Sobre jardins, braquetes e dinheiro

Sobre jardins, braquetes e dinheiro

Autores:

Leandro Silva Marques

ARTIGO ORIGINAL

Dental Press Journal of Orthodontics

versão impressa ISSN 2176-9451versão On-line ISSN 2177-6709

Dental Press J. Orthod. vol.21 no.2 Maringá mar./abr. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/2177-6709.21.2.010-011.edt

"Desde que não sejam cortadas as raízes, tudo ficará bem no jardim,

pois o crescimento vem com a estação."

Chance, jardineiro do filme Being There, interpretado por Peter Sellers.

Conhecer a realidade vivenciada pela comunidade ortodôntica em diferentes países pode favorecer o posicionamento político e administrativo de entidades envolvidas com a Ortodontia enquanto ciência.

No filme Being There (1979), traduzido como Muito Além do Jardim, Peter Sellers interpreta Chance, um jardineiro. Vivendo em profundo isolamento social em Washington D.C., Chance conhece do mundo apenas aquilo que vê na televisão. Lançado na vida real por um infortúnio, acaba adentrando em um restrito círculo de poderosos homens do governo, famintos pela sua "sabedoria". O Brasil era um grande jardim. Ortodontistas viviam como jardineiros no melhor estilo "em terra de cego, quem tem um olho é rei". Repentinamente, o tempo negro veio, pragas e tempestades dizimaram todo o esplendor do jardim e se fez a escuridão. Você está achando essa história sombria? Eu o provoco a continuar a leitura. Parafraseando Nietzsche, "não existem fatos, existem interpretações".

Ser ortodontista no Brasil nos anos 70, 80 e mesmo no início dos anos 90 era sinônimo de prestígio social, consultórios abarrotados de pacientes e expressivos ganhos financeiros. Existiam poucos profissionais, poucos cursos de especialização e uma enorme demanda pelo tratamento ortodôntico. O acesso aos benefícios proporcionados pelo uso de aparelhos era mediado exclusivamente pela capacidade de pagamento e considerado uma forma de status. Nesse contexto, o número de faculdades de Odontologia no Brasil saltou de 90 para 202 nos últimos 10 anos, para uma população de 200 milhões de habitantes. Nos EUA, que possuem 280 milhões de habitantes, houve uma queda no número de instituições, de 65 para 58 no mesmo período. Paralelamente, houve uma proliferação indiscriminada de abertura de novos cursos de especialização em Ortodontia, associada a uma verdadeira epidemia de dentistas clínicos, sem cursos de especialização, colocando aparelhos, sem qualquer tipo de critério. O resultado foi a popularização do tratamento ortodôntico no Brasil, suportada pela impossibilidade do público em geral escolher um especialista verdadeiro. Assim, os preços do tratamento se tornaram mais acessíveis, porém de qualidade duvidosa, e uma especialidade antes vista como glamourosa passou a ser vista com desconfiança.

Por outro lado, os efeitos colaterais da crise que a Ortodontia brasileira tem amargado estão contribuindo sobremaneira para significativas mudanças da realidade: as entidades de classe, especialmente a ABOR (Associação Brasileira de Ortodontia), estão se mobilizando no sentido de estabelecer critérios para formação de novos especialistas e para reconhecer os cursos que já estão em funcionamento. O Board Brasileiro de Ortodontia foi criado e surgiram campanhas de esclarecimento à população sobre a importância da escolha de um especialista devidamente qualificado para realização do tratamento ortodôntico. Além disso, observa-se crescente aumento da produção científica brasileira na área de Ortodontia: para se ter uma ideia, nos últimos cinco anos, das 1.465 publicações do AJO-DO, 98 (7%) foram de autores brasileiros. Ao considerarmos os últimos três anos, o Dental Press Journal of Orthodontics é o periódico da Odontologia brasileira com o maior volume de publicações.

No Brasil, assim como em todo o mundo, as estações mudaram. A classe ortodôntica tem pela frente o desafio de reciclar seus valores e paradigmas. Em tempos de tomada de decisões clínicas baseadas em evidências, é necessário repensar os valores éticos e morais que norteiam a nossa profissão. Talvez os lucros não sejam os mesmos do passado, mas é importante uma reflexão no sentido de que mudanças não necessariamente ocorrem para pior, como conjeturou o jardineiro Chance, na epígrafe desse texto.

Leandro Marques - editor adjunto

(lsmarques.prof@gmail.com)

Edição especial sobre REVISÕES SISTEMÁTICAS

Pesquisadores, estudantes de pós-graduação e especialistas da área estão convidados a submeter artigos para essa edição especial, temática, sobre as Revisões Sistemáticas (RevSis). Os artigos que se enquadrarem nessa categoria (RevSis) serão preferidos para integrar a edição - após terem passado pelo processo padrão de revisão por pares.

O prazo para submissão de artigos para essa edição se encerra em 31/5/2016. Os artigos selecionados serão publicados na edição nov/dez 2016, vol. 21, n. 6.

Estamos aguardando sua participação,

David Normando - editor-chefe (davidnormando@hotmail.com)

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