Sintomas vocais e autoavaliação do desvio vocal em diferentes tipos de disfonia

Sintomas vocais e autoavaliação do desvio vocal em diferentes tipos de disfonia

Autores:

Felipe Moreti,
Fabiana Zambon,
Mara Behlau

ARTIGO ORIGINAL

CoDAS

versão On-line ISSN 2317-1782

CoDAS vol.26 no.4 São Paulo jul./ago. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/2317-1782/201420130036

INTRODUÇÃO

Disfonia pode ser definida como um distúrbio caracterizado por alteração na qualidade, frequência, intensidade ou no esforço vocal que limite a comunicação ou cause impacto negativo na qualidade de vida relacionada à voz por meio de um decréscimo autopercebido no estado físico, emocional, social ou econômico do indivíduo( 1 ). As disfonias podem ter diferentes etiologias, relacionadas ou não ao comportamento vocal( 2 ), produzindo impactos diversos na qualidade de vida, cuja avaliação é realizada por questionários.

Durante a última década, tem-se destacado a importância de se analisar os sintomas vocais em conjunto a outros dados de impacto da disfonia; associar essas duas informações em um único instrumento oferece uma vantagem sobre os protocolos de autoavaliação que não investigam tais sintomas( 3 ). Porém, pouco se sabe se o tipo de disfonia e a relação com o comportamento vocal interferem na autopercepção destes sintomas vocais. Outro aspecto a ser levado em consideração é o grau de desvio vocal percebido pelo sujeito, que pode ter relação direta com o número de sintomas vocais.

Dos protocolos de qualidade de vida na área de voz elaborados originalmente em inglês, a Voice Symptom Scale (VoiSS) ( 3 ) é considerada robusta quanto às suas propriedades psicométricas por seu rigoroso processo de desenvolvimento( 4 ), além de ser a única que engloba a percepção de sintomas vocais( 3 ).

Desta forma, o objetivo deste estudo foi identificar a relação entre o tipo de disfonia, o grau de desvio vocal autoavaliado e a presença de sintomas vocais.

MÉTODOS

Esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) sob parecer no 1.946/10, e todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

Participaram deste estudo 164 indivíduos (58 homens e 106 mulheres, média de idade de 42,89 anos) com diagnóstico otorrinolaringológico de disfonia, divididos em três grupos, de acordo com o tipo de disfonia( 2 ): 87 com disfonia funcional (DF), 35 com disfonia organofuncional (DOF) e 42 com disfonia orgânica (DO). Todos os sujeitos preencheram a versão traduzida, culturalmente adaptada e validada para o Português Brasileiro do protocolo VoiSS, intitulada Escala de Sintomas Vocais (ESV)( 5 , 6 ), um questionário de 30 questões divididas em três domínios: Limitação (15 questões), Emocional (oito) e Físico (sete). Cada pergunta é pontuada de zero a quatro, de acordo com a frequência de ocorrência: nunca, raramente, às vezes, quase sempre e sempre, com escores calculados pela soma simples dos pontos. Quanto maiores os escores neste protocolo, maior é a percepção do nível geral de alteração de voz no que diz respeito à limitação no uso da voz, reações emocionais e sintomas físicos. Além da ESV, todos os indivíduos autoavaliaram as suas vozes em excelente, muito boa, boa, razoável ou ruim (de um a cinco, respectivamente).

Para a análise estatística, adotou-se o nível de significância de 5% e foi utilizado o teste paramétrico de Análise de Variância (ANOVA), além do Teste de Correlação de Pearson.

RESULTADOS

Foram encontradas diferenças nos escores da ESV de acordo com o tipo de disfonia para as médias dos escores Limitação, Emocional e Total, o que não foi verificado no domínio Físico. As médias dos resultados dos escores Limitação, Emocional e Total da ESV foram maiores nas disfonias orgânicas, seguidas pelas disfonias organofuncionais e, por fim, pelas funcionais. Já no domínio Físico, não houve diferença nos escores de acordo com os tipos de disfonia (Tabela 1).

