Risco de adoecimento relacionado ao trabalho e estratégias defensivas de mulheres catadoras de materiais recicláveis

Risco de adoecimento relacionado ao trabalho e estratégias defensivas de mulheres catadoras de materiais recicláveis

Autores:

Alexa Pupiara Flores Coelho,
Carmem Lúcia Colomé Beck,
Marcelo Nunes da Silva Fernandes,
Francine Cassol Prestes,
Rosângela Marion da Silva

ARTIGO ORIGINAL

Escola Anna Nery

versão impressa ISSN 1414-8145versão On-line ISSN 2177-9465

Esc. Anna Nery vol.20 no.3 Rio de Janeiro 2016 Epub 14-Jun-2016

http://dx.doi.org/10.5935/1414-8145.20160075

RESUMEN

Objetivo:

Comprender el riesgo de enfermedad relacionado al trabajo y las estrategias defensivas en mujeres recolectoras de materiales reciclables.

Métodos:

Estudio cualitativo, exploratorio y descriptivo, realizado con siete trabajadoras de una cooperativa de Rio Grande do Sul. Los datos fueron obtenidos por medio de observación sistemática participante, entrevistas semiestructuras y grupo focal, entre julio y agosto de 2013, y sometidos al Análisis Temático de Contenido.

Resultados:

El desgaste debido al trabajo puede favorecer la enfermedad de las recolectoras, puesto que compromete la salud física, la integridad psíquica y las relacionales sociales. Las mujeres utilizan estrategias defensivas individuales y colectivas que objetivan suavizar el sufrimiento relacionado a la actividad laboral.

Conclusión:

El enfermero necesita considerar los contextos laborales de los trabajadores a quien asisten, a fin de actuar en la promoción de salud y prevención de enfermedades relacionadas al trabajo.

Palabras claves: Salud Laboral; Segregadores de Residuos Sólidos; Condiciones de Trabajo; Investigación Cualitativa; Enfermería

INTRODUÇÃO

No Brasil, os efeitos da globalização ocorreram antes que o país atingisse um estágio de maturidade dos direitos sociais e das políticas de proteção ao trabalhador. Dessa forma, fatores como a precarização das relações trabalhistas, a intensificação do ritmo, a sobrecarga e a exigência de polivalência do trabalhador têm agravado a incidência de adoecimento no trabalho, sobretudo, os distúrbios osteomusculares, as lesões por esforços repetitivos e os distúrbios psíquicos1.

Nesse contexto em que o trabalhador se encontra exposto a fatores de adoecimento, despontam as estratégias defensivas, definidas como mecanismos utilizados inconscientemente, individual e coletivamente diante do sofrimento oriundo do trabalho2. As estratégias defensivas são usadas como instrumentos de modificação, transformação e, em geral, eufemização do modo como o trabalhador percebe e vivencia o sofrimento. Portanto, esses mecanismos, muitas vezes, representam "rotas de fuga" do mesmo3.

Tendo como ponto de partida esses conceitos, desenvolveu-se essa investigação com mulheres catadoras de materiais recicláveis cooperativadas, que representam um grupo vulnerável ao adoecimento laboral. Esse aspecto é confirmado por um estudo, o qual relacionou condições de saúde críticas a esse grupo, caracterizadas por alta incidência de doenças não transmissíveis e precária utilização dos serviços de saúde4.

Estima-se que, globalmente, 15 milhões de pessoas atuem em atividades de reciclagem5. No Brasil, quase um milhão de trabalhadores realizam o serviço de coleta, separação ou comercialização de material reciclável. Trata-se de uma atividade laboral, predominantemente, informal e sujeita a riscos à saúde, acidentes e exploração. Alguns desses trabalhadores encontram-se organizados em cooperativas, associações ou empresas sociais, as quais podem se constituir em espaços importantes para a inclusão social e desenvolvimento na medida em que normalmente representam melhores condições de trabalho e de vida6.

Porém, apesar do Brasil ter recebido reconhecimento internacional por seus níveis de reciclagem e iniciativas em termos de inclusão dos catadores7, ratifica-se a necessidade de melhorar as condições de saúde desses trabalhadores, uma vez que as condições de trabalho ainda são precárias e inseguras nas cooperativas de reciclagem. Para tal, considera-se essencial estudar o ambiente de trabalho, bem como os problemas de saúde identificados pelos catadores como relacionados a essa atividade laboral8.

