Retórica na divulgação científica do imaginário de vida e saúde: uma proposta metodológica de análise

Retórica na divulgação científica do imaginário de vida e saúde: uma proposta metodológica de análise

Autores:

Madel Therezinha Luz,
Alcindo Antônio Ferla,
Anderson dos Santos Machado,
Rafael Dall Alba

ARTIGO ORIGINAL

Interface - Comunicação, Saúde, Educação

versão On-line ISSN 1807-5762

Interface (Botucatu) vol.21 no.61 Botucatu abr./jun. 2017 Epub 08-Dez-2016

http://dx.doi.org/10.1590/1807-57622015.0797

RESUMEN

Este artículo analiza el papel simbólico de las Biociencias en el imaginario de vida y salud, presentando resultados de un estudio de observación de portadas de revistas de divulgación científica encontradas en quioscos en tres ciudades de Brasil: Río de Janeiro, Duque de Caxias y Porto Alegre. Se presenta un análisis sintético de la observación de los quioscos y del conjunto de portadas allí expuestas, utilizando cuadros ilustrativos, de acuerdo con un esquema de interpretación de la retórica presente en tales portadas. Constatamos que los sentidos resultantes de la simbiosis imagen/palabra, difundidos por los periódicos, son herramientas persuasivas en el universo de representaciones y prácticas sociales en lo que concierne a un supuesto vivir saludable.

Palabras-clave: Imaginario social; Biociencias; Divulgación de los medios; Retórica de vida y salud

Introdução

Este artigo sintetiza interpretações das atividades do projeto “A ciência como cultura no mundo contemporâneo: divulgação midiática de saberes científicos e construção do imaginário social”, desenvolvidas entre 2012 e 2014(e), na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com pesquisadores da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) e Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), apresentando proposta metodológica de análise de capas selecionadas de revistas, considerando a simbiose imagem/palavra como núcleo originário da retórica de sentidos e significados atribuídos à vida e à saúde como o foco central de nossa análise.

Privilegiamos a análise ilustrativa de sentidos e representações recorrentes na divulgação científica dos veículos presentes nas bancas de jornal. Nosso foco centrou-se na informação de ciência e tecnologia produzida e publicada por cientistas/especialistas no cenário editorial das bancas de revista, objetivando a educação científica a partir do compartilhamento do conhecimento1(f).

Entendemos a relevância de observar a transição do debate científico para o cenário editorial, reconhecendo a função social do relato midiático como uma construção representativa da realidade capaz de produzir efeitos práticos, sejam de mobilização/desmobilização, controle/liberação social2. Objetivamos, com isso, interpretar a retórica presente nessas práticas e os modos como esta produção específica de sentidos pode influenciar o imaginário, assumindo, por vezes, caráter normativo3-5.

Procuramos identificar o poder simbólico das Biociências, gerado por meio da reprodução contínua de conhecimentos sobre a regulação da saúde e adoecimento. Constitui um imaginário impregnado de informações científicas, carregado de significados e sentidos sociais, gerados e difundidos por intermédio de representações, modos de pensar, sentir, agir, avaliar6-9.

Embora portadoras de sentidos, as mensagens resultantes nem sempre são constituídas de palavras, mas, também, por imagens, num processo de simbiose. Entendemos que tratá-las em separado, como fazem tradicionalmente a linguística e a semiótica, seria insuficiente para identificar os sentidos que emergem das mensagens compartilhadas e processadas coletivamente. São reforçadas, nesse processo, representações sociais que difundem esquemas mentais coletivos e individuais, elaborados a partir das relações sociais vigentes10. Condicionam, desta forma, padrões de atitudes, sentimentos, ações e interações. Percebemos que é gerada uma retórica que produz sugestionamentos sutis, mas com força de consolidar modelos de condução da vida, para além do ordenamento tácito do discurso ou da simbologia imagética compartilhada.

