Síndrome de burnout entre médicos plantonistas de unidades de terapia intensiva

Síndrome de burnout entre médicos plantonistas de unidades de terapia intensiva

Autores:

Gabriela Lopes Carvalho Marques,
Flávia Lopes Carvalho,
Sandra Fortes,
Hamilton Raposo Miranda Filho,
Gilberto Sousa Alves

ARTIGO ORIGINAL

Jornal Brasileiro de Psiquiatria

versão impressa ISSN 0047-2085versão On-line ISSN 1982-0208

J. bras. psiquiatr. vol.67 no.3 Rio de Janeiro jul./set. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/0047-2085000000202

ABSTRACT

Objectives:

To estimate the prevalence of burnout syndrome (SB) and associated factors among attending physicians of intensive care units (ICUs) of São Luís-MA.

Methods:

Participants included 60 physicians on 6 MTIs from the metropolitan area of São Luís-MA investigated in September to December of 2012, using a self-administered questionnaire developed by the authors, covering sociodemographic characteristics, working conditions, stressors and the Maslach Burnout Inventory (MBI). Descriptive statistics and analysis of factors associated with SB through the Chi-square test and Prevalence Ratio.

Results:

Most are women (n = 38), between 30-39 years, formed 10 years ago or less, operating for five years or less In the ICU, in two hospitals, caring for six to ten patients/duty and high workload. The main stress factors were excessive noise and possibility of complications in attendance. The prevalence of burnout with a high score (scores greater than or equal to 27 in emotional exhaustion and 13 in depersonalization and less than 31 in reducing professional achievement) in one of the three dimensions was 50%, high scores in all three dimensions was 13.3%, and high levels in the dimensions analyzed separately in 35% of emotional exhaustion, depersonalization 6.7% in and 25% reduction in job satisfaction.

Conclusions:

The prevalence of burnout syndrome was high, being more common in women, in the adult ICU, work in more than two hospitals and attend more than ten patients per shift.

Keywords Working conditions; stress; exhaustion professional; burnout syndrome; intensive care units

INTRODUÇÃO

O trabalho é uma atividade que pode ocupar grande parcela do tempo de cada indivíduo e do seu convívio em sociedade1, e nem sempre possibilita a realização profissional, podendo, ao contrário, causar problemas desde insatisfação até exaustão2.

Nos últimos anos, a relação entre estresse ocupacional e saúde mental dos trabalhadores tem sido amplamente discutida36, principalmente em decorrência dos níveis alarmantes de incapacidade temporária, absenteísmo, aposentadorias precoces e riscos à saúde associados à atividade profissional4.

Entre as consequências psíquicas geradas por problemas ocupacionais, estão a síndrome de burnout, um termo utilizado para explicar o sofrimento do homem em seu ambiente de trabalho, associado a perda de motivação e alto grau de insatisfação, decorrentes dessa exaustão7.

A síndrome de burnout ou síndrome da estafa profissional constitui um quadro bem definido, caracterizado por exaustão emocional, despersonalização e redução da realização pessoal8. A exaustão emocional representa o esgotamento dos recursos emocionais do indivíduo, decorrendo principalmente da sobrecarga e do conflito pessoal nas relações interpessoais, sendo considerado o traço inicial da síndrome8,9. A despersonalização é caracterizada pela insensibilidade emocional do profissional, que passa a tratar os paciente e colegas como objetos8. Trata-se de um aspecto fundamental para caracterizar a síndrome de burnout, já que suas outras características podem ser encontradas nos quadros depressivos em geral8,9. Por fim, a redução da realização pessoal (ou sentimento de incompetência ou ineficiência) revela uma autoavaliação negativa associada a insatisfação e infelicidade com o trabalho8,9.

São vários os sintomas atribuídos à síndrome, sendo eles divididos em quatro categorias: físicos (fadiga, distúrbios do sono, dores musculares, cefaleias), psíquicos (falta de atenção e/ou concentração, sentimento de solidão, baixa autoestima, labilidade emocional), comportamentais (negligência, irritabilidade, comportamento de autorrisco) e defensivos (tendência ao isolamento, perda de interesse pelo trabalho, sentimento de incompetência)9.