Nesse sentido, reafirma-se o compromisso da enfermagem, enquanto prática humana e social, com o desenvolvimento de pesquisas e ações que visem à diminuição de desigualdades sociais e de saúde e a promoção dos direitos humanos. Assim, a realização de estudos com abordagens diversificadas pode avançar em relação ao conhecimento já produzido e subsidiar suas ações no cotidiano dos serviços de saúde e nos espaços sociais9.

Diante do exposto, este estudo teve por objetivo compreender o risco de adoecimento relacionado ao trabalho e as estratégias defensivas em mulheres catadoras de materiais recicláveis.

MÉTODOS

Estudo qualitativo, do tipo exploratório-descritivo, realizado em uma cooperativa de materiais recicláveis que é referência em coleta seletiva em uma cidade do estado do Rio Grande do Sul, Brasil. No período em que a pesquisa foi desenvolvida, a cooperativa contava com a participação de nove mulheres e seis homens e realizava a cobertura do município por meio de uma parceria com a prefeitura. Para isso, possuía dois caminhões de coleta seletiva, além de um estabelecimento próprio para a triagem, prensa e estocagem do material.

O estudo teve como critérios de inclusão: ser mulher catadora de materiais recicláveis vinculada à cooperativa e atuar há, pelo menos, seis meses na atividade em questão. Foram excluídas as trabalhadoras que estavam afastadas do trabalho no período de produção dos dados, participando do estudo, portanto, sete mulheres. A produção de dados foi realizada por meio da triangulação de três instrumentos: observação sistemática participante, entrevista semiestruturada e grupo focal (GF).

Durante a observação sistemática participante, foi observada a dinâmica e a organização do trabalho no galpão de triagem durante, aproximadamente, 25 horas de inserção no campo. Essa etapa contou com a utilização de um roteiro de observação focado nos elementos de sofrimento e adoecimento laboral e um diário de campo, e foi realizada durante o mês de julho de 2013.

As entrevistas semiestruturadas foram realizadas durante o mês de julho de 2013, e tiveram duração média de 25 minutos. As catadoras foram identificadas, nos instrumentos, pela letra "T" ("trabalhadora") seguida pelo número sequencial ao seu preenchimento (portanto, T1, T2, T3, e assim por diante). Além de questões de caracterização das participantes, o roteiro de entrevista continha as questões que estimulavam as trabalhadoras a discorrerem acerca de suas vivências e sentimentos em relação à atividade laboral que desempenhavam.

Quanto aos GF foram realizadas três sessões, com duração média de 40 minutos cada, na cozinha do galpão de triagem com cinco mulheres na primeira e segunda sessão e seis na terceira, em agosto de 2013. A não participação de todas as trabalhadoras nas sessões de GF deveu-se ao trabalho externo nos caminhões e às atividades administrativas. As catadoras foram identificadas por pseudônimos escolhidos por cada uma delas. Os GF foram conduzidos por uma moderadora e contaram com o auxílio de três assistentes de pesquisa.

Na primeira sessão, a pesquisadora realizou as pactuações éticas e operacionais das sessões. Além disso, iniciou-se a discussão acerca de como as catadoras percebiam seu trabalho. Na segunda sessão, discutiu-se a concepção das catadoras acerca dos impactos do trabalho em sua saúde. Na terceira sessão, realizou-se a leitura da síntese das sessões anteriores e a moderadora pediu que as participantes falassem sobre as estratégias que utilizavam para a realização do trabalho.

Tanto as entrevistas semiestruturadas quanto as sessões de GF foram audiogravadas, com consentimento das participantes e transcritas em um editor de textos na íntegra. Os dados foram analisados por meio da técnica de análise temática de conteúdo, desenvolvida em três fases: pré-análise, exploração do material e tratamento dos dados e interpretação10.

A pesquisa atendeu as recomendações éticas vigentes, no Brasil, para a realização de estudos com seres humanos. Todas as participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, sendo que o mesmo foi lido em voz alta pela pesquisadora, visando a fácil compreensão das participantes do estudo. O estudo foi submetido à apreciação pelo Comitê de Ética em Pesquisa local e obteve parecer favorável para a sua realização sob Certificado de Apresentação para Apreciação Ética número 16195113.9.0000.5346.