Desta forma, neste estudo necessariamente interdisciplinar, cabem interrogações: que papel cumpre a divulgação das Biociências sobre saúde e vida na cultura contemporânea? Estaríamos no limiar de uma cultura de prevenção com estritos parâmetros de normalização da vida? Haveria projetos, como o de uma cultura social da saúde, presentes na Saúde Coletiva?11. Ou seria o de instaurar, como postula Sfez12, uma saúde perfeita, vislumbrando utopicamente a maximização da vida biológica? Ou, ainda, da superação científica dos limites humanos, em busca de um “transumanismo” possibilitado pela máquina?

A divulgação cotidiana de ensaios, temporariamente comprovados, alinhada com representações, concepções e ideologias persistentes nas Biociências, tende, não só, a ratificar, como reforçar verdades em pesquisas/inovações tecnológicas. O compartilhamento das produções geradas das Biociências transpõe o espaço acadêmico. As revistas de divulgação científica comercializadas em bancas são um potente canal de difusão dessas pesquisas.

Observando o ambiente onde se expõem essas revistas, percebemos outras publicações, ditas “populares”, que apresentam, também, reportagens sobre supostas pesquisas de saúde e qualidade de vida: alimentação saudável, exercícios físicos, prevenção de doenças crônicas, etc3. Estas publicações foram objeto de análise, em menor número, a título de comparação com o grau de proximidade do discurso científico.

Do ponto de vista metodológico, interessa-nos mais o tom convincente da combinação imagem/palavra que a veracidade do conteúdo expresso pelo discurso, em termos informativos, comunicativos ou ideológicos. Interessa-nos, sobretudo, compreender como esta simbiose imagem/palavra sobre vida, saúde e doença pode exercer um pathos retórico sobre sujeitos, originado do repertório discursivo das Biociências3.

Desenvolvimento do campo

As cidades e locais de bancas de jornais escolhidos para a observação situam-se em pontos de grande circulação cotidiana de pessoas: bairros residenciais ou centros comerciais3. Os locais representam importantes centros urbanos, que ajudam a descrever as nuances do mercado editorial brasileiro.

Para a pesquisa, foram visitadas 26 bancas em nove bairros das cidades do Rio de Janeiro, Duque de Caxias e Porto Alegre(g), em dois semestres entre 2012 e 20143. Sintetizamos o trabalho de campo em quadros-resumo (Quadro 1), apresentando análises relativas à observação das bancas. Para a interpretação do material coletado3, foram elaboradas ilustrações sintéticas do esquema conceitual e suas categorias (Figuras 1 e 2), aplicadas à análise das capas de revistas.

Quadro 1 Tempo de pesquisa e caracterização socioespacial por localidade 

Fontes: Luz et al.3; Luz, Sabino6; Silva15; Barthes19.

Figura 1 Esquema para análise da observação das bancas 

Fontes: Luz et al.3; Luz, Sabino e Mattos6; Sfez12; Silva15; Aristóteles16; Moles18; Barthes19; Epstein20; Joly21; Foucault24.

Figura 2 Esquema conceitual para análise do trabalho de campo 

Num primeiro momento, a aproximação com o conteúdo retórico dos periódicos foi por leitura flutuante(h) de capas e alguns artigos mais próximos dos temas das capas. Conversas informais com responsáveis serviram de parâmetro inicial para a aproximação do universo sociocultural das bancas. Essas informações permitiram uma melhor compreensão da disposição dos periódicos nas vitrines e no interior das bancas. Destacou-se que capas com o tema de saúde ganham espaços de maior visibilidade, pois são frequentemente demandadas pelos consumidores.

Para descrever a inserção social das bancas e suas diversas funções no território em observação, e a disposição de jornais e revistas nas mesmas, foram realizados registros fotográficos, apontamentos e conversas informais com responsáveis pelas bancas. Foram observados outros itens comercializados e a relação com a comunidade do entorno, que as torna locais de sociabilidade urbana. Nesse período foram coletadas cerca de duzentas fotografias, das quais foram selecionadas 25, centradas em bancas e capas com a temática de vida, saúde e alimentação, buscando-se apreender e descrever a disposição das revistas no espaço(i), sendo irrelevante para a análise a representatividade amostral14 das capas(j). Não se buscou identificar a quantidade de bancas nem a frequência das edições. Procurou-se apreender, visualmente, elementos do espaço social no qual as bancas estão inseridas, bem como os sentidos que foram se destacando como mensagem comum no mosaico de revistas que compõem as vitrines. As fotografias serviram de suporte para a descrição do contexto social do cenário midiático.

