Responsividade paratireoideana à hipocalcemia após paratireoidectomia total com autoimplante em portadores de hiperparatireoidismo associado à doença renal crônica

Responsividade paratireoideana à hipocalcemia após paratireoidectomia total com autoimplante em portadores de hiperparatireoidismo associado à doença renal crônica

Autores:

Patricia Dreyer,
Monique Nakayama Ohe,
Livia Marcela dos Santos,
Ilda Sizue Kunii,
Rodrigo Oliveira Santos,
Aluizio Barbosa de Carvalho,
Jose Gilberto Henriques Vieira

ARTIGO ORIGINAL

Brazilian Journal of Nephrology

versão impressa ISSN 0101-2800versão On-line ISSN 2175-8239

J. Bras. Nefrol. vol.38 no.2 São Paulo abr./jun. 2016

http://dx.doi.org/10.5935/0101-2800.20160027

Introdução

O hiperparatireoidismo é uma frequente e grave complicação da doença renal crônica (DRC). Apesar dos avanços das terapias clínicas, o fracasso do tratamento ainda ocorre em um número significativo de pacientes com indicação de paratireoidectomia (PTX).1 As opções de técnica cirúrgica giram em torno de PTX subtotal ou total, com ou sem autotransplante (AT) de tecido paratireoidiano.2 Não há definição sobre qual é a melhor abordagem cirúrgica. A controvérsia permanece, uma vez que nem elevadas taxas de recidiva pós-operatória e tampouco presença de hipoparatireoidismo são desejadas. Quando a PTX total com AT é escolhida, é essencial realizar um exame cuidadoso das glândulas durante o procedimento para a seleção do enxerto. Para tal, pode-se utilizar um estereomicroscópio durante a cirurgia para fazer a diferenciação de áreas normotrópicas da paratireoide pela presença de células adiposas no estroma de áreas com disfunção e hiperplasia.3 O tecido paratireoidiano também pode ser criopreservado após a seleção para futuro reimplante em indivíduos que desenvolverem hipoparatireoidismo permanente.4,5

Entretanto, a viabilidade do tecido preservado é reduzida em criopreservações mais prolongadas.6 Portanto, a avaliação da reserva secretora do enxerto através de estímulo fisiológico pode se tornar uma interessante abordagem para prever quais pacientes poderiam se beneficiar do reimplante, considerando que períodos mais curtos podem melhorar a funcionalidade dos tecidos criopreservados. Hipocalcemia aguda é o principal deflagrador da liberação de PTH em indivíduos normais.7

O teste com infusão de ácido etilenodiamino tetraacético (EDTA) já foi utilizado anteriormente para induzir hipocalcemia e estimular a liberação de PTH,8 mas não é amplamente empregado por ser muito demorado e apresentar possíveis efeitos cardiovasculares adversos. Iwasaki et al. propuseram o uso de um teste com infusões de bicarbonato de sódio (BS) para induzir hipocalcemia e avaliar a reserva secretora da paratieroide em várias patologias.9 A justificativa do teste é que a infusão aguda de BS leva a uma elevação transitória do pH sanguíneo seguida por uma redução na concentração de cálcio ionizado que, por sua vez, estimula a liberação de PTH. Poucos estudos demonstraram a resposta funcional do tecido paratireoidiano após PTX total com AT durante a indução de hipocalcemia.10-13

O objetivo do presente estudo foi avaliar a resposta secretora de PTH do enxerto durante hipocalcemia induzida em pacientes com hiperparatoreoidismo secundário submetidos a PTX total com AT selecionados por estereomicroscopia.

Métodos

O presente estudo experimental foi realizado com um grupo de pacientes em tratamento na Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP/EPM). O estudo foi conduzido segundo os princípios da Declaração de Helsinque/Diretrizes para a Boa Prática Clínica e foi aprovado pela comissão de ética da instituição (aprovação No. CEP 0354/09).

