Sobre a circulação transnacional da psicanálise: o caso do Chile

Sobre a circulação transnacional da psicanálise: o caso do Chile

Autores:

Cristiana Facchinetti

ARTIGO ORIGINAL

História, Ciências, Saúde-Manguinhos

versão impressa ISSN 0104-5970versão On-line ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.24 supl.1 Rio de Janeiro 2017

http://dx.doi.org/10.1590/s0104-59702017000400013

Uma das estratégias analíticas impostas à interpretação histórica com os mais altos rendimentos é a busca de compreender como as configurações científicas dependem, para sua difusão internacional, do desenvolvimento de artefatos culturais que permitam seu enraizamento nos diferentes países em que circulam, por meio de sua articulação a demandas estratégicas extremamente importantes para aquela coletividade.

Diversas histórias transnacionais das ciências vêm demonstrando tais redes, podendo ser apresentadas como exemplo (Raj, 2007; Sá, Silva, 2010; Muñoz, 2015). Com elas, é possível averiguar que não se trata propriamente da importância, perfeição ou veracidade de um sistema ou estrutura científica, de sua base epistemológica, abstraída da multiplicidade das práticas. Não é isso que garante a transferência de conhecimento de um contexto para outro. Ao contrário, para a entrada de um saber em um dado contexto concorre a existência nele de um repertório de referências capaz de aderir à experiência social local. Dessa forma, é preciso que ele esteja habilitado a ser apropriado de acordo com interesses e com uma Weltanschauung que o antecedem, para dar respostas a problemas sociais importantes, com promessa de grande eficiência.

O livro de Mariano Ruperthuz Honorato sobre a psicanálise no Chile propõe justamente isso, indicando que o freudismo já circulava desde 1910 entre a Europa e o Chile e que serviu para a organização de uma linguagem social estratégica para a sociedade chilena. A contribuição de sua pesquisa se dá pela descrição do processo de circulação e apropriação desse saber, articulando-o às demais instâncias produtoras de significação no espaço social chileno e pela demonstração de como se constituíram diferentes espaços para ele, articulado que esteve ao processo de modernização da sociedade.

Vale dizer, tal processo é investigado junto a um período conhecido por muitos historiadores como o de uma pré-história da psicanálise na América Latina (Russo, 1998), um período em que alguns “pioneiros” teriam tentado aplicar a psicanálise nos seus países, percebendo sua importância avant la lettre, e teriam buscado difundi-la sem grande sucesso junto a seus pares. Mas o processo por Ruperthuz demonstrado, ao contrário, apresenta o paulatino processo de psicologização (Rose, 1998) e de psicanalização da sociedade (Figueira, 1981) chilena ao longo do século XX e também de esquecimento deste processo, silenciamento este produzido a partir do processo de institucionalização da psicanálise chilena aos moldes da International Psychoanalytical Association (IPA), como também ocorreu em outros países latino-americanos (Vezzetti, 1985; Plotkin, 1999; Facchinetti, 2001; Castro, 2015).

Para demonstrar tal processo, Ruperthuz organizou uma obra que demonstra diferentes núcleos interpretativos para a psicanálise no Chile, o que permite ao leitor obter certa leitura de um processo difuso de legitimação dos valores oriundos desse saber em uma sociedade que se tornava cada vez mais complexa. Com o objetivo de apresentar esses núcleos para o leitor, o livro está dividido em seis capítulos, que tratam de diferentes aspectos dessa apropriação.

No primeiro deles, “La historia del psicoanálisis en Chile: la construcción de un problema historiográfico”, Ruperthuz apresenta as bases teórico-metodológicas que sustentam todo o percurso. É quando os conceitos de circulação e de apropriação são utilizados para pensar a psicanálise como um sistema teórico, técnico e cultural que se organiza de maneira diferenciada por entre diferentes culturas e que é alimentado e retroalimentado nesse processo. A partir dessa chave de leitura, propõe apresentar para o leitor os circuitos de apropriação específicos ao Chile, em seus diversos campos disciplinares e discursivos. Assim, longe de uma teoria fechada em si mesma, neutra, objetiva e universal, que deve ser mais bem ou mais mal aplicada de acordo com um modelo ideal e verdadeiro, a psicanálise é apresentada como um fenômeno ativo, marcado por uma linguagem capaz de apropriações feitas pelos agentes locais a partir da moldura dada pelo texto de Freud, de um lado, e da Weltanschauung advinda do contexto social local, de outro, bem como a partir dos imperativos dos projetos nacionais, que se colocam no processo de apropriação como um dos eixos principais a atrair interesse para um determinado saber pela intelectualidade local no início do século XX.

