SÍNDROME DE WILKIE: CAUSA RARA DE OBSTRUÇÃO INTESTINAL

SÍNDROME DE WILKIE: CAUSA RARA DE OBSTRUÇÃO INTESTINAL

Autores:

Ayşe KEFELI,
Adem AKTÜRK,
Bora AKTAŞ,
Kerim ÇALAR

ARTIGO ORIGINAL

ABCD. Arquivos Brasileiros de Cirurgia Digestiva (São Paulo)

Print version ISSN 0102-6720On-line version ISSN 2317-6326

ABCD, arq. bras. cir. dig. vol.29 no.1 São Paulo Jan./Mar. 2016

https://doi.org/10.1590/0102-6720201600010020

INTRODUÇÃO

Síndrome artéria mesentérica superior (SMA) ou síndrome de Wilkie é condição gastrointestinal rara, mas potencialmente fatal. Ela é um fenômeno clínico causado pela compressão da terceira parte do duodeno, entre a SMA e a aorta, levando à obstrução. Os pacientes podem apresentar sintomas de obstrução gastrointestinal, tais como episódios recorrentes de vômitos, distensão abdominal superior e desconforto8. Várias teorias etiológicas, evolução clínica e opções de tratamento até agora têm sido discutidas5. Trabalho em equipe interdisciplinar fornece o diagnóstico e terapêutica mais benéfica nesta doença, muitas vezes subestimada.

RELATO DO CASO

Mulher de 27 anos foi encaminhada com episódios recorrentes de vômitos profusos e dor abdominal superior associada à perda de apetite e dispepsia há dois anos. Ela não tinha outras comorbidades. Tinha sido tratada em outro hospital com inibidores da bomba de protons, analgésicos e fluidos intravenosos. Ela tinha histórico de anorexia crônica e progressiva perda de peso, juntamente com episódios recorrentes de vômitos e dor abdominal superior. O exame clínico revelou desidratação, emagrecimento (IMC 19,5 kg/m2; peso: 50 kg; altura: 160 cm), distensão abdominal e dor epigástrica. As investigações laboratoriais mostraram contagem de glóbulos brancos total de 9 500 mm3 e potássio sérico de 3 mEq/l e hipocalemia. Radiografia simples do abdome revelou dilatação gástrica. Ultrassonografia foi normal. Endoscopia digestiva alta mostrou estômago e duodeno dilatados. TC com contraste revelou estômago grosseiramente distendido e na terceira parte do duodeno ao nível da origem da artéria mesentérica superior havia estreitamento abrupto, sugestivos de síndrome de Wilkie. Enquanto que, normalmente, o ângulo entre a SMA e a aorta é de 22° a 60°, neste caso, ele era de 13,5° (Figura 1). Neste caso, o tratamento conservador foi ineficaz e indicou-se tratamento cirúrgico com o objetivo de contornar a obstrução com anastomose entre o jejuno e no duodeno proximal que foi bem sucedida.

FIGURA 1 - TC do abdome mostrando ângulo reduzido entre a artéria mesentérica superior e a aorta, com compressão duodenal  

DISCUSSÃO

A síndrome de Wilkie ocorre quando a terceira porção do duodeno é comprimida entre a SMA e a aorta. Enquanto que, normalmente, o ângulo entre a SMA e a aorta é de 25° a 60°, ele é reduzido na presente síndrome7. O ângulo aortomesentérico pode ser reduzido devido à anomalias congênitas, perda de peso significativa, hiperlordose lombar, proctocolectomia restauradora com anastomose íleo-anal1,2,6. As características clínicas dela são totalmente vagas e não específicas. Os sintomas mais importantes são a dor pós-prandial abdominal (59%), náusea (40%), vômitos (50%), saciedade precoce (32%) e anorexia (18%). Estes sintomas são agravados enquanto deitado de costas depois de comer e são aliviados ao assumir o decúbito lateral esquerdo, ou joelho no peito3. Estes sintomas são compatíveis com as condições mais comuns, tais como a doença de úlcera péptica, cólica biliar, pancreatite e isquemia mesentérica. O exame físico geralmente revela postura corporal astênica. O diagnóstico da síndrome requer alto grau de suspeição clínica confirmada por estudos radiográficos demonstrando compressão da terceira porção do duodeno. TC do abdome normalmente mostra dilatação gástrica e duodenal e estreitamento do ângulo aortomesentérico9. Síndrome de Wilkie responde ao tratamento conservador na forma de nutrição adequada pela alimentação enteral/parenteral e posicionamento adequado do paciente após alimentar-se. A cirurgia é utilizada quando as medidas conservadoras são ineficazes ou em doentes com longa história de perda de peso progressiva ou acentuada dilatação duodenal com estase e complicações4.

REFERÊNCIAS

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