Sociedade de risco: o uso dos agrotóxicos e implicações na saúde do trabalhador rural

Sociedade de risco: o uso dos agrotóxicos e implicações na saúde do trabalhador rural

Autores:

Cibelle Mello Viero,
Silviamar Camponogara,
Marta Regina Cezar-Vaz,
Valdecir Zavarese da Costa,
Carmem Lúcia Colomé Beck

ARTIGO ORIGINAL

Escola Anna Nery

versão impressa ISSN 1414-8145versão On-line ISSN 2177-9465

Esc. Anna Nery vol.20 no.1 Rio de Janeiro jan./mar. 2016

http://dx.doi.org/10.5935/1414-8145.20160014

Resumen

Objetivo:

Conocer las percepciones de los trabajadores rurales sobre los riesgos derivados del uso de plaguicidas para la salud.

Métodos:

Estudio descriptivo, con abordaje cualitativo, desarrollado con 15 trabajadores rurales en una ciudad del interior de Río Grande do Sul, BR. Los datos fueron recolectados a través de formulario socioeconómico y entrevistas semi-estructuradas durante los meses de febrero a abril de 2014 y analizado sobre la base de marco de contenido temático.

Resultados:

Se observó que los agricultores conocen los riesgos relacionados con el uso de plaguicidas para su salud y la falta de uso de equipo de protección personal.

Conclusiones:

No hay adopción de medidas preventivas por parte de los participantes, con la necesidad de acciones dirigidas a la salud de estos trabajadores.

Palabras clave: Salud Rural; Salud Laboral; Plaguicidas; Riesgo; Enfermería

INTRODUÇÃO

O Brasil se transformou, a partir de 2008, no maior consumidor de agrotóxicos, embora não seja o principal produtor agrícola mundial. O uso abusivo desses produtos acarreta diversos problemas, desde aqueles que afetam a saúde dos agricultores, até aqueles que afetam o meio ambiente, destruindo a fauna e a flora ou, em síntese, o conjunto de nossa biodiversidade1,2.

Os pesticidas estão entre os produtos com fatores de risco mais relevantes para a saúde dos trabalhadores rurais e para o meio ambiente3. Diante disso, evidencia-se que o modelo de desenvolvimento econômico atual induz e impõe transformações no modo de vida que ensejam graves problemas de saúde ao trabalhador como, por exemplo, a exposição dos trabalhadores aos agrotóxicos no campo. Essas condições interferem na qualidade de vida, impactando, negativamente, na saúde do trabalhador rural e no meio ambiente4.

A proteção à saúde da população, com base em ampla segurança, está inibida e fragilizada pelos interesses do mercado que, por sua vez, tem um arcabouço institucional e legislativo que lhe fornece meios necessários para manter o ciclo virtuoso de sua economia, em favor da utilização de produtos técnicos com o apoio dos governos5. Isso confere uma situação potencial de risco, típico da sociedade moderna, em que o lucro sobrepõe o direito a saúde dos seres humanos e do meio ambiente. O uso massivo de agrotóxicos devido à expansão do agronegócio, além de intoxicar a população, está contaminando os alimentos, as águas e o ar6.

Em face dessa problemática, a busca de aporte teórico em áreas como a sociologia, constitui-se em importante estratégia, pois permite uma melhor apreensão dos aspectos sociais, intrínsecos à saúde. A modernidade se constitui na civilização do risco, o que inclui os de alta consequência, advindos do caráter globalizado dos tecidos sociais. Encontrar-se no universo da modernidade é viver em um ambiente de oportunidade e de risco, orientado pelo controle humano nos ambientes social e natural e pelo estilo de vida adotado contemporaneamente7.

