Soroepidemiologia de Toxoplasma gondii em idosos atendidos pela Estratégia Saúde da Família, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil

Soroepidemiologia de Toxoplasma gondii em idosos atendidos pela Estratégia Saúde da Família, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil

Autores:

Paula Engroff,
Luísa Scheer Ely,
Samilla Roversi Guiselli,
Fabiana Henriques Goularte,
Irenio Gomes,
Karin Viegas,
Geraldo Attilio De Carli

ARTIGO ORIGINAL

Ciência & Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.19 no.8 Rio de Janeiro ago. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/1413-81232014198.12402013

ABSTRACT

The aim of this study was to evaluate the seroprevalence of Toxoplasma gondii and relate it to the socioeconomic, hygienic, sanitary and health conditions of the elderly of the Family Health Strategy (FHS) in the city of Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brazil. The research involved a cross-sectional study in which a questionnaire with epidemiologic questions was applied and blood samples were taken. The assessment of IgG and IgM anti-T. gondii was performed using the ELISA technique. Seroprevalence was evaluated among 599 elderly individuals with 88% for IgG anti-T. gondii and with 0.8% for IgM. In the multivariate analysis, the variables that associated themselves independently with positive IgG were age range, personal income and wearing spectacles. Those associated with positive IgM were age, self-rated health and wearing spectacles. The results call attention to the high prevalence of IgG anti-T. gondii in elderly individuals in the FHS in Porto Alegre, generating concern in the event that the reactivation of toxoplasmosis and the development of more severe symptoms of this infection occur.

Key words: Toxoplasma; Elderly individuals; Seroprevalence

Introdução

O Toxoplasma gondii é um protozoário intracelular obrigatório que infecta um grande número de hospedeiros, incluindo o homem1. Como em muitas parasitoses, a gravidade dos sintomas clínicos depende da virulência da cepa parasitária e da resistência do hospedeiro2. A fase aguda da infecção é geralmente assintomática (90% dos casos) ou com leves sintomas no hospedeiro, como fadiga e mal-estar geral, semelhante a uma gripe leve que melhora sem a necessidade de intervenção3. O parasito persiste na fase crônica, e a doença representa um grande problema de saúde para mulheres grávidas e indivíduos imunocomprometidos4, como pacientes com AIDS, pacientes receptores de transplante de órgãos e pacientes em quimioterapia5. Os principais sintomas clínicos são linfadenopatia e doença ocular6,7. Em mulheres em que a infecção foi adquirida durante a gestação, principalmente durante os primeiros dois trimestres, pode ocasionar aborto espontâneo, nascimento prematuro, morte neonatal ou sequelas graves no feto8. A toxoplasmose é normalmente diagnosticada através da detecção de anticorpos específicos para T. gondii. A presença de anticorpos IgG e ausência de IgM geralmente sugerem infecção crônica, enquanto que a presença de anticorpos IgM é sugestivo de infecção aguda2.

A toxoplasmose é uma zoonose de ampla distribuição geográfica, sendo que a variabilidade da frequência da infecção está ligada a diversos fatores: padrões culturais da população, hábitos alimentares, faixa etária e procedência urbana ou rural9. Este parasito é capaz de infectar várias espécies animais como hospedeiro intermediário, mas apenas a família dos felídeos, principalmente o gato doméstico, é o hospedeiro definitivo com excreção fecal de oocistos resistentes ao meio ambiente10. A alta prevalência de toxoplasmose é atribuída a sua propagação eficiente através da cadeia alimentar11. A dispersão do parasito pode ser determinada pela possibilidade deste apresentar vários mecanismos de transmissão: ingestão de cistos presentes em carne crua ou mal cozida, ingestão de oocistos que foram eliminados através das fezes de gatos, contaminando alimentos e água, manipulação de terra contaminada com oocistos e relativamente menos frequente através de transplante de um órgão que apresente cistos teciduais1,2.

Estudos epidemiológicos identificaram fatores de risco para a infecção por T. gondii: possuir gatos; estar na proximidade de gatos soropositivos em áreas agrícolas; realizar a limpeza da caixa de areia para gatos; comer carne de porco, carne de carneiro ou cordeiro crua ou mal cozida; consumir leite não pasteurizado; exposição à água contaminada12; trabalhar com jardinagem; ter contato com o solo; comer vegetais ou frutas não lavados; ingerir vegetais crus fora de casa; ter pouca ou nenhuma higiene das mãos, entre outros13.