Grupo de controle

Cinco indivíduos hígidos (maiores de 18 anos e de ambos os sexos) domiciliados em São Paulo se ofereceram para serem estudados em hipocalcemia induzida. Nenhum estava em uso de medicação que pudesse interferir com o metabolismo do cálcio ou a secreção de PTH. Os participantes do grupo de controle foram testados antes dos pacientes para confirmar a segurança do procedimento e detectar possíveis ajustes ao protocolo. Foi obtido o consentimento informado e nenhum benefício foi oferecido aos participantes por seu papel na pesquisa.

Grupo de pacientes

Os pacientes foram acompanhados no Centro de Doenças Ósseas devido ao hiperparatireoidismo secundário. Casos de hipercalcemia persistente refratária a intervenções clínicas e/ou hiperfosfatemia persistente apesar de manejo clínico associados a sinais e sintomas tais como prurido intratável, dor óssea grave, fraturas ou risco elevado de fraturas, deformidades esqueléticas, calcificações extra-esqueléticas e/ou desenvolvimento de calcifilaxia foram encaminhados para a Unidade de Cirurgia de Cabeça e Pescoço do mesmo hospital.

Procedimento cirúrgico

Dezoito pacientes foram submetidos a PTX total com AT para o tratamento de hiperparatireoidismo secundário grave entre april e outubro de 2008. Todos tiveram pelo menos quatro excisões de glândula paratireoide verificadas por exame intraoperatório de congelação e/ou medições de PTH no intraoperatório para confirmar a cura cirúrgica. As glândulas paratireoides removidas foram cuidadosamente examinadas por estereomicroscopia (em estereomicroscópio Leica Stereo Zoom S8 APO com ampliação de 10-80x, Leica Mycrosystems GmbH- Wetzlar, Alemanha) para selecionar uma área não-nodular rica em células adiposas estromais para o implante imediato do enxerto.

O sítio escolhido para o autotransplante foi a musculatura pré-esternal, em uma única área de 1,5 cm de comprimento acima do terço superior do esterno. Cerca de 30 fragmentos de paratireoide com 2 mm3 cada foram implantados. Outros 30 fragmentos de paratireoide foram congelados a -70 oC (criopreservação) em solução com 60% de RPMI ou DMEM, 30% de soro fetal bovino e 30% de DMSO (dimetilsulfóxido) para implante futuro, se necessário. Todos os procedimentos foram realizados pelo mesmo cirurgião.

Seleção de pacientes

Os critérios de inclusão para a avaliação funcional dos enxertos de paratireoide foram: (a) qualquer sexo e idade superior a 18 anos; (b) ter sofrido PTX total com AT pela técnica e dentro do período descritos acima; (c) tempo entre teste do estudo e PTX entre seis e doze meses; e (d) aceitação para participar do estudo (consentimento informado assinado). Os critérios de exclusão foram presença de hipocalcemia na última avaliação clínica realizada entre 10 e 40 dias antes do teste e presença de manifestação clínica que exigisse internação.

Protocolo do estudo: estimulação da hipocalcemia

Todos os indivíduos foram orientados a consumir sua dieta normal e a fazer jejum por pelo menos quatro horas antes do teste do estudo. Todas as medicações, quando fosse o caso, foram mantidas com exceção de calcitriol e carbonato de cálcio, que foram suspensos no dia do teste e administrados após o procedimento. Para pacientes em hemodiálise, o teste foi realizado um dia após a sessão regular de diálise. Pacientes em diálise peritoneal foram testados antes da troca da primeira solução do dia. O experimento teve início entre oito e nove da manhã, com os participantes sentados e à temperatura ambiente.

O teste foi realizado da seguinte forma: amostras basais de sangue foram retiradas de veia periférica do membro superior canulada com catéter 20G tipo borboleta. O torniquete foi utilizado apenas durante a inserção do catéter, sendo liberado logo após sua fixação. Subsequentemente, 35 mL por área de superfície corporal (SC em m2) de solução de BS a 8,4% foi infiltrada em veia periférica do membro superior contralateral por dois minutos. A superfície corporal foi calculada pela equação: SC (m2) = 0,20247 x altura(m)0.725 x peso(kg)0.425 (fórmula de DuBois).