RESULTADOS

As catadoras estavam, em sua maioria, na faixa etária dos 40 anos. Em geral, eram casadas e mães. Possuíam escolaridade heterogênea, havendo relatos de ensino fundamental incompleto a ensino superior incompleto. O tempo de ingresso na ocupação oscilou de três a 19 anos.

No que tange à organização do trabalho identificou-se, durante a observação sistemática participante, que as mulheres atuavam predominantemente no galpão, realizando a seleção do material. Os homens atuavam, em sua totalidade, nos caminhões, realizando a coleta seletiva em todo o município. Porém, devido ao reduzido número de homens no serviço, as mulheres, frequentemente, realizavam também a coleta.

A seguir, serão apresentadas as categorias temáticas que emergiram deste estudo, que são: "As dimensões do risco de adoecimento: o físico, o psíquico e o social" e "Como enfrentar? Estratégias defensivas e o enfrentamento do trabalho".

As dimensões do risco de adoecimento: o físico, o psíquico e o social

O trabalho na cooperativa mostrou o envolvimento das catadoras com um conjunto de elementos que as expunha ao adoecimento. Esses elementos, primeiramente, foram identificados na observação e incluíram a não utilização adequada dos Equipamentos de Proteção Individual (EPI), desconfortos ambientais (o frio e a umidade do galpão de triagem, principalmente) e riscos cotidianos de acidentes de trabalho. Alguns desses elementos foram mencionados pelas trabalhadoras:

A gente se molha [...], vai lá fora pegar alguma coisa e passa o dia inteiro molhada, a roupa seca no corpo (Julinha).

[...] no caminhão mesmo, com garoa, a gente fica o dia inteiro com a roupa molhada, vem meio-dia [...], troca, aí de tarde está voltando a garoa, a gente toma outro banho, a gente tá naquele frio [...] (Manoela).

Em relação ao adoecimento físico, as participantes referiram diferentes desconfortos e enfermidades que se relacionavam aos efeitos cotidianos das atividades na cooperativa. As morbidades que as trabalhadoras relacionaram ao trabalho foram: labirintite; reumatismo; dores osteomusculares e articulares; artrose, artrite; hérnias de disco vertebral; lombalgias; tonturas e desmaios.

Percebeu-se, além disso, o risco de adoecimento psíquico e social relacionado ao desgaste do relacionamento interpessoal com os pares. Os problemas de relacionamento na cooperativa representavam um importante elemento de sofrimento. Os desentendimentos cotidianos e a falta de afinidades entre alguns trabalhadores desencadeavam sentimentos negativos e a fragilização das relações de coleguismo.

O relato ilustra isso:

[...] A gente falta um dia por causa de um problema de dor de dente e ela [colega] "cai em cima". Às vezes, eu saio para fazer coisas do galpão. Aí os outros que faltam, ela não "cai em cima" (Patrícia).

Os relatos das participantes mostraram ainda que os problemas do trabalho as absorviam de tal maneira que havia dificuldades em desvencilharem-se deles ao chegarem em casa. A sobrecarga resultante dessa rotina acabava, algumas vezes, por interferir na vida social da trabalhadora. As catadoras sentiam que o trabalho ocupava tanto espaço em suas vidas que as relações familiares eram, muitas vezes, prejudicadas, conforme evidenciam as falas:

[...] às vezes, a gente sonha com aquilo. Todo mundo sonha, sonha até com o caminhão. Eu chego em casa e digo: "hoje eu vou perguntar para o meu filho o que [aconteceu] de bom na vida dele, o que ele fez, o que que não fez". Mas a gente passa, apaga aquilo ali. Dali a pouco já é hora de dormir. Às vezes, no final de semana até preguiça de conversar a gente tem, de tão cansadas (Manoela).

[...] a gente "estoura". A gente explode. A gente "estoura" em todas as colegas. Às vezes, a gente se "estoura" com o marido por causa de um problema que não consegue resolver [...] (Patrícia).

O trabalho feito na seleção de materiais recicláveis era desgastante e podia levar quem o executava a um estado de exaustão. Esse foi um dado referido por todas as mulheres em todas as fases da produção dos dados. As dinâmica e organização do trabalho eram "o gatilho" de muitas situações que desencadeavam o sofrimento e podiam levar ao adoecimento. Por isso, trabalhar na cooperativa era algo que as trabalhadoras julgavam difícil e possível apenas para quem "tinha estrutura", conforme demonstra a fala a seguir:

[...] se não precisa, a pessoa não vai estar aqui, não vai se submeter. Não é qualquer pessoa que tem estrutura para esse tipo de trabalho. Não é a mesma coisa que trabalhar numa loja, num mercado [...] (Mônica).

