Satisfação profissional e sobrecarga de trabalho de enfermeiros da área de saúde mental

Satisfação profissional e sobrecarga de trabalho de enfermeiros da área de saúde mental

Autores:

Jacqueline Flores de Oliveira,
Alessandro Marques dos Santos,
Luciene Smiths Primo,
Mara Regina Santos da Silva,
Eliana Soares Domingues,
Fernanda Pedrotti Moreira,
Carolina Wiener,
Jean Pierre Oses

ARTIGO ORIGINAL

Ciência & Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1413-8123versão On-line ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.24 no.7 Rio de Janeiro jul. 2019 Epub 22-Jul-2019

http://dx.doi.org/10.1590/1413-81232018247.20252017

Introdução

A enfermagem é uma profissão comprometida com a saúde e a qualidade de vida da pessoa, família e coletividade, atuando em ações que visem satisfazer as necessidades de saúde da população e da defesa dos princípios das políticas públicas de saúde e ambientais1. O trabalho de enfermagem em saúde mental tem passado por importantes transformações nos últimos anos, com isso, novas práticas estão sendo adotadas pelos profissionais com o objetivo de proporcionar uma assistência integral à pessoa mentalmente doente. Assim, os profissionais têm sentido a necessidade de refletir sobre suas ações e processo de trabalho, já que este é constituído por conflitos e resistências, necessitando ser repensado no cotidiano em que se constrói2.

Neste contexto, um dos indicadores de qualidade dos serviços de saúde mental é o nível de satisfação dos profissionais que neles atuam, sendo o mesmo uma avaliação sobre diversos aspectos do serviço, como as condições de trabalho, relacionamento com colegas, qualidade do tratamento oferecido aos usuários, aspectos estruturais e organizacionais, e participação e envolvimento nas decisões tomadas no serviço3. Um baixo nível de satisfação dos profissionais no trabalho pode afetar o relacionamento com os usuários e interferir no próprio tratamento oferecido4.

A Satisfação no trabalho é um fenômeno complexo, podendo ser influenciado por diversos aspectos relacionados ao trabalho, como aspirações, tristezas e alegrias dos indivíduos, afetando assim sua atitude em relação a si mesmo, à família e à organização5. É importante ainda destacar, que existe uma associação negativa entre a satisfação profissional e sobrecarga de trabalho, ou seja, a medida que uma aumenta a outra diminui6. Dessa forma, estar insatisfeito com a sobrecarga de trabalho e suas condições precárias ocasionam, muitas das vezes, a exaustão física e mental, influenciando na produtividade, desempenho, absenteísmo, rotatividade, cidadania organizacional, saúde e bem-estar, satisfação na vida e satisfação dos usuários6.

A carência de estratégias que visem o enfrentamento dessa sobrecarga e insatisfações, dificulta a implementação de medidas capazes de oferecer suporte e de minimizar as sobrecargas vivenciadas na rotina de trabalho, podendo levar a uma insatisfação7. Dessa forma, a implementação de ações voltadas a supervisões, que envolvam o aspecto emocional do profissional e compartilhamento de suas experiências com os demais profissionais, são estratégias capazes de ensinar o profissional a lidar com situações de sobrecarga no trabalho5.

Neste contexto, estudos anteriores constataram elevado nível de estresse em equipes de atendimento comunitário em saúde mental8. Estes serviços exigem que os profissionais atendam ampla diversidade de necessidades dos usuários, que por sua vez, geralmente, apresentam problemas complexos e graves, além de acentuada dependência, exigindo do profissional elevado nível de envolvimento no trabalho5. Além disso, a falta de recursos organizados para suprir as necessidades das pessoas mentalmente doentes, a baixa taxa de profissionais por usuário e o excesso de trabalho estão presentes nestes serviços e podem contribuir para o sentimento de sobrecarga da equipe4,5.

Sendo assim, este estudo teve como objetivo avaliar a satisfação profissional e a sobrecarga de trabalho dos enfermeiros que desenvolvem suas práticas laborais em serviços de saúde mental, além disso, realizou-se uma comparação em relação aos demais profissionais de saúde atuantes no serviço.