Amostras de sangue de punção venosa basal foram coletadas novamente quatro e dez minutos após o início da infusão de BS. Amostras para determinar cálcio ionizado plasmático, pH e concentração do íon bicarbonato foram colhidas com seringas de 1 mL heparinizadas para medição imediata. As amostras de sangue utilizadas na análise das concentrações plasmáticas de PTH intacto (iPTH) foram colhidas em tubos com EDTA, centrifugadas logo após o fim dos testes e congeladas a -20 oC para análises subsequentes. Uma refeição rica em cálcio foi oferecida aos participantes (meia xícara de leite, 50 g de queijo e 120 mL de iogurte), que permaneceram em observação por no mínimo 30 minutos após a refeição antes de receberem alta.

Análises bioquímicas

O cálcio ionizado plasmático foi medido por meio de um eletrodo íon-específico (AVL 9180 Eletrolyte Analyzer, EUA) com valor de referência de 1,12-1,32 mmol/L. O iPTH foi medido por meio do imunoensaio Elecsys para PTH (Elecsys 1010 System, Roche, Mannheim, Alemanha) com valor de referência de 15-65 pg/mL. Os níveis de bicarbonato (referência 23-27 mmol/L) e pH (referência 7,33-7,43) foram medidos através de ensaios automáticos padronizados.

Análise estatística

Os dados foram representados na forma de médias e erros padrão (EP). Modelos ANOVA fator duplo com repetição foram utilizados na análise das diferenças inter- e intra-grupos. O coeficiente de correlação de Pearson, o teste exato de Fischer e o teste t de Student foram aplicados na análise das diferenças basais entre grupos. Significância estatística foi atribuída a eventos com p-valor < 0,05.

Resultados

O grupo de controle contou com cinco indivíduos (dois homens e três mulheres) com idade média de 31,2 (intervalo de 26 a 39) anos. Os valores médios de SC e volume da infusão de BS foram 1,70 m2 e 59,4 mL, respectivamente. Dados de gasometria venosa estavam disponíveis para três dos cinco indivíduos do grupo de controle (dois tiveram problemas na análise); já os valores de cálcio ionizado e iPTH estavam disponíveis para todos os cinco participantes. O valor médio (± EP) do pH sanguíneo (7,41 ± 0,02) estava significativamente elevado após a injeção de BS (7,46 ± 0,03) no quarto (p < 0,001) e no décimo minutos (7,45 ± 0,02, p = 0,035).

A concentração de bicarbonato não exibiu elevação significativa nesse grupo da linha basal até o quarto minuto (27,00 ± 2,00 para 29,33 ± 1,15 mmol/L, p = 0,349) ou até o décimo minuto (29,67 ± 0,58 mmol/L, p = 0,134). Foi observada redução significativa na concentração de cálcio ionizado (de 1,23 ± 0,05 para 1,08 ± 0,20 mmol/L) no quarto minuto (p = 0,008), que caracterizou o nadir (redução média de 12,1% em relação ao cálcio ionizado basal).

Depois o cálcio ionizado aumentou, chegando a níveis semelhantes aos dos valores basais (p = 0,180) no décimo minuto (1,21 ± 0,03). Em resposta à queda do cálcio ionizado, foi observado um aumento imediato e agudo nos níveis de iPTH (de 38,1 ± 10,7 para 116,4 ± 33,9 pg/mL) na amostra do quarto minuto (p < 0,001), seguido de queda no décimo minuto (64,2 ± 29,3 pg/mL) para níveis ainda significativamente mais elevados do que os valores basais (p < 0,001).

Onze dos 18 pacientes submetidos a PTX total com AT entre abril e outubro de 2008 foram selecionados para o teste. O restante não satisfez os critérios clínicos ou se recusou a participar. Os 11 pacientes (oito mulheres e três homens) tinham idade média de 47,9 (intervalo, 4062) anos e oito deles (73%) haviam sofrido transplante renal (todos os procedimentos de transplante foram realizados antes da PTX; os enxertos estavam viáveis há 4,3 anos em média).