Para demonstrar essas apropriações, o autor apresenta, a seguir, quatro capítulos bem definidos tematicamente, em torno das relações da psicanálise. Um dos eixos de discussão mais importantes do livro e que, sem dúvida, atravessa todos os capítulos é a questão da modernização da sociedade chilena e sua articulação a um determinado modelo civilizatório, tópico mais bem descrito em seu segundo capítulo, “El ‘Malestar en la cultura’ chilena en el centenario: la imagen de un país enfermo”. De acordo com Ruperthuz, os aspectos mais evidentes da modernização da sociedade chilena estiveram diretamente ligados ao crescimento da população urbana, subitamente inchada graças ao aumento da imigração europeia na virada para o século XX. A fim de demonstrar o mal-estar que tal crescimento despertou, Ruperthuz recorreu a fontes primárias que reafirmam a sensação coletiva de que o país estava doente. Nesse contexto, havia por parte da elite letrada e também do Estado a tentativa de gestão e incorporação desse excedente primitivo e caótico, perigoso e bárbaro por meio da educação escolar e profissional; dos mecanismos punitivos/disciplinares; das estratégias sanitárias, médicas e de higiene mental; tudo isso graças aos esforços republicanos, que visavam fazer do Chile uma nação moderna. Tais processos, porém, mantinham como referência as representações conservadoras das elites, naturalmente articuladas à Igreja católica e crescentemente laicizadas pelas novas ciências médicas e psiquiátricas. A psicanálise adentrou o território chileno em meio a esse jogo de forças, como um elemento ativo, uma ferramenta civilizadora que apoiasse o embate de modo a contribuir para a composição de uma visão mais moderna visando domesticar as exigências pulsionais em favor da civilização.

O capítulo três, “El retorno de lo reprimido: recepción del psicoanálisis en el círculo médico chileno”, destaca a entrada da psicanálise em meio ao ambiente médico dominante, cuja interpretação da alienação era atravessada pelas teorias degeneracionistas. Passando por diversos médicos que se serviram da psicanálise, o capítulo apresenta esse saber tal como ele foi apropriado por Germán Greve Schlegel e Fernando Allende Navarro, entre outros. O capítulo é finalizado pela fundação (médica) da Asociación Psicoanalítica Chilena, em 1949. Entretanto, se em alguns países a psicanálise teria servido apenas a certos segmentos, é possível afirmar a partir da pesquisa do autor que ela ganhou espaço de veículo de consumo mais generalizado no Chile, assim como ocorreu em outros países da América Latina, como Argentina (Plotkin, 1999) e Brasil (Facchinetti, 2001), chegando a afetar não apenas médicos e seus pacientes, mas o Poder Judiciário (capítulo quatro) e educativo, assim como os espaços intelectuais e artísticos, por meio de sua circulação em jornais e rádios, chegando a impactar camadas muito diversas da trama social, por meio dos esforços de divulgação e popularização dos seus conceitos.

Nesse sentido, no capítulo cinco o autor usa o conceito de cultura popular a fim de trabalhar com este tipo de fonte: revistas femininas e de variedades, jornais e revistas de grande circulação e seus leitores. Por meio dessas fontes, o autor nos apresenta uma apropriação popular de conceitos psicanalíticos muito antes da organização da sociedade psicanalítica local.

Ao final, o autor retoma as ideias centrais do seu trabalho, discutindo-as. Aliás, muitos outros pontos poderiam ser levantados e discutidos a partir do trabalho de Ruperthuz. Afinal, seu trabalho inscreve-se numa produção recente sobre os saberes psi no contexto de uma história cultural de diversos contextos nacionais na América Latina. No nosso caso, fica o incontornável questionamento de buscar estabelecer os cruzamentos dessa história da psicanálise produzida por Ruperthuz com a história da psicanálise no Brasil. Podemos certamente postular pontos de aproximação e de diferenças que permitem compreender as marcas das duas sociedades nacionais em questão. Assim, as obras que como a de Ruperthuz vêm delineando as diferentes sociedades trazem agora o grande desafio de fazer pensar a circulação e a apropriação da psicanálise na América Latina. Uma história nova que está em vias de se fazer.

REFERÊNCIAS

CASTRO, Rafael Dias de. A sublimação do “id primitivo” em “ego civilizado”: o projeto dos psiquiatras-psicanalistas para civilizar o país, 1926-1944. Tese (Doutorado em História das Ciências) – Casa de Oswaldo Cruz, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro. 2014.
FACCHINETTI, Cristiana. Deglutindo Freud: sobre a digestão do discurso psicanalítico no Brasil. Tese (Doutorado em Teoria Psicanalítica) – Instituto de Psicologia, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. 2001.
FIGUEIRA, Sérvulo. O contexto social da psicanálise. Rio de Janeiro: Francisco Alves. 1981.
MUÑOZ, Pedro Felipe Neves de. À luz do biológico: psiquiatria, neurologia e eugenia nas relações Brasil-Alemanha, 1900-1942. Tese (Doutorado em História das Ciências) – Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, Rio de Janeiro. 2015.
PLOTKIN, Mariano B. Tell me your dreams: psychoanalysis and popular culture in Buenos Aires, 1930-1950. The Americas, v.55, n.4, p.601-629. 1999.
RAJ, Kapil. Conexões, cruzamentos, circulações. Cultura, v.24. p.155-179. 2007.
ROSE, Nikolas. Governando a alma: a formação do eu privado. In: Silva, Tomaz (Org.). Liberdades reguladas: a pedagogia construtivista e outras formas de governo do eu. Petrópolis: Vozes. p.30-45. 1998.
RUSSO, Jane A. Raça, psiquiatria e medicina-legal: notas sobre a “pré-história” da psicanálise no Brasil. Horizontes Antropológicos, v.4, n.9, p.85-102. 1998.
SÁ, Magali Romero; SILVA, André Felipe Cândido da. La Revista Médica de Hamburgo y la Revista Médica Germano-Ibero-Americana: diseminación de la medicina germánica en España y América Latina, 1920-1933. Asclepio, v.62, p.7-34. 2010.
VEZZETI, Hugo. La locura en la Argentina. Buenos Aires: Paidós. 1985.
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