Satisfação dos usuários adultos com a atenção em saúde bucal na estratégia de saúde da família

Satisfação dos usuários adultos com a atenção em saúde bucal na estratégia de saúde da família

Autores:

Maria Lizzia Moura Ferreira dos Santos,
Simone Seixas da Cruz,
Isaac Suzart Gomes-Filho,
Johelle de Santana Passos Soares,
Ana Claudia Morais Godoy Figueiredo,
Claudia Maria Coelho

ARTIGO ORIGINAL

Cadernos Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1414-462Xversão On-line ISSN 2358-291X

Cad. saúde colet. vol.23 no.2 Rio de Janeiro abr./jun. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/1414-462X201500020057

ABSTRACT

The objective of this study was to evaluate the levels of satisfaction of the adult users of the municipality of Lauro de Freitas, state of Bahia, Brazil in relation to the oral-health services offered by the Family Health Strategy - ESF. This quantitative, descriptive study applied two validation instruments, the User-Satisfaction-Evaluation Questionnaire in conjunction with the Public Oral-Health Service and one part of the questionnaire from theSB Brasil 2010Project. The sample size was 418 individuals, with a sampling-error rate of 5%. The quantitative variables and measurement of central tendencies and dispersion were distributed using the SPSS statistics program. The results demonstrated that most of those interviewed were women (78.2%), African descent (47.0%), and single (46.1%). In terms of the aforementioned oral morbidity, the majority reported the need for odontological treatment (91.4%). 52.5% reported toothache in the previous six months. A high degree of satisfaction was observed in relation to the dimensions of the physical environment, acceptability, efficiency, equality, human relations, and the technical-scientific quality of the equipment. In conclusion, despite the many challenges that persist to improving the quality of the oral-health services of the ESF, the level of satisfaction of adult users was high.

Keywords:  health evaluation; evaluation of health services; community dentistry; family health

INTRODUÇÃO

As ações e os serviços públicos em saúde bucal têm sido planejados com base nos levantamentos epidemiológicos e nos sistemas de informação em saúde, com foco maior nas condições clínicas da saúde bucal e nos registros de procedimentos clínicos, respectivamente. Tal realidade caracteriza as práticas assistenciais e o modelo de saúde bucal vigente, efetivamente curativo e individual. Além disso, essa perspectiva foi caracterizada pela valorização do saber científico do profissional da Odontologia, em detrimento das opiniões, das crenças e dos saberes populares oriundos dos usuários dos serviços1.

Na tentativa de reverter esse quadro, a Lei no 8.142/90 contribui para reforçar a participação dos usuários na formulação das políticas de saúde e também no controle da sua execução, por meio das conferências e dos conselhos de saúde2. Entretanto, até o momento, poucos usuários utilizam essa ferramenta de gestão democrática.

Dessa reflexão e considerando que a Saúde Pública possui o objetivo de prestar serviços de qualidade aos brasileiros, surgem questionamentos: Quem melhor do que os usuários para avaliar os serviços de saúde bucal oferecidos? Qual é a satisfação dos usuários em relação aos serviços de saúde bucal?

O significado da palavra “satisfação” se refere ao ato ou efeito de satisfazer, promover alegria, contentamento, prazer, reparações e explicações3. Pensar em satisfação do usuário é pensar qual é sua percepção ao avaliar um serviço. A percepção do usuário sobre a sua saúde também é importante para a avaliação dos serviços odontológicos, considerando que pode fazer com que busque ou não o serviço. Assim, torna-se relevante a escuta do usuário para a adequação e implementação dos serviços dentro de cada realidade social4.

A importância e a necessidade de se levar em conta as expectativas dos usuários dos serviços odontológicos a respeito do que é oferecido reforçam a ideia de que a satisfação deve servir como medida da qualidade dos cuidados de saúde oferecidos localmente5.

