Sintomas osteomusculares e estresse não alteram a qualidade de vida de professores da educação básica

Sintomas osteomusculares e estresse não alteram a qualidade de vida de professores da educação básica

Autores:

Ricelli Endrigo Ruppel da Rocha,
Kleber Prado Filho,
Fátima Noely da Silva,
Marilene Boscari,
Siham Abdel Karin Amer,
Débora Cunha de Almeida

ARTIGO ORIGINAL

Fisioterapia e Pesquisa

versão On-line ISSN 2316-9117

Fisioter. Pesqui. vol.24 no.3 São Paulo jul./set. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/1809-2950/16447524032017

RESUMEN

Este estudio evaluó la prevalencia de los síntomas osteomusculares, el nivel de estrés y la calidad de vida de profesores de la enseñanza básica. La muestra fue compuesta de 298 profesores (265 mujeres y 33 hombres) de la educación infantil y primaria del municipio de Caçador, Santa Catarina. Fueron evaluados los síntomas osteomusculares (Cuestionario Nórdico de Síntomas Osteomusculares), el nivel de estrés (Cuestionario de los Síntomas de Estrese de Lipp) y la calidad de vida (Cuestionario WHOQOL-bref). Presentaron síntomas osteomusculares el 48% de los profesores y el 65% se alejaron de las actividades diarias. Manifestaron algún nivel de estrés el 42% de los profesores, principalmente en la etapa de resistencia (el 73%) y casi-agotamiento (el 19%). Los síntomas psicológicos predominaron sobre los físicos (p < 0,05). Los puntajes promedios de los dominios Físico (57,1) y Medioambiente (58,2) fueron significativamente menores (p < 0,001) que los dominios Psicológico (63,8) y Relaciones Sociales (71,2). El puntaje de la calidad de vida general de 62,6 puntos clasificó a los profesores como satisfechos con su calidad de vida. En conclusión, la alta prevalencia de los síntomas osteomusculares y de estrés no altera la calidad de vida de los profesores de la enseñanza básica.

Palabras clave: Docentes; Educación Primaria y Secundaria; Transtornos de Traumas Acumulados; Calidad de Vida

INTRODUÇÃO

Na atualidade, a função do professor extrapolou a mediação do processo de conhecimento do aluno, ampliando-se a missão deste profissional para além da sala de aula, com atividades extracurriculares e extraclasses, a fim de garantir uma articulação entre a escola e a comunidade1. O professor, além de ensinar, deve preparar as aulas, avaliar o trabalho dos alunos, participar da gestão e do planejamento escolar, ser membro das diferentes comissões da escola e da comunidade, o que significa uma dedicação mais ampla, e um consequente aumento do desgaste físico e mental dessa categoria profissional2.

Com essas novas exigências no trabalho docente, muitos professores têm se afastado das atividades laborais por problemas de saúde, acarretando elevado custo econômico às instituições e à seguridade social, reorganização das instituições para reposição de professores e novas contratações3.

Entre os diversos fatores que podem afetar a saúde e a qualidade de vida dos professores estão os problemas osteomusculares e o estresse. Os distúrbios decorrentes do sistema musculoesquelético podem levar ao aparecimento de diversos sinais como dor e incapacidade funcional, causando absenteísmo das atividades de trabalho4. O estresse, quando excessivo, pode gerar depressão, exaustão psicológica e física e doenças psicossomáticas5.

Na educação básica, a qualidade do ensino está relacionada a um corpo docente bem formado e motivado6, por isso é imprescindível melhorar as condições de trabalho e evitar fatores de risco que influenciem negativamente a qualidade de vida dos docentes. A maioria dos estudos sobre sintomas osteomusculares, estresse e qualidade de vida tem focado em docentes de instituições de nível superior e da saúde, entretanto, sobre docentes que atuam no ensino básico há uma escassez de investigações, principalmente no estado de Santa Catarina, localizado na região Sul do Brasil.

