Saúde mental e enfermagem psiquiátrica: contribuições para a ressocialização da pessoa em sofrimento psíquico

Saúde mental e enfermagem psiquiátrica: contribuições para a ressocialização da pessoa em sofrimento psíquico

Autores:

Cristina Maria Douat Loyola

ARTIGO ORIGINAL

Escola Anna Nery

versão impressa ISSN 1414-8145versão On-line ISSN 2177-9465

Esc. Anna Nery vol.21 no.3 Rio de Janeiro 2017 Epub 26-Jun-2017

http://dx.doi.org/10.1590/2177-9465-ean-2017-0003-0001

Somos favoráveis a que nossos pacientes passem de um lugar para outro, um lugar melhor, sendo mais felizes (se normais, ressocializados ou reabilitados, não sei), e lutaremos por esse objetivo e com os meios que dispusermos (a rede de saúde mental/Rede de Atenção à Saúde Psicossocial-RAPS e os demais laços sociais). Necessitamos ter alguma saúde mental, uma vez que não existe saúde, sem saúde mental. O transtorno mental grave tem força para bloquear a harmonia do funcionamento de órgãos perfeitos, e da sua capacidade de sustentar a vida. Pulmões que oxigenam, rins que filtram, coração que bombeia, podem compor um indivíduo biologicamente saudável, mas que pode não suportar sair da cama, sair de casa, sair para a vida, sair de dentro da dor, porque está deprimido e pode, inclusive, cometer suicídio. Somos mais que a soma de sistemas biológicos saudáveis e funcionantes.

Nessa perspectiva, ter saúde mental pode ser também definido como, caber na vida, e alguns conseguem isso com largueza, outros, com muita dificuldade. É nessa mirada que vamos discutir o título deste exemplar da revista, "Saúde mental e Enfermagem Psiquiátrica: contribuições para a ressocialização da pessoa em sofrimento psíquico". O título é cuidadoso, ao usar ressocialização no lugar de reabilitação, essas palavras performáticas que suscitaram discussão no campo da saúde mental. De toda forma, conservamos um certo pecado do prefixo "re", que sempre remete à busca de algo que já se teve, ou que deve ser retomado, ou revivido, expectativa temível, quando se trata do sofrimento psíquico ou da doença mental. Porque leva-se em torno de dez anos, desde os primeiros pródromos de doença mental ou de sofrimento psíquico, até a chegada em um local de atendimento em saúde, e neste caminho, a vida de relações, esta mesma do social, do sentimento coletivo, da solidariedade, vai se moldando e empobrecendo.

Então ressocializar, nesse foco de análise, carece de cronologia inicial. A partir de qual momento a socialização era boa e deve ser retomada? Por esse motivo que a ressocialização deve assumir caráter de intervenção clínica no sofrimento psíquico, socialização permanente e é algo que deve estar por dentro da ação de cuidar, como guia terapêutico, e não como algo opcional, ou apenas para pacientes com longo tempo de diagnóstico. E, devemos ter o cuidado de olhar para o social, para o coletivo, sem nos perdermos nos intrincados meios. Estou falando de ações coletivas de entreter, de oficinas de manter ocupado, dentro do discurso da Psiquiatria. Como diz Saraceno,1 é a quebra do entretenimento, a indisciplina da vida, que possui ações dotadas de maior eficácia transformadora da vida dos sujeitos. Vale para qualquer sujeito, qualquer um de nós, não " eles", apenas. De fato, microrrupturas de um cardápio de pequenos entretenimentos é que podem abrir e mostrar fontes de recursos e modos de operar até, então, inimagináveis.