Os resultados de um estudo que avaliou a satisfação dos usuários no Brasil são bem diversificados, considerando as especificidades de cada localidade, a disponibilidade dos serviços de saúde e as singularidades de cada usuário. De modo geral, os indivíduos residentes na região Nordeste possuem menores chances de satisfação quando se avalia a qualidade dos serviços de saúde, levando-se em conta os fatores associados como o acesso, a qualidade dos serviços e as características dos profissionais. O estudo conclui que esses usuários apresentam-se, em geral, insatisfeitos6.

Pesquisa de avaliação dos serviços públicos de saúde apresenta o olhar do usuário como uma ferramenta de democratização e gestão participativa. Assim, percebe-se que os usuários dos serviços de saúde são os atores mais importantes para avaliar as ações e os programas de saúde. Nessa perspectiva, essa avaliação pode contribuir para a tomada de decisões em prol da melhoria da qualidade dos serviços oferecidos7.

O estudo de satisfação dos usuários em relação à qualidade é de grande relevância para a melhoria da atenção em saúde bucal, de modo a esclarecer e a visualizar os entraves que dificultam o acesso universal no processo de trabalho das Equipes de Saúde Bucal (ESB), no âmbito da Estratégia de Saúde da Família (ESF). A análise da qualidade é capaz de alcançar o melhor balanço entre benefícios e riscos, um fenômeno complexo que envolve as dimensões eficácia, efetividade, eficiência, otimização, aceitabilidade, legitimidade e equidade8.

Considerando a quantidade reduzida de estudos acerca desse tema, principalmente em regiões do Nordeste, as limitações na obtenção de dados no campo da satisfação e o pouco consenso encontrado, este estudo torna-se relevante. Espera-se também que ele possa contribuir para sensibilizar gestores e trabalhadores na melhoria da qualidade do cuidado nos serviços de saúde, valorizando o modelo usuário-centrado, devido à importância da participação desses atores para a melhoria da qualidade dos serviços odontológicos. Desse modo, o objetivo deste estudo foi avaliar os níveis de satisfação dos usuários adultos do município de Lauro de Freitas, no Estado da Bahia, em relação aos serviços de saúde bucal oferecidos pela ESF.

METODOLOGIA

Trata-se de um estudo descritivo, com abordagem quantitativa, realizado no município de Lauro de Freitas-BA. Foi selecionado o Distrito Itinga, pois é o de maior densidade demográfica e de maior concentração de ESB. Nele foram escolhidas três ESB com as seguintes características: a primeira é a proporção de uma ESB para ESF; a segunda, a proporção de uma ESB para duas ESF; a terceira, a proporção de uma ESB para três ESF.

A população de referência do estudo foram usuários adultos, de 20 a 59 anos, residentes das áreas de abrangência de Unidades de Saúde da Família (USF), cobertas por Agentes Comunitários de Saúde (ACS) do município de Lauro de Freitas-BA. Foi critério de inclusão ser usuário adulto que frequentasse o serviço de saúde bucal das USF selecionadas durante os anos de 2011 e 2012. O critério de exclusão foi residir em áreas em que não existia ACS, considerando a impossibilidade de encontrar o usuário em seu domicílio. Para o cálculo amostral, foi considerado um erro de 5%. Como, nesse caso, não havia estimativas prévias de probabilidade para o evento estudado, adotou-se a frequência de 50%, com vistas à obtenção de amostra adequada. Acrescentou-se ainda 10% para minimizar efeitos de possíveis perdas, totalizando uma amostra de 418 sujeitos.

Foram utilizados integralmente dois instrumentos já validados: o Questionário de Avaliação da Satisfação dos Usuários com os Serviços Públicos de Saúde Bucal (QASSaB), contendo 9 dimensões distribuídas em 26 itens, e o Questionário do Projeto SBBrasil 2010, que mensura a avaliação socioeconômica, utilização dos serviços odontológicos, morbidade bucal referida e autopercepção de saúde bucal, por meio de 3 dimensões distribuídas em 16 itens.

