Sotaque e telejornalismo: evidencias para a pratica fonoaudiologica

Sotaque e telejornalismo: evidencias para a pratica fonoaudiologica

Autores:

Leonardo Wanderley  Lopes,
Ivonaldo Leidson Barbosa  Lima,
Eveline Gonçalves  Silva,
Larissa Nadjara Alves de  Almeida,
Anna Alice Figueiredo de  Almeida

ARTIGO ORIGINAL

CoDAS

versão On-line ISSN 2317-1782

CoDAS vol.25 no.5 São Paulo set./out. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S2317-17822013000500012

INTRODUÇÃO

A forma de expressão na TV mudou nos últimos anos, pois a fala acompanha o contexto, as transformações da sociedade, retrata o momento histórico das pessoas de uma determinada época.

Contudo, ainda hoje, há uma tradição no trabalho de suavização do sotaque, tanto em termos segmentais como suprassegmentais, na abordagem de aperfeiçoamento da comunicação dos profissionais de telejornalismo. O sotaque é um tema recorrente entre profissionais da área, sejam eles repórteres, apresentadores, diretores de jornalismo, chefes de redação e fonoaudiólogos. Ele acaba sendo um dos critérios, até mesmo, de seleção de novos telejornalistas.

Baseados, muitas vezes, no modelo de comunicação a partir da Teoria da Informação( 1 ), o sotaque era considerado um ruído na comunicação. Acreditava-se que o ruído intervinha durante todo o percurso da informação, diminuindo a eficiência comunicativa. Desse modo, essa era uma necessidade urgente: eliminar as características regionais de fala, buscando um padrão de pronúncia uniforme em nível nacional, impedindo que o telespectador desviasse a sua atenção da notícia (conteúdo) para a "forma" de falar do repórter.

Por isso, e também por outros fatores, a suavização do sotaque ainda é vista como uma forma de ascensão na carreira de repórter e apresentador de telejornal. A compreensão desse processo remonta ao momento histórico de surgimento do telejornalismo no país e à valorização de determinadas variantes linguísticas como instrumento de poder e ascensão social.

A atuação fonoaudiológica voltada para a suavização do sotaque de telejornalistas ainda é muito empírica, baseando-se na identificação das características de sotaque presentes em determinado sujeito, tanto em termos de pronúncia quanto de prosódia, seguida pela manipulação de tais parâmetros, buscando-se um estilo menos "marcado" de locução. Por outro lado, pouco ainda se conhece sobre a percepção do telespectador e a forma como ele julga a presença das diferentes características regionais na fala de repórteres e apresentadores.

Os estudos de percepção de fala e sotaque, realizados nos últimos dez anos, buscaram compreender como os ouvintes leigos processam e interpretam a variação, chegando à conclusão de que as pessoas parecem usar sua percepção de dialeto para categorizar e atribuir valores aos falantes( 2 - 8 ). No entanto, o desafio real dessas pesquisas está em compreender em que medida diferentes valores (positivos ou negativos) são atribuídos às variantes linguísticas em diversos contextos e estilos de comunicação.

No âmbito do telejornalismo, podemos inferir que o telespectador faz julgamentos acerca do padrão de locução dos repórteres locais, que podem ou não apresentar marcas regionais em sua forma de falar, comparando-o com o padrão veiculado pelos jornais de rede e estabelecendo critérios de julgamento como positivo ou negativo.

Julgamentos de caráter valorativo a respeito da pronúncia dos sons da fala são comuns e fazem parte da vida cotidiana das pessoas, sempre vindo à tona nos ambientes e situações mais variados e inusitados. Ocorrem porque o uso da língua implica variação e, consequentemente, permite certas escolhas, que, por sua vez, decorrem de condicionamentos culturais, dialetais, sociais, psicológicos, políticos e pragmáticos, que influenciam a concepção e opção estéticas.

Embora a área de pesquisa de percepção da variação seja um campo crescente da Sociolinguística, a literatura sobre essa temática ainda é escassa, havendo necessidade de compreender como o ouvinte percebe, mas, principalmente, como ele utiliza essa informação nos diferentes contextos de comunicação, a partir das representações da variação e do seu significado social em sua memória. A variação permite que o ouvinte, naturalmente, codifique detalhes das características indexicais do sinal de fala de um ouvinte específico ou de um grupo.