Dessa forma, vive-se um momento de reconfiguração da sociedade moderna, que assume novos contornos face aos riscos mundiais. Com isso, o conceito de sociedade de risco adquire importância nesse debate, uma vez que exprime a acumulação de riscos (ecológicos, bioquímicos, financeiros e informacionais) que estão onipresentes, hoje, no mundo, de forma global. Configura-se, assim, um cenário de incertezas "fabricadas", pelo fato de dependerem de decisões humanas e de serem criadas pela própria civilização, como é o caso do uso dos agrotóxicos na produção de alimentos8.

Esse panorama aponta para a complexidade da questão, dimensionada especialmente pelas repercussões do uso do agrotóxico na saúde dos trabalhadores rurais e de populações que vivem próximas às áreas de produção, representando um problema de saúde pública, para o qual o setor saúde busca definir e implementar ações para atenção integral das populações expostas aos pesticidas9. Frente a isso, a inserção desse debate no âmbito da enfermagem é imperiosa, no intuito de mobilizar-se para enfrentar esta situação e produzir estratégias para reduzir ou eliminar a contaminação dos trabalhadores rurais. A percepção dos agricultores e consumidores quanto aos elevados riscos da utilização de agrotóxicos para a saúde humana e para o meio ambiente é essencial para mudar essa realidade10.

Acredita-se que a inserção da discussão sobre a problemática dos agrotóxicos, na atividade rural, possibilitará novas abordagens para a enfermagem em suas práticas de assistência, ensino e pesquisa, especialmente quando produzidas por meio da compreensão do processo de saúde-doença como resultante da interação do ser humano com o seu trabalho. Para tanto, tem-se como objetivo geral: conhecer as percepções de trabalhadores rurais sobre os riscos advindos do uso de agrotóxicos para sua saúde.

MÉTODOS

A pesquisa é do tipo descritivo-exploratória, com abordagem qualitativa. Foi realizada em um distrito rural de um município do interior do Rio Grande do Sul, BR, com economia baseada no cultivo agrícola. Fizeram parte deste estudo trabalhadores rurais do distrito em questão, adotando-se critérios de inclusão o trabalhador ser maior de idade (18 anos e mais); estar envolvido(a) com a agricultura há mais de um ano (justifica-se pela necessidade de experiência no trabalho rural) e residir na zona rural. Utilizou-se como critério de exclusão, ser membro da mesma família, considerando o primeiro grau de parentesco, tendo em vista que o objeto do estudo não foi a família.

Os participantes foram selecionados mediante sorteio manual, realizado pela pesquisadora, em posse da lista preenchida, juntamente com o setor administrativo da Subprefeitura do Distrito. Após o sorteio, os mesmos foram contatados via telefone, sobre a possibilidade de participarem da pesquisa, bem como questionados quanto ao atendimento dos critérios de inclusão e esclarecidos sobre o objetivo da pesquisa. Foram entrevistados 15 trabalhadores, de um total de 30 agricultores pertencentes ao distrito, sendo a coleta de dados encerrada com base no critério de saturação11.

Foram utilizados dois instrumentos de produção de dados, ou seja, o formulário para levantamento de dados socioeconômicos e a entrevista semiestruturada. O formulário continha questões fechadas com o intuito de levantar informações como: sexo, idade, procedência, escolaridade, dados relativos à cultura agrícola e à manipulação de agrotóxicos. Esses foram coletados em conjunto e previamente à entrevista semiestruturada, com vistas a traçar um perfil dos participantes. A entrevista semiestrutura foi constituída por questões que abordavam o entendimento dos trabalhadores sobre risco, sobre sua rotina no trabalho rural e sobre o uso de agrotóxicos na atividade laboral.

As entrevistas foram realizadas no período de fevereiro a abril de 2014, no próprio cenário da pesquisa, em local e horário de preferência do entrevistado. Foi solicitada autorização prévia para a gravação das informações colhidas que, posteriormente, foram transcritas na íntegra e digitalizadas. Todas as entrevistas foram realizadas nas residências dos trabalhadores; em ambiente reservado; garantindo a privacidade necessária para sua efetivação, com tempo médio de duração de 60 minutos e incluindo o preenchimento do formulário pela pesquisadora.