Foi realizada análise documental dos registros do serviço odontológico, identificando o quantitativo de usuários por ESB, separando-os por ACS e respectivos endereços dos usuários. Foi realizado um estudo-piloto, como pré-teste, com 70 usuários, utilizando o mesmo método do estudo definitivo para visualizar possíveis falhas no instrumento e realizar os ajustes necessários quanto à clareza das perguntas dos formulários, adequando-o à realidade local. As observações feitas no estudo-piloto foram incluídas na análise final da pesquisa.

A aplicação dos instrumentos de coleta de dados foi feita com a sua apresentação ao usuário na USF, durante os grupos educativos, sala de espera ou em seu domicílio, mediante visitas domiciliares previamente agendadas, realizadas pelos ACS, pelo pesquisador ou por estudantes do curso de graduação em Odontologia e discentes da Residência Multiprofissional em Saúde da Família, previamente treinados. Nos casos em que o usuário não foi encontrado em seu domicílio, foram feitos contato telefônico e uma segunda tentativa de visita domiciliar. Ao persistir a sua ausência, considerou-se a impossibilidade da sua participação, partindo-se para outro sujeito.

A análise descritiva foi feita por meio de avaliação da distribuição de frequência das variáveis quantitativas. Quando apropriado, foram calculadas medidas de tendência central e de dispersão. Todos os dados coletados foram digitados no programa estatístico SPSS, versão 17.0, e os resultados, apresentados em gráficos e em tabelas. Para apresentar o nível geral de satisfação dos usuários com os serviços de saúde bucal, foi construído um escore de satisfação (0 a 5), calculando-se a média aritmética das respostas dadas às perguntas constantes do instrumento de coleta de dados.

Este trabalho foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual de Feira de Santana (parecer no 153.911). Os sujeitos da pesquisa foram esclarecidos sobre o objetivo e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

RESULTADOS

A pesquisa de campo contou com a participação de 418 usuários adultos, da faixa etária de 20 a 59 anos, que já frequentaram o serviço odontológico de três USF, do Distrito Itinga, do município de Lauro de Freitas-BA.

Características socioeconômico-demográficas

De acordo com as características socioeconômico-demográficas, em relação à idade, percebe-se que um pouco mais que a metade dos adultos jovens (20 a 39 anos) teve acesso aos serviços odontológicos (52,6%); a maior parte dos entrevistados era do sexo feminino (78,2%), da raça/cor negra (47,0%) e solteira (46,1%). A maioria dos entrevistados apresentou-se com uma densidade domiciliar com mais de 4 moradores (58,4%), com o nível de escolaridade de mais de 9 anos de estudo (45,7%) e renda familiar entre 501,00 a 1.500,00 reais (62,8%).

Morbidade bucal referida

Quando avaliados a morbidade bucal referida e o uso dos serviços odontológicos, a maioria reportou a necessidade de tratamento odontológico (91,4%). Dos entrevistados, 217 (52,5%) relataram dor de dente nos últimos seis meses, sendo que a maioria (45,9%) classificou o nível de dor sentida como 9 a 10, ou seja, elevada (Tabela 1).

Tabela 1 Características socioeconômico-demográficas e morbidade bucal referida dos entrevistados. Distrito Itinga, Lauro de Freitas-BA, 2013 (n=418) 