Para tanto, a obtenção de dados coletados nas bancas levaram-nos à constatação da exigência de abordagem e tratamento metodológico específicos3. Primeiro, foi ratificado o consenso, na Comunicação Social, de que o público, geralmente, decide-se a comprar as publicações pelo interesse despertado pelo que é sugerido nas capas2: os temas e sua apresentação gráfica mobilizam a escolha do cliente. Não é critério significativo, no estudo, a inclusão de assinantes e de leitores “virtuais” destas revistas. Para nós, não é relevante a demanda, mas a oferta de mensagens e as estratégias de convencimento capazes de capturar o leitor pelo que ele “vê”.

As capas são constituídas por imagens reforçadas pelas palavras. Cria-se um processo de poder simbólico que sugere, ao leitor, o convencimento pelo qual o que está sendo dito/mostrado é digno de crédito em termos de verdade e deve ser seguido pelo mesmo enquanto consumidor2.

A retórica é descompromissada com a produção da verdade, tendo como objetivo a atração e o convencimento, seja na política, no direito ou, mesmo, na arte15,16. Propusemos que a interpretação se embasasse em procedimento metodológico em que a questão do conteúdo da mensagem (sua “verdade” ou ‘inverdade”) não fosse o núcleo da análise17. Isto se evidencia quando se analisam imagens (nem sempre fotos, frequentemente fotomontagens sofisticadas, geradas por computação gráfica). Essa produção imagética reitera a normatividade implícita na retórica das capas, no decorrer das edições. Não nos importa tanto a temática, mas sua força de convencimento, em face dos modos específicos de vida orientados pelas Biociências.

Orientação conceitual e análise do trabalho de campo

A simbiose imagem/palavra, núcleo dessa análise, denota referência a signos culturais importantes3, aliando-se a palavras-chaves que funcionam com sentidos que as reforçam simbolicamente, em comunicação reiterada de mensagens, num contexto de transmissão de sentidos “convincentes”18. Denominamos de retórica da vida e saúde o conjunto de sentidos das mensagens imagéticas relativas à normatização da vida e do viver, ao corpo e sua manutenção biológica, considerando o conjunto imagem/palavra como um todo imagético retórico, isto é, em simbiose simbólica. Entendemos este processo merecedor de um tratamento metodológico específico, pois nem as habituais análises de conteúdo discursivo, nem a semiótica clássica, respondem às questões levantadas pelo projeto3,6.

Em termos teóricos, este processo social de difusão nos situa no universo simbólico, dimensão irredutível da cultura, de acordo com Levi-Strauss17–20. Situa-nos na produção coletiva dos sentidos, significados, representações sociais(k) e discursos2,10,21,, variáveis com as civilizações na história, mas tendo um léxico próprio de difusão, nunca destituído de poder7. Socialmente produzidos e partilhados, são referentes ao conjunto de significantes culturais recorrentemente presentes em culturas complexas, nas quais há pletora de mensagens veiculadas sob forma de informação. Embora portadoras de sentidos, essas mensagens nem sempre são constituídas de palavras19,22. Na cultura contemporânea, a imagem assumiu papel predominante na veiculação de sentidos e de representações sociais, tendo forte impacto no imaginário social.

assim se constitui o imaginário social nas culturas6, que nos conduz à abordagem socioantropológica de significados e discursos sociais, sua origem e os papéis que cumprem em cada cultura. Além disso, remete-nos aos modos como são socialmente difundidos, situando-nos na interface dos campos da Comunicação Social, Sociologia da Comunicação e Saúde Coletiva2.

Desempenha, também, papel significativo na comunicação entre indivíduos, grupos, redes e instituições sociais, multiplicado pelas possibilidades de trabalhar a imagem nas mídias virtuais. Em nosso estudo, a imagem torna-se importante na medida em que, em simbiose com a palavra, gera retórica à vida e saúde2,14,22,23.

