissionais têm funções específicas, porém interdependentes, que se aproximam na intenção de controlar doenças, curar pessoas e salvar vidas.

Além de estimular interesses comuns que podem fomentar processos de aproximação e caracterizar interdependências, o hospital, segundo Bueno (2002), desperta interesse financeiro, expansão de conhecimentos, atuação e visibilidade social, sendo local de tropismo de grupos profissionais. Assim, é um espaço em que atualmente são operacionalizadas ações que tenham como alvo o trabalho em equipe, a recuperação da saúde e a diminuição da mortalidade.

O hospital na contemporaneidade

Ao analisar o trabalho no hospital, podemos considerar que os indivíduos que atuam nas diversas práticas profissionais estão ao mesmo tempo, separados e unidos por laço tenso e desigual de interdependência, pois acreditamos que atualmente o contexto hospitalar prossegue com práticas profissionais que se tensionam entre ações de 'diagnóstico-tratamento' e de 'diagnóstico-cuidado'.

As relações de gênero observadas a partir de inserções profissionais desiguais apontam para um processo de interdependência entre os profissionais, haja vista a tendência de divisão de funções que possibilita encontrar na figura do médico o poder e o comando, sendo as demais profissões associadas à oferta de serviços vinculados ao cuidado, com menores visibilidade e reconhecimento social.

Esse domínio de poder vivenciado pela medicina possibilita que seus membros ocupem posições sociais mais elevadas no setor saúde, como cargos políticos (ministros e secretários de Saúde, diretores de instituições e chefes de serviços), viabilizando uma cadeia de medidas que asseguram os interesses de classe, além das oportunidades usufruídas a partir dos acordos políticos que se aproximam de posicionamentos masculinos. Já para grande parte das demais profissões, a inserção nos espaços de poder ainda apresenta restrito domínio institucional, a partir de chefias específicas da própria categoria.

Para Elias (1993) a necessidade de serviços sentida pelos grupos que estão em condição elevada e a necessidade de terra (leia-se de espaço) e proteção (política e econômica) por parte dos que estão em situações inferiores alimentam tensões que acabam provocando mudanças. No caso do hospital, essas tensões não só influenciam o modo de trabalhar individualmente como também transformam concomitantemente a rede de interdependências. Cada vez mais, é priorizada a existência de setores e serviços que atendem às prerrogativas de uma racionalidade biomédica, cujas funções propiciam a execução do trabalho dividido, repetitivo e individualizado com decisões e condutas solitárias, corporativas, competitivas, com ênfase em atuação profissional isolada e centrada em especialidades médicas.

Desse modo, a organização do trabalho no hospital é caracterizada não só pela divisão social das tarefas como também pela divisão dos sexos. Através da divisão das tarefas se controlam o tempo, os processos, os modos de execução, as fragmentações das atividades e os ritmos. A partir daí surgem historicamente os comandos, as responsabilidades, as hierarquias, as relações de poder e as cadeias de interdependências.

Essa disciplina hierarquizada, cumprindo indicativos de um processo de produção, é executada por profissionais sob a influência conflitante de componentes gerenciais e assistenciais (trabalho abstrato e concreto), que fomentam, sob condições diferenciadas de trabalho, uma rede de tensões e negociações, a partir da divisão de funções interdependentes.

Apesar dos avanços tecnológicos na área da saúde, das influências do mercado, das tendências modernas que produzem trabalhadores qualificados e dos discursos teóricos que fazem referências ao trabalho em equipe e à integralidade da assistência, diversos fatores dificultam a organização do trabalho no hospital contemporâneo. Destaca-se o atual momento de flexibilidade do mercado, estando os profissionais na área da saúde5 sujeitos às diversas modalidades de vínculos empregatícios com maior ou menor grau de precarização, más condições de trabalho que os desgastam e os expõem aos processos crescentes de judicialização na área da saúde. Em suma, estão expostos aos fatores que interferem na organização do trabalho interdependente, que poderia contribuir para reduzir tensões e conflitos nas relações de poder.