Este estudo, realizado com professores de educação física do ensino básico, mostrou que altas taxas de estresse não alteraram a qualidade de vida desses profissionais7. Contudo, não se conhece se docentes do ensino básico com outras formações reproduzirão os mesmos achados.

Com a finalidade de buscar mais informações sobre as condições físicas e mentais dos professores do ensino básico e subsídios para elaborar políticas de promoção da saúde e da qualidade de vida na docência, este estudo teve como objetivo avaliar sintomas osteomusculares, estresse e qualidade de vida de professores do ensino infantil e fundamental. Foi trabalhada a hipótese de que os professores poderiam apresentar altas taxas de problemas osteomusculares e estresse, e que a percepção da qualidade de vida seria satisfatória pelos docentes.

METODOLOGIA

Amostra

O cálculo amostral foi realizado a partir da proposta de Rodrigues8 e se baseou nos dados fornecidos pela Secretaria Municipal de Educação de Caçador (SC) com um total de 700 professores, considerando um erro de 5% e um p de 50%. Por meio do cálculo amostral, o valor obtido foi de 196 professores, entretanto, a disponibilidade dos docentes possibilitou uma amostra total de 298 professores voluntários, da educação infantil e ensino fundamental. O número total de escolas do ensino infantil e fundamental avaliadas no município de Caçador (SC) foi de 24 escolas. Todos os voluntários assinaram um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, e a pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Alto Vale do Rio Peixe (Uniarp).

Delineamento da pesquisa

Primeiramente foi solicitada ao secretário da Educação do município uma autorização para a realização da pesquisa. Em seguida, foi realizada uma reunião com todos os diretores das 24 escolas, informando os procedimentos da pesquisa e os agendamentos de horários para os pesquisadores se locomoverem até os locais de coleta dos dados.

Nas escolas, a avaliação dos professores foi realizada em uma sala de aula reservada, determinada pela diretoria. Os professores foram informados sobre os procedimentos da pesquisa, e somente participaram da pesquisa os professores que assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, sendo que os que não participantes (402 professores) retornaram às salas de aula. Todas as avaliações aconteceram entre o mês de outubro e o início de dezembro de 2015, nos períodos matutino e vespertino, durante as aulas.

Os pesquisadores foram reunidos na sala de avaliação e receberam um treinamento para eliminar possíveis vieses e confusão na interpretação das perguntas dos questionários, que foram em seguida aplicados. Os questionários foram apresentados na seguinte ordem: (1) Questionário Socioeconômico; (2) Questionário Nórdico de Sintomas Osteomusculares (QNSO); (3) Questionário dos Sintomas de Stress de Lipp (ISSL); e (4) Questionário da Qualidade de Vida (WHOQOL-bref).

Avaliação socioeconômica

A avaliação socioeconômica foi realizada por um questionário constituído de seis questões referentes ao sexo, idade, formação específica, nível de escolaridade e renda total familiar (que englobou somente filhos e cônjuges residentes na moradia dos professores), de acordo com os procedimentos descritos por Bjorner e Olsen9.

Avaliação de sintomas osteomusculares

Para avaliar os sintomas osteomusculares foi utilizado o Questionário Nórdico de Sintomas Osteomusculares (QNSO), composto por uma figura humana dividida em nove regiões anatômicas, adaptado culturalmente para a língua portuguesa por Barros e Alexandre10. O respondente deve relatar a ocorrência dos sintomas considerando os doze meses e os sete dias precedentes à entrevista, bem como a ocorrência de afastamento das atividades rotineiras no último ano11.

Avaliação do nível de estresse

O nível de estresse foi avaliado pelo Inventário de Sintoma de Stress de Lipp (ISSL)12, um instrumento que visa a identificar de modo objetivo os sintomas de estresse apresentados pelo paciente, avaliando os tipos de sintomas presentes (somáticos ou psicológicos) e a fase de estresse em que o paciente se encontra. É composto de três quadros, constituídos por um total de 37 itens sobre sintomas de estresse de natureza somática e 19 itens de natureza psicológica. O instrumento é respondido a partir do relato dos sintomas presentes nas últimas 24 horas, na última semana e no último mês.