Variáveis N % Variáveis N %
Idade Sexo *
20 a 39 anos 220 52,6 Masculino 91 21,8
40 a 59 anos 198 47,4 Feminino 326 78,2
Raça/Cor ** Situação conjugal ***
Branca 20 5,0 Solteiro 190 46,1
Amarela 7 1,8 Casado 161 39,1
Parda 177 44,5 Divorciado 14 3,4
Indígena 7 1,8 Viúvo 18 4,4
Preta 187 46,9 Outro 29 7,0
Ocupação **** Densidade domiciliar
Empregado 155 39,7 Até 3 moradores 174 41,6
Desempregado 154 39,5
Aposentado 21 5,4 4 ou mais moradores 244 58,4
Outro 60 15,4
Nível de escolaridade Renda familiar *****
Até 4 anos de estudo 77 18,4 Até R$ 500,00 96 24,3
5 a 8 anos de estudo 150 35,9 R$ 501,00 até R$ 1.500,00 248 62,8
9 ou mais anos de estudo 191 45,7 R$ 1.501,00 ou mais 51 12,9
Variáveis N % Variáveis N %
Necessidade de tratamento Dor de dentes nos últimos seis meses
Não 36 8,6 Não 196 47,5
Sim 381 91,4 Sim 217 52,5
Total 417 100 Total 413 100
Variáveis N % Variáveis N % Variáveis N %
Nível de dor sentida Tipo de serviço da última consulta Motivo da última consulta
1 a 3 22 10,1 Público 313 75,4 Revisão 65 15,6
4 a 6 45 20,6 Particular 79 19,1 Dor 80 19,2
7 a 8 51 23,4 Plano/ convênio 17 4,1 Extração 84 20,2
9 a 10 100 45,9 Outros 6 1,4 Tratamento 178 42,8
- - - - - - Outros 9 2,2
Total 218 100 Total 415 100 Total 416 100

*1 observação perdida

**20 observações perdidas

***6 observações perdidas

****28 observações perdidas

*****23 observações perdidas

Fonte: Própria autoria

Autopercepção e impactos da saúde bucal

Ao mensurar a satisfação dos usuários em relação à autopercepção da sua saúde bucal, 40,4% fizeram uma avaliação negativa, enquanto 36,5% avaliaram-se positivamente e 23,2%, fizeram uma avaliação regular. Para a dimensão dos impactos em saúde bucal, a maioria dos entrevistados referiu que seus dentes provocam efeitos como dificuldade para se alimentar (59,4%). Entretanto, a saúde bucal não provocou tantos impactos nos outros hábitos cotidianos, tais como higiene bucal (40,8%), estresse (37,9%), diversão (26,5%), prática de esportes (13,7%), fala (27,8%), trabalho ou estudo (21,3%) sono (42,1%) e sorriso (40,2%) (Figura 1).

Figura 1 Autopercepção e impactos em saúde bucal dos usuários adultos. Distrito Itinga, Lauro de Freitas-BA, 2013 (n=418). Fonte: Própria autoria 

Satisfação com os serviços odontológicos oferecidos na ESF

Ao analisar a disponibilidade do serviço, encontrou-se que a maioria dos entrevistados considerou que o acesso aos serviços odontológicos possui fragilidades, sendo muito difícil ou difícil (68,0%) a obtenção de uma vaga para atendimento (Figura 2). O intervalo de marcação de consultas (27,3%) e o tempo de espera (36,2%) foram considerados razoáveis (Tabela 2).

Figura 2 Satisfação dos usuários adultos em relação à autopercepção e às dimensões de qualidade dos serviços odontológicos. Distrito Itinga, Lauro de Freitas-BA, 2013 (n=418). Fonte: Própria autoria 

Tabela 2 Satisfação dos usuários adultos em relação às dimensões de qualidade dos serviços odontológicos. Distrito Itinga, Lauro de Freitas-BA, 2013 (n=418) 