A duração do burnout pode variar de anos até décadas10. Sua ocorrência costuma ainda ser insidiosa e cumulativa, com incremento progressivo na gravidade, podendo não ser percebida pelo indivíduo, que nesses casos se recusa a acreditar estar acontecendo algo de errado com ele10,11.

Entre as variáveis responsáveis pelo desencadeamento da síndrome de burnout, encontramos: características pessoais (idade, nível educacional, estado civil), características do trabalho (tempo de profissão, tipo de ocupação, relação com clientes/colegas), características organizacionais (ambiente físico, mudanças organizacionais, normas institucionais) e características sociais (suporte social e familiar, cultura e prestígio)9,12.

Burnout é um tipo de estresse ocupacional que acomete profissionais envolvidos com qualquer tipo de cuidado, sendo os trabalhadores que atendem ou assistem pessoas em situação de risco ou de extrema responsabilidade normalmente os mais acometidos8,12,13.

Entre os fatores ambientais mais relacionados ao burnout no ambiente da unidade de terapia intensiva (UTI), estão a convivência recorrente com a situação de morte, o contato com as famílias e o medo de ser responsabilizado pelo fracasso terapêutico dos pacientes1416. Outros estudos citam ainda características do ambiente físico dessas unidades, como quartos fechados, com condições e ritmos de trabalho extenuantes, rotinas exigentes, questões éticas em que cabem decisões frequentes e difíceis, imprevisibilidade e carga horária de trabalho excessiva14,1720.

A prevalência da síndrome de burnout ainda é incerta, mas dados sugerem que acomete um número significativo de indivíduos, variando de 4% - quando três dimensões estão presentes - a 85,7%, quando apenas uma dimensão está acometida1,18,19,20.

Portanto, o burnout pode ser considerado um grande problema no mundo profissional da atualidade1,21, fazendo uma relação direta do homem contemporâneo e as exigências do trabalho em que está inserido.

Este trabalho tem como objetivo descrever as características sociodemográficas e as condições de trabalho dos médicos plantonistas das UTIs, listar os principais fatores estressantes em UTIs, verificar a presença da síndrome de burnout na população referida e associar os dados sociodemográficos e as condições de trabalho com a síndrome.

MÉTODOS

Após aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Ceuma, foi realizado um estudo observacional, descritivo e transversal, entre setembro e dezembro de 2012, abrangendo os médicos plantonistas das UTIs de seis hospitais em São Luís-MA, sendo três UTIs adulto e três UTIs neonatal. Foram incluídos os médicos com Residência Médica e/ou Programa de Especialização em Medicina Intensiva e/ou experiência de, no mínimo, um ano, desde que concordassem em participar da pesquisa por meio da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), conforme a Resolução n° 196/96, do Conselho Nacional de Saúde e suas complementares.

No município existem 12 UTIs, sendo quatro unidades especializadas no atendimento neonatal e oito unidades para tratamentos intensivos em adultos. Após liberação pela direção das unidades hospitalares das UTIs, os dados foram coletados em três UTIs neonatais e três UTIs adulto.

O cálculo amostral foi realizado com base nos resultados de estudos da prevalência da síndrome de burnout entre profissionais de saúde18,22, quando se aplicou o poder do teste de 85% e o nível alfa de significância de 5% e se chegou ao tamanho amostral mínimo de 50 médicos, por meio do Programa Biostat®. Considerando possíveis perdas, a presente pesquisa foi idealizada com a amostra de 60 médicos plantonistas em UTIs, devido ao acréscimo de 20% na amostra.

Para a coleta de dados, foi utilizado um questionário sociodemográfico elaborado pelos próprios autores, respondido pelos participantes, após esclarecimento e consentimento pelo TCLE.

O questionário apresenta três blocos de questões:

  1. Identificação geral (Questionário Sociodemográfico): destinado a determinar o perfil dos indivíduos quanto às características sociodemográficas e condições de trabalho;

  2. Fatores estressantes presentes em UTI;

  3. Avaliação do nível de burnout por meio de perguntas baseadas no Maslach Burnout Inventory - Human Services Sorvem (MBI-HSS), em sua versão brasileira, traduzido e validado por Carlotto e Câmara23.

O Questionário MBI é composto por 22 afirmações sobre sentimentos e atitudes que englobam três dimensões fundamentais da síndrome, divididos em três escalas de sete pontos, que variam de 0 a 6. Dessa maneira, foram descritas, de forma independente, cada uma das dimensões que caracterizam a estafa profissional.

