Série tuberculose 2019

Série tuberculose 2019

Autores:

Denise Rossato Silva,
Giovanni Battista Migliori,
Fernanda Carvalho de Queiroz Mello

ARTIGO ORIGINAL

Jornal Brasileiro de Pneumologia

versão impressa ISSN 1806-3713versão On-line ISSN 1806-3756

J. bras. pneumol. vol.45 no.2 São Paulo 2019 Epub 25-Abr-2019

http://dx.doi.org/10.1590/1806-3713/e20190064

A End TB Strategy (Estratégia para Acabar com a Tuberculose) da Organização Mundial da Saúde (OMS) visa a acabar com a epidemia global de tuberculose até 2030. As metas incluem uma redução de 90% da mortalidade da tuberculose e uma redução de 80% da incidência da doença. Não obstante o progresso notável, com avanços na detecção da doença e melhoria das taxas de sucesso do tratamento, a tuberculose ainda é comum em vários países. Embora a incidência e mortalidade da tuberculose estejam diminuindo em todo o mundo, a doença ainda é um importante problema de saúde pública.1 Na América Latina, a incidência vem diminuindo 1,7% ao ano desde 2000, consideravelmente abaixo da queda anual de 5,3% necessária para atingir as metas propostas pela End TB Strategy da OMS.2,3 Em comemoração ao Dia Mundial da Tuberculose (24 de março), o presente número do JBP traz vários artigos cujo foco é a tuberculose, a fim de apresentar uma visão geral dos diversos aspectos do controle da doença.

Para atingir as metas propostas, a End TB Strategy da OMS apoia-se em três pilares. Um dos pilares (o segundo pilar) é “políticas arrojadas e sistemas de apoio”, que inclui estruturas reguladoras para a notificação de casos.1 Neste número do JBP, um estudo ecológico de séries temporais4 realizado na cidade de Juazeiro (BA) relatou o comportamento dos indicadores epidemiológicos de tuberculose. Além de mostrar a persistência da carga da doença no município, o estudo identificou os problemas locais que precisam ser abordados e ressaltou a importância do monitoramento constante dos indicadores epidemiológicos.

O diagnóstico precoce da tuberculose é um dos componentes do primeiro pilar da End TB Strategy da OMS (“tratamento e prevenção integrados e voltados para o paciente”). Em nossa série sobre tuberculose, o diagnóstico da doença é abordado em quatro artigos originais.5-8 Desde sua introdução em 2010, o teste molecular de Mycobacterium tuberculosis e sua resistência à rifampicina (teste Xpert MTB/RIF) é cada vez mais usado como teste diagnóstico inicial de tuberculose em muitos países.9,10 Dois dos artigos de nossa série abordaram o uso do teste Xpert MTB/RIF.5,6 No primeiro artigo,5 um estudo retrospectivo realizado em um centro terciário de referência, os autores mostraram que o teste Xpert MTB/RIF é um método altamente preciso de detecção de tuberculose e resistência a rifampicina em amostras de escarro, lavado broncoalveolar e aspirado traqueal. No segundo artigo,6 a sensibilidade e especificidade do teste Xpert MTB/RIF foram avaliadas em uma população de indígenas do Brasil. Trata-se de um estudo extremamente importante, pois é o primeiro a avaliar o desempenho do teste em uma população desse tipo. Ambos os artigos enfatizam que é essencial determinar o efeito do teste Xpert MTB/RIF no diagnóstico da tuberculose em condições programáticas no Brasil.11

É também importante melhorar a cobertura e qualidade do diagnóstico para indivíduos infectados por tuberculose resistente. Em um estudo de coorte realizado em um centro de referência para tuberculose no estado de São Paulo entre 2006 e 2010,7 os autores observaram que a detecção precoce de infecção por cepa resistente de M. tuberculosis relacionou-se com taxas de cura mais altas em pacientes com comorbidades e em pacientes com maior peso corporal no início do tratamento (em comparação com as taxas de cura observadas naqueles sem comorbidades e naqueles com menor peso corporal no início do tratamento). Em outro estudo realizado no estado de São Paulo,8 os autores avaliaram o diagnóstico de tuberculose multirresistente por meio do ensaio GenoType MTBDRplus, versão 2.0, que detecta resistência simultânea a rifampicina e isoniazida. O ensaio GenoType MTBDRplus apresenta muitas vantagens em relação aos testes fenotípicos de sensibilidade aos fármacos: excelente precisão, menor tempo de diagnóstico e menos resultados falsos, entre outras.