Metodologia

Trata-se de um estudo transversal, com amostragem por critério de conveniência, com abordagem quantitativa descritiva, envolvendo todos os médicos, enfermeiros, psicólogos e técnicos de enfermagem dos oito Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) de um município localizado no extremo sul do Brasil. Como critérios de inclusão foram selecionados os profissionais que atuavam nos serviços no tempo mínimo de seis meses e que não estavam afastados por férias ou licença. A coleta de dados foi realizada entre agosto e novembro de 2016, quando foram convidados a participar do estudo todos dos 64 profissionais. Três por razões pessoais se recusaram, ficando a amostra composta por 61 profissionais.

Instrumentos para coleta de dados

As variáveis demográficas foram coletadas através da aplicação de questionários devidamente estruturados para esta finalidade, que incluía sexo, cor da pele, idade e tempo de trabalho. Para registro do nível econômico, empregou-se a escala de avaliação socioeconômica da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (ABEP)9, que se baseia na acumulação de bens materiais e na escolaridade do chefe da família. Essa classificação enquadra as pessoas em classes (A, B, C, D, ou E), a partir dos escores alcançados. A letra “A” refere-se a classe socioeconômica mais alta, “C e D média e “E” a mais baixa. No presente estudo, não houve profissionais classificados nas classes A e B.

Utilizou-se a escala de avaliação da sobrecarga dos profissionais em serviços de saúde mental (Impacto-BR) para avaliar a sobrecarga dos profissionais. Trata-se de uma escala autoaplicável contendo 28 questões, agrupadas em três subescalas. A primeira subescala avalia o impacto do trabalho sobre a saúde física e mental da equipe. A segunda subescala refere-se aos efeitos da sobrecarga de trabalho no funcionamento da equipe, e a terceira subescala busca avaliar o sentimento de estar sobrecarregado e os efeitos do trabalho no estado emocional do profissional. As opções de resposta aos itens estão dispostas em uma escala ordinal do tipo Likert de 1 a 5, em que o valor 1 representa as alternativas “de forma alguma ou nunca” – valor mínimo de sobrecarga, e o valor 5 representa as alternativas “sempre ou extremamente”, ponto máximo de sobrecarga4,5.

Outro instrumento utilizado para coleta de dados foi à escala de avaliação da satisfação dos profissionais em serviços de saúde mental (Satis-BR) no qual contém 61 questões quantitativas que visam avaliar o grau de satisfação da equipe em relação aos serviços oferecidos e às condições de trabalho na instituição em que atuam. A escala propriamente dita que avalia o grau de satisfação da equipe com os serviços de saúde mental possui 32 itens quantitativos, 30 agrupados em quatro subescalas e dois adicionais, que estão incluídos na escala global. As opções de respostas estão dispostas em uma escala do tipo Likert, de 1 a 5, em que o valor 1 indica muito insatisfeito e 5 representa o grau máximo de satisfação da equipe. Ainda, o instrumento contém questões qualitativas e descritivas que complementam informações referentes a opinião da equipe sobre os serviços. Para o objetivo do nosso estudo, foram utilizadas duas questões qualitativas e descritivas do instrumento referentes aos aspectos que poderiam ser melhorados e que trazem maior insatisfação com o serviço4,5.

Análises estatísticas

Para realização da dupla digitação dos dados utilizou-se o programa Epi Info versão 6.04d, com intuito de conferir possíveis inconsistências. Na análise dos dados foi utilizado o programa SPSS 21.0. Para análise estatística descritiva dos dados, foi realizado o cálculo de médias, desvios padrão e porcentagens para a descrição do perfil sociodemográfico da amostra. Para comparação entre os grupos de profissionais, enfermeiros e demais profissionais, foi utilizado o Teste qui-quadrado.

Neste estudo foram consideradas as seguintes variáveis independentes: sexo, cor da pele, idade, tempo de trabalho, profissão e classe socioeconômica. As variáveis de desfecho foram: satisfação profissional e sobrecarga de trabalho.

Foram considerados estatisticamente significativos valores de p ≤ 0,05.

Aspectos éticos

Todos os profissionais que aceitaram participar do estudo assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido. Este estudo foi aprovado pelo Comitê de ética em pesquisa da Universidade Católica de Pelotas o qual está vinculado.