No momento do teste, a creatinina sérica média era de 1,23 mg/dL. O período de diálise antes do transplante foi de 5,4 anos em média. Três pacientes (27%) estavam em tratamento dialítico: dois em diálise peritoneal ambulatorial contínua (DPAC) e um em hemodiálise, há 5,3 anos em média. A concentração de Ca++ nas soluções tanto peritoneal como de hemodiálise era de 3,5 mEq/L.

A etiologia da DRC era desconhecida em todos os 11 pacientes (classificada como glomerulonefrite crônica). Calcitriol 0,25 mcg e carbonato de cálcio (CaCO3) 500 mg estavam em uso por 64% dos pacientes (intervalo, 0,5 a 2 comprimidos de calcitriol por dia; intervalo, 1 a 2 comprimidos de CaCO3 por dia). Os testes do estudo foram realizados entre janeiro e julho de 2009 e o tempo médio entre a cirurgia e os testes foi de 8,8 meses (intervalo, 6 a 12). A Tabela 1 contém um resumo dos dados dos pacientes.

Tabela 1 Características basais dos pacientes 

Pacientes Sexo Tx PTX (m/ano) Teste (m/ ano) Calcitriol (0,25 mcg) CaCO3 (500 mg) iCa (mmol/L) iPTH (pg/mL)
1 F Sim 04.2008 01.2009 2 2 1,09 15,2
2 F Não* 05.2008 02.2009 1 2 1,26 8,2
3 M Sim 05.2008 02.2009 0 0 1,15 45,3
4 F Sim 05.2008 02.2009 1 2 1,31 49,0
5 M Sim 06.2008 02.2009 2 1 1,04 28,3
6 F Sim 07.2008 03.2009 0,5 0 1,03 27,0
7 F Sim 06.2008 03.2009 0 1 1,11 16,7
8 F Não* 10.2008 05.2009 0 0 1,25 58,4
9 F Sim 08.2008 06.2009 0 0 1,13 59,9
10 M Sim 06.2008 06.2009 2 2 1,13 52,1
11 F Não* 09.2008 07.2009 2 2 1,39 22,7
Pacientes Sexo Tx PTX (m/ano) Teste (m/ano) Calcitriol (0,25 mcg) CaCO3 (500 mg) iCa (mmol/L) iPTH (pg/mL)
1 F Sim 04.2008 01.2009 2 2 1,09 15,2
2 F Não* 05.2008 02.2009 1 2 1,26 8,2
3 M Sim 05.2008 02.2009 0 0 1,15 45,3
4 F Sim 05.2008 02.2009 1 2 1,31 49,0
5 M Sim 06.2008 02.2009 2 1 1,04 28,3
6 F Sim 07.2008 03.2009 0,5 0 1,03 27,0
7 F Sim 06.2008 03.2009 0 1 1,11 16,7
8 F Não* 10.2008 05.2009 0 0 1,25 58,4
9 F Sim 08.2008 06.2009 0 0 1,13 59,9
10 M Sim 06.2008 06.2009 2 2 1,13 52,1
11 F Não* 09.2008 072009 2 2 1,39 22,7

F: Feminino; M: Masculino; Tx: Transplante; PTX: paratireoidectomia; CaCO3: carbonato de cálcio; iCa: cálcio ionizado; PTH: paratormônio intacto;

*Paciente 8 estava em hemodiálise e pacientes 2 e 11 estavam em diálise peritoneal ambulatorial contínua (DPAC).

As médias de SC e volume de infusão de BS foram semelhantes aos dos indivíduos do grupo de controle (1,70 m2; 59,6 mL, respectivamente). Dentre os pacientes, o pH sanguíneo (7,35 ± 0,03) elevou-se significativamente após a injeção de BS (7,46 ± 0,05) no quarto (p < 0,001) e no décimo minutos (7,42 ± 0,03, p < 0,001). A concentração de bicarbonato no sangue exibou elevação significativa nesse grupo da linha basal até o quarto minuto (26,06 ± 3,2 para 31,24 ± 5,8 mmol/L, p = 0,003) e até o décimo minuto (28,8 ± 4,39 mmol/L, p = 0,009).