Dimensão Disponibilidade do serviço
Variáveis N % Variáveis N %
Intervalo entre consultas Tempo de espera
Muito longo 95 23,8 Muito longo 58 14,2
Longo 106 26,6 Longo 84 20,5
Nem longo nem curto 109 27,3 Nem longo nem curto 148 36,2
Curto 77 19,3 Curto 106 25,9
Muito curto 12 3,0 Muito Curto 13 3,2
Total 399 100 Total 409 100
Dimensão Resolutividade
Variáveis N % Variáveis N %
Aparência dos dentes tratados Capacidade mastigatória
Insatisfeito 88 22,3 Insatisfeito 112 27,8
Um pouco satisfeito 112 28,4 Um pouco satisfeito 113 28,0
Satisfeito 140 35,4 Satisfeito 128 31,8
Muito satisfeito 30 7,6 Muito satisfeito 36 8,9
Totalmente satisfeito 25 6,3 Totalmente satisfeito 14 3,5
Total 395 100 Total 403 100
Dimensão Ambiente Físico (Limpeza)
Variáveis N % Variáveis N % Variáveis N %
Recepção Consultório odontológico Banheiros
Péssima 20 4,9 Péssima 3 0,7 Péssima 28 7,2
Ruim 18 4,4 Ruim 3 0,7 Ruim 22 5,6
Regular 87 21,3 Regular 55 13,5 Regular 90 23,0
Boa 223 54,7 Boa 254 62,6 Boa 201 51,4
Excelente 60 14,7 Excelente 91 22,5 Excelente 50 12,8
Total 408 100 Total 406 100 Total 391 100
Dimensão Qualidade técnico-científica dos equipamentos
Variáveis N % Variáveis N %
Condições dos equipamentos Manutenção e conservação
Ultrapassados 35 8,7 Péssima 53 13,5
Desatualizados 44 10,9 Ruim 36 9,1
Nem uma coisa nem outra 122 30,4 Regular 113 28,7
Modernos 187 46,5 Boa 160 40,6
Supermodernos 14 3,5 Excelente 32 8,1
Total 402 100 Total 394 100
Dimensão Eficácia
Variáveis N % Variáveis N %
Uso de equipamentos de proteção individual Dentista ensina a prevenir doenças bucais
Nunca 2 0,5 Nunca 27 6,7
Às vezes 4 1,0 Às vezes 36 9,0
Não me lembro 19 4,6 Não me lembro 39 9,7
Quase sempre 20 4,9 Quase sempre 81 20,2
Sempre 364 89,0 Sempre 218 54,4
Total 409 100 Total 401 100
Variáveis N % Variáveis N % Variáveis N %
Desconforto durante extração Desconforto durante restauração Desconforto após restauração
Total 11 3,3 Total 10 2,8 Total 16 4,6
Muito 9 2,7 Muito 18 5,0 Muito 10 2,9
Senti 37 11,1 Senti 36 10,0 Senti 29 8,4
Pouco 78 23,4 Pouco 103 28,7 Pouco 60 17,3
Não senti 198 59,5 Não senti 192 53,5 Não senti 231 66,8
Total 333 100 Total 359 100 Total 346 100

Fonte: Própria autoria

No que se refere às relações humanas, a satisfação do usuário com a atenção recebida da recepção do serviço (68,7%) e de outros profissionais da USF (81,6%) foi positiva (boa/excelente) (Figura 3).

Figura 3 Satisfação positiva (boa/excelente) dos usuários adultos em relação à dimensão relações humanas. Distrito Itinga, Lauro de Freitas-BA, 2013 (n=418). Fonte: Própria autoria 

A qualidade das informações recebidas pelos usuários foi considerada satisfatória (78,8%), entretanto, em relação ao conforto e bem-estar na USF, apenas 16,6% dos entrevistados demonstraram satisfação positiva (Figura 3).

A equidade foi expressa pela comparação do atendimento às necessidades de saúde bucal do serviço recebido com um serviço particular. Dentre os usuários entrevistados, 37,8% relataram que as necessidades de saúde bucal são atendidas adequadamente (Figura 2).

O exposto permite afirmar-se que, nesta pesquisa, foi encontrado um escore final de avaliação da satisfação dos usuários adultos, em uma escala de 0 a 5, de 3,47, com taxa de satisfação de 69,4%.

DISCUSSÃO

O presente estudo apresentou resultados positivos em relação à satisfação do usuário adulto com os serviços odontológicos na ESF, no que se refere à estética dos dentes tratados, à funcionalidade da capacidade mastigatória e à resolução dos problemas de saúde bucal. Esses achados corroboram aqueles encontrados em uma pesquisa na cidade de Recife, em Pernambuco, na qual a maior parte dos entrevistados mostrou-se satisfeito com a qualidade do atendimento prestada pela ESB, pois eles consideraram solucionado o problema que os levou ao serviço de saúde bucal9.