E nós da enfermagem, o que podemos? Bem, trabalhar em enfermagem psiquiátrica é se interessar em tudo que antes era considerado "não científico". É uma equipe que aposta que algo pode se mover da inércia, que a repetição pode ter falhas, e que trabalhamos sempre no que o sujeito tem, e não no que lhe falta, daí porque devemos trabalhar a partir do sintoma e não da eliminação do sintoma. Somos uma certa contramão do discurso da medicina baseada em evidência, e isso produz muito incômodo e incerteza. Essa solução, possível para o sujeito, o sintoma, não é o sintoma da clínica cirúrgica, a ser anulado, mas sim uma questão a ser refletida. Quem ordena o cuidado, é o sujeito, nós secretariamos, produzindo um tratamento paradoxal, porque o tratamento só anda, se falhar: "isso rateia, isso falha, isso anda...", é assim que opera o psíquico. E quando o sintoma se esvazia, não quer dizer CURA, porque de fato não existe, no psíquico, um lado exterior, onde possa-se jogar fora o que não presta. Como afirma Estamira,2 não existe um "lado de fora" no psíquico, um tipo de lixo, e é preciso aprendermos a conviver com essa precariedade.

O sintoma existe para ser operado e não eliminado, e o que uma pessoa diz não é igual ao que ela declara. Para nossa clínica de cuidar, o sintoma é feito de mensagem cifrada e de prazer, e é o melhor que o sujeito conseguiu fazer para ele, a amarração possível. Não se trata mais de decidir o que o outro (cliente, familiar) deve fazer, mas apropriar-se da tarefa juntos, o que implica intimidade, contato próximo e cotidiano. E ter intimidade, não é o mesmo que ser íntimo e aqui temos mais um desafio. O profissional de enfermagem é formado para intervir, decidir, determinar, e defronta-se na enfermagem psiquiátrica, com um trabalho que implica, cotidianamente, em negociar, combinar, fechar contratos, renegociar e responsabilizar. O cuidado deve ser determinado a partir das características das pessoas cuidadas, e da capacidade dos prestadores de cuidados para utilizar o que aprendem com elas. É, portanto, o resultado de uma aprendizagem permanente, como ponto de ancoragem e isto é o oposto do que geralmente se ensina em saúde.

A definição de que saúde não é apenas ausência de doença, obriga-nos a explorar o significado desse anunciado. Implica em que, quando há doença, não há forçosamente, perda de toda a saúde, mas sim alteração, modificação. Não é o tudo, ou o nada. É importante aprender a utilizar o que restou da saúde, isto é, as capacidades de vida, para lutar contra a doença, em vez de centrar-se unicamente na própria doença. Temos que nos haver com cinco questões: não há coincidência total entre loucura e doença; a periculosidade, como instância diagnóstica pode falhar, sobretudo na Atenção Básica; doença mental é uma experiência humana, o que difere é profundidade e a extensão desta experiência; doença mental tem tratamento e cura (50% curam, 30% precisam de proteção para vida "normal", 20% evolução severa e crônica); ninguém vai dormir normal e acordar louco, há traços. Cuidar, em enfermagem psiquiátrica, exige uma posição mais vazia, é diferente da "compulsão em cuidar", que já nos levou a cabeças raspadas nos hospícios para " prevenir" pediculose. É uma parceria de trabalho em equipe que se forma pelo trabalho, e uma cola imaginária de grupo (que se contrapõe ao corporativismo). Cuidar aqui como um saber que sai do saber exposto - de teorias e técnicas, para o saber suposto - o sujeito como potência.3 Onde o a priori do saber científico, deve ser posto entre aspas, para destacar os elementos fornecidos pelo sujeito, saindo do lugar comum. Cuidar da vida, desse infinito novelo. A atenção é a melhor das solidariedades.

REFERÊNCIAS

1 Saraceno B. Libertando identidades: da reabilitação psicossocial à cidadania possível. 1ª ed. Rio de Janeiro: Editora Te Corá; 1999. 176 p.
2 Juhas RT, Santos NO. Ainda em cartaz, Estamira: A psicanálise nas telas do Cinema. Rio de Janeiro, Estud Psicanal [internet]. 2011 Dec; [cited 2017 May 14]; 36:157-64. Available from:
3 Rocha S, Loyola CMD, organizadores. Cuidando do Futuro: Redução da mortalidade materna e infantil no Maranhão. 1ª ed. Belo Horizonte: Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento; 2012. 304 p.
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