Outra característica da toxoplasmose é o fato de que, apesar de ter sido descoberta há mais de 100 anos, muitos dos seus aspectos ainda permanecem desconhecidos. Ainda não existe um tratamento capaz de erradicar o parasito do hospedeiro, e os estudos para desenvolver uma vacina ainda não chegaram a resultados satisfatórios14.

Estudos mostram que a soroprevalência de T. gondii é maior em pessoas idosas, pois com o passar dos anos, o indivíduo foi mais exposto ao contato com o parasito15,16. Como em outros países, a soroprevalência para T. gondii no Brasil varia muito e depende de inúmeros fatores que influenciam na epidemiologia da infecção. Em estudos realizados no Brasil com a população adulta, a soroprevalência para T. gondii variou de 50 a 80%17. Como há poucos estudos sobre a prevalência de toxoplasmose em idosos brasileiros, essa pesquisa tem como objetivo avaliar a soroprevalência de T. gondii IgG e IgM nos idosos atendidos na Estratégia Saúde da Família (ESF) do município de Porto Alegre, relacionando com as condições socioeconômicas, higiênicas, sanitárias e de saúde.

Método

Delineamento

Estudo transversal, descritivo e analítico, com dados coletados de forma prospectiva em uma amostra aleatória da população de idosos cadastrados na ESF do município de Porto Alegre.

População

A ESF é um programa de saúde pública brasileiro que tem o objetivo de redirecionar o modelo de saúde no país, fortalecendo a atenção básica à saúde. Esta estratégia prioriza ações de promoção, proteção e recuperação da saúde dos indivíduos e das famílias de forma integral, contínua e de qualidade, estimulando a organização da comunidade e efetiva participação popular18.

Esse estudo fez parte de um projeto maior intitulado "Estudo epidemiológico e clínico dos idosos atendidos pela Estratégia de Saúde da Família do município de Porto Alegre - EMISUS", o qual ocorreu no período de março de 2011 a dezembro de 2012. A pesquisa foi desenhada em 2009, para estudar a população de idosos da ESF do município de Porto Alegre, que era composta por 97 equipes contando com aproximadamente 22 mil idosos cadastrados, distribuídos em oito áreas geográficas denominadas Gerências Distritais - GD. Para a seleção desses idosos foram sorteadas 30 equipes da ESF, de forma estratificada por GD, sendo selecionadas cerca de 30% das equipes de cada GD, das quais foram sorteados 36 idosos por ESF.

Os critérios de inclusão foram: idade igual ou superior a 60 anos, estarem cadastrados na ESF, terem realizado tanto a entrevista completa com os agentes comunitários de saúde (ACS) como a coleta de sangue pela equipe do projeto.

Coleta de dados

Os idosos foram entrevistados em suas residências pelos ACS, que aplicaram um questionário geral de inquérito epidemiológico. A coleta de sangue foi realizada pela equipe do projeto na unidade de saúde onde o idoso estava cadastrado. Essas amostras foram encaminhadas para o Laboratório de Bioquímica, Genética Molecular e Parasitologia (LABGEMP), do Instituto de Geriatria e Gerontologia da PUCRS, para o devido processamento.

Análise sorológica

As amostras de sangue foram centrifugadas e o soro foi armazenado a -20°C até serem examinadas. Os testes sorológicos foram realizados através da técnica de ELISA (Enzyme - Linked Immunosorbent Assay), para determinar a presença de anticorpos específicos de T. gondii IgG e IgM (Biolisa - Bioclin, Belo Horizonte, Brasil), e realizados de acordo com as instruções do fabricante. Para ambos os anticorpos IgG e IgM, foi utilizado o índice Toxo G e índice Toxo M, respectivamente. Estes índices foram calculados para cada determinação, dividindo o valor médio de cada amostra pelo valor médio do calibrador cut-off. Uma amostra foi considerada positiva para IgG ou IgM, quando o índice Toxo G ou o índice Toxo M foi igual ou maior do que 1,1.

Análise estatística

Os dados foram analisados através do software estatístico SPSS versão 17. As variáveis foram descritas através de frequências, médias e desvios padrões. Para comparar as frequências das diferentes variáveis entre os grupos com sorologia positiva e negativa foi utilizado o teste do qui-quadrado de Pearson. As variáveis ordinais foram comparadas pelo teste de tendência linear do qui-quadrado. As variáveis que, no teste de Pearson, apresentaram uma ou mais células com valor esperado menor que cinco foram analisadas pelo teste exato de Fisher. Foram considerados significativos valores de P < 0,05.