Nesse sentido, o objetivo desta pesquisa foi analisar as preferências e atitudes dos ouvintes em relação à ocorrência das variantes linguísticas de sua região na fala de telejornalistas.

MÉTODOS

Desenho do estudo

O presente estudo caracteriza-se como explicativo, analítico e transversal.

Amostra

Participaram 105 ouvintes, naturais e domiciliados em João Pessoa, alunos do Curso de Fonoaudiologia da Universidade Federal da Paraíba entre o primeiro e o sexto períodos, com faixa etária entre 18 e 38 anos de idade, sendo 24 do sexo masculino e 81 do sexo feminino, que não possuíam queixa auditiva que impedisse a escuta do material audiogravado. A participação dos ouvintes esteve restrita à escuta dos trechos de fala e preenchimento do Protocolo de Avaliação da Preferência de Fala e Escala de Avaliação de Atitudes Relacionadas à Fala.

Material

Como instrumentos de pesquisa, foram utilizadas gravações em áudio, ficha de identificação dos ouvintes, protocolo de preferência de fala e escalas sociais para mensuração das atitudes dos ouvintes com relação ao padrão de fala.

Para a gravação, foi utilizado um texto-padrão, elaborado para que contivesse todas as possibilidades relacionadas às variáveis estudadas. As locutoras também leram uma sequência de frases-veículo contendo as palavras-alvo retiradas do texto.

Inicialmente, selecionamos as variantes linguísticas a serem investigadas a partir dos estudos realizados pelo Projeto Variação Linguística no Estado da Paraíba (VALPB), que investigou a realidade linguística da comunidade de João Pessoa, traçando o perfil linguístico de seus falantes, incluindo as variantes: palatalização do /S/ medial em coda, monotongação, harmonização vocálica, palatalização das oclusivas dentais, assimilação da oclusiva dental e enfraquecimento do /R/ em coda medial.

Posteriormente, criamos um texto-padrão que contivesse todas as possibilidades relacionadas às variáveis estudadas. A seleção das palavras que representariam cada uma dessas variáveis foi feita por meio da sua ocorrência em textos telejornalísticos.

Ademais, todos os vocábulos que representavam as variantes foram inseridos em frases-veículo do tipo "digo baixinho". Esse procedimento teve por objetivo gerar amostras de fala inseridas em contextos fonético-fonológicos semelhantes.

Três locutoras, telejornalistas nativas, gravaram as frases e o texto nas situações de ocorrência de sotaque regional (SR) e ocorrência de sotaque suavizado (SS) quanto às variáveis linguísticas estudadas. Considerando-se que as gravações foram realizadas por três locutoras, cada vocábulo poderia ter uma ocorrência de até três vezes, como observado no Quadro 1.

Quadro 1 Variáveis linguísticas e sua ocorrência na avaliação da preferência de fala 

Legenda: SR = sotaque regional; SS = sotaque suavizado

Durante a gravação, controlamos o aspecto suprassegmental, principalmente no que diz respeito à curva entoacional e taxa de elocução, visto que tínhamos por objetivo apenas a análise dos aspectos segmentais da variação. Desse modo, procuramos evitar que, ao caracterizar a fala com SR ou com SS, as locutoras realizassem diferenças significativas no aspecto prosódico e, por consequência, o julgamento dos ouvintes fosse guiado por essas pistas.

Para tanto, instruímos as locutoras sobre essas questões e realizamos breve treinamento, incluindo exercícios vocais e instrução direta sobre a forma de gravação do texto e das frases. Com isso, buscamos uma curva entoacional mais nivelada, com menor elevação de F0 nas tônicas não finais, e menor diferença de F0 entre as sílabas pretônica e tônica finais e a postônica.

Para dar continuidade à pesquisa, editamos os trechos de fala no software SoundForge, versão 10.0. Recortamos as palavras-alvo, preservando-se todos os fonemas, e pareamos em um mesmo arquivo de áudio de acordo com a locutora e a variável linguística estudada. Para essa última condição, realizamos o pareamento em uma sequência aleatória do padrão SR e SS. Além disso, inserimos cinco pares de palavras iguais, seja na condição de SR ou SS, denominadas distratores.