Todavia, encontramos tendências de gestão hospitalar influenciadas pelos princípios da qualidade total, que se preocupam com essas questões no contexto dos hospitais, em que a padronização de procedimentos, o aumento da produtividade e a satisfação dos clientes são alguns dos pilares conceituais que contribuem para a garantia da disciplina e do controle dos profissionais para melhorar a eficiência dos serviços (Gurgel Junior, Vieira, 2002; Campos, Amaral, 2007). No entanto, é a partir de uniformização de condutas, protocolos e fluxogramas que encontramos uma contínua padronização e divisão do trabalho que exige sistema de referência e contrarreferência caracterizando interdependência das funções profissionais, mas com dificuldade de integração da equipe multiprofissional.

Esse trabalho em equipe permanece atualmente no sentido de serem operacionalizados participações democráticas e envolvimentos entre os profissionais, a fim de concretizar mudanças na configuração hospitalar com vistas à integralidade da atenção à saúde. No entanto, acreditamos que existem fatores - como o tempo de profissionalização, a aquisição de capital cultural, a inserção política e econômica, a padronização da linguagem, vestimenta, prática e imagem profissional - que contribuem para provocar coesão grupal ou distanciamentos e disputas de poder com relação às profissões não hegemônicas na área da saúde.6 Pressupomos que os profissionais mais antigos (nesse caso os médicos) consigam estabelecer um alto grau de coesão, integração e controle pelo fato de desempenhar papel preponderante na organização histórica do hospital. Influenciam o direcionamento e comando das atividades, a normatização das regras e o domínio das decisões. Já profissões mais novas, como nutrição, enfermagem, serviço social e fisioterapia, enfrentam constantes barreiras devidas à necessidade de se estruturar em meio organizado de modo preestabelecido.7

Assim, acreditamos que a divisão de funções nessa área foi se concretizando de modo que a atenção à saúde passa a ser prática que absorve de modo coletivo a atuação de outras profissões com diferentes qualificações. Aproximar psicólogos, farmacêuticos, nutricionistas e assistentes sociais de médicos e enfermeiras, cujas funções cada vez mais tensionam os espaços de poder em busca de um determinado equilíbrio, possibilita a sobrevivência de cada categoria em uma determinada rede de interdependência ou configuração. Torna possível refletir sobre as dificuldades que essas profissões enfrentam para romper paradigmas e também possibilitar realidades diferenciadas com relação às questões de gênero.

A tendência ao desequilíbrio nas relações de poder e competições corporativas que hierarquizam e fragmentam o trabalho em saúde provocando tensões e disputas perpassa não só as diferentes profissões e especialidades médicas como também os vários setores e áreas, o que é evidente no valor diferenciado e na eterna comparação entre os campos de atuação da cirurgia, da clínica e da psiquiatria. Assim, conforme Feuerwerker e Cecílio (2007), uma complexa trama de atos, procedimentos, fluxos, rotinas, saberes, num processo de complementação e disputa, compõe o cuidado em saúde.

Para Elias (1993), a divisão do trabalho e a diferenciação de funções sociais contribuíram para uma crescente rede de dependências visíveis e invisíveis e/ou uma imensa teia de atividades humanas inter-relacionadas, que se torna complexa a partir do grau de diferenciação funcional existente. O autor ressalta: "A dependência recíproca, contudo, geralmente vem acompanhada de tensões e conflitos específicos. Nenhum grupo de pessoas se contenta em ser mais dependente de outros do que antes" (p.3).

Além das intervenções em equipe, o campo da saúde vem demandando cada vez mais inovações tecnológicas e saber especializado, que, entretanto, permanecem reforçando a divisão social, técnica e sexual do trabalho. Ao refletir sobre essas dificuldades e dilemas ainda existentes nos modos de organizar o trabalho no hospital, é possível observar que a prática dos profissionais possibilita apreender significados socialmente atribuídos às implica-ções das relações de gênero. Apesar de existirem assimetrias e tensões correlacionadas à histórica desvalorização e estigmatização do trabalho feminino e à valorização e carisma do trabalho masculino, elas estão em processo de transformação.

Dessa forma, a configuração hospitalar apresenta inúmeras situações que caracterizam rigidez e manutenção de posicionamentos históricos, ao mesmo tempo em que existem possibilidades de mudanças. Como ressalta Elias (2001), a própria configuração pode manter-se com um ritmo de modificação relativamente limitado ao longo de muitas gerações, que são formadas, entretanto, por indivíduos que se sucedem rapidamente. As modificações ocorridas no âmbito do hospital parecem ter maior probabilidade de ser percebidas através de estudos de longa duração.