A exaustão profissional será avaliada por nove itens, a despersonalização, por cinco e a realização pessoal, por oito. As notas de corte utilizadas serão as empregadas no estudo de Maslach13. Para exaustão emocional, uma pontuação maior ou igual a 27 indica alto nível, de 17 a 26, nível moderado e menor que 16, nível baixo. Para despersonalização, pontuações iguais ou maiores que 13 indicam alto nível, de 7 a 12, nível moderado e menores de 6, nível baixo. A pontuação relacionada à redução da realização profissional vai em direção oposta às outras, uma vez que pontuações de 0 a 31 indicam alto nível, de 32 a 38, nível moderado e maior ou igual a 39, nível baixo.

Descrevemos os resultados interpretados pelo questionário de Maslach, segundo os critérios de Ramirez et al.24 e os critérios de Grunfeld et al.25; os primeiros definem burnout pela presença das três dimensões em níveis altos, enquanto os segundos aceitam apenas uma dimensão, independentemente de qual seja, para fazer o diagnóstico de síndrome.

A análise dos dados foi feita por meio do software Biostat®. Foram utilizados os parâmetros da estatística descritiva adotando-se cálculos de frequências simples e relativas. Realizou-se análise da associação entre as variáveis sociodemográficas e condições de trabalho com o resultado do MBI, segundo os critérios de Grunfeld et al.24, por meio de testes de associação (teste de Qui-quadrado e Razão de Prevalência). Em todos os testes, o nível de significância aplicado foi de 5%, ou seja, foi considerado significativo quando p < 0,05.

RESULTADOS

Dos 60 médicos plantonistas das UTIs, a maioria pertence ao sexo feminino, entre 30 e 39 anos, casadas, formadas há 10 anos ou menos, e as principais especialidades foram Neonatologia, Pediatria e Medicina Intensiva (Tabela 1).

Tabela 1 Características sociodemográficas dos médicos plantonistas das unidades de terapia intensiva em São Luís-MA, 2012 

Variáveis Frequência (n = 60) Percentual (100%)
Gênero
Masculino 22 36,7
Feminino 38 63,3
Idade
23-29 anos 11 18,3
30-39 anos 28 46,7
40 anos ou mais 21 35,0
Estado civil
Solteiro 16 26,7
Casado 40 66,7
Divorciado 04 06,7
Tempo de formado
≤ 10 anos 46 76,7
11 a 20 anos 11 18,3
≥ 21 anos 03 05,0
Especialidade médica
Clínica Geral 08 13,3
Clínica Médica 06 10,0
Medicina Intensiva 10 16,7
Neonatologia 15 25,0
Pediatria 14 23,3
Outros 07 11,7

Quanto às condições de trabalho, 30 médicos trabalham nas UTIs adulto e os outros 30, nas UTIs neonatal; atuam na UTI entre um e cinco anos, trabalham em dois hospitais, assistindo em média seis a dez pacientes por plantão, com carga de trabalho semanal entre 20 e 40 horas, e a maioria tem como carga horária habitual do seu turno 12 horas (Tabela 2).

Tabela 2 Condições de trabalho dos médicos plantonistas das unidades de terapia intensiva em São Luís-MA, 2012 

Variáveis Frequência (n = 60) Percentual (100%)
Tipo de UTI
Adulto 30 50,0
Neonatal 30 50,0
Tempo de trabalho em UTI
1 a 5 anos 36 60,0
6 a 10 anos 10 16,7
11 a 15 anos 07 11,7
≥ 16 anos 07 11,7
Quantidade de hospitais
1 12 20,0
2 22 36,7
3 20 33,3
4 ou mais 06 10,0
Número de pacientes
6 a 10 pacientes 34 56,7
11 a 15 pacientes 17 28,3
≥ 16 pacientes 09 15,0
Carga horária semanal
20 a 40 horas semanais 24 40,0
41 a 60 horas semanais 17 28,3
61 a 80 horas semanais 10 16,7
≥ 81 horas semanais 09 15,0
Carga horária do turno
06 horas 18 30,0
12 horas 40 66,7
24 horas 02 03,3

UTI: unidade de terapia intensiva.