As dimensões ambiente físico, relações humanas, eficiência, eficácia, qualidade técnico-científica dos equipamentos foram avaliadas positivamente neste estudo. Em investigação prévia, realizada em Olinda, em Pernambuco, na qual se utilizou o mesmo instrumento de coleta de dados, houve achados semelhantes, a exemplo da avaliação da eficiência do serviço odontológico, que foi classificada por 88,0% dos participantes como de boa qualidade9. Além disso, observou-se que a maioria reportou haver semelhança do atendimento no serviço público com outros serviços privados e avaliou positivamente a aceitabilidade.

Entretanto, em relação à dimensão disponibilidade do serviço, o acesso foi considerado muito difícil. Além disso, uma das variáveis da dimensão eficácia, que se refere ao conforto e bem-estar no serviço, foi avaliada negativamente. A investigação pernambucana anteriormente citada também apontou essas dificuldades de acesso/utilização aos serviços de saúde bucal, considerando que a maior parte dos entrevistados relatou longa espera para a obtenção de ficha ou de vaga para o atendimento9.

O presente estudo encontrou resultado semelhante a outro estudo brasileiro10,11, no que se refere ao perfil de usuário de serviços odontológicos, havendo menor frequência de homens e de idosos.

Em relação à morbidade bucal referida, os achados deste estudo mostraram que os indivíduos, em sua maioria, tardam em buscar o serviço odontológico para tratamento dos dentes e, ainda assim, referem ter satisfação em relação à sua saúde bucal. Assim como neste estudo, outras pesquisas apresentaram resultados semelhantes, ao mostrarem que parte considerável dos indivíduos espera até que seus dentes necessitem de extenso tratamento para procurar cuidados. Tal característica é agravada para estratos populacionais menos escolarizados12.

A maior parte dos usuários entrevistados neste estudo está satisfeita com a aparência dos seus dentes tratados, com a sua capacidade de mastigação após o tratamento e com a resolução dos problemas de saúde bucal, classificando como positiva a dimensão resolutividade, considerando a satisfação com a qualidade do serviço recebido, característica também confirmada em outras investigações9,13,14.

Concordando com os resultados de estudo sobre a satisfação de usuários no município de Recife-PE14, a dimensão que teve maior satisfação dos usuários adultos entrevistados nesta pesquisa foi a eficácia, em relação ao uso de equipamentos de proteção individual, à satisfação durante os procedimentos odontológicos realizados e às orientações de prevenção de doenças bucais. Os achados deste estudo são confirmados por pesquisas15,16 que apontam uma boa satisfação em relação às normas de biossegurança nos serviços de saúde.

As relações humanas também compuseram uma dimensão de grande satisfação, ratificando outros achados17-19 que demonstram o relevante valor das relações interpessoais entre usuário e profissional para a qualidade do serviço.

O ambiente físico, igualmente, é um ponto que os usuários valorizaram neste estudo, ao analisarem a limpeza do local e a higienização como atributo de qualidade, confirmado por pesquisas anteriores16,20,21. Sabe-se que o ambiente pode proporcionar uma sensação de acolhimento e de valorização, uma vez que locais limpos e organizados tendem a beneficiar a satisfação do usuário com o serviço de saúde20.

Outras investigações9,20confirmam os achados deste estudo sobre a insatisfação quanto à disponibilidade do serviço, no que se refere à dificuldade de acesso aos serviços odontológicos, a exemplo do intervalo de tempo entre a marcação de uma consulta e outra, tempo de espera no serviço para serem atendidos e dificuldade para a obtenção de uma vaga para o atendimento. A maioria dos entrevistados considerou que o acesso aos serviços odontológicos possui fragilidades, sendo muito difícil a obtenção de uma vaga/ficha.