Avaliação da qualidade de vida

Para avaliar a qualidade de vida foi utilizado o questionário WHOQOL-bref, da World Health Organization Quality of Life Group (Grupo de Qualidade de Vida da Organização Mundial da Saúde), proposto por Fleck et al.13, que consiste em 26 questões, duas gerais sobre a satisfação com a saúde e com a qualidade de vida e outras 24 correspondentes a quatro domínios (Físico, Psicológico, Relações Sociais e Meio Ambiente). O domínio físico refere-se a informações sobre dor e desconforto, energia e fadiga, mobilidade, necessidade de assistência médica etc.; o psicológico diz respeito a afeto, memória, concentração, autoestima, imagem corporal e aparência; o social investiga as relações interpessoais e redes de apoio social; e o ambiental trata de questões relativas à segurança física, proteção, recursos financeiros, transporte, moradia, entre outros.

Os resultados dos escores brutos de cada faceta foram transformados em um escore de variação de 0 a 100 pontos. Esta transformação possibilitou expressar o escore da escala percentual entre o valor mais baixo possível (0) e o mais alto possível (100) de classificação da qualidade de vida, de acordo com o manual do WHOQOL-bref. Os valores de 0 a 20 pontos foram classificados como muito insatisfatórios; 21 a 40, insatisfatórios; 41 a 60, nem insatisfatórios nem satisfatórios; 61 a 80, satisfatórios; e 81 a 100, muito satisfatórios. Além disso, na escala utilizada, quanto mais próximo o escore médio dos professores estiver de 100 pontos, mais satisfeita ou positiva é a percepção da qualidade de vida geral (QV geral).

Análise estatística

Inicialmente foi realizada a análise descritiva dos dados e os resultados foram apresentados com média, desvio padrão e porcentagem. Para determinar a estatística paramétrica ou não paramétrica foi verificada a normalidade dos dados com o teste de Shapiro-Wilk e o teste de Levene para analisar a homogeneidade das variáveis.

Para as comparações entre duas variáveis foi utilizado o teste de Mann-Whitney para amostras não pareadas e análise de variância (ANOVA) para as comparações múltiplas. Quando efeitos significativos foram detectados, análises post hoc foram realizadas utilizando o teste de Tukey. O nível de significância adotado foi de p<0,05.

Para a análise dos resultados da qualidade de vida dos professores foi utilizado o modelo estatístico adotado pelo WHOQOL-bref, segundo o método e resultados de grupos focais no Brasil14. Todas as análises foram realizadas com o pacote estatístico GraphPad Prism®, versão 6.0.

RESULTADOS

A característica socioeconômica (Tabela 1) dos professores do ensino básico mostrou que 89% dos docentes eram do gênero feminino. A maior porcentagem dos professores se encontram na faixa etária dos 30 aos 39 anos para o sexo feminino e dos 40 aos 49 anos para o sexo masculino. A maioria dos docentes apresentou a formação em pedagogia, 44% tinham especialização, e somente 2% tinham mestrado. A renda total familiar ficou acima de cinco salários mínimos para 55% dos professores.

Tabela 1 Características socioeconômicas dos professores do ensino básico 

N %
Gênero
Masculino 33 11,1
Feminino 265 88,9
Idade
Masculino
20-29 anos 11 33,3
30-39 anos 7 21,2
40-49 anos 13 39,3
50 anos ou mais 2 6,2
Feminino
20-29 anos 66 25,4
30-39 anos 99 38,1
40-49 anos 74 28,4
50 anos ou mais 21 8,1
Formação
Pedagogia 200 67,0
Letras 17 7,0
Matemática 12 4,0
Geografia 10 3.4
Ciências biológicas 13 4,4
História 9 3,1
Artes visuais 16 5,4
Educação física 21 7,0
Nível de escolaridade
Graduação 161 54,0
Especialização 132 44,3
Mestrado 5 1,7
Renda total familiar (em reais)
<2.640,00 18 6,0
2.640,00-4.400,00 117 39,4
4.400,00 ou mais 163 54,6

