Risk factors for eating disorders among undergraduate nursing students

Risk factors for eating disorders among undergraduate nursing students

Autores:

Maria Cristina Mazzaia,
Romayne Mirelle Cruz Santos

ARTIGO ORIGINAL

Acta Paulista de Enfermagem

Print version ISSN 0103-2100On-line version ISSN 1982-0194

Acta paul. enferm. vol.31 no.5 São Paulo 2018

http://dx.doi.org/10.1590/1982-0194201800065

Resumen

Objetivo:

Identificar la presencia de factores de riesgo para el desarrollo de trastornos alimentarios en estudiantes de enfermería.

Métodos:

Estudio transversal con graduandos de enfermería de una universidad pública, donde se utilizaron un cuestionario de caracterización, el Test de Actitudes Alimentarias (EAT) y el Cuestionario de Imagen Corporal (BSQ). El análisis de los resultados se hizo a través del análisis descriptivo, la correlación de Pearson y la regresión linear.

Resultados:

De 120 graduandos, 30 (25%) presentaron alteración en su comportamiento alimentar, 55 (45,8%) insatisfacción con la imagen corporal. Se observó una correlación simple positiva entre los instrumentos EAT y BSQ (p<0,001), donde 20 (66,7%) de los 55 graduandos con alteraciones de BSQ también presentaron alteraciones de EAT. Se encontró una asociación significativa entre el comportamiento alimentar de riesgo (EAT) y el índice de masa corporal (IMC) por encima del estado de eutrofia. Igualmente, hay asociación significativa entre preocupación con la imagen corporal (BQS) y el año de graduación, que se destaca especialmente en el tercero y cuarto años. Hubo una diferencia significativa entre los instrumentos utilizados y la edad, que evidencia que, en la muestra estudiada, los graduandos más jóvenes tienen mayor riesgo de desarrollar trastornos alimentares.

Conclusión:

Los graduandos de enfermería presentaron factores de riesgo para el desarrollo de trastornos alimenticios con presencia de preocupación por la imagen corporal y alteración del comportamiento alimentar. La etiología multifactorial de los trastornos alimentarios sugiere que las investigaciones deben centrarse en la prevención, con énfasis en la construcción, por parte de los jóvenes, de un concepto positivo de la autoimagen y sobre sí mismos, y en desarrollar el pensamiento crítico sobre patrones de imagen e imposiciones mediáticas y sociales.

Descriptores Imagen corporal; Conducta alimentaria; Factores de riesgo; Promoción de la salud; Salud mental

Introdução

A adolescência é a transição da infância para a vida adulta e constitui um período de intensas mudanças físicas, sociais, mentais e comportamentais. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), é o período da vida que começa com 10 anos, estende-se até os 19 anos e caracteriza-se por ser um período de risco para desenvolvimento de problemas emocionais, dado característica de fase de transição.(1)

A OMS acrescenta que, na adolescência, o suicídio é a terceira maior causa de mortes em ambos os sexos, perdendo apenas para acidentes de trânsito e HIV/AIDS além disso, esta fase do ciclo vital ainda apresenta a depressão como a maior causa de dias perdidos por incapacidade, também em ambos os sexos.(1)

Os dados acima demonstram quanto uma população jovem está exposta a problemas emocionais e, se for considerada a população de universitários que na atualidade iniciam sua trajetória na graduação a partir de 16-17 anos, é possível perceber que, as demandas escolares, em tenro período, podem se tornar fatores de tensão a contribuir com o desenvolvimento do sofrimento psíquico.(2)

Estudo realizado no sudeste brasileiro com 675 estudantes universitários e utilização da Escala Lipp observou taxa de estresse em 50% da amostra, maioria na fase de resistência e predominantemente mulheres e, outro estudo realizado no Chile, a utilizar escalas de avaliação de estresse acadêmico identificou taxa de 98% de estresse na amostra de universitários também com destaque para ocorrência em mulheres.(2,3)

Sabe-se que tensão e estresse são fatores desencadeantes de outras formas de sofrimento psíquico, de alteração de comportamentos, inclusive do comportamento alimentar.(4,5)

Para além das tensões em relação à sua formação, ao longo do seu desenvolvimento, o adolescente está sujeito a uma série de pressões sociais e, tais pressões, nesta fase, são capazes de moldar ou alterar conceito sobre percepção corporal e consequentemente hábitos alimentares. Quanto mais o corpo idealizado, pelo adolescente, afasta-se do “corpo ideal”, maior será a possibilidade de conflito e a dificuldade para aceitação, influindo assim de forma negativa em sua autoestima.(6)