Esta união simbiótica entre imagens e palavras-chave, num discurso sedutor sobre o viver11, isto é, numa retórica discursiva da vida, pode ser analisada de acordo com os esquemas propostos, preservadas as conexões entre os elementos conceituais de nossa base teórico-metodológica. O universo simbólico pode ser esquematicamente representado conforme linhas/setas da Figura 1.

Na figura, propomos que elementos simbólicos (símbolos, significantes, signos) atuem em correlação com o enunciado, constituindo interfaces com o texto (verbal/não verbal), e, na conexão com a imagem, atuando em simbiose. A partir da relação verdade e discurso, são geradas bases para atuação da ciência (verdade), da crença e da ideologia (discurso), ainda que verdade e discurso estejam em relação, em menor grau, com essas outras instâncias. A simbiose imagem e palavra, convencimento e sedução, embasa a retórica (busca de convencimento) no imaginário (processo de sedução), atuando em correlação, embora variável em graus.

No nível teórico de análise, reestruturamos os elementos conceituais de base, anteriormente ilustrados, de modo a estabelecer correspondências entre eles, em função do núcleo central do objeto de pesquisa. Reorganizamos, assim, o todo, visando a dar mais organicidade e movimento ao processo de análise, ilustrando o convencimento do leitor acerca dos temas de divulgação científica presentes nas capas selecionadas.

A análise/interpretação da observação considera os elementos conceituais esquematicamente alinhados na Figura 2.

Caracterizamos aqui, como conjunto de dispositivos de produção de verdades4,22, campos de produção discursiva em que a verdade tem papel preponderante em seus saberes e práticas. Destacamos, neste sentido, a ciência, a ideologia e a crença, religiosa ou laica. Embora não representada nos esquemas propostos, constata-se papel crescente da mídia, inicialmente operadora de dispositivos de verdades, a tornar-se, ela mesma, um dispositivo produtor de verdades/ciência, sobretudo, Biociências.

Foucault afirma que os dispositivos de produção de verdades atuam como conjunto cultural decididamente heterogêneo, englobando: discursos, instituições, organizações arquitetônicas, leis, medidas administrativas, enunciados científicos, proposições filosóficas, e morais. Em suma, o dito e o não dito são elementos básicos do dispositivo, que é, de fato, a rede que se pode tecer entre estes elementos24.

Os dispositivos de produção de verdade atuam como processadores estruturais da matéria-prima simbólica, constituída tanto por elementos de linguagem (texto, enunciados e imagem/palavra) quanto semióticos (signos, significantes e símbolos). Para que esses dispositivos de produção de verdades se constituam como tal, é necessário analisar esta matéria-prima simbólica. Ela pode ser descrita como o substrato simbólico que fornece elementos de base interpretativa tanto para produção do imaginário, como para a análise dos materiais coletados em campo.

Sugerimos, na Figura 2, que a matéria-prima simbólica, processada pelos dispositivos, assume diferentes configurações de sentidos, que podem colocá-la na instância discursiva de produção de verdades: episteme, parresia e tecné; ou no plano de produção de doxa: retórica e tecnociência(l).

Os produtos científicos, vistos como isentos, neutros do ponto de vista da verdade, só têm peso epistemológico, gerando convencimento, após o processo de experimentação/demonstração* característico do método científico. Vale sublinhar que ideologia e crença também geram convencimento com magnitude igual ou, mesmo, superior à da ciência na produção de verdades.

Entretanto, a ciência, como saber enraizado em princípios doutrinários implícitos, pode alimentar a via discursiva da retórica e seus processos, influenciada por correntes, doutrinas e ideologias, evanescendo o valor simbólico da demonstração científica, base epistemológica na tradição cartesiana. Aproxima-se, assim, o caráter demonstrativo da ciência da crença e ideologia, levando ao convencimento, por meio de dinâmica retórica.