Os dados transcritos foram analisados com base no referencial proposto para análise de conteúdo temática, que é uma técnica de pesquisa que permite replicar e validar as inferências sobre dados de um determinado contexto, por meio de procedimentos especializados e científicos12. Assim, organizou-se a análise de conteúdo temática em três etapas e fez-se a interpretação do conteúdo de acordo com o referencial teórico pertinente ao estudo.

A pesquisa foi realizada considerando a Resolução Nº 466, de 2012 do Conselho Nacional de Saúde, sob Certificado de Apresentação para Apreciação Ética - CAAE nº 26425513.7.0000.5346, com o compromisso de assegurar a privacidade e a confidencialidade dos dados utilizados, preservando a identidade e o anonimato dos participantes do estudo. Para isso, na apresentação dos resultados, os participantes da pesquisa foram identificados com a letra 'R' de rural e um número relativo à ordem de realização das entrevistas.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A análise do perfil socioeconômico dos participantes da pesquisa mostrou que a totalidade, 15 indivíduos, era do sexo masculino. A idade variou entre 37 e 67 anos, sendo que 10 estavam na faixa entre 41 e 60 anos. Todos entrevistados eram casados, 14 tinham filhos, sendo que, seis tinham, pelo menos, um filho envolvido com a atividade agrícola.

Os principais alimentos cultivados pelos participantes eram arroz e soja e todos os entrevistados mencionaram utilizar mais de uma classe de pesticidas (herbicida, fungicida e inseticida), por meio de pulverização aérea ou mecânica (com trator). Todos entrevistados afirmaram não reaproveitar as embalagens, devolvendo-as para a empresa fornecedora, após sua utilização.

A totalidade utilizava os agrotóxicos conforme receituário do engenheiro agrônomo das empresas fornecedoras dessas substâncias. Dentre os participantes, 11 utilizavam agrotóxicos na atividade rural há mais de 30 anos, o que ratifica a gravidade da exposição crônica, ressaltada pela bibliografia científica5,13.

Para melhor compreensão do presente estudo, os depoimentos obtidos e as reflexões foram subdivididos em categorias temáticas. Para a composição desse manuscrito, foi selecionada uma delas: o uso dos agrotóxicos e a saúde do trabalhador rural, a qual está descrita a seguir. As demais, voltadas à análise da abordagem sociológica dos riscos da modernidade e à crise ambiental relacionada à questão dos agrotóxicos fazem parte de outra publicação científica.

Para a produção de dados, os participantes foram questionados acerca da sua percepção sobre a relação entre o uso dos agrotóxicos e a sua saúde como trabalhador rural. Os depoentes têm conhecimento dos riscos que o uso dos agrotóxicos podem ocasionar, conforme demonstrado nos depoimentos:

Há pouco tempo se passava, as vezes nem tinha. Quando começamos a plantar não tinha nem máscara, nem luva. Nós aplicávamos sem nada, depois que vem as coisas [doenças], não sei como o cara está bem de saúde, por tudo que o cara passou (R4).

Esses dias eu falei, muita gente está sentindo uns negócio por causa do veneno. [...] Gente que não usa proteção está sentindo, com dor de cabeça, com dor de estômago, isso muita gente está prejudicada, não usa o equipamento que querem (R8).

Os participantes mencionam sobre os riscos de contaminação associados à utilização de agrotóxicos; os possíveis impactos de práticas não seguras, como não utilizar os equipamentos de proteção individual (EPI); e os sintomas de intoxicações agudas. Também sentem-se interrogados quanto aos riscos futuros e consequências em relação às atividades laborais praticadas contemporaneamente.

Exemplo disso é o desenvolvimento de doenças crônicas, como o câncer, associado ao manuseio e aplicação de pesticidas pelo potencial carcinogênico e mutagênico dessas substâncias químicas14,15. Isso é apontado, inclusive, pelos participantes desta pesquisa, como pode ser visualizado:

É um pingo no copo da água, chega em um ponto que para a população (silêncio), é claro já está dando problema, tanto que tem tantos cânceres, tantas doenças. Eu acho que vem disso aí, tranquilamente, vem um pouco disso aí (R1).