Os médicos apontaram como os principais fatores estressantes em UTI os ruídos excessivos e a possibilidade de complicações no atendimento aos pacientes internados (Tabela 3).

Tabela 3 Fatores estressantes em unidades de terapia intensiva de acordo com os médicos plantonistas em São Luís-MA, 2012 

Fatores estressantes em UTI Frequência (n = 60) Percentual (100%)
Ruídos excessivos na UTI 45 75,0
Possibilidade de complicações no atendimento 43 71,7
Problemas administrativos 41 68,3
Comprometimento da equipe multidisciplinar 41 68,3
Falta de recursos materiais 39 65,0
Lidar com sofrimento e morte 38 63,3
Lidar com diversas questões simultaneamente 37 61,7
Quantidade de pacientes por médico 34 56,7
Ritmo acelerado das atividades profissionais 32 53,3
Cuidar do paciente terminal 20 33,3
Pressão para dar alta aos pacientes 20 33,3
Relacionamento com a equipe multidisciplinar 13 21,7

UTI: unidade de terapia intensiva.

Em relação à síndrome de burnout, a prevalência de escore alto em uma das três dimensões do MBI, segundo os critérios de Grunfeld et al., foi de 50%; a prevalência de escore alto nas três dimensões, de acordo os critérios de Ramirez et al., foi de 13,3%, e a prevalência de escore alto em cada uma das três dimensões analisadas separadamente foi de 35% de exaustão emocional, 6,7% de despersonalização e 25% de redução da realização profissional (Tabela 4).

Tabela 4 Avaliação do Maslach Burnout Inventory segundo diferentes critérios em médicos plantonistas das unidades de terapia intensiva em São Luís-MA, 2012 

Critérios Resultados
Frequência (n = 60) Percentual (100%)
Dimensões isoladas
Exaustão emocional
Baixo 20 33,3
Moderado 19 31,7
Alto 21 35,0
Despersonalização
Baixo 40 66,7
Moderado 16 26,7
Alto 04 06,7
Redução da realização pessoal
Baixo 27 45,0
Moderado 18 30,0
Alto 15 25,0
Grunfeld et al.
Presença de:
Exaustão emocional em nível alto OU
Despersonalização em nível alto OU
Redução da realização profissional em nível alto 30 50,0
Ramirez et al.
Presença de:
Exaustão emocional em nível alto E
Despersonalização em nível alto E
Redução da realização profissional em nível alto 01 13,3

A síndrome de burnout nas UTIs estudadas foi mais prevalente no sexo feminino, com menos de 40 anos, casadas, formadas há 10 anos ou menos e que possuíam especialidades médicas em saúde da criança (Tabela 5).

Tabela 5 Associação entre as características sociodemográficas e a síndrome de burnout em médicos plantonistas das unidades de terapia intensiva em São Luís-MA, 2012 

Variáveis Síndrome de burnout
Total Sim Não RP p IC 95%
Gênero
Masculino 22 7 15 0,53 0,0304 0,27-1,02
Feminino 38 23 15
Idade
≤40 anos 39 18 21 0,81 0,2941 0,48-1,33
>40 anos 21 12 9
Estado civil
Companheiro instável 20 12 8 1,33 0,2057 0,81-2,19
Companheiro estável 40 18 22
Tempo de formado
≤ 10 anos 46 22 24 0,84 0,3801 0,49-1,44
> 11 anos 14 8 6
Especialidade médica
Saúde do Adulto 31 12 19 0,62 0,0606 0,37-1,06
Saúde da Criança 29 18 11

A prevalência de burnout foi mais elevada nas UTIs adulto, onde os profissionais trabalham em dois ou mais hospitais, assistem mais de 10 pacientes por plantão, com carga horária semanal menor que 60 horas, porém com turno maior ou igual a 12 horas (Tabela 6).