Ainda que pesem os resultados deste estudo, algumas limitações merecem destaque. Por exemplo, a ausência de critérios mais objetivos de avaliação pode ter dificultado a compreensão das questões do instrumento de coleta de dados por parte dos usuários, incorrendo em distorções da realidade. Além disso, ao considerar, em geral, o baixo nível socioeconômico da população submetida a atendimentos odontológicos nas unidades de saúde, pode-se questionar a supervalorização dos serviços pelos usuários por não disporem de outros serviços que possam servir de parâmetro de comparação, como pontuado em outras investigações9,13,20.

Ademais, as respostas dos usuários podem ter sido distorcidas pelo constrangimento de se realizar avaliações mais realistas do serviço odontológico frente a outros profissionais de saúde, por mais que fossem garantidos a confidencialidade e o sigilo dos participantes.

No entanto, essa limitação guarda em si o status de imponderável, visto que não se pode mensurar o grau de veracidade das respostas dadas pelos participantes. No entanto, esse não é um problema exclusivo desta pesquisa, mas de todas aquelas que realizam sua coleta de dados com base na autorreferência dos participantes, sem meio para validação das respostas.

Todavia, a despeito dos limites, este estudo representa uma contribuição de caráter descritivo e exploratório, no que se refere ao perfil do usuário adulto que obteve acesso aos serviços odontológicos na ESF e à sua satisfação em relação a esses serviços, particularmente considerando a quantidade reduzida de investigações acerca desse tema em regiões como o Nordeste brasileiro.

Sugere-se que outros estudos sejam desenvolvidos para aprofundar a compreensão da realidade dos serviços odontológicos nessa região, possibilitando a escuta do usuário, das suas expectativas e percepções, de modo que se conquiste uma melhor qualidade na atenção odontológica.

CONCLUSÕES

Considerando a metodologia empregada e os limites deste estudo, pode-se concluir que:

    -. Foi observado um bom grau de satisfação em relação às dimensões ambiente físico, aceitabilidade, eficiência, equidade, relações humanas e qualidade técnico-científica dos equipamentos.

    -. As dimensões disponibilidade do serviço (item acesso) e eficácia (item conforto e bem-estar na unidade de saúde) foram avaliadas negativamente.

    -. Apesar de ainda persistirem muitos desafios para a melhoria da qualidade da atenção em saúde bucal na ESF, a satisfação dos usuários adultos foi alta.