Resultados

Participaram do estudo 61 profissionais de saúde, sendo destes 4,9% médicos, 23% psicólogos, 27,9% enfermeiros e 44,3% técnicos ou auxiliares de enfermagem. Os resultados demonstram que 83,6 % eram do sexo feminino, 78,7% têm idade entre 36 e 67 anos, 60,7 % pertenciam à classe socioeconômica média e 59% eram casados ou viviam com alguém. Em relação ao nível de escolaridade e ao tempo de trabalho, 63,9% possuíam graduação ou pós-graduação e 47,5% atuavam há seis anos ou mais na área de saúde mental (Tabela 1).

Tabela 1 Descrição sociodemografica da amostra dos profissionais atuantes nos centros de atenção psicossociais. 

Características N (%)
Sexo
Feminino 51 (83,6)
Masculino 10 (16,4)
Cor da Pele
Caucasiano 46 (75,4)
Não caucasiano 15 (24,6)
Idade 24 a 35 anos 36 a 67 anos 13 (21,3) 48 (78,7)
Indice Socioeconômico
Baixa 24 (39,3)
Média 37 (60,7)
Estado Civil
Solteiro/divorciado/viúvo 25 (41,0)
Casado/vive com companheiro 36 (59,0)
Escolaridade
Curso técnico 22 (36,1)
Graduação/pós graduação 39 (63,9)
Profissão
Médicos 3 (4,9)
Enfermeiros 17 (27,9)
Técnico de enfermagem 27 (44,3)
Psicólogos 14 (23)
Tempo de Serviço em Saúde Mental
Menos de 1 ano 10 (16,4)
1 a 6 anos 22 (36,1)
Mais de 6 anos 29 (47,5)
Total 61 (100)

A Tabela 2 demonstra o escore de impacto global dos enfermeiros em relação aos demais profissionais. Quando comparado o nível de sobrecarga global dos enfermeiros (2,92 ± 0,42) em relação aos demais profissionais (3,07 ± 0,49), não houve diferença estatisticamente significativa entre os dois grupos (p = 0,28), sugerindo igualmente uma média sobrecarga de trabalho entre eles. Em relação as subescalas, houve uma tendência a significância nos níveis de sobrecarga emocional dos enfermeiros (2,49 ± 0,57) em relação aos demais profissionais atuantes no serviço (2,15 ± 0,68; p = 0,07), indicando que os enfermeiros podem estar sofrendo uma maior sobrecarga emocional do que os demais profissionais atuantes no serviço (Tabela 2).

Tabela 2 Escores médio de sobrecarga de trabalho e satisfação profissional de acordo com os grupos. 

Enfermeiros Outros profissionais Valor de p
Impacto Global 2,92 ± 0,42 3,07 ± 0,49 0,28
Impacto físico e mental na equipe 1,91 ± 0,74 1,77 ± 0,84 0,55
Impacto sobre o funcionamento da equipe 2,13 ± 0,87 2,07 ± 0,81 0,80
Impacto emocional 2,49 ± 0,57 2,15 ± 0,68 0,07
Satisfação Global 3,38 ± 0,51 3,55 ± 0,52 0,25
Satisfação da equipe em relação a qualidade dos serviços oferecidos 3,36 ± 0,77 3,78 ± 0,56 0,04
Satisfação da equipe em relação a participação no serviço 3,32 ± 0,61 3,36 ± 0,57 0,84
Satisfação da equipe em relação as condições de trabalho 2,99 ± 0,56 3,12 ± 0,65 0,48
Satisfação da equipe em relação ao relacionamento no serviço 3,74 ± 0,57 3,51 ± 0,69 0,23
Total 17 (27,9%) 44 (72,1%)

Teste qui-quadrado, representado por média (DP). Valores de p ≤ 0,05 foram considerados estatisticamente significativos.

Em relação ao escore de satisfação global dos enfermeiros a média foi 3,38 ± 0,51, o que resulta em média satisfação com o trabalho. A subescala de maior pontuação para satisfação foi em relação ao relacionamento no serviço com média 3,74 ± 0,57 e a subescala que gerou menor nível de satisfação foi em relação as condições de trabalho com média 2,99 ± 0,56. Quando comparado os escores de avaliação na escala de satisfação profissional, houve uma diminuição estatisticamente significativa nos níveis de satisfação dos enfermeiros (3,36 ± 0,77) em relação aos demais profissionais atuantes no serviço (3,78 ± 0,56) no escore de qualidade dos serviços oferecido (p = 0,04). (Tabela 2).