Esse é o problema que está acontecendo, esse câncer, isso é tudo agrotóxico que está dando. Essas doenças que estão saindo, só pode vir disso. Porque antigamente, quando eu era guri, não tinha nada disso (R11).

Assim, considerando-se o uso dos pesticidas, existe a possibilidade de adoecimento do agricultor, bem como a compreensão de que este uso não pode ser eliminado a curto e médio prazo, tendo em vista a realidade da produção mundial de alimentos. Reconhecer a existência de um risco ou um conjunto deles é admitir não só a probabilidade de que as coisas possam sair erradas, mas que essa não pode ser eliminada16. Por isso, essa sociedade de risco exige outras competências para a sobrevivência, como a decisão de antecipar perigos, de suportá-los, de lidar com eles em termos biográficos e políticos; transpondo o medo e a insegurança, para se converter em qualificação civilizacional decisiva6.

É perceptível que os riscos são potencialmente ameaçadores à vida do ser humano, impactando diretamente nas atividades cotidianas dos trabalhadores rurais com a presença de conteúdos tóxicos inseridos no seu processo de trabalho16. Dessa forma, confiança e risco, oportunidade e perigo, características paradoxais da modernidade, penetram em todos os aspectos da vida cotidiana, suplantando o local e o global e não excluindo ninguém destas situações16.

Nesse ínterim, os riscos não aumentam somente quantitativamente, mas também surgem qualitativamente, ou seja, somam-se novos formatos e atribuições de culpa8. A poluição do ar, da água e dos alimentos proveniente dos agrotóxicos provavelmente aumente os problemas, não somente no sentido fisiológico, mas também no sentido psicológico17.

De certa forma, essa é a experiência do "destino da natureza" produzido pela civilização, na qual o indivíduo experimenta e sofre a inquietação proveniente de sua construtividade técnica e da sociedade global17. Assim, não há como o ser humano ignorar o fato de que suas atividades locais (laborais) são influenciadas, e muitas vezes, determinadas por acontecimentos ou organismos distantes18, como no caso do uso dos pesticidas na agricultura e o agronegócio mundial.

Daí que as escolhas provenientes das opções de estilo de vida, como o trabalho, são frequentemente cerceadas por fatores que estão fora do alcance do indivíduo ou dos indivíduos que essas afetam. As mudanças tecnológicas (maquinário agrícola, uso de praguicidas, entre outros) que se impõem sobre a vida das pessoas são o resultado de incorporação dos sistemas abstratos, controlados por corporações industriais afastadas do controle do indivíduo leigo18.

Ademais, para os participantes deste estudo, corroborando com os resultados de outra investigação19, existe uma situação de ambivalência, quando a negação das ameaças, é assinalada como um estratégia defensiva. Esta negação serve como "proteção" para a saúde mental desses agricultores, que passam a acreditar na inexistência de perigos diretos à sua saúde, em curto prazo. Destaca-se que, isso ocorre por mais que existam informações disponíveis, que lhes mostrem o contrário e que os mesmos conheçam, em algum grau, os riscos a que estão expostos.

Como pode ser analisado nos extratos de fala, os participantes negaram problemas de saúde relacionados à utilização dos praguicidas na atividade rural, apesar de afirmarem a existência de riscos ocupacionais:

Eu não sinto nada, até agora. Pode um dia começar a aparecer coisas por causa do... mas até hoje nunca senti nada (R3).

A minha (saúde) está bem, por enquanto está bem! (risos) Eu já não posso mais lidar com veneno [...] o médico já me proibiu de usar veneno (R8).

Olha, eu graças a Deus com tudo que eu apliquei tudo que eu lidei, que nesses anos se facilitava bem mais do que hoje, e não senti nada até hoje, não tive problema, não tive doença, isso graças a Deus (R10).