Foi observada redução significativa na concentração de cálcio ionizado (de 1,17 ± 0,12 para 1,09 ± 0,11nmol/L) no quarto minuto (p < 0,001), ilustrando o nadir (redução média de 6,8% em relação ao cálcio ionizado basal). No décimo minuto, o cálcio ionizado não exibiu elevação estatística em comparação ao quarto minuto (p = 0,451) e permaneceu mais baixo que o valor basal (p = 0,027). O iPTH plasmático não aumentou em resposta à queda do cálcio ionizado: os níveis variaram entre 34,8 ± 18,6 e 34,1 ± 18,8 pg/mL (basal x quarto minuto, p = 0,087) e valores semelhantes foram mantidos no décimo minuto (33,3 ± 19,6 pg/mL, p = 0,693).

A Figura 1 illustra o cálcio ionizado e as respostas do iPTH ao teste em ambos os grupos. Não foi observada diferença entre pacientes transplantados e dialíticos em relação ao grau da resposta do PTH durante o período de hipocalcemia induzida.

Figura1 (Quadrado) cálcio ionizado médio (iCa) e (Ponto) significam variação do paratormônio (iPTH) sérico ao longo do tempo (Basal, 4 e 10 minutos) em pacientes e indivíduos do grupo de controle. Intervalo normal em cinza (iCa 1,12-1,32 mmol/L e iPTH 15-65 pg/mL). 

Comparação entre o grupo de controle e os pacientes

O pH basal estava mais elevado no grupo de controle (p = 0,034), mas não foi diferente entre os grupos após a injeção de BS no quarto (p = 0,842) e décimo (p = 0.332) minutos. Os valores de bicarbonato no sangue foram semelhantes entre os grupos de controle e de pacientes submetidos a PTX em todas as mensurações (Linha basal: 27,00 ± 2,00 x 26,06 ± 3,2 mmol/L, p = 0,521; quarto minuto: 29,33 ± 1,15 x 31,24 ± 5,8 mmol/L, p = 0,595; décimo minuto: 29,67 ± 0,58 x 28,81 ± 4,39 mmol/L, p = 0,751).

Não houve diferença nos níveis basais e de quarto minuto de cálcio ionizado entre os grupos. O cálcio ionizado no décimo minuto no grupo de PTX apresentou tendência para valores mais baixos, contudo sem significância estatística. O PTH plasmático basal foi semelhante entre os grupos, mas no quarto minuto os valores foram significativamente mais elevados e no décimo minuto ainda mais elevados no grupo de controle (Tabela 2).

Tabela 2 Comparação entre cálcio ionizado (iCA) e paratormônio (PTH) ao longo do tempo 

Grupos
Pacientes (n = 11) Controle (n = 5) p-valor
Média (EP) Média (EP)
i Ca (1,12-1,32 mmol/L)
Basal 1,17 (0,12) 1,23 (0,05) 0,275
4 min 1,09 (0,11) 1,08 (0,20) 0,916
10 min 1,11 (0,11) 1,21 (0,03) 0,064
iPTH (15-65 pg/mL)
Basal 34,8 (18,62) 38,1 (10,71) 0,717
4 min 34,1 (18,83) 116,4 (33,91) < 0,001
10 min 33,3 (19,64) 64,2 (29,31) 0,025

Efeitos colaterais

Apesar de comuns, os efeitos colaterais foram discretos e bem tolerados. Sensação de frio no membro em que foi feita a infusão de BS foi relatada por 3/5 dos indivíduos do grupo de controle (60%) e por 5/11 dos pacientes (45,5%). Parestesia oral foi relatada por um paciente no quarto minuto e tontura ocorreu em um indivíduo do grupo de controle no décimo minuto. Todos os sintomas cessaram espontaneamente em menos de um minuto.