Na análise multivariada foi utilizada a regressão de Poisson, sendo o critério de entrada todas as variáveis com P < 0,300. A análise foi feita inicialmente com a inclusão de todas as variáveis selecionadas, sendo retiradas uma a uma, as com menor associação. Para o modelo final, foram mantidas a variável sexo, independente de ter associação significativa, e aquelas com valores de P independentes inferiores a 5%.

Aspectos éticos

Este projeto foi aprovado pelos Comitês de Ética em Pesquisa (CEP) da PUCRS e da Secretaria Municipal de Saúde da Prefeitura do Município de Porto Alegre, atendendo às Diretrizes e Normas Regulamentadoras em Pesquisa, conforme a Resolução 196/96 do CNS/MS19-21.

Resultados

Foram estudados 599 idosos com média de idade de 68,4 ± 72 anos, 209 (34,9%) homens e 390 (65,1%) mulheres. A soroprevalência de anticorpos IgG para T. gondii foi de 88,0% e 0,8% para anticorpos IgM. Quando avaliada a prevalência de IgG anti-T. gondii, foi observado que quanto maior a faixa etária, maior foi a prevalência encontrada (P = 0,035). Com relação à escolaridade, quanto menor o nível de estudo, maior a prevalência de toxoplasmose (P = 0,001). O mesmo observou-se com relação à renda pessoal (P = 0,002). Idosos sem atividade remunerada apresentaram maior prevalência de toxoplasmose (P = 0,003) quando comparada com os idosos que tinham atividade remunerada. Observamos que a região Sul/Centro Sul apresentou maior prevalência de IgG anti-T. gondii (97,4%) (P = 0,044) e a região Noroeste/Humaitá/Navegantes/Ilhas apresentou maior prevalência de IgM anti-T. gondii (10,5%) (P = 0,001) (Tabela 1). Essas duas regiões foram as que apresentaram menor escolaridade (até 1° grau incompleto, respectivamente, 92,1% e 94,8%) e a região Noroeste/Humaitá/Navegantes/Ilhas apresentou a menor renda familiar (até um salário mínimo em 66,7% dos idosos) e também foi a região com a maior prevalência de gatos como animal de estimação (30,8%) (Tabela 2). Nesse estudo, possuir gato como animal de estimação apresentou uma prevalência de 90,3% e não ter gato mostrou uma prevalência de 86,8% para IgG anti-T. gondii, porém sem diferença estatisticamente significativa (Tabela 3).

Tabela 1 Distribuição das variáveis sociodemográficas de acordo com a soroprevalência de T. gondii em idosos da ESF, Porto Alegre. 

Prevalência de T. gondii Prevalência de T. gondii
em IgG em IgM
Variável População % P % P
N (%)
Sexo 0,621* 0,169***
Masculino 209 (34,9) 87,1 0,0
Feminino 390 (65,1) 88,5 1,3
Faixa etária 0,035** 0,120**
60-69 anos 376 (63,7) 86,2 1,3
70-79 anos 164 (27,8) 89,6 0,0
80 anos ou mais 50 (8,5) 96,0 1,0
Escolaridade 0,001** 0,962**
Analfabeto 150 (25,3) 92,0 0,7
1° grau incompleto 344 (58,0) 88,1 0,9
1° grau completo 58 (9,8) 87,9 1,7
2° grau completo 41 (6,9) 70,7 0,0
Raça 0,589* 0,593*
Branca 390 (65,9) 87,4 0,8
Parda 73 (12,32) 91,8 0,0
Negra 114 (19,3) 86,0 1,8
Outra 15 (2,5) 93,3 0,0
Estado civil 0,800* 0,847*
Casado 232 (39,1) 87,5 0,4
Separado 97 (16,3) 87,6 1,0
Solteiro 100 (16,8) 91,0 1,0
Viúvo 165 (27,8) 87,3 1,2
Renda pessoal 0,002** 0,157**
Até 1 salário mínimo 369 (65,2) 90,8 1,1
2 a 4 salários mínimos 186 (32,9) 84,4 0,0
4 salários mínimos ou mais 11 (1,9) 63,6 0,0
Atividade remunerada 0,003* 0,585***
Não 460 (79,2) 90,0 0,9
Sim 121 (20,8) 80,2 0,0
Gerência Distrital 0,044* 0,001*
Norte/Eixo Baltazar 79 (13,2) 81,0 1,3
Sul/Centro Sul 38 (6,3) 97,4 0,0
Restinga/Extremo Sul 44 (7,3) 93,2 0,0
Glória/Cruzeiro/Cristal 144 (24,1) 90,3 0,0
Noroeste/Humaitá/Navegantes/Ilhas 19 (3,2) 94,7 10,5
Partenon/Lomba do Pinheiro 80 (13,4) 80,0 0,0
Leste/Nordeste 165 (27,5) 88,5 1,2
Centro 30 (5,0) 90,0 0,0
Total 599 (100) 88,0 0,8