Para compensar a ansiedade que essas condições de trabalho forçadas pela produtividade necessária ao agronegócio podem produzir, há o amparo psicológico do sentimento de que "não há nada que eu possa fazer enquanto indivíduo" e de qualquer maneira esses riscos são produto do agronegócio. Agir-como-de-hábito, é um elemento fundamental na manutenção da confiança e da segurança ontológica, e se aplica no que diz respeito aos riscos à saúde causados pelo uso dos agrotóxicos16. Dessa forma, os indivíduos mantém sua rotina diária, amparados por uma certa proteção psicológica que os mantém em condições de realizarem suas atividades com menor nível de ansiedade.

A questão da confiança, implica em consciência das circunstâncias de risco das atividades humanas - o que inclui o impacto da tecnologia sobre o mundo social - e também em expectativas que podem ser frustradas. Já, em relação à segurança, essa pode ser definida como um equilíbrio de confiança e "risco aceitável" ou como uma situação onde um conjunto específico de perigos está neutralizado ou minimizado16.

Isso pode ser denominado como casulo protetor, ou seja, é um "por entre parênteses" fatos potenciais, que seriamente considerados, em vista dos riscos e perigos, produziriam uma espécie de paralisia em relação à prática da vida diária7. Como um mecanismo de defesa, toda a problemática dos agrotóxicos e a atividade rural, juntamente com os riscos inerentes à saúde do trabalhador, em seu cerne mais profundo, fica suspensa, para que possam dar continuidade à sua prática laboral, da qual provém seu sustento.

Dessa maneira, a grande maioria das pessoas não passa muito de seu tempo, de forma consciente, preocupando-se com essas ameaças; o que é justificado pela necessidade de seguir em frente, com os eventos práticos da vida e proteger-se psicologicamente16. Nesse sentido, risco/perigo e confiança/segurança se entrecruzam e a confiança serve para minimizar os perigos aos quais estão submetidos certos tipos de atividades. De certa forma, isso passa a ser visto como "risco aceitável" - aplicado em diferentes contextos de vida - a minimização do perigo, geralmente é central na manutenção da segurança16.

De tal modo, o significado das rotinas não deve ser subestimado, sendo imprescindível para a segurança, porque proporciona uma base estruturadora para a continuidade da vida, por meio de contextos diferentes de ação18. Esse dado pode ser relacionado ao fato dos participantes se sentirem "seguros" perante suas rotinas de trabalho, o que pode justificar o uso incorreto dos EPI.

A suscetibilidade à ameaça não necessariamente culmina na conscientização do risco, podendo, inclusive, provocar o inverso: a negação pelo medo. Juntamente com a dimensão do perigo, cresce a probabilidade de sua negação e minimização e a inimagibilidade desse, com o qual é preciso viver, porém, a percepção do risco é imprescindível para sua superação8.

Nessa sociedade individualizada, o ser humano precisa aprender a reconhecer-se como foco de ação, planejando sua vida no que diz respeito à sua própria carreira, sob pena de um prejuízo irreversível à sua saúde. É exigido, do indivíduo, um modelo dinâmico de ação cotidiana em que a tomada de decisões está sempre presente, com o intuito de assegurar a própria sobrevivência, trazendo, como consequência, a subjetivação e individualização dos riscos8. Para isso, a enfermagem tem o potencial de auxiliar os agricultores, por meio de estratégias educativas, no sentido de buscar desenvolver uma sensibilização acerca do ser/estar na sociedade de risco para tomarem suas decisões relacionadas ao cuidado para com sua saúde.

Em relação à ocorrência de problemas de saúde relacionados ao uso de agrotóxicos, no geral, os participantes negaram existência dos mesmos.