Com relação aos sintomas osteomusculares (Tabela 2), 48% dos professores apresentaram problemas osteomusculares nos últimos doze meses, sendo que as regiões de maior prevalência foram os joelhos (67%), tornozelo/pés (61%) e pescoço (57%). Foram afastados nos últimos doze meses das atividades diárias por problemas osteomusculares 65% dos professores. Nos sete dias precedentes ao questionário, 66% dos professores apresentaram algum tipo de sintoma osteomuscular.

Tabela 2 Prevalência de sintomas osteomusculares e incapacidade funcional em professores do ensino básico 

Região Anatômica Sintomas nos últimos 12 meses (%) Impedido de realizar atividades nos últimos 12 meses (%) Sintomas nos últimos 7 dias (%)
Pescoço 57,0 86,9 72,5
Ombros 53,3 81,5 70,8
Parte superior das costas 52,6 80,8 71,4
Cotovelos 12,7 2,6 4,70
Punhos/mãos 54,3 81,5 73,1
Parte inferior das costas 50,0 78,5 69,8
Quadril/coxas 19,4 6,7 9,7
Joelhos 67,1 81,8 73,2
Tornozelo/pé 65,1 86,2 78,8
Média ± DP 48,0±19,0 65,1±34,4 58,2±29,0

Algum nível de estresse foi observado em 42% dos professores (Tabela 3). Em termos de intensidade da manifestação do problema, a grande maioria dos professores encontrava-se na fase de resistência (73%) e quase-exaustão (19%), com predomínio dos sintomas psicológicos (52%) sobre os sintomas físicos (44%), respectivamente (p<0,05).

Tabela 3 Frequência, fase e sintomas de estresse da amostra de professores do ensino básico 

N %
Estresse
Sim 124 41,6
Não 174 58,3
Fase
Alerta 8 6,0
Resistência 98 73,1
Quase-exaustão 26 19,4
Exaustão 2 1,5
Sintomas
Físico - 44,2
Psicológico - 52,0*

*p<0,05 comparado aos sintomas físicos

Os escores de cada domínio e a qualidade de vida geral (QV) dos professores (Tabela 4) mostraram que os maiores valores obtidos foram nos domínios Relações Sociais (71,2) e Psicológico (63,8), enquanto os menores escores foram no domínio Físico (57,1) e Meio Ambiente (58,2). Quando comparados os domínios de melhor escore com os de menor escore (Relações Sociais/Psicológico com Físico/Meio Ambiente), houve diferença significativa (p<0,001). Em contrapartida, quando foram comparados os domínios de menor escore (Físico com Meio Ambiente) e de maior escore (Relações sociais com Psicológico), somente houve diferença significativa nos domínios de maior escore (p<0,001).

Tabela 4 Percepção da qualidade de vida em cada domínio do WHOQOL-bref e a qualidade de vida geral (QV) dos professores do ensino básico 

DOMÍNIOS MÉDIA DP
Físico 57,1 9,5
Psicológico 63,8* 12,3
Relações sociais 71,2*b 16,4
Meio ambiente 58,2a 13,8
QV GERAL 62,6 10,6

*p<0,001 comparado aos domínios Físico e Meio ambiente; ap<0,001 comparação entre os domínios Físico e Meio ambiente; bP<0,001 comparação entre os domínios Psicológico e Relações sociais

O escore geral da percepção da qualidade de vida dos professores foi de 62,6 pontos, classificando-os em satisfeitos.