Tabela 6 Associação entre as condições de trabalho e a síndrome de burnout em médicos plantonistas das unidades de terapia intensiva em São Luís-MA, 2012 

Variáveis Síndrome de burnout
Total Sim Não RP p IC 95%
Tipo de UTI
Adulto 30 22 8 2,75 0,0004 1,46-5,17
Neonatal 30 8 22
Tempo em UTI
≤ 10 anos 46 21 25 0,71 0,1799 0,43-1,17
>11 anos 14 9 5
Quantidade de hospitais
≤ 2 34 12 22 0,51 0,0095 0,30-0,86
> 2 26 18
Número de pacientes
≤ 10 pacientes 34 11 23 0,44 0,0021 0,26-0,76
> 10 pacientes 26 19 7
Carga horária semanal
≤ 60 horas/sem 41 22 19 1,27 0,2894 0,70-2,32
> 60 horas/sem 19 8 11
Carga horária do turno
< 12 horas 18 9 9 1 0,3891 0,58-1,74
≥ 12 horas 42 21 21

UTI: unidade de terapia intensiva.

Ao relacionarmos as características sociodemográficas e as condições de trabalho com a síndrome de burnout foram encontradas associações estatisticamente significativas entre a síndrome e o sexo feminino (p = 0,0304), trabalho em UTI adulto (p = 0,0004), trabalhar em mais de dois hospitais (p = 0,0095) e número de pacientes maior que 10 por plantão (p = 0,0021) (Tabelas 5 e 6).

DISCUSSÃO

O perfil dos médicos plantonistas das UTIs em São Luís-MA é de uma população jovem, predominantemente feminina, casada, com menos de dez anos de formada, tendo como principais especialidades a Neonatologia, seguida da Pediatria e Medicina Intensiva, trabalhando há menos de cinco anos na UTI, em cerca de dois hospitais, cuidando de seis a dez pacientes por plantão e com elevada carga horária de trabalho.

Quanto às características sociodemográficas e condições de trabalho, os resultados definem um perfil que se assemelha ao encontrado na população médica nacional3,14,26, exceto pela predominância feminina, possivelmente explicada pela maior procura das especialidades pediátricas por médicas, dados confirmados ao comparar nossos resultados com o estudo de Lacerda et al.27.

Em relação aos fatores estressantes em UTI, os plantonistas avaliados apontaram como os principais os ruídos excessivos e a possibilidade de complicações no atendimento aos pacientes internados, resultados esses semelhantes aos encontrados na literatura14,15,28.

As UTIs são um ambiente com elevado estresse e ansiedade associados, motivados pelo relacionamento interpessoal, emoções intensas causadas pela exposição constante ao risco de morte, pela frequente oscilação entre sucesso e fracasso e pelas exigências impostas à equipe, e todos esses estímulos levam ao surgimento de sentimentos como inadequação, insegurança e impotência, capazes de influenciar de forma negativa a qualidade de vida3, predispondo à síndrome de burnout.

A prevalência da síndrome de burnout encontrada foi alta (50%, segundo os critérios de Grunfeld et al., e 13,3%, se utilizarmos os critérios de Ramirez et al.). No entanto, na literatura essa prevalência varia muito entre os estudos, dependendo da população estudada e dos valores conceituais utilizados como referência.

Utilizando critérios semelhantes, Barros et al.28 observaram que a prevalência de burnout era de 63,4% considerando um escore alto do MBI e de 7,4% considerando escore alto nas três dimensões, enquanto Tucunduva et al.29 observaram em seu estudo prevalência de 52,3%, segundo os critérios de Grunfeld et al., e de 3%, segundo os critérios de Ramirez et al., dados esses que vêm corroborar os nossos achados.

A prevalência da síndrome com escore alto em cada uma das três dimensões analisadas foi de 35% na exaustão emocional, 6,7% na despersonalização e 25% na redução da realização pessoal, achados esses parecidos com o de Tironi et al.14.

A principal dimensão afetada entre os médicos avaliados foi a exaustão emocional (35%), considerada a dimensão precursora da síndrome8. Uma vez exaustas, as pessoas sentem cansaço físico e emocional, com dificuldade de relaxar, levando à redução dos recursos internos para enfrentar as situações vivenciadas no trabalho, bem como da energia para desempenhar as atividades7,12.

Diante dos sintomas psicológicos e físicos, o profissional desenvolve a despersonalização, caracterizada por atitudes distantes e negativas, ocorrendo um tratamento depreciativo das pessoas diretamente envolvidas com o trabalho26. Em nosso estudo, foi baixa a prevalência dessa dimensão (6,7%).