*Valor de P calculado pelo teste de Pearson do Qui-quadrado. ** Valor de P calculado pelo teste de tendência linear do Qui-quadrado. *** Valor de P calculado pelo teste exato de Fisher do Qui-quadrado

Tabela 2 Distribuição das Gerências Distritais de acordo com baixa escolaridade, baixa renda familiar e presença de gato como animal de estimação nos idosos da ESF, Porto Alegre. 

Gerência Distrital Escolaridade baixa* Renda familiar baixa** Gato
N (%) N (%) N (%)
Norte/Eixo Baltazar 50 (64,9) 25 (41,0) 13 (21,3)
Sul/Centro Sul 35 (92,1) 10 (31,2) 8 (26,7)
Restinga/Extremo Sul 39 (88,6) 13 (35,1) 7 (20,6)
Glória/Cruzeiro/Cristal 120 (84,5) 57 (44,5) 26 (23,6)
Noroeste/Humaitá/Navegantes/Ilhas 18 (94,8) 10 (66,7) 4 (30,8)
Partenon/Lomba do Pinheiro 65 (82,3) 12 (16,9) 15 (22,1)
Leste/Nordeste 143 (86,7) 53 (35,8) 37 (28,2)
Centro 24 (82,7) 9 (37,5) 3 (20,0)

*Até 1°grau incompleto. ** Até 1 salário mínimo

Tabela 3 Distribuição das variáveis gerais e relacionadas à saúde de acordo com a soroprevalência de T. gondii em idosos da ESF, Porto Alegre. 

Prevalência de T. gondii Prevalência de T. gondii
em IgG em IgM
Variável População % P % P
N (%)
Geral
Tem gato 0,333* 0,576***
Não 349 (75,5) 86,8 1,1
Sim 113 (24,5) 90,3 0,0
Onde vive o animal 0,464* 0,307***
Domicílio 93 (20,1) 89,2 0,0
Pátio/rua 292 (63,1) 86,3 1,4
Dorme na rua/casa 78 (16,8) 91,0 0,0
Lava salada/frutas 0,723* <0,001*
Apenas água 511 (86,0) 88,3 0,6
Água e água sanitária 78 (13,1) 85,9 1,3
Nunca lava 5 (0,8) 80,0 20,0
Saúde
Visão 0,270** 0,003**
Boa 163 (27,7) 86,5 3,1
Regular 263 (44,7) 86,7 0,0
Ruim 155 (26,4) 91,0 0,0
Não enxerga 7 (1,2) 85,7 0,0
Usa óculos 0,014* 0,344***
Não 142 (24,1) 93,7 0,0
Sim 447 (75,9) 85,9 1,1
HIV Positivo 0,166 *** 1,000***
Não 553 (98,9) 87,7 0,7
Sim 6 (1,1) 66,7 0,0
Autopercepção de saúde 0,004** 0,037**
Boa/ótima 209 (35,4) 82,8 1,9
Regular 322 (54,5) 90,1 0,3
Má/péssima 60 (10,2) 93,3 0,0

*Valor de P calculado pelo teste de Pearson do Qui-quadrado. ** Valor de P calculado pelo teste de tendência linear do Qui-quadrado. *** Valor de P calculado pelo teste exato de Fisher do Qui-quadrado

O resultado das variáveis de saúde mostrou que idosos que não usavam óculos apresentaram maior prevalência para IgG anti-T. gondii (P = 0,014) e idosos que relataram ter uma visão boa apresentaram maior prevalência de IgM anti-T. gondii (P = 0,003) do que as demais categorias. Quando avaliada a autopercepção de saúde, quanto pior o idoso considerava a sua saúde, maior a prevalência de IgG anti-T. gondii (P = 0,004) e IgM anti-T. gondii (P = 0,037). Idosos HIV positivos não tiverem diferença estatisticamente significativa para toxoplasmose (Tabela 3).