Discussão

O hiperparatireoidismo secundário grave é uma manifestação clínica relativamente comum em nosso país. Segundo o Censo Brasileiro de Paratireoidectomia, a prevalência do hiperparatireoidismo grave (iPTH > 1,000 pg/mL) entre pacientes em diálise é de 10,7%, uma situação na qual a PTX é praticamente inequívoca.14 Em grau menor, a prevalência entre pacientes de transplante renal com indicação para PTX gira em torno de 3,1% segundo um estudo local.15 O manejo desses casos representa um desafio real.16

As diretrizes do KDIGO de 2009 sugerem PTX para pacientes com DRC cujo tratamento clínico tenha fracassado. A PTX, quando executada por cirurgião especializado, de forma geral resulta em redução sustentada dos níveis séricos de PTH, cálcio e fósforo. A PTX subtotal ou total com autotransplante figuram entre as possibilidades, sem evidência de superioridade entre as técnicas.17 A abordgem escolhida por nosso grupo foi a PTX total com AT intramuscular pré-esternal.

Dos 66 pacientes com hiperparatireoidismo secundário grave operados em nosso centro, recidiva dependente do enxerto foi observada em seis indivíduos (9,0%) e hipoparatireoidismo definitivo em quatro pacientes (6,0%) entre o primeiro e o quinto anos após a cirurgia, demonstrando a viabilidade e a segurança da técnica.18 Magnabosco et al.19 comparou as indicações e resultados de diferentes estratégias cirúrgicas para hiperparatireoidismo secundário grave através de uma revisão sistemática da literatura de janeiro de 2008 a março de 2014. A técnica ideal deve proporcionar baixas taxas de recidiva, baixo risco de hipoparatireoidismo permanente e fácil acesso à glândula durante o tratamento da recidiva. Dos 49 artigos selecionados, 47,0% preferiram a PTX total com AT, seguido de PTX subtotal e uma minoria de estudos que elegeram a PTX total.

Conzo et al.20 avaliaram 40 pacientes dialíticos com hiperparatireoidismo grave candidatos a transplante renal submetidos a PTX total com AT. Para esses pacientes, os autores sugere a escolha da PTX subtotal ou total com AT. Em contraste, a PTX total sem AT deve ser reservada para indivíduos sem perspectiva de transplante renal com tempos de diálise mais longos e hiperparatireoidismo mais agressivo.

A seleção de tecidos para o autotransplante é um desafio. O critério baseado na observação macroscópica é o procedimento de rotina na maioria dos centros. Em nosso estudo, foi utilizada a estereomicroscopia para tentar melhorar a seleção de tecido paratireoidiano para o AT.21 O estereomicroscópio permite a seleção de áreas normotrópicas ricas em células adiposas estromais que mantêm a capacidade de supressão do PTH na presença de altos níveis de cálcio in vitro.22

Durante o teste de estímulo, observamos uma queda significativa nos níveis séricos de cálcio ionizado em ambos os grupos após a infusão de BS. Contudo, apenas os indivíduos sadios do grupo de controle apresentaram elevação acentuada dos níveis de iPTH, enquanto os 11 pacientes não manifestaram resposta. Alguns fatores podem explicar este achado. As alterações glandulares ocorridas antes da cirurgia relacionam-se a anomalias na resposta secretora a variações nos níveis séricos de cálcio, que incluem baixa densidade de receptores da vitamina D nas células adenomatosas, expressão reduzida do receptor sensível ao cálcio extracelular, sensibilidade e sinalização.23-25 Curiosamente, o transplante renal não parece afetar o intervalo da resposta ao iCa ou a sensibilidade da paratireoide perante alterações no iCa um ano após o transplante.26

Em nossos pacientes, o tempo entre a cirurgia e o teste do estudo foi de 8,8 meses (intervalo 6 a 12) e o sítio eleito para o autotransplante foi a musculatura pré-esternal. A natureza heterotópica do transplante e o período escolhido para a execução dos testes pode ter influenciado nossos resultados: as paratireoides são densamente inervadas por fibras nervosas simpáticas, parassimpáticas e sensoriais.27

Schmitt et al.12 investigaram os efeitos da PTX total com AT sobre os padrões de secreção de PTH em nove pacientes com doença renal terminal nas fases precoce (1 a 8 semanas) e tardia (15 a 33 meses) do pós-operatório. Secreção espontânea de PTH foi observada em todos os pacientes e estudos com a técnica de clamp de citrato e cálcio foram executados após a PTX em quatro pacientes. Os autores observaram que o modo pulsátil fisiológico da secreção de PTH ficou profundamente perturbado durante os primeiros dois meses após a cirurgia, mas que sua recuperação parcial ocorreu nos pacientes estudados no mínimo 15 meses após o procedimento.