Outro componente do primeiro pilar da End TB Strategy da OMS é o tratamento da tuberculose. Sabe-se bem que concentrações subterapêuticas de tuberculostáticos de primeira linha podem contribuir para o fracasso do tratamento, recidiva, resistência adquirida e morte.12 Em uma carta ao editor incluída em nossa série sobre tuberculose,13 os investigadores descreveram os níveis séricos de pirazinamida, medidos por HPLC, em 46 pacientes. Eles demonstraram que, pelo menos em sua amostra, o esquema terapêutico atualmente usado no Brasil propicia exposição adequada à pirazinamida.

Outro componente do primeiro pilar da End TB Strategy da OMS é o tratamento preventivo de pessoas de alto risco. Nesse contexto, o presente número do JBP traz um artigo que se concentra nos aspectos relacionados com a tuberculose latente em pacientes com doenças reumáticas, especialmente aqueles que usam agentes anti-TNF, abordando a definição de tuberculose latente e a prevalência da doença, bem como os mecanismos envolvidos em sua patogênese, os medicamentos usados atualmente e os critérios de avaliação, além de seu diagnóstico e tratamento.14

Mesmo após tratamento adequado e cura microbiológica, as sequelas da tuberculose pulmonar podem causar sintomas persistentes e comprometer a função pulmonar e a qualidade de vida. Em um artigo de revisão, Tiberi et al.15 descreveram o tratamento de casos de tuberculose grave e suas sequelas, discutindo a importância de intervenções farmacológicas e não farmacológicas nos pacientes acometidos.

Por fim, o terceiro pilar da End TB Strategy da OMS é “intensificação das pesquisas e inovações”.1 Na América Latina, é preciso identificar prioridades na área de pesquisa de tuberculose e aumentar o número de publicações baseadas em dados locais.2,3 No presente número do jornal, Migliori et al.16 relatam os resultados de uma revisão sistemática que identificou estudos sobre tuberculose, tuberculose resistente e tuberculose multirresistente publicados em países da América Latina onde a tuberculose é prioridade (Brasil, Peru, México, Colômbia e Argentina). Os autores constataram que o nível de produção científica é maior no Brasil, México e Peru. Constataram também que ainda faltam publicações baseadas em dados locais e relataram que colaborações internacionais seriam muito úteis para aumentar a produção científica na América Latina. Os achados dessa revisão sistemática ressaltam a importância da construção de uma rede científica latino-americana de pesquisa de tuberculose. Uma rede regional permitiria a criação de mais oportunidades para projetos colaborativos de pesquisa. Além disso, redes científicas facilitam o recrutamento de pacientes e permitem a inclusão de pacientes provenientes de diferentes contextos. Ainda, as colaborações têm efeitos positivos gerais no número de manuscritos científicos produzidos e em sua qualidade. Portanto, as perspectivas futuras incluem maior colaboração para a incorporação de tópicos relevantes nos planos de pesquisa. O impacto das colaborações internacionais no panorama científico da América Latina demonstra a importância de uma abordagem global para enfrentar os desafios do controle da tuberculose.

Acreditamos que esta série sobre tuberculose, dedicada à comemoração do Dia Mundial da Tuberculose, ressalta os avanços relevantes em nossa compreensão de muitos tópicos referentes à doença. É importante que nos concentremos nos três pilares da End TB Strategy da OMS, proposta para que se atinja a meta de acabar com a epidemia global de tuberculose.