Os modelos finais das análises multivariadas estão representados nas Tabelas 4 e 5. As variáveis que se associaram de forma independente para presença de IgG anti T. gondii foram: faixa etária, renda pessoal e uso de óculos. A variável autopercepção de saúde foi retirada do modelo final da análise multivariada, pois apresentou interação com a variável renda pessoal. Nos outros modelos da análise, a autopercepção de saúde ficava significativa quando a renda pessoal não era incluída. As variáveis que se associaram de forma independente para presença de IgM anti-T. gondii foram: faixa etária, autopercepção de saúde e uso de óculos.

Tabela 4 Modelo final da análise multivariada utilizando a regressão de Poisson para o desfecho de IgG positivo para toxoplasmose em 550 idosos da ESF, Porto Alegre. 

Variável RP IC 95% P
Sexo
Masculino 1
Feminino 1,01 0,97 - 1,05 0,627
Faixa etária
60-69 anos 1
70-79 anos 1,05 1,00 - 1,10 0,058
80 anos ou mais 1,10 1,03 - 1,19 0,009
Renda pessoal
Até 1 salário mínimo 1
2-4 salários mínimos 0,94 0,90 - 0,99 0,010
Mais que 4 salários mínimos 0,71 0,47 - 1,07 0,105
Usa óculos
Não 1
Sim 1,08 1,02 - 1,14 0,010

(RP): razão de prevalência; (IC): intervalo de confiança

Tabela 5 Modelo final da análise multivariada utilizando a regressão de Poisson para o desfecho de IgM positivo para toxoplasmose em 550 idosos da ESF, Porto Alegre. 

Variável RP IC 95% P
Sexo
Masculino 1
Feminino 1,00 0,94 - 1,06 0,921
Faixa etária
60-69 anos 1
70-79 anos 1,04 0,98 - 1,11 0,183
80 anos ou mais 1,12 1,04 - 1,20 0,002
Autopercepção de saúde
Boa/ótima 1
Regular 1,10 1,04 - 1,17 0,002
Má/Péssima 1,13 1,04 - 1,22 0,002
Usa óculos
Não 1
Sim 1,08 1,02 - 1,15 0,009

(RP): razão de prevalência; (IC): intervalo de confiança

Discussão

A soroprevalência para toxoplasmose em idosos da ESF de Porto Alegre foi de 88,0%, indicando que as pessoas idosas tiveram maior probabilidade de se infectar com cistos ou oocistos do parasito ao longo da vida. Já é descrita uma alta prevalência de toxoplasmose na população brasileira, variando de 50 a 80%, como revisado por Oréfice e Bonfioli17. No entanto, os estudos não analisaram especificamente a população idosa. No Panamá, a soroprevalência para T. gondii foi relatada em 90% das pessoas com idade de 60 anos13. As diferenças são, em parte, explicadas por questões culturais, hábitos de vida, faixa etária e procedência urbana ou rural9. Na França, onde a carne mal cozida é comumente consumida e em áreas tropicais da América Latina ou África subsaariana, onde os gatos são abundantes e o clima favorece a sobrevivência dos oocistos são encontradas altas prevalências de T. gondii22,23. Assim, como em outros levantamentos epidemiológicos7,9,15,23, não foi encontrada diferença na prevalência da toxoplasmose em relação ao sexo e acreditamos, portanto, que homens e mulheres estão igualmente expostos à possível infecção pelo T. gondii. Também não foi observada relação da soroprevalência com raça ou estado civil.

Foi encontrado um aumento da prevalência de toxoplasmose IgG com o aumento da faixa etária. Esta associação se manteve presente, de forma independente das outras variáveis, quando realizada a análise multivariada, porém com uma força de associação pequena (RP igual a 1,05 para 70-79 anos, e 1,10 para 80 anos ou mais, em comparação a faixa 60-69 anos). Embora não tenha sido encontrado uma associação significativa com IgM na análise bivariada, esta apareceu ao ser feita a regressão de Poisson. Acreditamos que, com o passar dos anos, há uma maior probabilidade de contato com o T. gondii, mostrando uma infecção latente ou passada, como já descrito por outros autores15,16.