Assim, há um monopólio corporativista das decisões médicas (que ainda fazem parte de uma estrutura que inibe a participação de outros saberes e resiste ao trabalho cooperativo), mas, ainda que seja difícil observar, há também processos de autonomia dos demais profissionais de saúde, que, além de reagirem, em alguns momentos através do silêncio ou da não participação, desafiam a dominação médica gerando tensão nas relações interprofissionais (Cecílio, Mendes, 2004). Até mesmo com relação aos conflitos de interesses e à disputa de poder entre medicina e enfermagem, que consideramos a mais clássica, atualmente é possível encontrar estudos sobre essa flexibilização da detenção do poder.

Kruse (2003) faz referência aos registros documentais hospitalares que são componentes essenciais não só para o crescimento do poder de médicos, como também de enfermeiras sobre os corpos dos doentes. Cecílio (1999) ressalta que não só os médicos, mas também as enfermeiras, apresentam resistências aos modelos mais democratizantes da gestão hospitalar, uma vez que as enfermeiras também se aproximam das situações de poder que organizam a configuração do hospital. Na visão de Cecílio e Mendes (2004), as enfermeiras são as tecedoras das relações entre os diferentes profissionais e entre as diferentes unidades assistenciais com possibilidade para assegurar o cuidado integral, orquestrando a definição de regras para os cuidados no processo de trabalho da equipe, através de intensa negociação entre as categorias profissionais.

A inserção da enfermeira obstetra no final da década de 1990, com o apoio do governo federal, tem gerado tensões na própria equipe de enfermagem e entre essa e a equipe médica, realçando questões ligadas ao poder (Nunes, Moura, 2004). Azevedo (2008)reflete sobre a presença da enfermeira no contexto da obstetrícia redimensionando os papéis e poderes entre os campos medicalizados (tecnologias invasivas) e desmedicalizados (tecnologias não invasivas), a partir da política de humanização.

Outra mudança diz respeito à maior inserção de enfermeiros em cargos de alta admi-nistração como direção de unidades, antes ocupados exclusivamente por médicos, alterando as relações de poder e gerando demandas e conflitos que precisam ser conhecidos e administrados para melhor analisar os movimentos que pressionam o equilíbrio de poder (Christovam, Santos, 2005).

Conforme Elias (1993), os interesses das pessoas são parcialmente iguais e parcialmente opostos, e seus atos simultaneamente ajustados e contrários às necessidades de cada um, devido à ambivalência fundamental das relações sociais contemporâneas.

Mesmo que o equilíbrio de poder seja de difícil visualização quando em comparação com a construção histórica de profissão hegemônica, como a medicina, ressaltamos, a partir do auxílio teórico de Elias, um esforço para observar essas relações de forma móvel, ou seja, com probabilidade de elas permanecerem modificando e gerando tensões que impulsionam oportunidades de equilibrar e compartilhar parcelas de poder entre todos os profissionais da equipe.

Elias (1993) percebe que o equilíbrio no campo das tensões, que constitui todas as sociedades, surge sempre em redes humanas diferenciadas, através da colaboração e das colisões de grande número de grupos e classes. Assim, em tempos de promoção e de integralidade da atenção à saúde, a partir da necessidade de interação de diferentes profissionais, setores e disciplinas do conhecimento, a configuração hospitalar contemporânea tem vivenciado um entrecruzamento de incontáveis racionalidades (Cecílio, 1999), interesses e sentidos que influenciam os modos de atenção ao processo saúde/doença.

Ainda que seja possível observar apenas de modo pontual através de iniciativas isoladas ou de incursões teóricas, existem movimentos que procuram reorientar o modelo de assistência à saúde na configuração hospitalar. São ações que têm implicações diretas ou indiretas na organização do trabalho e nas questões de gênero, inserindo 'influências femininas' que se mesclam à disciplina e ao controle masculinos, além dos modelos participativos de coges-tão do processo de trabalho, no sentido da concretização de um trabalho interdisciplinar focado no paciente/cliente e família.

Nesse contexto, cabe ressaltar que os modelos gerenciais adotados pelos hospitais decorrem de teorias administrativas tradicionais que influenciaram a presença de estruturas hierarquizadas e especializadas com funções controladas e robotizadas, mas que caminham para um modelo considerado inovador centrado nas necessidades dos usuários, conforme comenta Bernardino (2007).