Quando analisada a satisfação profissional e sobrecarga de trabalho em relação ao tempo de trabalho, os profissionais que possuíam maior tempo de trabalho em saúde mental apresentaram uma diminuição estatisticamente significativa nos níveis de satisfação profissional (3,26 ± 0,52), quando comparados aos profissionais que possuíam menor tempo de trabalho (3,63 ± 0,49; p = 0,04). Porém, quando analisada a sobrecarga de trabalho, os profissionais que possuíam maior tempo de trabalho em saúde mental tenderam a aumentar os níveis de sobrecarga de trabalho (3,14 ± 0,44) quando comparados aos profissionais que trabalham há menos tempo em saúde mental (2,91 ± 0,48; p = 0,062), independente da profissão.

Os fatores que promoveram maiores níveis de sobrecarga de trabalho entre os enfermeiros estão relacionados ao sentimento de se sentir fisicamente cansado (2,99 ± 0,92) e ao estresse gerado pelo trabalho (3,21 ± 0,63). Já em relação aos fatores que promoveram maior satisfação profissional entre os enfermeiros estão relacionados ao bom relacionamento com a equipe (4,06 ± 0,65) e com o grau de autonomia no serviço (3,82 ± 0,72).

Os fatores que apresentaram menores níveis de satisfação dos enfermeiros estão relacionados à insatisfação salarial (1,67 ± 0,85) e à insatisfação em relação à frequência do contato da equipe com o paciente (1,82 ± 0,99). Já os fatores que apresentaram maiores níveis de satisfação estão relacionados à satisfação em relação à competência da equipe (3,89 ± 0,67) e à satisfação do trabalho em saúde mental (4,02 ± 0,86).

A análise qualitativa da amostra encontrou que 100% dos enfermeiros atuantes no serviço de saúde mental do município acreditam que o serviço poderia ser melhorado. Entre os aspectos que mostrou maiores insatisfações dos enfermeiros na análise qualitativa está a falta de recursos para materiais e alimentos, precariedade na infraestrutura do serviço, dificuldade de estabelecer um sistema de referência e contra referência junto às unidades básicas de saúde do município, falta de reconhecimento profissional, sobrecarga de carga horária de trabalho, e baixa remuneração.

Observou-se uma homogeneidade nas questões qualitativas da escala de satisfação em relação aos aspectos que deveriam ser melhorados no serviço na visão dos enfermeiros e dos demais profissionais. Foram elencadas questões relacionadas à contratação de mais profissionais, melhora na estrutura dos serviços, criação de mais oficinas terapêuticas, maior valorização profissional, melhorias na segurança, realização de capacitações acerca das políticas públicas de saúde mental e maior demanda de recursos para os serviços como materiais e alimentos.

Discussão

Neste estudo, os níveis de satisfação profissional e de sobrecarga de trabalho não demonstraram uma diferença estatisticamente significativa nos enfermeiros em relação aos demais profissionais, atuantes no serviço. No entanto, se verificou um nível intermediário de sobrecarga e satisfação profissional, tanto em enfermeiros quanto nos demais profissionais, resultado que difere de estudos anteriores, os quais encontraram uma baixa sobrecarga de trabalho entre os profissionais atuantes em serviços de saúde mental4,10-15. Isto se deve, provavelmente pelo fato de que há uma insatisfação de grande parte destes profissionais em relação às suas condições de trabalho, podendo estar repercutindo em uma maior sobrecarga no que se refere aos aspectos emocionais e de funcionamento da equipe. Estes resultados demonstram uma emergente necessidade de revisão dos projetos organizacionais, para que se realize uma melhora nesses serviços.

Segundo Popim e Boemer16, os sentimentos despertos frequentemente no exercício de atividades geradoras de estresse e desgaste emocional, são os de insegurança, medo, tristeza e angústia, agressividade e impotência, podendo haver associações individuais relacionadas à demanda que chega à unidade16, podendo estas, influenciar em uma maior sobrecarga de trabalho5. Assim, a sobrecarga de trabalho encontrada em nosso estudo pode acarretar no adoecimento não só físico mas também psíquico dos profissionais.