DISCUSSÃO

As características da amostra desta pesquisa mostraram que a maior parte dos docentes eram mulheres, com formação superior em pedagogia e renda total familiar acima de cinco salários mínimos (Tabela 1). Esses resultados estão de acordo com outros estudos que avaliaram professores do ensino básico, confirmando que a escola é um espaço de trabalho com predomínio feminino15 16 17 18.

Nos últimos doze meses, 48% dos professores apresentaram sintomas osteomusculares (Tabela 2). Nossos achados corroboram com outras pesquisas com professores do ensino básico, que mostraram altas prevalências de sintomas osteomusculares em docentes, variando de 40% a 95%18 19 20 21 22 23.

As regiões do corpo mais afetadas por sintomas osteomusculares foram os joelhos, tornozelos e/ou pés, pescoço, punhos/mãos e costas (Tabela 2). Nossos resultados apresentam similaridade com pesquisas anteriores, em que os principais problemas osteomusculares encontrados nos professores se localizam em regiões como as costas, pescoço, ombros, punhos/mãos, tornozelos e/ou pés17 20 21 24. De acordo com Shuai et al.4, as características do trabalho docente, como o tempo prolongado se estando sentado às mesas e em pé para escrever, sessões frequentes e prolongadas de leituras, preparação das aulas e digitação de atividades no computador, associados aos fatores biomecânicos presentes nas atividades de exigências repetitivas e desenvolvidas em ambientes planejados ergonomicamente inadequados, são aspectos que resultam em alterações osteomusculares. As características individuais, o estilo de vida e as condições de trabalho também são fatores que podem explicar o aparecimento do referido quadro nos professores25.

A porcentagem de afastamentos por problemas osteomusculares, principalmente nas regiões localizadas no pescoço, tornozelos e/ou pé, joelhos, ombros e parte superior das costas foi alta nos professores avaliados neste estudo (Tabela 2). Outros estudos também encontraram alta prevalência de afastamentos por sintomas osteomusculares localizados nas mesmas regiões apontadas nesta pesquisa em professores do ensino básico2 19 21.

A profissão docente na atualidade é considerada como uma das profissões mais estressantes26. Neste estudo, os professores do ensino básico apresentaram alta prevalência de estresse (41,6%), principalmente nas fases de resistência e de quase-exaustão, com predomínio dos sintomas psicológicos sobre os físicos (Tabela 3). Nossos resultados corroboram com a maioria das pesquisas realizadas com professores do ensino básico em diversas regiões do Brasil. Por exemplo, em um estudo realizado por Goulart Junior e Lipp27, com 175 professoras de primeira a quarta série do ensino fundamental atuantes em escolas públicas estaduais de uma cidade do interior de São Paulo, revelou alta porcentagem de estresse (56,6%). Segundo Goulart Junior e Lipp, 98% dos professores encontravam-se na fase de resistência e de quase-exaustão, predominando os sintomas psicológicos (60%) sobre os físicos, o que corrobora esta pesquisa.

Em outra pesquisa, realizada com 21 professores que atuavam em classes de ensino multisseriado da zona rural, mais da metade da amostra (57%) apresentou sintomas significativos de estresse físico e/ou psicológico28. É importante destacar que na fase de resistência os professores estão tentando enfrentar os fatores estressores em busca de equilíbrio psicológico e físico nas situações e ambientes de trabalho. Na fase de quase-exaustão, os professores começam a ceder à pressão de estressores persistentes, passando a perder as condições de lidar com estes de maneira saudável, tendendo a uma manifestação patológica dos sintomas, o que pode baixar a produtividade e contribuir para o baixo desempenho dos professores no processo de ensino e aprendizagem dos alunos29.