Não, assim que eu lembre nunca tive intoxicação. [...] mas nunca passei mal por causa dos agrotóxicos. Mas de pegar veneno, já peguei umas quantas vezes. No caso, dá um vento, um redemoinho. A pessoa que fala que nunca pegou veneno, mente, porque pega veneno sim (R1)

Não. Nunca. Graças a Deus! Graças e Deus e graças aos cuidados, porque a gente tem que ter cuidado com isso aí (R12).

Entretanto, alguns entrevistados responderam de forma afirmativa. Porém, isso não foi imediatamente relacionado, sendo necessária uma instigação por parte da entrevistadora e nem todos conseguiram relacionar ao uso de pesticidas, conforme pode ser evidenciado:

As vez da dor de cabeça mas, acho que não e por causa do veneno. Mas nunca quando eu tive aplicando me aconteceu esses problemas e que a gente cuida um pouco (R5).

Ah eu tive. Internado não, mas tive uma semana ai meio ruim, com dor no estômago, dor de cabeça, e já estava feio. Ai não teve mais jeito. Parei (R8).

Nas intoxicações agudas, os sintomas clínico-laboratoriais são mais conhecidos, facilitando o diagnóstico e o tratamento do trabalhador. Contudo, o agricultor se expõe a vários produtos ao mesmo tempo, ao longo de muitos anos e por vias distintas (absorção dérmica, inalação, ingestão), tanto na lavoura, por meio do preparo e da aplicação dos pesticidas, quanto na residência, através do armazenamento inadequado e do manuseio das roupas usadas na pulverização, encobrindo-se as intoxicações crônicas que são mais difíceis de relacionar13. Conforme apontado pelos trabalhadores deste estudo, os mesmos utilizam diversas classes desses químicos, sem contar a exposição prolongada, pois, muitos deles utilizam agrotóxicos há mais de 30 anos.

Sabendo-se da gravidade das intoxicações dos trabalhadores, por agrotóxicos, é fundamental, para o controle da morbimortalidade, a existência de um sistema de vigilância em saúde efetivo e integrado. A sua estruturação possibilitará, ao Sistema Único de Saúde (SUS), o cuidado ampliado à saúde das populações nos diversos processos produtivos em que são utilizados os pesticidas, guiado por abordagens integradoras e interdisciplinares. Isso contribuirá, também, para o desenvolvimento de um modelo agrícola ecológico e sustentável no Brasil, que preserve a saúde do trabalhador rural9.

Tendo em vista que os processos de trabalho, na contemporaneidade, estão cada vez mais perigosos; causando danos à saúde humana, principalmente aos trabalhadores, vive-se um momento de construção de um novo paradigma em relação à discussão sobre as condições laborais, o que inclui a avaliação de ambientes insalubres, não somente no trabalho agrícola. Diante disso, registra-se a importância da implementação de políticas públicas voltadas a esse fim, tornando-se imprescindível, à enfermagem, atuar na preservação da saúde dos trabalhadores20.

A visualização do mundo do trabalho e de suas repercussões na saúde humana, pelos profissionais da saúde, é indispensável para intervenções de promoção e prevenção. Nesse aspecto, o exercício laboral dos trabalhadores rurais precisa ser investigado, para que haja a compreensão do fenômeno, das suas reais necessidades de saúde, possibilitando que a política de saúde do trabalhador se entrelace a complexas redes que perpassam a relação homem-trabalho, inclusive no meio rural.

Neste sentido, este estudo corrobora que a exposição aos riscos ocupacionais na atividade rural é um problema de saúde pública, por configurar-se determinante de morbimortalidade, tendo em vista às consequências a saúde dos trabalhadores, assim como, econômicas e socioambientais. Nesse cenário, políticas de regulação do uso e abuso de agrotóxicos, a inclusão do agricultor no processo de produção de saúde, interacionando saberes populares e científicos, a melhoria do acesso à saúde rural, em especial a preventiva, e, principalmente investimentos em promoção da saúde podem ser condições capazes de oportunizar ambientes para melhoria do cuidado à saúde do trabalhador rural21.