Salvamos cada arquivo em uma faixa de áudio e organizamos de forma aleatória para posterior apresentação aos ouvintes. As palavras foram utilizadas para identificação de diferenças entre SR e SS e para avaliação da preferência de fala. As frases foram usadas para a avaliação das atitudes pelos juízes.

Para a validação das palavras e frases que foram utilizadas para julgamento pelos ouvintes, apresentamos os arquivos de áudio para quatro fonoaudiólogas com experiência em avaliação da fala. Inicialmente, elas escutaram cada par de palavras (SR versus SS), devendo marcar se identificavam ou não diferença de pronúncia e qual das pronúncias correspondiam ao SR e ao SS. O mesmo procedimento foi realizado com as frases. Para posterior apresentação aos ouvintes, consideramos apenas os pares de palavras ou frases em que pelo menos três das avaliadoras perceberam diferenças entre as duas formas de pronúncia.

Foi elaborado um Protocolo de Avaliação da Preferência de Fala, com objetivo de avaliar se o ouvinte percebia as diferenças entre as variantes linguísticas (SR versus SS) e qual das variantes era preferida para a fala de apresentadores de telejornal.

Para a avaliação das atitudes, foi montada a Escala de Avaliação da Atitude Relacionada à Fala, que consistia em uma escala de diferencial semântico de sete pontos, contendo sete atributos a serem avaliados em cada trecho de fala( 9 , 10 ). Nessa técnica, os ouvintes foram solicitados a avaliar qualidades pessoais dos falantes (confiabilidade, clareza, competência, credibilidade, agradabilidade, cultura e pronúncia adequada) a partir da escuta de trechos de fala, correspondendo à condição de SR e SS.

Para elaboração dessa escala, selecionamos os 32 atributos mais referidos na literatura( 10 ) e enviamos um e-mail para 40 fonoaudiólogos atuantes em telejornalismo nas diferentes regiões do país. Eles deveriam responder em uma Escala de Likert os atributos que poderiam se aplicar ou não ao que é esperado para a voz de um repórter/apresentador de telejornal.

Enviamos o e-mail contendo uma breve apresentação da pesquisa e o link do Google Docs, no qual o fonoaudiólogo poderia acessar e responder os itens da escala. O número "1" correspondia ao "não se aplica", "2" ao "aplica-se parcialmente", "3" ao "aplica-se", "4" ao "é um atributo esperado" e "5" "é um atributo muito importante". Quatorze fonoaudiólogos responderam esta pesquisa. Os sete itens com maior pontuação na escala foram selecionados.

Procedimentos

Inicialmente, apresentamos os pares de palavras, utilizando-se notebook e caixas de som, em uma intensidade referida como confortável e suficiente pelos ouvintes, sendo repetidas duas vezes. Solicitamos que, após a escuta de cada par, os ouvintes preenchessem o Protocolo de Avaliação da Preferência de Fala, identificando a pronúncia preferida para um apresentador de telejornal.

Em seguida, para cada variável linguística, apresentamos duas frases emitidas por duas locutoras diferentes, nas situações de SR e SS. Em cada frase, o ouvinte utilizou a Escala de Avaliação da Atitude Relacionada à Fala, devendo julgar os sete atributos associados à fala em uma escala de diferencial semântico.

Para a análise dos dados referentes à identificação de diferenças entre SR e SS e as preferências de pronúncia para a fala do apresentador, foram realizados testes para proporções, verificando-se se havia diferenças entre as respostas dos ouvintes.

Foi utilizado o teste de associação exato de Fisher para verificar se existia relação entre as variantes linguísticas preferidas para a fala dos apresentadores e o julgamento de atitudes relacionadas à condição de SR ou SS.

O nível de significância adotado foi o de 5% para todas as análises. O software utilizado foi o R, sendo este gratuito e o mais utilizado pela comunidade estatística.

Esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal da Paraíba, com o parecer de nº 17103. Todos os voluntários participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

RESULTADOS

Observamos que os ouvintes perceberam as diferenças entre a presença de características de fala regionais em comparação com o sotaque suavizado, tanto de forma geral (p<0,0001), quanto para cada variável linguística estudada (p<0,0001) (Tabela 1).