As catadoras enfrentavam o desgaste físico e psíquico no exercício do seu trabalho. Um exemplo constante em seus relatos foi o manuseio dos fardos (materiais recicláveis prensados em quadrados), uma atividade cotidiana que demandava elevado esforço físico por parte das trabalhadoras.

São 109, 180, 200 quilos... Tem que locomover aquele fardo, todo mundo junto (Manuela).

[...] eu só não gosto muito é de empurrar fardo, porque são pesados [...] (T4).

O carregamento, pesagem e estocagem dos fardos era a atividade que mais causava desconforto às trabalhadoras. Ao longo da observação sistemática participante, constatou-se que após o manuseio dos fardos as trabalhadoras ficavam gementes, queixosas, faziam movimentos com os ombros e os membros superiores, sugestivos de presença de dor musculoesquelética. Além disso, após essas atividades, percebia-se que elas desempenhavam as demais tarefas com mais dificuldades do que anteriormente. As catadoras referiram, ainda, a exaustão física relacionada ao ritmo de trabalho e como a mesma acometia o vigor do corpo ao longo do tempo.

[...] a gente fica muito em pé, o dia inteiro. A gente senta só uns minutinhos na hora do almoço e depois na hora do café. Caminhando para um lado, caminhando para o outro, e carrega uma coisa pesada, e ergue outra coisa, é bem complicado [...] Não tem aquele tempo de parar um pouquinho (Julinha).

[...] a gente não tem mais força, o pique que tinha antigamente [...] Eu não tenho mais [...] (Patrícia).

A exaustão do trabalho não se restringiu apenas às atividades desenvolvidas no galpão de triagem, abarcando, também, o trabalho nos caminhões e, ainda, a demanda de problemas a serem resolvidos na cooperativa:

[...] a gente sobe e desce do caminhão, vai num prédio, tem que subir e descer escada [...], a gente cansa subindo aquelas escadas, doem as pernas [...]. É bem cansativo (Julinha).

[...] o que a gente recebe não cobre nem um terço disso que a gente passa, pela preocupação, pelo estresse, por acordar às três da manhã e ficar [pensando] "hoje eu não posso esquecer, tem que revisar o caminhão, hoje eu não posso esquecer, tem que ver o problema no maquinário" [...] (T6).

Os dados dessa categoria evidenciam que existiam elementos da ordem das condições e da organização do trabalho, que se articulavam e determinavam a exposição das catadoras de materiais recicláveis ao risco de adoecimento relacionado à atividade laboral que executavam.

Como enfrentar? Estratégias defensivas e o enfrentamento do trabalho

Percebe-se que as catadoras elaboraram estratégias individuais e, sobretudo, coletivas, no sentido de enfrentar o sofrimento e a possibilidade de adoecimento. Uma dessas estratégias diz respeito à ideia da separação entre os problemas pessoais e os problemas do trabalho. Para algumas trabalhadoras, realizar essa cisão era essencial para o desempenho das atividades laborais. Para outras, porém, esse processo era difícil e, muitas vezes, inviável.

Mas se a pessoa quer, a pessoa separa. Eu estou passando por umas coisas que aconteceram agora nesse final de semana, mas eu estou aqui trabalhando normal e quem é que diz que eu estou com problema? [...] (Julinha).

[...] Não é que a gente não queira, é que, às vezes, a gente não consegue separar [...] É tanta coisa, tanta pressão, pressão aqui, pressão em casa, que a gente não consegue separar [...] (Mônica).

A negação esteve presente em outros momentos nas falas das trabalhadoras. Em relação ao adoecimento vivenciado diariamente, as catadoras, muitas vezes, demonstraram negá-lo e camuflá-lo por trás da simbologia da mulher forte e resistente, ou banalizá-lo, como ilustram os relatos, respectivamente:

[...] a mulher, para ficar muito mal, tem que ficar muito mal mesmo [...]. As mulheres que trabalham fora, que têm marido, que têm a casa, que têm os filhos [...]. A gente é aquilo ali, não é aquela mulherzinha [que adoecia], não existe mais [...] (Manoela).