Descrição analítica das bancas de revista

Para a caracterização socioespacial das bancas, destacamos a frequência e persistência de temas das Biociências nas capas, bem como sua repetição no tempo e em locais das bancas. Entendemos, como parte da caminhada metodológica, que é no processo da pesquisa que o campo indica ferramentas e passos necessários para a análise25. Ir a campo foi necessário para entender a inserção social das bancas e o contexto no qual as mensagens que emergem das capas estava inserido. Bourdieu26 nos fala da geração do conhecimento socioantropológico, das ciências humanas em geral, na contínua construção dos “sujeitos” (temas) de investigação, num processo no qual os instrumentos conceituais e metodológicos se aperfeiçoam no desenvolvimento da investigação, conceitual ou empírica. A atividade da pesquisa, vista como prática social em construção, é a matriz geradora dos instrumentos conceituais e metodológicos úteis às ciências sociais, utilizados no processo da pesquisa como caixa de ferramentas (boite à outils).

Para tanto, desenvolvemos uma observação “silenciosa” dos locais selecionados, observando, de certa distância, o movimento das vendas. O objetivo foi comparar as bancas dos diferentes locais, no sentido de aferir as publicações mais vendidas para caracterizar socialmente seus consumidores. Conversas informais com responsáveis de bancas ajudaram a identificar: possíveis alinhamentos específicos no espaço, quais os títulos mais vendidos, e em que períodos de tempo (semanal, mensal, etc.).

As bancas costumam ofertar, além de venda de periódicos, serviços na área em que se situam, sendo um ponto de referência e sociabilidade. O responsável pela banca, geralmente, é visto como conhecedor da região, um informante de lugares sociais urbanos (ruas, pontos turísticos e comerciais, instituições de saúde, restaurantes, etc.).

Assinalamos, assim, “funções sociais(m) que costumam desempenhar as bancas no contexto socioespacial. Estas funções variam consideravelmente, respondendo por demandas da população no entorno. Há uma demanda social constante de variados produtos para além de revistas e jornais, sendo possível enumerar os itens de produtos à venda(n).

Com base na diversidade de produtos disponíveis, fizemos uma aproximação sociocultural com as “drugstores” americanas da primeira metade do século XX, tanto do ponto de vista do consumo como da sociabilidade característica desses locais, onde a circulação do consumidor permite o acesso ao artigo desejado, sendo que as bancas situam-se no ambiente aberto, enquanto as drugstores em grandes espaços fechados, como armazéns(o). As bancas podem ser vistas, ousamos dizer, como “drugstores compactas”.

Capas de periódicos captadas no trabalho de campo

Foram observadas cento e cinquenta capas de revistas, sendo os títulos ordenados de acordo com a proximidade decrescente do discurso científico. Esta classificação serviu para identificarmos, empiricamente, a relação com as fontes de produção científico-acadêmica, diferenciando-as daquelas destinadas ao consumo midiático-comercial popular, com ou sem referências às pesquisas. A descrição contemplou uma amostra representativa das revistas disponíveis no mercado; não a totalidade das revistas disponíveis no mercado, mas algumas identificadas com nossos interesses temáticos durante as saídas de campo.

Classificação das revistas por grau de proximidade com o discurso científico

Biociências: revistas voltadas para as ciências, com ênfase na saúde. Com linguagem mais informal, são, entre os gêneros inseridos no espaço midiático, mais próximas da produção acadêmica dos pesquisadores, mantendo-os como autores dos textos, como fonte, e acessando, diretamente, a produção universitária. Incluímos neste segmento: Revista Scientific American (não restrita às biociências); Revista Mente e Cérebro; Coletânea “Doenças do Cérebro” (Mente e Cérebro); Revista Ciência Hoje (SBPC); Revista Rio Pesquisa (FAPERJ); Revista Superinteressante; Revista Galileu;

Ciências Humanas: revistas ligadas à psicanálise, sociologia, filosofia e educação. Incluímos as Revistas: Psiquê; Educação; Cult; Sociologia; “Chega de Estresse!”; Psicologia e Vida.

Jornalísticas-Gerais: semanários com conteúdo de divulgação jornalística, abordando alguma patologia específica, como diabetes, hipertensão, obesidade, ou trazendo alguma “novidade” científica como fonte abalizadora. Destacamos: Veja; Isto É; Época; Carta Capital.