Tabela 1 Percepção auditiva de diferenças entre o sotaque regional e suavizado para as diferentes variáveis linguísticas 

Diferenças
Variável Sim Não Valor de p
n % n %
Percepção geral 8,192 92,61 654 7,39 0,0000*
Palatalização do /S/ em coda medial 500 95,24 25 4,76 0,0000*
Monotongação 1,748 92,49 142 7,51 0,0000*
Harmonização vocálica 2,345 97,10 70 2,90 0,0000*
Palatalização das dentais 1,802 95,39 87 4,61 0,0000*
Assimilação de dental 581 92,22 49 7,28 0,0000*
Enfraquecimento do /R/ em coda mediall 206 65,40 109 34,60 0,0000*

*Valores significativos p<0,05 - Teste para proporções

Na presente pesquisa, os ouvintes preferiram uma fala sem características de sotaque regional na fala dos telejornalistas, tanto de forma geral (p<0,0001), quanto para cada variável linguística estudada (p<0,0001) (Tabela 2).

Tabela 2 Preferência dos ouvintes quanto à presença de sotaque regional ou suavizado na fala do apresentador de telejornal para as diferentes variáveis linguísticas  

Preferência para a fala do apresentador
Variável SR SS Valor de p
n % n %
Percepção geral 947 12,51 6,625 87,49 0,0000*
Palatalização do /S/ em coda medial 99 23,52 322 76,48 0,0000*
Monotongação 76 4,48 1,621 95,52 0,0000*
Harmonização vocálica 108 4,77 2,155 95,23 0,0000*
Palatalização das dentais 438 28,66 1,090 71,34 0,0000*
Assimilação de dental 28 4,99 533 95,01 0,0000*
Enfraquecimento do /R/ em coda medial 30 16,67 150 83,33 0,0000*

*Valores significativos p<0,05 - Teste para proporções

Legenda: SR = sotaque regional; SS = sotaque suavizado

Na Tabela 3, são expostas as associações entre as preferências (SR versus SS) e atitudes (positiva, negativa ou indiferente) dos ouvintes em relação às variantes linguísticas estudadas na fala do apresentador. Houve associação entre a palatalização do /S/ em coda medial (p<0,0001), monotongação (p<0,0001), harmonização vocálica (p<0,0001), palatalização das dentais (p<0,0001) e assimilação da dental (p=0,0052) e as atitudes linguísticas estudadas.

Tabela 3 Associação entre a preferência e a atribuição de atitudes para a fala do apresentador 

Variável SR SS Valor de p
Positivo Indiferente Negativo Positivo Indiferente Negativo
Palatalização do /S/ em coda medial 379 112 202 1,076 512 666 0,0000*
Monotongação 240 99 41 5,639 1,567 899 0,0000*
Harmonização vocálica 444 145 167 9,600 2,365 3,120 0,0000*
Palatalização das dentais 2,585 294 187 5,426 1,043 1,161 0,0000*
Assimilação da dental 13 5 10 361 75 97 0,0052*

*Valores significativos p<0,05 - Teste exato de Fisher

Legenda: SR = sotaque regional; SS = sotaque suavizado

DISCUSSÃO

Existem estudos evidenciando que ouvintes, mesmo sem treinamento prévio, conseguem identificar o sotaque do falante a partir de trechos curtos de fala, podendo até indicar a região de procedência e outras categorias sociais (profissão, nível educacional e econômico), embora tenham mais habilidade no reconhecimento das variantes utilizadas na sua região e em regiões circunvizinhas( 6 , 7 , 11 - 18 ).

Outros estudos apontam que a capacidade de os ouvintes categorizarem corretamente o dialeto variou entre 30 e 52% em tarefas de escolha forçada entre diferentes dialetos( 15 , 19 - 21 ).

Nesta pesquisa, os ouvintes perceberam a diferença entre sotaque regional e suavizado em todas as variáveis linguísticas estudadas (Tabela 1). Essa capacidade reflete o fato de que os ouvintes teriam representações mentais das variantes linguísticas e das diferentes categorias a ela associadas. As escolhas não são aleatórias, mas baseadas em categorias cognitivas para a variação dialetal, podendo dizer, principalmente, se o sotaque pertence ou não a um falante da sua região( 5 - 7 , 14 , 15 ).

Isso indica que os ouvintes têm expectativas em relação a determinadas variantes utilizadas pelo falante( 22 ) e respondem a um estímulo de fala baseados em uma referência que está armazenada em sua memória para um determinado falante, em um estilo específico, comparando-o com o padrão esperado para esse estilo.