Níveis mais baixos de escolaridade e menores rendas foram associados com uma maior soroprevalência de IgG para toxoplasmose nos nossos idosos. Na análise multivariada, essas duas variáveis sofrem interferências mútuas, tendo ficado de forma independente, com uma força um pouco maior, na nossa análise, a renda pessoal. Outros estudos corroboram os nossos achados. Jones et al.13, em estudo realizado nos Estados Unidos, encontraram uma prevalência de toxoplasmose mais alta em pessoas com menos nível de educação e esses achados foram associados com menor nível socioeconômico. Estudo realizado no Rio de Janeiro com jovens escolares indicou que o baixo nível socioeconômico era um forte indicador de soropositividade de T. gondii24. Analisando as regiões distritais do município de Porto Alegre atendidos pela ESF, as maiores prevalências para T. gondii IgG ocorreram na região Sul/Centro Sul (97,4%) e na região Noroeste/Humaitá/Navegantes/Ilhas (94,7%), sendo que nesta última ocorreu um alto número de casos de infecção aguda por T. gondii (IgM). Ambas as regiões apresentaram uma população geral de baixa escolaridade e baixa renda, vivendo em condições habitacionais e de estrutura pública pior que as demais regiões do município de Porto Alegre.

Em relação aos fatores extrínsecos estudados, possuir um gato como animal de estimação não mostrou ser um fator associado ao T. gondii. Essa associação é controversa na literatura. Embora alguns trabalhos tenham encontrado relação25,26, em estudos realizados em países da Europa27 e na República Democrática de São Tomé e Príncipe28 com mulheres grávidas e em outro estudo com pessoas infectadas com o vírus da imunodeficiência humana29, a associação entre soroprevalência para T. gondii e gato também não foi significativa. A falta de higienização dos alimentos, por outro lado, mostrou uma associação significativa com infecção por T. gondii em nosso estudo, embora não mantida na análise multivariada, provavelmente pelo pequeno número de pessoas. Idosos que relataram nunca lavar legumes e verduras ou frutas antes do consumo, apresentaram maior prevalência de IgM anti-T. gondii. Esse dado sugere que a falta de higiene com alimentos pode ser um fator de contaminação primária. Outros estudos relatam que a falta de cuidado com o manuseio e consumo de alimentos é um grande fator de risco para contaminação por oocistos8,13,24,29.

Problemas oculares relacionados à toxoplasmose podem ocorrer por uma reativação da lesão congênita ou por toxoplasmose adquirida. Nesse último caso, a lesão ocular pode aparecer muitos anos após a infecção primária, constituindo uma das causas mais frequentes de cegueira e deficiência visual no Sul do Brasil30,31. Em nosso estudo, não houve uma avaliação oftalmológica para definir o comprometimento ocular pela toxoplasmose nos idosos. Após o controle para as demais variáveis pela regressão de Poisson, não encontramos nenhuma associação da autopercepção da visão com a soroprevalência e o fato de usar óculos revelou uma maior probabilidade de apresentar anticorpos para toxoplasmose, tanto IgG, quanto IgM. Acreditamos se tratar de uma associação espúria e estudos posteriores seriam necessários para verificar a real associação de alterações visuais com a sorologia para toxoplasmose.

A autopercepção de saúde geral, em nosso estudo, se associou de forma significativa com a sorologia para toxoplasmose. Em relação ao IgG, observamos que, quanto pior a percepção da sua saúde, maior a soropositividade. Na análise multivariada isto também foi observado. No entanto, como ocorreu uma interação com a renda, foi excluída do modelo final. Nos modelos nos quais a renda foi excluída, a autopercepção de saúde mostrou uma associação significativa. Quanto ao IgM, a análise bivariada mostrou uma associação inversa, que acreditamos ser espúria. No modelo final da análise multivariada, observa-se também uma maior prevalência nas piores percepções de saúde. Não encontramos, na literatura, estudos que avaliaram a relação da toxoplasmose com autopercepção de saúde. Como há uma relação da toxoplasmose com baixo nível socioeconômico, talvez esta infecção seja também um possível indicador de saúde, embora com uma pequena força de associação.

Os resultados obtidos fornecem dados sobre a real prevalência de anticorpos para T. gondii na população de idosos da ESF de Porto Alegre. Esse estudo foi importante para chamar a atenção da alta prevalência, nos idosos, dessa potencial infecção latente. Como essa população está sujeita a condições que podem comprometer sua imunidade, deve-se ter maior preocupação com o aparecimento de manifestações clínicas que possam estar relacionadas à presença de T. gondii. O diagnóstico de toxoplasmose deve, portanto, ser mais frequentemente pensado, mesmo porque esta doença pode ser mais severa no idoso, devido à diminuição da imunidade celular própria do envelhecimento. Foram poucos os estudos encontrados na literatura que avaliaram a toxoplasmose especificamente em idosos. Acreditamos que futuras investigações sejam necessárias na população idosa em particular, com investigação dos hábitos alimentares, uma avaliação clínica mais detalhada, incluindo exame oftalmológico e avaliação do sistema imunológico.

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