Uma vez que o profissional se sente ineficiente, com diminuição da autoconfiança e sensação de fracasso, há redução na realização pessoal no trabalho, tida por muitos autores como a última reação ao estresse gerado pelas exigências ocupacionais12,30. A redução da realização profissional foi observada em 25% dos médicos avaliados.

Considerando o critério de Grunfeld et al., encontramos associação estatisticamente significante com maiores níveis da síndrome entre sexo feminino (p = 0,0304), trabalho em UTI adulto (p = 0,0004), trabalhar em mais de dois hospitais (p = 0,0095) e número de pacientes maior que 10 por plantão (p = 0,0021), achados similares aos da literatura12,16,21,26,28.

Estudos revelam que há uma relação entre burnout e o sexo feminino6,9,12,3133, provavelmente devido à dupla jornada de trabalho (a profissional e a do lar) a que a maioria está sujeita9, e que há diminuição significante da síndrome nas profissionais que recebem apoio familiar ou de amigos33.

Em relação ao tipo de UTI, o tipo adulto apresenta maior prevalência da síndrome de burnout provavelmente devido à maior quantidade de pacientes assistidos. Uma das principais características para a ocorrência da síndrome é o contato direto com os pacientes9, portanto quanto maior a quantidade de pacientes assistidos e o número de hospitais em que o médico trabalha, maiores são as chances de o profissional desenvolver a síndrome de burnout12,14,26,28.

A literatura mostra que há maior incidência de burnout em profissionais com pouco tempo de atuação na área, devido à pouca experiência na profissão9,34, porém não houve associação em nosso estudo.

Apesar de não haver relação significativa do burnout com a idade em nosso estudo, a literatura descreve maior incidência da síndrome em profissionais com idade inferior a 30 anos, atribuída à pouca experiência, fator que desencadearia insegurança e, consequentemente, estresse ocupacional9,12.

Vários estudos atribuem ao casamento, ou ao fato de ter um companheiro estável, menor propensão ao burnout1,12,28, entretanto verificou-se maior prevalência no presente estudo em médicos casados. Embora o poder estatístico de análise seja limitado pelo tamanho amostral reduzido, uma hipótese possível para esse achado é a de que características ligadas a resiliência e mecanismos psicológicos de enfrentamento do estresse (coping) podem variar entre os indivíduos deste grupo, sobrepujando eventuais fatores de proteção.

Em relação às especialidades médicas e, consequentemente, ao tipo de UTI, estudos revelam que em UTIs neonatal as alterações psicológicas eram prevalentes em 27% dos médicos32,33, enquanto nas UTIs adulto a prevalência ficaram em torno de 63,4%14,26,28, resultados semelhantes aos obtidos.

A longa jornada de trabalho é identificada como um dos agentes estressores da profissão médica9. Porém, em nosso estudo não se observou relação significativa entre a carga horária do trabalho médico e a síndrome de burnout.

O presente estudo consiste em uma pesquisa transversal, que reflete a realidade pontual, podendo ser uma limitação do trabalho, no entanto destaca-se que o objeto de pesquisa foi investigado com diversas variáveis de estudo. Desse modo, contribui-se ao identificar que o ambiente da UTI adulto pode ser um fator de risco para o desenvolvimento da síndrome de burnout, enquanto a assistência em UTI com menos de dez leitos e menor quantidade de hospitais em que o profissional trabalha são fatores protetores.

CONCLUSÃO

O perfil dos médicos estudados é de uma população jovem, predominantemente feminina, casada, com menos de dez anos de formado, tendo como principal especialidade a Neonatologia, trabalhando há menos de cinco anos na UTI, em cerca de dois hospitais, cuidando de seis a dez pacientes por plantão e com elevada carga horária de trabalho.

Os principais fatores estressantes em UTI foram os ruídos excessivos e a possibilidade de complicações aos pacientes internados, fatores esses que podem contribuir para o surgimento da síndrome.

Os resultados apontaram elevada prevalência da síndrome de burnout nos médicos plantonistas, associada principalmente ao sexo feminino, trabalho em UTI adulto, trabalhar em mais de dois hospitais e número de pacientes maior que dez por plantão. O reconhecimento dos fatores estressores associados ao burnout pode orientar mudanças no ambiente do trabalho que promovam o aumento da qualidade dos cuidados médicos e a promoção da saúde mental entre os profissionais.

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