Essa expectativa é construída com a exposição do ouvinte, ao longo dos anos, ao padrão de fala telejornalístico, o que contribuiu para a formação de um estereótipo para a fala desses profissionais( 22 - 24 ). O fato de preferirem a fala sem marcas regionais para o telejornalista indica que o sotaque suavizado constitui-se em uma das marcas desse estilo específico de fala.

Uma das explicações para isso é o fato de que o ouvinte tem expectativas e atribui valores (positivos ou negativos) em relação a determinadas variantes utilizadas pelo falante. A percepção da fala é influenciada e mediada pelas crenças dos ouvintes e atribuições que relacionam a um falante ou a um grupo específico.

Por outro lado, precisamos refletir que esse é um processo histórico, no sentido de que a suavização (e, algumas vezes, a neutralização) do sotaque foi extremamente valorizada para a fala dos telejornalistas, o que disseminou um padrão de narração telejornalística, em rede, isento ou amenizado quanto às marcas regionais. Consequentemente, os telejornais locais passaram a adotar essas mesmas "regras" para os seus repórteres e apresentadores.

O estilo é, exatamente, construído pela repetição, pela redundância, em uma escolha consciente ou inconsciente do falante, dos recursos estilísticos. Por outro lado, o reconhecimento de um estilo é um exercício que envolve contrastes. Quanto à variação linguística no telejornalismo, esse estilo foi criado pela disseminação de um padrão e pelo incentivo à suavização do sotaque para o desenvolvimento nessa categoria profissional.

Do ponto de visto do ouvinte, quando se trata de estilo, deve-se considerar o que é esperado para cada tipo de pessoa ou categoria (comunidade de fala). Em geral, a fala se acomoda a essa expectativa nos diferentes contextos de comunicação.

O uso de uma fala com marcas regionais suavizadas passou a fazer parte da construção do estilo de comunicação oral dos repórteres e apresentadores, carregando um significado capaz de categorizar o grupo e o estilo.

As expectativas dos ouvintes quanto a determinados grupos e estilos formam uma lente através da qual os atributos de uma pessoa são interpretados e avaliados. Embora os interlocutores possam ir além do padrão cognitivo do estereótipo para uma impressão mais individualizada, com base nas características únicas de um indivíduo, a percepção estereotipada é muito mais comum nas relações cotidianas.

Uma das conclusões importantes que podemos fazer é de que esse é um sistema de retroalimentação, considerando-se que a escolha de uma determinada variante vai delineando e disseminando um estilo de fala específico e, do outro lado, o ouvinte cria expectativas quanto a esse estilo, estimulando a manutenção dessas características ao longo do tempo.

Em síntese, o ouvinte pode ter realizado a escolha pela não ocorrência das características de fala regionais para o apresentador, porque ele considera que essas variantes são estigmatizadas para um estilo de fala mais formal, como é o caso da apresentação de um telejornal; ou, simplesmente, porque ele tem expectativas para esse estilo de fala, que talvez envolvam a não ocorrência dessas características regionais.

Por outro lado, esse "padrão de rede", em relação ao sotaque, é propagado nas televisões, gerando, no telespectador, uma impressão sobre a forma de falar no telejornalismo e, consequentemente, uma expectativa quanto a essa fala.

O fato de os ouvintes atribuírem valores positivos à presença de SS na fala de apresentadores (Tabela 2), mais uma vez, põe em evidência a expectativa que o telespectador possui quanto à fala desses profissionais e a aprovação de determinadas características para a fala nesse contexto de comunicação.

Os estereótipos têm o papel de moldar os processos cognitivos das atitudes linguísticas, ou seja, funcionam também como um filtro sobre as percepções a respeito de um indivíduo ou grupo, podendo ser negativos ou positivos( 10 ).

Um estudo( 24 ) demonstrou que a percepção da fala foi influenciada pelas expectativas e atribuições que o ouvinte relaciona ao falante. A mesma vogal sintetizada foi percebida de forma diferente, dependendo do que os ouvintes acreditavam ser a nacionalidade do falante.