A percepção corporal está inserida no processo de construção de identidade dos adolescentes. Ela envolve a satisfação com a autoimagem e a insatisfação com imperfeições físicas aparentes.(6) A forma como adolescentes se veem e/ou se analisam é, constantemente, influenciada pela sociedade e pela mídia, por aspectos relacionados ao processo de desenvolvimento de um país, pela velocidade de informações e pela tecnologia da rede virtual.(7) A busca do corpo perfeito cresce a cada dia e essa procura pode tornar-se distorcida e inacabável, levando o adolescente a sentir-se cada vez mais desconfortável consigo mesmo e buscar a “perfeição” que a sociedade ao seu redor insiste em salientar.(6)

Os efeitos deste tipo de pressão é mais frequente em mulheres entre 15-19 anos e essa faixa etária coincide com a saída do ensino médio e ingresso nos cursos superiores o que acarreta mudanças de costumes, convívio com novas pessoas, distanciamento familiar e adoção de novos hábitos de vida, inclusive alimentares, associados a maiores responsabilidades, ou seja, situações estas que contribuem com o aumento do nível de tensão.(3)

Assim, as pressões para a busca da imagem perfeita e as mudanças no cotidiano de vida, imprimidas pela vida universitária, podem concorrer no processo de vulnerabilidade no que se refere ao desenvolvimento de Transtornos Alimentares (TA).

Os transtornos alimentares (TA) são doenças mentais que afetam particularmente adolescentes e adultos jovens do sexo feminino, podendo levar tanto a prejuízos psicológicos quanto sociais e estão relacionados ao aumento de morbidade e mortalidade. Podem atingir pessoas de todas as classes sociais, raças, graus de escolaridade e sexo. Anorexia e bulimia são suas expressões mais graves e estão associados a quadros clínicos de desnutrição, com alterações metabólicas, gastrintestinais, endócrinas e renais.(8,9)

O ingresso na vida universitária, então, expõe o indivíduo a um novo meio de vida e social que pode, consequentemente, influenciar na satisfação com imagem corporal.(10) Essa transição também pode provocar alterações em seu comportamento alimentar.(8,10) Estudos vem sendo realizados para avaliar as atitudes alimentares e a satisfação com o corpo de ingressantes na vida universitária(8,1012) como fatores de risco para o desenvolvimento de TA, porém, são poucos os estudos que abordam o tema diretamente relacionados a Graduandos de Enfermagem.

A enfermagem é uma categoria profissional formada eminentemente por mulheres, e, a considerar que universitários mulheres estão mais sujeitos ao estresse e seus sintomas e também ao desenvolvimento de comportamento alimentar de risco para o desenvolvimento de transtornos alimentares, como apresentado, pergunta-se: existem fatores de risco para o desenvolvimento de TA em população de graduandos de enfermagem em Universidade Pública no município de São Paulo? Assim, este estudo objetiva identificar a presença de fatores de risco em estudantes de enfermagem para o desenvolvimento de transtornos alimentares.

Métodos

Trata-se de um estudo quantitativo, transversal, onde foram convidados a participar todos os 335 graduandos de enfermagem matriculados no ano de 2016 na Escola Paulista de Enfermagem(EPE) da Universidade Federal de São Paulo(UNIFESP).

A coleta de dados foi realizada de fevereiro a abril de 2016, em espaço reservado, após orientação e anuência dos participantes que preencheram questionário com dados de caracterização como sexo, idade e ano de graduação e, mais dois instrumentos: Teste de Atitudes Alimentares (EAT-26) para avaliação da presença de risco para o desenvolvimento de TA e Questionário de Imagem Corporal (BSQ) para avalição de percepção de imagem corporal. Após a entrevista, foram verificados peso e altura para cálculo do Indice de Massa Corpórea (IMC) com classificação de acordo com o Ministério da Saúde.(13)

O EAT é utilizado para rastrear indivíduos que estão suscetíveis a desenvolver Anorexia ou Bulimia Nervosa, seria um índice da gravidade de preocupações típicas como intenção de emagrecer e medo de ganhar peso. A versão resumida é uma escala Likert com 26 itens, podendo variar de 0 a 78 pontos, sendo considerado comportamento alimentar de risco a partir de 21 pontos e, em estudo de validação, o EAT apresentou consistência interna de 0,80 pelo alfa de Cronbach.(14)

