Sobre o uso do Little Jiffy na validação dos testes: comentários a Ávila e colaboradores

Sobre o uso do Little Jiffy na validação dos testes: comentários a Ávila e colaboradores

Autores:

Sergio Alexis Dominguez Lara,
César Merino Soto

ARTIGO ORIGINAL

Jornal Brasileiro de Psiquiatria

versão impressa ISSN 0047-2085versão On-line ISSN 1982-0208

J. bras. psiquiatr. vol.65 no.2 Rio de Janeiro abr./jun. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/0047-2085000000123

SR. EDITOR,

A avaliação psicológica da depressão é um processo importante, pois assim se poderia obter uma aproximação do grau da diminuição do bem-estar e, consequentemente, da qualidade de vida. Nesse sentido, Ávila et al.1 fizeram uma versão validada da Escala de Avaliação de Depressão de Hamilton (HAM-D). No entanto, eles utilizaram um procedimento com sérias limitações metodológicas, conhecido como Little Jiffy.

O “pacote” conhecido como Little Jiffy2 é composto por três procedimentos: a Análise dos Componentes Principais (PCA), a regra do Kaiser (RK; autovalores > 1) e a rotação varimax (RV). Porém, essa combinação é a menos recomendada quando o objetivo é examinar de forma exploratória a estrutura interna de um teste de medição. Tendo em vista as limitações de cada procedimento no estudo psicométrico de um teste de avaliação3, os autores deveriam apresentar forte argumentação para justificar o seu uso. A seguir, mostra-se cada um deles.

Em princípio, a PCA é um método de redução de variáveis observadas (itens), não de análise fatorial3, mas leva em conta a variância total (comum e única, incluindo a variância do erro), o que conduz a superestimar as cargas fatoriais4 e a distorcer a interpretação adequada do construto avaliado. Existem outras opções mais apropriadas que poderiam ser usadas dependendo da situação, como o método dos mínimos quadrados ordinários ou o método de máxima verossimilhança. A RK tende a superestimar o número de fatores/componentes, que devem ser conservados4, por isso não é considerado um método analítico confiável3. No entanto, existem outros métodos mais precisos e com mais respaldo empírico em comparação com a RK, como a Análise Paralela e o Minimum Average Partial, dos quais os resultados são mais confiáveis.Finalmente, o uso de RV foi baseado no pressuposto de que produz soluções fatoriais simples e de fácil interpretação, mas estudos recentes indicam que as rotações oblíquas oferecem estruturas mais simples5.

Por outro lado, a aplicação de RV pressupõe que os itens não estão correlacionados, mas é difícil defender a independência fatorial e não estimar a correlação entre os fatores; é mais razoável assumir uma relação entre os fatores analisados, a qual pode ser conferida por meio de uma rotação oblíqua.

Segundo os argumentos apresentados sobre as limitações da metodologia aplicada, a versão validada do HAM-D pode ser questionável e provavelmente afeta os processos subsequentes. Portanto, os autores devem reavaliar os seus dados para se alinharem com a atual posição sobre o uso apropriado da análise fatorial exploratória, e assim contrastar seus resultados.

REFERÊNCIAS

1. Freire MA, Figueiredo VLM, Gomide A, Jansen K, Silva RA, Magalhães PVS, et al. Escala Hamilton: estudo das características psicométricas em uma amostra do sul do Brasil. J Bras Psiquiatr. 2014;63(4):281-9.
2. Kaiser H. The application of electronic computers to factor analysis. Educ Psychol Meas. 1960;20:141-51.
3. Lloret-Segura S, Ferreres-Traver A, Hernández-Baeza A, Tomás-Marco I. El análisis factorial exploratorio de los ítems: una guía práctica, revisada y actualizada. Anal Psicol. 2014;30(3):1151-69.
4. Ferrando PJ, Anguiano-Carrasco C. El análisis factorial como técnica de investigación en psicología. Papeles del Psicólogo. 2010;31(1):18-33.
5. Matsunaga M. How to factor-analyze your data right: do’s, don’ts, and how-to’s. Int J Psychol Res. 2010;3(1):97-110.
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