Os profissionais da saúde precisam estar capacitados para identificar, tratar os casos e realizar a vigilância à saúde, com ênfase na prevenção e promoção. É de suma importância a disseminação do conhecimento de práticas de armazenamento e do manuseio seguro dessas substâncias, como forma mais imediata de prevenir mortes e outros efeitos graves das intoxicações22. O investimento em educação permanente, entre os profissionais da saúde, tanto para ampliar a vigilância epidemiológica das intoxicações quanto educar os trabalhadores de forma a abarcar com maior abrangência essa questão é essencial.

Assim, é necessário estabelecer estratégias de avaliação e gerenciamento de riscos, como ações de vigilância em saúde, mesmo sabendo que a análise e o gerenciamento de riscos advindos de problemas no âmbito das relações entre saúde, trabalho e ambiente são ações complexas. Isso constitui-se em um enorme desafio, que precisa ser enfrentado por diversos setores, governamentais ou não, envolvidos na busca de uma melhor qualidade de trabalho e vida para a população do país23.

Em relação ao uso de equipamentos de proteção individual, as manifestações dos trabalhadores mostram um panorama preocupante:

[...] tempos atrás tu colocava luvas, os EPI. Hoje como já tem o trator cabinado, a cabine que puxa o ar só de dentro e não traz o ar de fora, por exemplo, tu pulveriza e puxaria aquele ar de fora, isso não tem. Então, hoje em dia, está melhor nesse sentido. Com o trator cabinado, tu pode ir normal, mas eu assim embora tendo a cabine eu coloco a máscara, mas não precisaria porque ele só gira com o ar de dentro, não traz o ar de fora (R1).

Isso eu vou te dizer, sou muito relaxado, já vou te dizer, porque eu não uso luva, não uso nada, por enquanto. [...] de vez em quando eu uso luva, se não, nem uso nada (R11).

Diante do exposto, pode-se inferir que os mesmos não utilizam adequadamente os EPI. Além disso, colocam suas expectativas no trator cabinado, como sendo uma ferramenta que os livrará do risco de contaminação. Esse fato é preocupante, pois os torna mais vulneráveis com essa 'falsa' sensação de segurança ao não utilizar EPI e sair do trator, se expondo aos pesticidas pulverizados.

Verifica-se uma espécie de "ingenuidade" industrial da população, que, muitas vezes, não consegue interpretar o que está contido nas bulas e rótulos, quanto mais usar adequadamente os EPI. Isso oferece aos empresários das indústrias produtoras de praguicidas o direito da insuspeita, diante da manipulação legitimatória dos riscos: diante da impossibilidade de que se façam adotar as normas de segurança, podem isentar-se de fazer cumpri-las. Assim, os mesmos podem manter a consciência tranquila e transferir a responsabilidade pelos acidentes, intoxicações e mortes à falta de cultura da população rural em relação aos riscos8.

Dessa forma, os trabalhadores ficam expostos a contaminações e acidentes, cujo uso correto dos EPI poderia minimizar ou evitar. Ademais, o contexto real no qual os mesmos estão inseridos é desprezado, ao passarem de vítimas a culpados, por meio de rotulações perversas como trabalhadores com 'falta de consciência' ou que praticam 'atos inseguros'.

Perante essa condição de vulnerabilidade encontrada neste estudo, a enfermagem deve atuar, com a finalidade de sensibilizar os trabalhadores rurais para a importância do uso correto de EPI, de práticas mais seguras diante da gravidade do emprego indiscriminado e incorreto de pesticidas. Abordar a relação entre as inúmeras patologias e os praguicidas, por meio de intoxicações agudas e crônicas, também pode ser uma estratégia útil, almejando à promoção de saúde e prevenção de agravos.

O acesso à informação e ao conhecimento técnico promovido por processos educativos participativos é primordial, para que os agricultores que utilizam agrotóxicos em suas práticas laborais, estejam minimamente habilitados a utilizá-los. A informação tem que ser clara e acessível contextualizada, participativa, dialogada - valorizando o trabalhador, como indivíduo criativo, crítico e interpretativo da realidade - e estar vinculada a um desígnio de superação da realidade para que comunicação aconteça de forma efetiva20.