Revistas “Populares”: periódicos semanais/mensais com linguagem marcadamente comercial, ampla exploração de entretenimento, curiosidades e polêmicas; sobre o que pode ter mais apelo ao seu público. Nelas costumam aparecer certos eventos espetaculares ligados à Biomedicina e seus ramos, entre eles:

  1. Patologias: um número considerável se destaca com afirmações: “Tudo sobre…” uma determinada doença. Exemplos foram publicações intituladas: “Doenças Respiratórias”; “Diabetes”; Revista “Sua Saúde”.

  2. Nutrição: geralmente, destacam alimentos saudáveis e dietas miraculosas. Entre elas: “Dieta Já”; “Saúde é Vital”; “O Poder dos Grãos e Cereais”; “Pense Leve, Revista “Corpo a Corpo”.

  3. Fitness: revistas concernindo às atividades físicas. Incluímos: Women’s Health; Men’s Health; Runner.

  4. Fitoterápicos: revistas sobre chás e ervas em edições especiais. Examinamos revistas como: “Poder do Limão”; “Importância da Linhaça”; “Alimentos que curam”.

  5. Revistas de novelas e celebridades: edições que abordam as celebridades de televisão também as trazem em suas capas, como destaque para temas da saúde. Exemplo: Revista Viva Saúde.

Proposta de análise das capas de revista

Percebemos o reforço sugestivo de valores veiculados por estudos das Biociências, calcados na imagem, referendados pela palavra/imagem “chave”. Dentre as cento e cinquenta capas observadas, cinquenta delas foram selecionadas para aplicação do instrumento de coleta de dados, visando a identificação das palavras/imagens chave mais recorrentes, bem como descrição dos elementos simbólicos. Cinco destas sofreram análises em profundidade para exemplificar como a simbiose imagem/palavra gera o processo de sugestão que denominamos retórica de saúde e vida.

Como ilustração da proposta de análise metodológica, descrevemos a capa de uma delas com o título (Figura 3): “Hiperatividade: Considerada como um distúrbio em si, ela é, na verdade, um sintoma. Conheça os transtornos em que ela está presente (e outros sintomas tratados como doença)(p).

Figura 3 Revista Psiquê - Hiperatividade 

A mensagem retórica nos sugere a hiperatividade como uma multiprodução de um cérebro em ação, indicando algo errado com ele. Mesmo que o texto aborde a hiperatividade para além da patologia (como resultado da ação do corpo), a imagem do cérebro, em destaque na cor azul, eleva esse órgão como centro destacado para a hiperatividade.

Não diríamos que existe uma contradição nesta capa, mas a produção de um sentido normativo que ganha um tom retórico a partir da simbiose imagem/palavra. Esta simbiose consolida, no imaginário, o cérebro como centro para a saúde e a vida.

Destacamos, aqui, mais três capas para comparação, como a que mostra o controle da alimentação pelos critérios da Nutrição associados ao que se entende por saúde: somos as calorias que comemos(q) (Figura 4). No outro exemplo (Figura 5), o cérebro é apresentado como uma máquina que gerencia o funcionamento mental (software)(r). Por último, a prescrição do que deve ser consumido para evitar o câncer(s) (Figura 6), numa clara negação dos aspectos naturais de alimentação e do corpo biológico.

Figura 4 Revista Scientific American – calorias 

Figura 5 Revista Psiquê – Software Mental 

Figura 6 Revista Viva Saúde 

Nesses casos, comprovamos a força retórica da simbiose imagem/palavra. Analisando apenas o texto das manchetes, apreenderemos a intenção de quem concebeu a capa. É na junção imagem/palavra que vem, à tona, a mensagem sugestiva de que tanto a alimentação como a psicanálise devem ser submetidas a critérios específicos, que situam um “biológico” (nutricional e neurológico) específico como base da concepção do que é saúde. Não é apenas o natural, mas o humano e seus saberes, que são sutilmente descartados nas sugestões ilustradas nas capas das revistas.