Os resultados gerais dos domínios desta pesquisa mostraram que os melhores escores dos professores do ensino básico foram os domínios Relações Sociais e Psicológico, e os piores escores foram nos domínios Físico e Meio Ambiente (Tabela 5). Nossos resultados são semelhantes a outras pesquisas que avaliaram a qualidade de vida de professores do ensino básico com o WHOQOL-bref30 31 32 33 34. Os docentes do ensino básico foram classificados como satisfeitos nos aspectos relacionados às relações pessoais, apoio social, atividade sexual, autoestima, aparência e imagem corporal, aspectos cognitivos como aprendizagem e memória, e sentimentos. Em contrapartida, os docentes estão insatisfeitos com os aspectos relacionados à capacidade de trabalho, fadiga, dependência de medicamentos, dor, mobilidade para a realização das atividades da vida diária, bem como segurança, cuidados de saúde, clima, transportes, oportunidades de adquirir novos conhecimentos, lazer e recursos financeiros. Essa insatisfação no domínio Físico pode estar relacionada à elevada prevalência de sintomas osteomusculares encontradas neste estudo (Tabela 2). Com relação ao domínio Meio Ambiente, a insatisfação com a remuneração salarial pode ser o fator que mais influenciou na pontuação. É importante ressaltar, ainda, que os dois indicadores de qualidade de vida que apresentaram maior insatisfação pelos docentes do ensino básico apontam para a necessidade de se olhar atentamente a saúde dos docentes, prevenindo possíveis afastamentos de suas atividades escolares.

O escore médio da qualidade de vida geral foi de 62,6 pontos neste estudo (Tabela 5). Em uma pesquisa com 349 professores das redes estadual e municipal de ensino do município de Florianópolis, o escore médio da qualidade de vida geral encontrado foi de 63,8 pontos31. Em outro estudo realizado com 517 professores do ensino básico (252 professores de escolas públicas e 265 de escolas particulares) de 57 escolas públicas e particulares da cidade de Campina Grande, Paraíba, o escore médio da qualidade de vida geral foi de 74,5 pontos33. Essa diferença pode estar relacionada ao grande número de professores em escolas particulares, em relação às escolas públicas de ambos os estudos. Os professores de escolas públicas são submetidos a maior quantidade de estressores e são mais favoráveis à aparição de indicadores psicopatológicos, influenciando na qualidade de vida34 35.

É notável que, apesar da alta prevalência de sintomas osteomusculares e estresse, os professores do ensino básico avaliados nesta pesquisa estavam satisfeitos com a qualidade de vida geral (Tabela 4). Esses resultados mostram que a percepção da saúde e da qualidade de vida é decorrente de uma construção subjetiva e multidimensional, influenciada por diversos fatores como longevidade, satisfação no trabalho e realização pessoal, salário, lazer, relações familiares, disposição, qualidade nos relacionamentos, opções de lazer, acesso a eventos culturais, espiritualidade, entre outros36 37 38.

Este estudo apresenta limitações que devem ser mencionadas. Com relação à carga horária dos docentes, não foi discriminado o regime de trabalho dos pesquisados. Quanto à época de realização do levantamento (outubro a início de dezembro), é um momento de sobrecarga resultante de acúmulos anteriores, aspectos que podem interferir nos sintomas osteomusculares, estresse e qualidade de vida dos docentes.

É pertinente que estudos longitudinais sejam realizados com professores do ensino básico, investigando a relação de tempo/contexto e outros fatores que poderiam influenciar nos sintomas osteomusculares, estresse e na qualidade de vida. É levantada ainda a proposta de que sejam buscadas estratégias de monitoramento e controle de possíveis fatores ambientais que possam prevenir a exaustão, evitando o agravamento do problema.

CONCLUSÕES

Os dados desta pesquisa mostram que os professores do ensino básico infantil e fundamental do município de Caçador apresentam alta prevalência de sintomas osteomusculares e de estresse, com predomínio de professores na fase de resistência e quase-exaustão, prevalecendo os sintomas psicológicos sobre os sintomas físicos. Nos diferentes domínios da qualidade de vida, os professores mostraram que estão insatisfeitos com os fatores físicos e do meio ambiente, mas satisfeitos com a qualidade de vida geral. Em conclusão, a alta prevalência de sintomas osteomusculares e estresse não alterou a qualidade de vida dos professores do ensino básico.

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