Ademais, avançar no diálogo dos serviços/setores de saúde com movimentos sociais e trabalhadores, por meio da discussão que englobe a inter-relação - promoção, prevenção, proteção, atenção e gestão - e não apenas os agravos, é fundamental, pois, pode tornar mais compreensíveis as necessidades de saúde dos trabalhadores rurais. Além disso, é essencial planejar ações contextualizadas, capazes de reconhecer o território, as pessoas e suas necessidades, para a criação de mecanismos que reduzam as situações de vulnerabilidade visando a qualidade de vida4,9.

A interface entre as questões de saúde do trabalhador e saúde ambiental representa, na atualidade, um grande desafio para o os profissionais de saúde, incluindo-se os de enfermagem, e para o SUS, uma vez que, em muitos casos, a degradação ambiental gerada no processo de produção capitalista, culmina na poluição do ar, solo, água superficial e subterrânea, causando danos à saúde dos trabalhadores e da população. Nesse sentido, a relação dessas questões precisa estar conectada com os modelos alternativos de desenvolvimento regional e local e com os princípios da sustentabilidade e da viabilidade da garantia da qualidade de vida dos trabalhadores rurais, das populações do campo e da cidade24,25.

Em suma, evidencia-se, neste estudo, que são necessários avanços no setor de saúde para mudar a realidade a que o trabalhador rural está exposto, com altos índices de intoxicações, subnotificadas, aliado práticas laborais inseguras, especialmente as decorrentes do uso incorreto dos EPI. Portanto, é essencial refletir sobre como acontecem às práticas de saúde frente a essa problemática e sobre sua efetividade. É necessária uma atitude proativa dos órgãos governamentais, do setor de saúde, da enfermagem e da sociedade em geral para unir forças com o escopo de superar esse processo de risco e perigo à saúde do trabalhador rural, gerador de morbimortalidade, desencadeado pelo uso intensivo de agrotóxicos no cenário brasileiro, visando ambientes de trabalho saudáveis.

CONCLUSÃO

Os resultados do estudo apontam que o trabalhador rural tem conhecimento de que há riscos relacionados ao consumo e manuseio de agrotóxicos, manifestando preocupação com as consequências disso. Em geral, negam associação direta entre o uso de agrotóxicos e problemas de saúde, evidenciando-se que não utilizam adequadamente equipamentos de proteção individual.

Acredita-se que este estudo traz contribuições para atuação dos profissionais de enfermagem, por aportar reflexões relativas as percepções sobre o risco do uso de agrotóxicos para os trabalhadores rurais, na contemporaneidade, as quais podem auxiliar na formulação de ações de prevenção de agravos à saúde dos indivíduos e comunidade envolvida na pesquisa, bem como de todos os que tiverem acesso aos resultados desta pesquisa. Aponta-se, como estratégia, nesse sentido, a realização de ações educativas com trabalhadores rurais, por parte do enfermeiro e demais profissionais da saúde, sobre questões relacionadas a saúde do trabalhador e as implicações do uso de agrotóxicos, que tenham como base o diálogo, com vistas a promoção da saúde individual e ambiental.

Dentre as limitações do estudo, encontra-se o fato de ser localizado e pela restrição temporal, por se tratar de uma pesquisa de mestrado, pois pensa-se que uma investigação que tivesse maior abrangência poderia elucidar de maneira ampla a problemática do uso de agrotóxicos na atividade agrícola. Enfim, sugere-se a realização de novas investigações que tratem dessa temática, bem como a atuação da enfermagem, por meio de uma prática profissional direcionada à saúde do trabalhador que colabore para a promoção de saúde e prevenção de agravos dos trabalhadores rurais e a todos, que de algum modo estão expostos aos perigos da utilização de agrotóxicos.

REFERÊNCIAS

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