Campos e Amaral (2007) sugerem diretrizes para a reorganização do processo de trabalho no hospital contemporâneo com base nos conceitos de "clínica ampliada", centrada na autonomia do sujeito e na produção da saúde. Sugerem, ainda, a gestão democrática, com o envolvimento de pacientes e profissionais em um processo que facilite a participação (presença de acompanhante e ampliação do horário de visita). Trata-se, assim, de um modelo alternativo que tem como propósito organizar a atenção à saúde. Incentiva a autonomia profissional, a responsabilização clínica dos profissionais, a integração do hospital ao sistema de saúde, a ampliação da capacidade de o usuário lidar com a própria rede de dependências, além do destaque para o trabalho interdisciplinar.

Cecílio e Mendes (2004) valorizam o "prontuário integrado", o compartilhamento de deci-sões em equipe, o espaço de ouvidoria e projetos que incentivem a participação de familiares, assim como o protagonismo dos trabalhadores, com possibilidades de assegurar atenção e cuidado de modo integral à saúde. Essa concepção de atenção à saúde amplia a rede de interdependências que extrapolam o âmbito profissional, almejando relações mais próximas com a família e, de forma mais ampla, com a sociedade.

Entendemos que essas tentativas de promover espaços de cogestão e corresponsabilidade ratificando o incentivo dessa racionalidade de integração (Cecílio, Mendes, 2004; Campos, Amaral, 2007) provocam conflitos que devem ser vivenciados a partir de diálogos intensos. Reafirmam a busca do equilíbrio de tensões e de poder nessa teia de interdependência, além da possibilidade de reduzir as desigualdades de gênero, numa configuração que se encontra em constante movimento.

Considerações finais

A partir das teorizações de Elias encontramos os elementos centrais que fortalecem e justificam a opção por discutir as relações de poder e o equilíbrio de tensões entre profissionais interdependentes a partir do modelo de configuração hospitalar, pois elas conseguem evidenciar movimentos de separação e conflitos nas relações interdependentes que envolvem gênero e poder, assim como relações de interdependência nas ações de tratamento, cuidado e atenção integral à saúde dos profissionais em questão.

Refletir sobre essas relações de dependência entre profissionais que compõem a configuração hospitalar possibilita identificar pistas importantes para a compreensão atual das tensões e assimetrias correlacionadas às questões de gênero e de poder no trabalho. Desse modo, é importante observar que os profissionais de saúde, ao desenvolver o trabalho no contexto hospitalar, integram uma configuração que influencia e sofre influência de ações, condutas e modos de relações existentes na sociedade em geral.

O resgate do pensamento de Elias nos auxilia no entendimento de que o poder não permanece em todas as dimensões nem em tempo integral apenas nas mãos de um determi-nado grupo. Procurar perceber as relações de gênero, sob a perspectiva da interdependência, do equilíbrio e movimento, torna possível o encontro de meios-termos que contribuem para balancear as desigualdades e os distanciamentos provenientes das disputas nos jogos de poder. Possibilita-nos ainda compartilhar mais de perto a evidência de que as interfaces correlacionadas à detenção de poder transitam de um grupo ao outro.

Por meio de conceitos como configuração e interdependência, encontramos embasamento analítico que permite observar a dinâmica dessas relações, suas interações e equilíbrio de forças. Essas interdependências surgem a partir de divergência de interesses, que se embatem e se modificam ao longo dos anos através de movimentos flexíveis e contínuos.

A nosso ver, a tentativa de discutir as questões de gênero como relações de interdependências vivenciadas pelos grupos profissionais que trabalham na complexa configuração hospitalar contemporânea ajuda-nos a elaborar um exercício para evitar equívocos quanto às desigualdades polarizadas entre os profissionais de saúde, cujos conflitos tenderiam ao reforço de afirmativas históricas. Trata-se, ademais, de propiciar argumentos e formas de enfrentamentos capazes de suscitar propostas que consigam tensionar as disputas de poder e o encontro de equilíbrio de tensões, permitindo mobilidades e mudanças a fim de reduzir desigualdades de gênero, em prol do trabalho interdisciplinar com vistas à promoção e integralidade da atenção à saúde.

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