Outro estudo( 25 ), cujo objetivo era determinar se a situação comunicativa interagia com o sotaque para determinar os julgamentos dos ouvintes quanto aos atributos dos falantes, mostrou que as atitudes dos ouvintes foram diferentes de acordo com o contexto comunicativo, mesmo mantendo-se características de fala semelhantes. Isso reforça o fato de que o ouvinte tem expectativas quanto à forma de falar dos indivíduos em situações específicas.

Desse modo, o julgamento dos ouvintes pode ser utilizado como justificativa para a suavização do sotaque no trabalho de aprimoramento da comunicação realizado com jornalistas, pois a atitude é uma resposta a variantes específicas, em contextos específicos, de modo que os falantes tendem a fazer uso do que é mais aceitável pelos interlocutores, principalmente na situação de comunicação profissional.

Alguns estudos(26-28) apontam que os ouvintes, de forma geral, avaliam positivamente quando há convergência entre a expectativa que eles têm para o modo de falar de um indivíduo e a forma como ele utiliza a fala na situação comunicativa.

As atitudes linguísticas têm um papel determinante nas modificações que o indivíduo faz na sua comunicação( 10 , 28 ). Por isso, é importante que o fonoaudiólogo esteja atento às atitudes linguísticas dos telespectadores em relação à fala dos telejornalistas, dando subsídios à atuação fonoaudiológica no aperfeiçoamento da comunicação dos telejornalistas em relação ao sotaque e, consecutivamente, aprimorando as relações estabelecidas entre o telejornalista e a comunidade através da televisão.

A realização de pesquisas utilizando o julgamento de ouvintes, tanto em termos de percepção de características de fala quanto de atitudes associadas a essas características, nos ajuda a ter evidências sobre os parâmetros que podem ser trabalhados com indivíduos no contexto de comunicação profissional para alcançar determinados efeitos de sentido em estilos específicos. Em termos de variação dialetal (sotaque), ainda são poucos os estudos no âmbito da Fonoaudiologia, principalmente no contexto da competência comunicativa e de desenvolvimento de indivíduos que utilizam a comunicação profissionalmente.

Os dados levantados no presente estudo podem nos fazer refletir sobre as reais motivações para ocorrência ou não de determinadas variantes linguísticas regionais no telejornalismo. Seria simplista querer atribuir esse fato somente a uma questão de preconceito linguístico, mas, pelo contrário, a grande proposta, a partir deste estudo, é compreender o fenômeno estudado a partir do estilo e, associado a ele, do estereótipo linguístico, tratando desse último não no sentido negativo de segregação e de criação de dicotomias, mas com relação ao que é esperado para um determinado falante, inserido em um contexto comunicativo específico e em um processo histórico.

Consideramos, também, que este é um recorte da realidade, em um momento histórico específico, chamado de pós-modernidade, no qual o indivíduo tem maiores oportunidades de mudança social e geográfica e, portanto, também deve possuir maior flexibilidade na sua comunicação para atingir seus objetivos. Podemos até afirmar que, na pós-modernidade, a variação estilística, além de ser um veículo da expressividade, também está direcionada para o mercado e para o consumo, quando pensamos nas várias situações de comunicação profissional.

Desse modo, o trabalho com a variação linguística no telejornalismo, considerando a alta rotatividade de repórteres e apresentadores entre emissoras e cidades, está focado no desenvolvimento profissional desses indivíduos, no sentido de que, comprovadamente, o telespectador espera determinadas características de fala para esse estilo. Sendo assim, o trabalho do fonoaudiólogo, com sotaque, junto a esse público, quando leva em consideração aspectos sociais e de variação da língua, é orientado para o desenvolvimento do estilo e inserção no mercado, assim como para o interlocutor, que possui, como comprovamos, expectativas sobre essa fala.

CONCLUSÃO

Os ouvintes percebem a diferença entre o sotaque regional e suavizado e preferem a não ocorrência das características regionais na fala do telejornalista.

Além disso, para o estilo de fala telejornalístico, a ocorrência de sotaque suavizado está associada a valores positivos relacionados às atitudes estudadas, exceto para o enfraquecimento do /R/ em coda medial.

*LWL realizou a coleta e análise dos dados e redação do manuscrito; ILBL realizou a coleta de dados; EGS e LNAA realizaram a coleta e tabulação dos dados; AAFA realizou a revisão final do artigo.

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