Observamos luzir um processo de sutil sugestão, a condução de nossa vida em termos de saúde sob a perspectiva das Biociências. Nos exemplos examinados, a força da retórica de saúde e vida reforçam um imaginário higienista na condução do viver. Como dispositivo dominante de produção de verdades, as Biociências reforçam esse viés, descartando possibilidades de conhecer e equacionar temáticas apresentadas ou propostas por outros saberes/campos disciplinares.

Resultados da análise do trabalho de campo

As ações analíticas do campo observado permitiram-nos descrever, com mais pertinência, a complexidade do objeto em estudo, e levaram-nos a ampliar o foco na metodologia de análise nas fotos das capas, de modo a permitir uma interpretação mais elaborada dos efeitos, no imaginário, dos sentidos enfatizados na retórica de saúde e doença, presentes em mensagens dos periódicos analisados, considerada sua diversidade de linguagem midiática.

Nesta fase analítica, obtivemos algumas indicações derivadas da observação que permitiram apontar algumas conclusões:

a) Diversidade da composição das bancas em função da localização socioespacial

Pudemos observar que a disponibilidade e distribuição de revistas de divulgação científica no espaço físico das bancas de jornais varia, consideravelmente, de acordo com a região sociocultural em que estão situadas: subúrbios, bairros residenciais de classe média, periferia urbana, e, mesmo, entre cidades.

Bairros de periferia expõem e vendem em suas bancas, sobretudo: jornais populares, periódicos de fitness, revistas de telenovelas e boletins de concursos. Bancas de classe média, na zona sul do Rio de Janeiro e nos bairros residenciais e comerciais de Porto Alegre, vendem uma grande variedade de periódicos – inclusive, os que pertencem a nosso universo de pesquisa. A configuração e distribuição dos itens observados no interior das bancas também muda de acordo com a localização socioespacial, variando conforme a demanda de publicações e artigos comercializados naquelas bancas (jornais, revistas, pequeno comércio).

b) Imagens e palavras imperativas emergentes das capas

Na análise das capas dos periódicos, foram identificadas palavras-chave, geralmente, expressas em tom de comando, imperativas, buscando orientar práticas de vida e de saúde, no sentido de preservá-las ou de impedir sua deterioração. Como exemplo, há um apelo recorrente a expressões como “vida saudável”, associada à boa alimentação e atividades físicas. Além disso, constatou-se, nas capas, a recorrência de verbos dominantes na cultura, como: “poder”, “lutar”, “combater”, “vencer”. O tom imperativo tende a legitimar atitudes e comportamentos propostos com relação a alterações de saúde e à presença de enfermidades agudas ou crônicas de corpo e mente, tais como: obesidade, hipertensão, depressão, enfartes, diabetes, câncer, alzheimer, etc.

Torna-se nítido o apoio a temas e soluções a partir de estudos de especialistas, reafirmado na contínua referência a resultados de pesquisas científicas avançadas, cuja variação de temas e resultados assume, por vezes, o caráter de “modas”, pela reiterada recorrência de determinados assuntos em evidência.

Esta postura é reafirmada pelo apelo à autoridade de termos como ciência ou pesquisas e estudos científicos, presentes na grande maioria das capas examinadas, reforçando a percepção já mencionada de que a tecnociência se apresenta como dispositivo produtor relevante de doxa na sociedade contemporânea. Vale assinalar que, quanto mais afastada da difusão científica (revistas jornalísticas, populares, de publicidade ou propaganda), maior é a recorrência à autoridade da ciência e do científico. As revistas de divulgação científica, por já se caracterizarem como meios de veiculação de textos de pesquisadores/especialistas, desenvolvem os assuntos sem fazer apelo à validação científica da informação.

Quanto às imagens, pudemos identificar a recorrência de construções simbólicas com elementos imagéticos específicos, como: fotomontagens e ilustrações gráficas de órgãos, sobretudo, o coração e o cérebro, geralmente relacionados às doenças crônicas. Estes órgãos aparecem nas capas “transfigurados” pela tecnologia da imagem, com aparência maquínica ou claramente mecânica21,27.