O BSQ é uma escala Likert que possui 34 itens que podem somar 204 com o qual é possível mensurar a preocupação com o peso e a forma corporal, assim classificada: nenhuma (menor ou igual a 80); leve (entre 81 e 110); moderada (entre 111 e 140); grave (maior ou igual a 140), ou seja, quanto maior a pontuação maior a preocupação, e, considera-se que a preocupação com a imagem pode influenciar padrões e hábitos de vida, além disso, em estudo de avaliação psicométrica o BSQ apresentou índice de consistência interna de 0,96 pelo alfa de Cronbach.(15)

Os dados obtidos foram compilados e suas frequências analisadas e contabilizadas no banco de dados do software SPSS 22.0. Para a caracterização da amostra utilizou-se estatística descritiva. Analisouse ainda a correlação entre os dois instrumentos utilizados, o EAT e o BSQ. Por fim, utilizou-se testes paramétricos com correlação de Pearson e Regressão Linear para identificação, nas características da amostra, dos fatores potenciais associados aos resultados EAT e BSQ.

Preceitos éticos foram respeitados com estudo cadastrado sob CAAE 46595715.1.0000.5505 e parecer de aprovação 1.192.261/2015 do Comitê de Ética em Pesquisa UNIFESP.

Resultados

Participaram do estudo 120 graduandos, 35,8% da população, sendo, coincidentemente, 30 alunos de cada ano de graduação perfazendo 27% de alunos no primeiro ano, 34% no segundo, 50% no terceiro e 39,5% no quarto ano; em sua maioria mulheres (84,2%), com média de 21,9 (+/-4,2) anos e média de IMC 23,3 (+/-4,5).

Dentre os 120 participantes, 30 (25%) apresentaram fator de risco para o desenvolvimento de TA de acordo com resultados do EAT, com destaque para graduandos do primeiro e terceiro anos de graduação que também apresentam graduandos com menor faixa etária.

Com relação ao IMC, 58,3% da amostra apresentou IMC dentro de indicies de normalidade, 10,8% em baixo peso, 23,3% em sobrepeso, 5,1% obesidade I, 2,5% obesidade II.

A análise de resultados do BSQ destaca o fato de 45,8% da amostra, ou seja, 55 estudantes, apontar alguma preocupação em relação à imagem corporal. Nas turmas observou-se 50% do quarto e primeiro anos a apresentar alguma preocupação com imagem corporal, 60% do terceiro ano e 23,3% do segundo ano. Dos estudantes preocupados com a imagem corporal, 54,5%, ou seja, 30 estudantes também apresentaram comportamento alimentar de risco.

Apesar da apresentação descritiva dos resultados, na análise estatística, não houve diferença significativa entre as variáveis avaliadas e os instrumentos utilizados, com exceção da variável idade, como destacado na tabela 1, assim, observou-se que o primeiro e terceiro anos de graduação concentraram maior número de estudantes entre 18 e 21, faixa etária de risco para o desenvolvimento de transtornos alimentares.

Tabela 1 Distribuição das variáveis pelo ano de graduação 

Características 4° ano Turma 74 3° ano Turma 75 2° ano Turma 76 1° ano Turma 77 Total Comp. Grupos P
Idade 0,000
Min – Max 20 – 48 19 – 29 18 – 30 18 – 40 18 – 48
Media (DP) 23,6 (5,4) 21,7 (2,3) 22,2 (3,6) 20,1 (4,1) 21,9 (4,2)
Sexo 0,36
Masculino 3 (10) 3 (10) 6 (20) 7 (23,3) 19 (15,8)
Feminino n(%) 27 (90) 27 (90) 24 (80) 23 (76,3) 101 (84,2)
Peso 0,31
Min – Max 42 – 91 36 – 90 42 – 101 41 – 101 36 – 101
Media (DP) 63,0 59,6 63,6 65,3 (15,0) 62,9 (14,0)
(13,4) (11,6) (15,8)
IMC 0,57
Min – Max 17 – 38 17 – 29 16 – 38 18 – 32 16 – 38
Media (DP) 23,6 (4,9) 22,8 (3,4) 23,1 (5,4) 23,7 (4,0) 23,3 (4,5)

Na análise descritiva dos instrumentos não houve diferença significativa entre a pontuação dos instrumentos e classificação de risco entre as turmas, porém observou-se correlação simples positiva entre os instrumentos EAT e BSQ (p<0,001), ou seja, observou-se a presença de preocupação com imagem corporal quando na presença do comportamento alimentar de risco em 20 (66,7%) estudantes dos 30 (100%) a apresentar comportamento alimentar de risco (Quadro 1).