[...] a gente já tá até acostumada [...]. A gente nem dá mais bola, a gente vai e faz (Patrícia).

Ainda em relação à maneira como as trabalhadoras reagem às diferentes dimensões do adoecimento, observou-se que as mesmas construíram uma rede de colaboração e apoio na cooperativa. As catadoras reconheceram a importância de umas ajudarem as outras e buscavam tecer, entre si, relações de companheirismo para o enfrentamento e superação dos problemas e do sofrimento.

Os relatos, a seguir, ilustram isso:

[...] pela convivência, a gente já sabe quando a pessoa chega [com problema]. Mesmo que a "Julinha" não comente, a gente sabe, [...] o semblante dela é diferente de quando ela está bem [...] (Mônica).

[...] porque nós somos uma família e a gente passa mais tempo aqui que em casa [...] (Patrícia).

Eu tenho mais confiança aqui do que chegar em casa e conversar com o meu marido. Com vocês, se eu chegar com um problema, eu chego e falo (Paula).

DISCUSSÃO

Os resultados deste estudo apontam para o risco de adoecimento relacionado à atividade laboral na cooperativa de reciclagem e mostram que a saúde das catadoras, encontra-se, intimamente, relacionada às condições precarizadas de trabalho, determinadas, muitas vezes, pela exposição a situações insalubres, as quais promovem desgaste físico e emocional do trabalhador8,11.

A exposição das catadoras a elementos como o peso dos fardos, o rigor do tempo, os riscos de acidentes e adoecimento, estão relacionados ao desgaste do corpo, da mente, da subjetividade e da força de trabalho. Assim, a atividade laboral, ao longo tempo, contribui para fragilizar o trabalhador, tanto no que diz respeito a sua vida profissional quanto pessoal.

Pode-se destacar que há indícios de que os problemas no trabalho cause impacto na vida pessoal e vice-versa. A respeito disso, pesquisa constatou a existência de influências recíprocas entre a vida familiar e a laboral, tanto de homens quanto de mulheres. Apontou, ainda, que o cansaço físico e mental relacionado ao trabalho causa desânimo e irritabilidade ao longo da realização das tarefas familiares, o que também é vivenciado pelas catadoras12.

Além dos âmbitos físico e psíquico, o risco de adoecimento social também esteve evidente, e um de seus indícios foi o desgaste do relacionamento interpessoal no trabalho. A deterioração dos relacionamentos entre os pares, decorrente da precarização do mundo do trabalho, coloca os indivíduos em posição de competitividade, concorrência e individualismo. Isto é resultado da natureza do sistema econômico, que pressiona o trabalhador a lutar, solitariamente, pela sua sobrevivência3. Percebe-se, portanto, que a questão da precarização do trabalho não atinge apenas a subjetividade das catadoras, mas causa impactos no modo como se estruturam as relações entre elas, abrindo caminhos para o surgimento do adoecimento social.

Portanto, percebe-se que o risco de adoecimento relacionado ao trabalho da mulher catadora é resultado da interação de um conjunto de elementos estruturais, laborais, culturais e subjetivos. Os adoecimentos físico, psíquico e social estão inter-relacionados e articulados, pois os elementos precursores do adoecimento no universo do trabalho exercem impactos no sujeito como um todo, em sua dimensão biopsicossocial3.

Em relação aos desconfortos e danos vinculados ao excesso de peso dos fardos, os mesmos já foram apontados em outras pesquisas com catadores de materiais recicláveis5,8,13. Pesquisa realizada com catadores que trabalham com carrinhos indicou a presença de dores pelo corpo (especialmente nas costas e membros) e cansaço, relacionados a um conjunto de elementos que incluem o excesso de peso13. Isso reitera que esta é uma realidade no trabalho com materiais recicláveis, nos mais diferentes cenários e que o peso pode ter implicações diretas na saúde física do trabalhador, representando um importante risco de adoecimento relacionado ao sistema musculoesquelético5,8.

As mulheres citaram o trabalho nos caminhões, que faz parte do trabalho real, ou seja, o trabalho que é executado extraordinariamente além do trabalho prescrito2, uma vez que é, a priori, atribuição dos homens, mas que as mulheres realizam de acordo com as necessidades da cooperativa.