REFERÊNCIAS

1 World Health Organization. Global Tuberculosis report 2018. Geneva: World Health Organization; 2018.
2 Rendon A, Fuentes Z, Torres-Duque CA, Granado MD, Victoria J, Duarte R, et al. Roadmap for tuberculosis elimination in Latin American and Caribbean countries: a strategic alliance. Eur Respir J. 2016;48(5):1282-1287.
3 Torres-Duque CA, Fuentes Alcalá ZM, Rendón A, Migliori GB. Roadmap for Tuberculosis Elimination in Latin America and the Caribbean. Arch Bronconeumol. 2018;54(1):7-9.
4 Souza CDF, Matos TS, Santos VS, Santos FGB. Tuberculosis surveillance in an endemic area of northeastern Brazil. What do the epidemiological indicators reveal? J Bras Pneumol. 2019;45(2): e20180257.
5 Silva TM, Soares VM, Ramos MG, Santos A. Accuracy of a rapid molecular test for tuberculosis in sputum samples, bronchoalveolar lavage fluid, and tracheal aspirate obtained from patients with suspected pulmonary tuberculosis at a tertiary referral hospital. J Bras Pneumol. 2019;45(2):e20170451.
6 Malacarne J, Heirich AS, Cunha EAT, Kolte IV, Souza-Santos R, Basta PC. Performance of diagnostic tests for pulmonary tuberculosis in indigenous populations in Brazil: the contribution of Rapid Molecular Testing. J Bras Pneumol. 2019;45(2):e20180185.
7 Savioli MTG, Morrone N, Santoro I. Primary bacillary resistance in multidrug-resistant tuberculosis and predictive factors associated with cure at a referral center in São Paulo, Brazil. J Bras Pneumol. 2019;45(2):e20180075.
8 Brandao AP, Pinhata JMW, Oliveira RS, Galesi VMN, Caiaffa-Filho HH, Ferrazoli L. Speeding up the diagnosis of multidrug-resistant tuberculosis in a high-burden region with the use of a commercial line probe assay. J Bras Pneumol. 2019;45(2):e20180128.
9 Boehme CC, Nabeta P, Hillemann D, Nicol MP, Shenai S, Krapp F, et al. Rapid molecular detection of tuberculosis and rifampin resistance. N Engl J Med. 2010;363(11):1005-15.
10 World Health Organization. Tuberculosis diagnostics: Xpert MTB/RIF test rollout update 2017. Geneva: World Health Organization; 2018.
11 Silva DR, Sotgiu G, D'Ambrosio L, Pereira GR, Barbosa MS, Dias NJD, et al. Diagnostic performances of the Xpert MTB/RIF in Brazil. Respir Med. 2018;134:12-15.
12 Park JS, Lee JY, Lee YJ, Kim SJ, Cho YJ, Yoon H. Serum Levels of Antituberculosis Drugs and Their Effect on Tuberculosis Treatment Outcome. Antimicrob Agents Chemother. 2016;60(1):92-8.
13 Lucena SMA, Alberio CAA, Pinto ACG, Vieira JLF. Serum pyrazinamide concentrations in patients with pulmonary tuberculosis. J Bras Pneumol. 2019;45(2):e20180254.
14 Anton C, Machado FD, Ramirez JMA, Bernardi RM, Palominos PE, Brenol CV, Mello FCQ, Silva DR. Latent Tuberculosis Infection in Patients with Rheumatic Diseases. J Bras Pneumol. 2019;45(2):e20190023.
15 Tiberi S, Torrico MM, Rahman A, Krutikov M, Visca D, Silva DR, Kunst H, Migliori GB. Managing severe tuberculosis cases and their sequelae: from intensive care to surgery and rehabilitation. J Bras Pneumol. 2019;45(2):e20180324.
16 Migliori GB, Centis R, D'Ambrosio L, Silva DR, Rendon A. International collaboration among medical societies is an effective way to boost Latin American production of articles on tuberculosis. J Bras Pneumol. 2019;45(2):e20180420.
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