Em diversos casos, a figura dos órgãos é trabalhada graficamente de acordo com a mensagem sobre o tema, como um cérebro “turbinado”, com alusão a raios e força elétrica, claramente associada à ideia de reforçar a maximização de sua potência27. Não raramente, essas associações e montagens aparecem ligadas a exames diagnósticos de tecnologia de ponta, nas quais a imagem tem papel demonstrativo importante para a diagnose médica.

A força de convencimento dessas imagens tecnocientíficas na construção de uma doxa que valoriza o mecanicismo no imaginário dos leitores é considerável, pois elas “demonstram”, graficamente, valores da saúde e da doença. Como exemplo, as fotomontagens de órgãos “em movimento”, com virtualidade “quadridimensional”, que apontam para uma realidade material mais avançada que os exames analógicos, como: radiografias, eletrocardiogramas e encefalogramas.

Tal demonstração virtual tem uma aparência estética inegavelmente sedutora, apreciada por profissionais e leigos, assumindo, a imagem, um poder simbólico em relação ao corpo biológico, despindo-o de seus aspectos corpóreos, tais como: sangue, tecidos, sistemas, fluídos e volume. Em última instância, por meio da preponderância do discurso imagético, está se lidando com órgãos transcorporais, superando-se, simbolicamente, a natureza biológica do corpo humano, como o representamos desde fins do século XVI, na nascente modernidade científica21.

Constatamos que se evidencia, claramente, a força da categoria de análise retórica da vida e da saúde, central em nosso estudo, relevante para a interpretação da produção discursiva atual das Biociências, tal como vem sendo veiculada para a validação de certas afirmações no espaço midiático.

c) Papel da divulgação científica da mídia impressa na pedagogia atual

Um papel não apenas informativo, mas, também, pedagógico ressalta da análise. De fato, alguns periódicos de divulgação científica preenchem no momento, independentemente da disciplina em que se situem – seja nas biociências, nas ciências físicas ou humanas –, uma lacuna de informação, e, mesmo, de formação regular, apresentando temas e incentivando debates nas mais diversas disciplinas, tanto no Ensino Médio quanto no Superior, retomando teorias e conceitos de autores clássicos e contemporâneos, contextualizando-os em novas temáticas e em questões científicas atuais.

Conclusões

A interpretação das capas de revistas analisadas ressalta, preliminarmente, que as fotos/imagens que ilustram a simbiose imagem/palavra3, difundem um processo de persuasão/convencimento que reforça a hegemonia das Biociências na cultura atual de saúde, doença e vida. As mensagens veiculam sentidos específicos sobre o corpo e a saúde, sobre atividades físicas, alimentação, prevenção e controle de doenças, propondo, ainda, práticas de medicalização da vida, contribuindo para a reprodução de modos específicos de conduzir a saúde e vida da população.

A busca social por uma cultura da saúde, similar à utopia da saúde perfeita de Sfez12, se manifesta em práticas saudáveis, incluindo um higienismo preventivo presente nos discursos das Biociências, combinado a um projeto de promoção da saúde apoiado em práticas biocientificamente embasadas.

Estas práticas incluem proposições sobre o corpo, as emoções e a subjetividade de indivíduos e grupos. Incluem desde a alimentação, o movimento (ou atividade) corporal, até uma certa higiene mental, buscando harmonizar a vida das pessoas e das relações sociais. Constituem, de certo modo, um projeto global de saúde difuso, não elaborado política ou conceitualmente, porém tendente à utopia, embora em paradigma diferente do apontado por Sfez12.

O pleno desenvolvimento de uma abordagem interpretativa interdisciplinar da retórica dos conteúdos veiculados pelas revistas de divulgação científica foge das análises clássicas de discurso e da semiótica estrutural, situando a retórica imagem/ palavra como categoria estratégica de análise da função simbólica das revistas de biociências na construção do imaginário da vida e do viver.

Esperamos que interpretações resultantes desta proposta metodológica contribuam para o desenvolvimento de novas frentes de teorização de conteúdos simbólicos que identifiquem relações entre retórica da vida e imaginário social, e esclareçam, mais adiante, como atuam na cultura contemporânea certas representações das Biociências de vida e saúde.

REFERÊNCIAS

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