Quadro 1 Distribuição da amostra por idade, IMC e resultados de risco no EAT e respectivo resultado no BSQ 

Idade IMC EAT BSQ Idade IMC EAT BSQ
4° ano turma 74 2° ano turma 76
21 23,82 27 Moderado 18 37,66 obesidade II 29
34 23,42 20 Leve 24 32,71 obesidade II 31
23 23,56 43 Grave 18 28,72 sobrepeso 26 Grave
21 26,72 sobrepeso 24 Moderado 19 15,97 baixo peso 28
22 19,36 39 Grave 26 23,2 27 Leve
24 38,03 obesidade II 32 Grave 22 22,04 30
3 ° ano turma 75 1° ano turma 77
19 25,63 sobrepeso 29 Grave 19 30,61 obesidade I 40 Leve
19 25,64 sobrepeso 30 Leve 24 29,35 sobrepeso 29 Leve
21 26,6 sobrepeso 22 Leve 20 21,87 23
21 25,78 sobrepeso 28 Grave 19 19,82 25
21 27,35 sobrepeso 22 Moderada 22 24,74 26
23 20,55 24 Grave 18 26,44 sobrepeso 22
22 16,89 baixo peso 45 Leve 20 25,93 sobrepeso 22 Leve
21 25,77 sobrepeso 35 Leve 18 19,88 21
21 27,68 sobrepeso 40 Grave 18 31,53 obesidade I 22

Na regressão linear foi possível identificar uma associação significativa entre comportamento alimentar de risco (EAT) e o IMC onde 18 (60%) estudantes dos 30 (100%) a apresentar comportamento alimentar de risco apresentam também alteração do IMC, acima do peso normal (Quadro 1). Ainda na regressão linear observou-se associação significativa entre preocupação com a imagem corporal (BQS) e o ano de graduação, com destaque para terceiro e quarto anos como pode ser observado no quadro 1 a seguir.

Discussão

O estudo mostra que, na amostra estudada, os graduandos de enfermagem apresentam preocupação com a imagem corporal e, mais da metade destes a apresentar, também, comportamento alimentar de risco o que pode traduzir-se como maior risco para o desenvolvimento de transtornos alimentares.

Os resultados devem ser observados não somente a considerar as questões pertinentes aos transtornos alimentares, mas principalmente como fatores que já se configuram como sofrimento, se entendermos a imagem corporal como um aspecto de importância para a autoestima do indivíduo, como mostra estudo realizado com 471 adolescentes que identificou 62,8% com baixa autoestima, 23,2% preocupação com imagem corporal e 21,7% com comportamento alimentar de risco para transtornos alimentares.(16,17)

Na amostra observou-se 45,8% dos estudantes com alguma preocupação com imagem corporal, dado este semelhante com a cifra de 47% de 300 estudantes de curso de nutrição no Brasil e maior do que resultado de estudo realizado em Juiz de Fora com a cifra de 30,71% de 276 mulheres e, 19,59% de 311 homens da amostra de 587 estudantes provenientes de vários cursos universitários. Já em estudo realizado em Santa Catarina com universitários provenientes de vários cursos onde se utilizou escala de silhuetas para avaliação da imagem corporal observou-se que 77,9% da amostra apresentava insatisfação com a imagem corporal, índice bem maior do que o encontrado neste estudo. Os resultados apresentados e comparados nos fazer refletir sobre como apresenta-se frequente a insatisfação com a imagem corporal.(9,10,11)

A preocupação com a imagem corporal e com o peso ocorrem independente do estado de eutrofia, como ocorreu neste estudo. Este pode ser mais um fator de sofrimento a considerar pressões sociais e midiáticas, associados às condições de vida dos estudantes, com destaque aos estudantes de universidades públicas que, na atualidade têm possibilidade de cursar universidade distante de seu convívio familiar, por meio da concorrência através do sistema eletrônico de inscrições e utilização de valores das avaliações do ensino médio.(3,8)

Com relação ao comportamento alimentar este estudo traz que 25% da amostra de 120 estudantes apresentou alteração no comportamento alimentar como risco para o desenvolvimento de TA índice semelhante a estudo realizado no sul do Brasil com estudantes universitárias de cursos da saúde que observou 22,4% de uma amostra de 214 estudantes a apresentar o mesmo comportamento.(18)

Em estudo com 2483 universitárias provenientes de todas as regiões do Brasil observou-se variações de resultado de EAT entre 23,7% a 30,1% como frequência de comportamento alimentar de risco para TA a mostrar que o fenômeno se encontra espalhado no território nacional e que estes valores assemelham-se aos valores obtidos nesta pesquisa.(19)