Estudo realizado em uma cooperativa de seleção de materiais recicláveis evidenciou a existência de riscos laborais e suas implicações na dinâmica saúde/doença dos trabalhadores no processo de coleta dos resíduos em residências e estabelecimentos comerciais. Evidenciou-se sobrecarga de esforço físico e sua relação com riscos ergonômicos; exposição direta a radiações solares e sua relação com o risco físico14. Apesar das participantes do estudo trabalharem com carrinhos de propulsão humana e não com caminhões, os riscos se aproximam no sentido em que ambos os meios de trabalho envolvem sobrecarga física e exposição a cargas de trabalho.

Estudo indica a sobrecarga de trabalho como um dos principais fatores que ocasionam o adoecimento. A sobrecarga relacionada à intensificação do trabalho aponta para a existência de ambientes laborais envolvidos em pressões e exigências, o que culmina no agravamento do sofrimento e adoecimento dos trabalhadores15. Portanto, observa-se que a sobrecarga existente sobre as mulheres catadoras constitui um fator de risco evidente para o adoecimento no trabalho, uma vez que promove, ao longo do tempo, o desgaste do corpo e, consequentemente, do aparelho psíquico.

Por fim, elencaram-se as estratégias defensivas utilizadas pelas catadoras frente ao sofrimento e ao risco de adoecimento relacionados ao trabalho. O enfrentamento do sofrimento é necessário para que o trabalhador consiga ressignificá-lo e transformá-lo em prazer, tendo em vista a manutenção de sua saúde2. Nesse sentido, a separação entre os problemas do trabalho e da vida social surge como uma estratégia que algumas trabalhadoras usam para gerenciar e enfrentar o sofrimento e a sobrecarga de preocupações e responsabilidades.

Pode-se supor que a cisão entre a vida laboral e a familiar cumpra o papel de proteger a mulher da sobrecarga e do sofrimento. Na cooperativa, os problemas familiares e do lar são negados e, por meio dessa dinâmica, a trabalhadora busca neutralizar o sofrimento. Assim, a negação do adoecimento por catadores foi apontada por estudo16, o que sinaliza que essa estratégia defensiva é recorrente entre esses trabalhadores.

Elaborar estratégias defensivas é uma maneira que as trabalhadoras encontraram de neutralizar o adoecimento cotidiano e manter o equilíbrio do aparelho psíquico. Esse equilíbrio resulta da dinâmica entre o sofrimento e a luta individual e coletiva contra ele. Portanto, a saúde não está relacionada à ausência de sofrimento, mas é o resultado do embate contra as desestabilizações oriundas das pressões do trabalho2,3. Essas lutas podem se dar via elaboração de estratégias individuais e coletivas de defesa. As individuais, por ser de natureza íntima, são limitadas em sua eficácia; já as coletivas são resultado da cooperação entre os trabalhadores e, portanto, conseguem dar conta do sofrimento de maneira mais ampla e articulada3.

Dessa forma, a elaboração das estratégias defensivas pelas trabalhadoras cumpre o papel de minimização do sofrimento e, portanto, ameniza a ocorrência do adoecimento relacionado ao trabalho. Considera-se, porém, que a negação, a banalização e a fuga do sofrimento podem, algumas vezes, mascarar os elementos da organização do trabalho que desencadeiam esse sofrimento, de maneira que as trabalhadoras, por não conseguirem encará-los, não são capazes de elaborar estratégias reais de resolução dos problemas.

Outra questão observada em relação às estratégias defensivas entre as catadoras diz respeito ao trabalho coletivo e sua importância na coesão e união entre as mulheres. O trabalho coletivo envolve a construção da convivência social, do "viver junto"; a construção da convivência social e da interação pessoal verdadeira entre os trabalhadores é a diferença entre a manutenção do trabalho coletivo e da existência de um simples grupo de pessoas com interesses em comum17.

Percebe-se que o trabalho coletivo é uma importante ferramenta de enfrentamento das dificuldades para as catadoras. Ele desencadeia a formação de uma rede de confiança entre as mulheres, e nessa rede elas podem encontrar compreensão e identificação entre elas. Além disso, pesquisa com catadores que atuavam em um lixão localizado em uma capital brasileira evidenciou que quanto maior a percepção de companheirismo existente entre os catadores, menos acidentes de trabalho ocorriam18.