Esse achado sugere que a reinervação autônoma do enxerto contribui para a eventual coordenação da secreção pulsátil. Por outro lado, a capacidade de modular a liberação de PTH em resposta a alterações no iCa durante os estudos de clamp permaneceu acentuadamente reduzida no período tardio, indicando que a reinervação funcional pode não ser capaz de corrigir a sensibilidade anômala ao cálcio.12

Conti-Freitas et al.13 estudaram a dinâmica da liberação de PTH nos períodos precoce (5,5 meses) e tardio (11,5 months) após PTX total com AT utilizando infusões de EDTA para induzir hipocalcemia. Os autores observaram ausência de secreção de PTH no período precoce e resposta parcial no período tardio, que pode representar uma recuperação parcial da capacidade de secretar PTH rumo a normalidade. O grau de reinervação pode ter afetado nossos resultados.

Esta possibilidade indica que a PTX subtotal pode ser vantajosa por preservar os estímulos locais do sistema nervoso no restante da paratireoide.

Especulamos, ainda, se o número de fragmentos implantados pode ter afetado nossos resultados. Santos et al.28 tentaram selecionar fatores relacionados a hipofunção do enxerto em pacientes com hiperparatireoidismo secundário submetidos a PTX total com AT um ano após a cirurgia. Os autores avaliaram o gênero e o peso dos pacientes, seus níveis de cálcio, fósforo e PTH no pré-operatório, a quantidade de calcitriol ingerido no pós-operatório, o número de fragmentos e a histologia das glândulas implantadas. Os resultados não mostraram relação entre o número de fragmentos e a hipofunção do enxerto paratireoidiano ou com os demais fatores avaliados.

Estratégias para evitar o hipoparatireoidismo incluem o reimplante de tecido paratireoidiano criopreservado.29 Estes pacientes também estão sob risco de desenvolver doença óssea adinâmica.30 No entanto, considerando a baixa resposta do tecido paratireoidiano implantado durante a hipocalcemia induzida observada nesse estudo, outras abordagens terapêuticas devem ser levadas em conta. Paratireoidectomia subtotal com manejo clínico posterior da hipercalcemia, se necessário (talvez com calcimiméticos ou outros medicamentos), pode ser uma opção.

As seguintes limitações se aplicam ao presente estudo: pequeno número de pacientes, ausência de medição de níveis séricos de vitamina D, os indivíduos do grupo de controle eram mais jovens que os pacientes (os resultados foram os mesmos mesmo após correção para idade - dado não exibido) e a taxa de mudança entre os níveis basais de cálcio e o nadir entre os diferentes grupos foi diferente (queda de 12,1% no grupo de controle e de 6,8% entre os pacientes). Essa diferença ocorreu provavelmente porque o pH basal dos pacientes era mais baixo (os pacientes eram mais acidóticos que os participantes do grupo de controle). No entanto, a hipocalcemia induzida foi significativa em ambos os grupos. Além disso, os autores incluíram tanto pacientes em diálise como transplantados no mesmo grupo para a efetuação dos testes. O motivo para tal decisão foi a ausência homogênea de resposta do PTH durante a hipocalcemia induzida em todos os participantes e o pequeno número de pacientes em diálise (três indivíduos).

Conclusão

A avaliação da capacidade secretora do tecido paratireoidiano implantado após PTX total com AT durante hipocalcemia induzida com bicarbonato revelou resposta reduzida sem mudanças nos níveis de iPTH no período de 6-12 meses após a cirurgia. Mais estudos são necessários para definir a técnica cirúrgica ideal e melhor compreender a função da paratireoide heterotópica.

REFERÊNCIAS

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