Os resultados relacionados ao EAT apresentados no estudo acima mostram-se menores que 45,5% da amostra de 189 estudantes de medicina do sexo feminino que resultou em risco para o desenvolvimento de transtorno de compulsão alimentar quando associado ao instrumento de investigação bulímica de Edimburgo.(12)

Observou-se correlação entre valores de EAT e presença de IMC alterado acima dos índices de normalidade neste estudo, o que seria esperado na tentativa de controle de peso corporal, porém não foi a realidade de estudantes de enfermagem indianas que apresentaram alterações no IMC e não nos índices de EAT.(20,21)

Universitárias indianas apresentaram correlações entre IMC e resultados de BSQ(21) e, na amostra em questão, a correlação do resultado de BSQ se deu em relação ao EAT e ao ano de graduação. O período escolar em que se encontrava o universitário não apresentou correlação com os valores de BSQ em estudo transversal com universitárias de um curso de nutrição em Fortaleza,(9) diferente do observado neste estudo.

Observou-se primeiro e terceiro anos de graduação com maior frequência de alterações de comportamento alimentar e, em acordo com a literatura, a menor faixa etária,(6,7,10,11) o que pode tornar estudantes mais expostos ao sentimento de insatisfação com a imagem corporal como observado na análise estatística.

Estudantes de enfermagem da amostra em questão, em sua maioria do sexo feminino, estão inseridos dentro de um contexto de forte pressão social em que hábitos saudáveis e aparência corporal, dentro dos padrões da sociedade, necessitam ser mantidos,(21) sendo assim, fazem parte do grupo de risco para o desenvolvimento de transtornos alimentares.(17)

As alterações encontradas quanto ao comportamento alimentar de risco da amostra e quanto à preocupação com a imagem corporal, também podem ser observados em estudos realizados com universitários de cursos diversos e não somente no Brasil(7,9,12,21,22) e ainda ressalta-se a importância de pesquisas quanto a fatores de riscos para desenvolvimento de transtornos alimentares principalmente em jovens e adolescentes do sexo feminino.(812,17)

A prevalência destes comportamentos de risco tem aumentado nas últimas décadas, o que coincide com o surgimento de novos conceitos de beleza que vem sendo fortemente divulgados pela mídia.(17,23) Em contrapartida, a mesma mídia que dita a “magreza” como sendo o padrão perfeito de beleza, influencia na ingestão de alimentos de alto teor calórico levando assim adolescentes a adotarem comportamentos de risco para que se encaixem nos padrões “corretos” e atinjam o padrão perfeito de beleza.(8)

O peso corporal influencia fatores de risco para transtornos alimentares e estudos mostram que as alterações no IMC pode gerar insatisfação com a imagem corporal, e que este é considerado o principal agente desencadeador para comportamento de risco relacionados aos transtornos alimentares.(8,9)

Estudar os transtornos alimentares e seus fatores desencadeantes é importante para que possam ser desenvolvidas ações educativas que possibilitem a prevenção e a identificação precoce desses transtornos.(8)

O estudo tem como limitação o fato de ter sido realizado somente com estudantes de enfermagem o que compromete sua generalização, assim, sugere-se que estudos sejam realizados com estudantes procedentes de vários cursos, de universidades públicas e privadas, inclusive que a amostra contemple mais participantes do sexo masculino. Sugere-se também estudos longitudinais para obtenção de informações a respeito da evolução ou não de valores de risco de EAT e BSQ no transcorrer da graduação.

A contribuição do estudo para a enfermagem é o alerta para o risco de transtornos alimentares em estudantes e possibilita o desenvolvimento de projetos de prevenção em saúde mental e de promoção da saúde a partir do fortalecimento dos estudantes com estimulo a autoestima e pensamento crítico.

Conclusão

O presente estudo mostra que graduandos de Enfermagem possuem grande preocupação com sua imagem corporal, e independe do estado de eutrofia. A maioria dos estudantes que apresentaram insatisfação com a imagem corporal também apresentaram IMC acima do peso considerado normal e comportamento alimentar de risco para o desenvolvimento de transtorno alimentar, demonstrado pela correlação simples positiva entre os resultados de BSQ e EAT e associação significativa entre EAT e IMC. Alunos mais jovens mostraram-se mais expostos conforme análise estatística. A considerar a etiologia multifatorial dos transtornos alimentares, o objeto das pesquisas deve focalizar formas de prevenção e tais abordagens devem concentrar-se na construção, em jovens, de conceito positivo sobre imagem e sobre si mesmos e estimular o desenvolvimento do pensamento crítico sobre padrões de imagem e imposições midiáticas e sociais.

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