Na análise qualitativa observou-se que todos os profissionais, não somente os enfermeiros, apresentam diversas insatisfações relacionados a valorização profissional, estrutura e organização do serviço e falta de materiais. Quando comparado os escores de avaliação da escala de satisfação profissional, observou-se uma diminuição estatisticamente significativa nos níveis de satisfação dos enfermeiros em relação aos demais profissionais atuantes no serviço, no escore de qualidade dos serviços oferecidos. Esse resultado sugere que os enfermeiros se sentem mais insatisfeitos em relação ao tratamento e aos cuidados oferecidos ao usuário, provavelmente pelo fato de acreditarem que o serviço precisa ser melhorado. Segundo Nóbrega et al.17, para que se melhore a qualidade e se promova uma atenção contínua e integral nos serviços de saúde mental, diferentes obstáculos precisam ser enfrentados, com foco nas necessidades da população quanto ao acesso e gerenciamento dos recursos humanos, objetivando atender a demanda da rede.

Ao analisar as características funcionais e em relação ao tempo de trabalho em saúde mental, observou-se que os profissionais que possuíam maior tempo de trabalho apresentaram menores níveis de satisfação profissional independe da profissão. Este resultado pode estar associado com uma maior desmotivação do profissional no trabalho com o decorrer do tempo. Neste sentido, a insatisfação com o trabalho pode desencadear a diminuição da realização pessoal com as atividades profissionais, que se manifestam através de sentimentos de desmotivação e redução da autoestima18.

Já em relação aos fatores avaliados, observou-se que, os maiores níveis de satisfação dos enfermeiros estão relacionados, a satisfação em relação a competência da equipe e a satisfação com trabalho realizado em saúde mental, resultado semelhante ao de outro estudo, o qual indicava que os profissionais que desenvolvem suas práticas laborais com saúde mental o fazem por uma questão de escolha e satisfação19,20.

O presente estudo apresenta algumas limitações. Como ter sido realizado em apenas um município do sul do país, os resultados têm reduzido potencial de generalização. O estudo não foi realizado com alguns profissionais que atuam nos CAPS como: os assistentes sociais, auxiliar de higienização e serviços gerais, auxiliar administrativo e da recepção. Estudos que avaliam a satisfação profissional, sobrecarga e condições de trabalho dos enfermeiros atuantes em centros de atenção psicossociais são escassos. A grande maioria destes realiza uma avaliação da qualidade dos serviços com uma amostragem insignificativa desses profissionais. No entanto, em nosso estudo foram avaliados todos os enfermeiros atuantes nestes serviços no município.

Nosso estudo apontou que os enfermeiros que trabalham em serviços de saúde mental podem apresentar maiores níveis de sobrecarga de trabalho. Porém, esta não possui relação com a satisfação do profissional em trabalhar com saúde mental, mas com as condições que o profissional tem sido exposto e as dificuldades encontradas no cotidiano de trabalho. Assim, questões elencadas, neste estudo, referente à falta de recursos e infraestrutura, desvalorização profissional, baixa taxa de profissionais e extensa carga horária de trabalho, podem desencadear consequências negativas à saúde e ao trabalho do profissional, podendo influenciar no serviço oferecido ao usuário.

Considerações finais

Nossos resultados sugerem a necessidade de se estabelecer uma articulação entre os profissionais atuantes nos serviços e a gestão, a fim de implementar estratégias que visem a resolutividade de problemáticas vivenciadas atualmente em serviços de saúde mental e proporcionar maior participação dos profissionais em questões referentes ao serviço e maiores investimentos em questões emergenciais.

Tendo em vista as transformações que o trabalho de enfermagem em saúde mental tem passado com o decorrer do tempo, principalmente após a reforma psiquiátrica e implantação das redes de atenção psicossociais, é de extrema importância à realização de estudos que busquem avaliar a prática de enfermagem, assim como os desafios encontrados pela mesma na prestação do cuidado em saúde mental. Assim, percebe-se a necessidade de se refletir em relação à estruturação do desenvolvimento e organização do trabalho realizado ultimamente em serviços de saúde mental.

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