REFERÊNCIAS

Soller SAL, Regis GI Fo. Uso de indicadores da qualidade para avaliação de prestadores de serviços públicos de odontologia: um estudo de caso. Rev Adm Pública. 2011; 45(3):591-610. .
Brasil. Lei n.º 8.142, de 28 de dezembro de 1990. Dispõe sobre a participação da comunidade na gestão do Sistema Único de Saúde (SUS) e sobre as transferências intergovernamentais de recursos financeiros na área da saúde e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, 31 de dezembro de 1990.
Ferreira ABH. Novo Aurélio Século XXI: o dicionário da língua portuguesa. 3. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; 1999.
Silva CJP, Ferreira EF, Magnago FM, Alves RG. Percepção de saúde bucal dos usuários do Sistema Único de Saúde do município de Coimbra/Minas Gerais. Rev Fac Odontol P Alegre. 2006; 47(3):23-8.
Emmi DT, Barroso RFF. Avaliação das ações de saúde bucal no Programa Saúde da Família no distrito de Mosqueiro, Pará. Cien Saude Colet. 2008 Jan-Feb;13(1):35-41. . PMid:18813518.
Gouveia GC, Souza WV, Luna CF, Souza PRB Jr, Szwarcwald CL. Satisfação dos usuários do sistema de saúde brasileiro: fatores associados e diferenças regionais. Rev Bras Epidemiol. 2009; 12(3):281-96. .
Prado AS, Sampaio JCL. Pesquisa de satisfação como ferramenta para participação do cidadão na melhoria dos serviços públicos: aplicação na fundação Alfredo da Matta, Manaus-AM. In: Congresso Internacional de Administração; 2011; Ponta Grossa, PR. ADMPG; 2011.
Donabedian A. The seven pillars of quality. Arch Pathol Lab Med. 1990 Nov;114(11):1115-8. PMid:2241519.
Oliveira RS, Magalhães BG, Gaspar GS, Rocha RACP, Góes PSA. Avaliação do grau de satisfação dos usuários nos serviços de saúde bucal na Estratégia de Saúde da Família. Rev Bras Pesq Saúde. 2009; 11(4):34-8.
Pinheiro RS, Torres TZG. Uso de serviços odontológicos entre os estados do Brasil. Cien Saude Colet. 2006; 11(4):999-1010. .
Pinto RS, Matos DL, Loyola Fo AI. Características associadas ao uso de serviços odontológicos públicos pela população adulta brasileira. Cien Saude Colet. 2012 Feb;17(2):531-44. . PMid:22267047.
Matos DLL-CM, Lima-Costa MF, Guerra HL, Marcenes W. Projeto Bambuí: estudo de base populacional dos fatores associados com o uso regular de serviços odontológicos em adultos. Cad Saude Publica. 2001 May-Jun;17(3):661-8. . PMid:11395802.
D’Avila S, Souza LMM, Cavalcanti GMS, Lucas RSCC, Garcia AFG, Cavalcanti AL. Nível de satisfação e condição socioeconômica dos usuários das clínicas de odontologia da Universidade Estadual da Paraíba. Rev Bras Pesq Saúde. 2010; 12(2):39-45.
Lima ACS, Cabral ED, Vasconcelos MMVB. Satisfação dos usuários assistidos nos Centros de Especialidades Odontológicas do Município do Recife, Pernambuco, Brasil. Cad Saude Publica. 2010 May;26(5):991-1002. . PMid:20563399.
Carnut L, Figueiredo N, Goes PSA. Avaliação do nível de satisfação dos usuários das urgências odontológicas da cidade do Recife. UFES Rev Odontol. 2008; 10(3):10-5.
Targanski R, Tinoco MAC, Ribeiro JLD. Modelagem da satisfação e identificação de atributos de qualidade em serviços odontológicos. Produção. 2012; 22(4):751-65.
Fadel CB, Sandrini JC, Zardo LN. Avaliação do perfil e grau de satisfação dos usuários dos serviços odontológicos na Estratégia de Saúde da Família, na zona rural do município de Castro/PR. Publ UEPG Ci Biol Saúde. 2007; 13(3):59-66.
Garbin AJI, Garbin CAS, Santos RR, Fagundes ACG, Marques JAM, Santos JG. Percepção do usuário em relação ao serviço odontológico público no Nordeste paulista. Rev. Adm. Saúde. 2011;13(51):117-23.
Reis C, Martelli-Júnior H, Franco BM, Santos AA, Ramalho LMP. Avaliação do serviço de saúde bucal no município de Grão Mogol, Minas Gerais, Brasil: a voz do usuário. Cien Saude Colet. 2009 Jul-Aug;14(4):1287-95. . PMid:19721969.
Pompeu JGF, Carvalho ILM, Pereira JA, Cruz Neto RG, Prado VLG, Silva CHV. Avaliação do nível de satisfação dos usuários atendidos na clínica integrada do curso de Odontologia da Faculdade Novafapi em Teresina (PI). Odontol Clín Cient. 2012; 11(1):31-6.
Santiago RF, Mendes AC, Miranda GMD, Duarte PO, Furtado BMASM, Souza WV. Qualidade do atendimento nas Unidades de Saúde da Família no município de Recife: a percepção do usuários. Cien Saude Colet. 2013 Jan;18(1):35-44. . PMid:23338494.
Política de Privacidade. © Copyright, Todos os direitos reservados.