A comunicação e a cooperação entre os trabalhadores são elementos essenciais para a construção de estratégias coletivas efetivas de enfrentamento do sofrimento e minimização do risco de adoecimento. Nesse ponto, o trabalho revela sua relação paradoxal com a saúde do trabalhador, pois ao mesmo tempo em que ele possui elementos precursores da doença física, psíquica e social, também traz na articulação e no relacionamento entre os próprios trabalhadores, os meios para o enfrentamento desses elementos e para construção da saúde e do bem-estar.

Os processos de saúde e adoecimento laborais resultam de interações dinâmicas das condições de vida e trabalho; portanto, é fundamental que o indivíduo se aproprie dos conhecimentos e informações acerca dos riscos aos quais está exposto, no sentido de poder enfrentá-los. Nesse sentido, as ações educativas são fundamentais na saúde do trabalhador, no sentido de sensibilizar o indivíduo a reconhecer as situações causadoras de risco/perigo a sua saúde; assim, o mesmo poderá assumir a condição de protagonista sobre sua saúde19.

Em vista dessas considerações, pondera-se que a enfermagem agrega um corpo de conhecimentos e competências adequados à construção dessas ações de intervenção. O enfermeiro é um profissional capaz de promover educação, conscientização e reflexão das pessoas sobre os determinantes de sua vida e saúde; portanto, a assistência de enfermagem voltada para o trabalhador pode contribuir para a edificação de processos de "despertar" dos indivíduos de contextos de alienações no trabalho, movimento fundamental para os mesmos sejam protagonistas na busca de um viver saudável.

Portanto, as contribuições trazidas por este estudo para o campo da enfermagem podem diminuir a distância que existe entre o enfermeiro e as possibilidades de ação junto aos trabalhadores, apontando para demandas a serem sanadas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As catadoras apresentam riscos de adoecimento relacionado ao trabalho, o que impacta em todas as dimensões de seu ser e da sua vida. O risco de adoecimento não se restringe ao corpo biológico e não se limita ao desgaste da estrutura física das trabalhadoras. Ao invés disso, existem relações entre a atividade laboral e a dinâmica saúde-doença, e nessa rede, todos os nós representam a totalidade do sujeito que trabalha (a dimensão física e subjetiva, a estrutura psíquica, a vida social). Portanto, a intensidade e a organização do trabalho estão articuladas à dinâmica do prazer e do sofrimento, da saúde e da doença, representando elementos centrais no que tange ao risco adoecimento de relacionado à atividade laboral.

Já no que tange às estratégias defensivas, pode-se concluir que cumprem o papel de "anestesiar" as trabalhadoras em relação ao sofrimento, distanciando-as de sentimentos negativos. Porém, contribuem, muitas vezes, para sua alienação, pois ao não se permitirem adoecer, ao fugirem, negarem e banalizarem os elementos precursores de adoecimento, não os reconhecem como tal e não modificam a organização do seu trabalho. O trabalho coletivo, no entanto, desponta como um importante instrumento de agregação entre as trabalhadoras e lhes confere potencial para realizar transformações na realidade laboral.

Os resultados deste estudo necessitam ser pensados na direção do saber e do fazer em enfermagem. A concepção do trabalho como um determinante central nos processos de adoecimento chama a enfermagem para ampliar seus conhecimentos e seus campos de pesquisa e assistência. Cabe ao enfermeiro introduzir em sua prática diária (na assistência direta a saúde, na pesquisa, ensino, gestão, políticas públicas) ações voltadas aos trabalhadores que atendam suas demandas de cuidado, contribuindo, assim, para a promoção de saúde e prevenção do adoecimento.

Considera-se que este estudo conseguiu compreender aspectos da relação entre o trabalho da mulher catadora e seu adoecimento laboral. Foi capaz de apontar a algumas implicações do mesmo em sua vida diária e o fato de que as duras atividades da realidade do catador não acometem apenas o corpo físico, mas o universo psíquico e as relações sociais do mesmo entre seus pares e sua família.

Como limitação, aponta-se que os pesquisadores dispuseram de tempo restrito para o desenvolvimento dos GF, uma vez que a reunião das catadoras exigia a interrupção das atividades de catação, o que poderia implicar na redução de seus rendimentos. Reitera-se que os achados desta pesquisa podem oferecer subsídios teóricos para o delineamento de ações e intervenções em saúde que se proponham a dar voz aos catadores e a ajudá-los a compreender os aspectos nocivos do seu trabalho e a potencializar o trabalho coletivo.

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