Tabela 1 Médias dos escores Limitação, Emocional, Físico e Total da Escala de Sintomas Vocais dos grupos de disfonia funcional, organofuncional e orgânica 

Escores da Escala de Sintomas Vocais Média Mediana Desvio-padrão Valor mínimo Valor máximo n Intervalo de confiança Valor de p
Limitação
DF 28,13 28,00 10,11 9 56 87 2,13 0,007*
DOF 30,06 30,00 9,87 10 46 35 3,27
DO 34,48 37,00 12,08 9 58 42 3,65
Emocional
DF 7,66 6,00 6,21 0 31 87 1,30 0,011*
DOF 8,63 7,00 7,80 0 28 35 2,59
DO 11,98 9,00 9,61 0 32 42 2,91
Físico
DF 10,28 9,00 4,66 0 21 87 0,98 0,541
DOF 11,29 12,00 3,81 3 20 35 1,26
DO 10,14 9,00 6,41 0 26 42 1,94
Total
DF 46,06 44,00 16,16 18 99 87 3,40 0,010*
DOF 49,97 51,00 16,21 20 88 35 5,37
DO 56,60 56,50 23,10 21 110 42 6,98

*Valores significativos (p≤0,05) - Análise de Variância (ANOVA)

Legenda: DF = grupo disfonia funcional; DOF = grupo disfonia organofuncional; DO = grupo disfonia orgânica

Há correlações significantes positivas entre os escores Limitação, Emocional e Total da ESV com a autoavaliação vocal: quanto pior a autoavaliação, maior o escore da ESV, evidenciando maior percepção de sintomas vocais. Os valores de correlações são regulares, próximos da faixa de correlações boas (Tabela 2).

Tabela 2 Correlação entre os escores da Escala de Sintomas Vocais e autoavaliação vocal 

Escores da Escala de Sintomas Vocais Correlação Escala de Sintomas Vocais x autoavaliação vocal
Limitação Correlação 56,6%
Valor de p <0,001*
Emocional Correlação 53,8%
Valor de p <0,001*
Físico Correlação 2,3%
Valor de p 0,770
Total Correlação 56,0%
Valor de p <0,001*

*Valores significativos (p≤0,05) - Teste de Correlação de Pearson

DISCUSSÃO

Uma disfonia orgânica pode favorecer a presença e percepção de sintomas vocais devido ao comprometimento da fonte glótica, do trato vocal e estabilidade na produção da voz, comumente presentes nos quadros de câncer( 7 ), refluxo gastresofágico( 8 ), papilomatose( 9 ), paralisias de prega vocal( 10 ) e distonias laríngeas( 11 ), o que pode gerar maior esforço à fonação( 12 ), aumentando a percepção dos sintomas, principalmente no domínio Limitação. Além disso, pelo problema vocal nas disfonias orgânicas ser independente dos hábitos e comportamentos do indivíduo, as consequências emocionais podem ser mais destacadas. Por outro lado, as disfonias organofuncionais ou funcionais, com maior ou menor participação do comportamento vocal, geralmente representam alteração vocal de longa data, e os sintomas, embora frequentes, podem ser menos referidos por um processo de adaptação e habituação( 2 ). Disfonias de diferentes etiologias são um desafio para a intervenção fonoaudiológica. Compreender as diferenças entre as categorias etiológicas é essencial para a boa prática clínica. O denominador comum para todos os tipos de problemas de voz é a presença de sintomas físicos( 13 ), como: dor ou desconforto na garganta( 14 ), temas presentes nas questões do domínio Físico da ESV (exemplo: "Você sente alguma coisa parada na garganta?" ou "Você tem muita secreção ou pigarro na garganta?"( 5 , 6 )), normalmente referidos por indivíduos com alterações vocais de qualquer natureza.

CONCLUSÕES

Indivíduos com disfonias orgânicas relataram maior percepção de sintomas vocais, seguidos pelos sujeitos com disfonias organofuncionais e, por fim, com disfonias funcionais. De forma geral, os disfônicos apresentaram sintomas vocais físicos, independente do tipo da disfonia. Por fim, existem correlações diretas entre os escores Limitação, Emocional e Total da ESV com a autoavaliação vocal.

REFERÊNCIAS

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3. Deary IJ, Wilson JA, Carding PN, MacKenzie K. VoiSS: a patient-derived Voice Symptom Scale. J Psychosom Res. 2003;54(5):483-9.
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9. Derkay CS, Wiatrak B. Recurrent respiratory papillomatosis: a review. Laryngoscope. 2008;118(7):1236-47.
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13. Sulica L. Hoarseness. Arch Otolaryngol Head Neck Surg. 2011;137(6):616-9.
14. Mathieson L, Hirani SP, Epstein R, Baken RJ, Wood G, Rubin JS. Laryngeal manual therapy: a preliminary study to examine its treatment effects in the management of muscle tension dysphonia. J Voice. 2009;23(3):353-66.
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