SUBJETIVIDADE, GESTÃO E CUIDADO EM SAÚDE: ABORDAGENS DA PSICOSSOCIOLOGIA. Azevedo CS, Sá MC, organizadoras. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 2013. 423 p. ISBN: 9788575414316

SUBJETIVIDADE, GESTÃO E CUIDADO EM SAÚDE: ABORDAGENS DA PSICOSSOCIOLOGIA. Azevedo CS, Sá MC, organizadoras. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 2013. 423 p. ISBN: 9788575414316

Autores:

Marcia Moraes

ARTIGO ORIGINAL

Cadernos de Saúde Pública

versão impressa ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.31 no.1 Rio de Janeiro jan. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311XRE020115

O campo da saúde coletiva no Brasil é marcado por tensões entre, de um lado, os ideais que nortearam a Reforma Sanitária, pautados em um projeto de sociedade mais solidária, em princípios democratizantes e de justiça social e, de outro lado, modos de vida que não cessam de se impor, centrados em valores privatizantes e individualizantes. Os autores que se reúnem na coletânea Subjetividade, Gestão e Cuidado em Saúde: Abordagens da Psicossociologia não se furtaram a enfrentar essas tensões, propondo práticas de pesquisa e intervenção que, em última instância, são vetores de afirmação e de reinstalação dos princípios da Reforma Sanitária, articulando os modos de subjetivação da sociedade contemporânea com o trabalho em saúde e a produção do cuidado. São três as linhas de pensamento que se entrelaçam nos relatos de pesquisa que compõem este livro: a abordagem da psicossociologia francesa sobre as organizações e a sociedade; a perspectiva psicanalítica acerca dos processos grupais e intersubjetivos e a psicodinâmica do trabalho.

O livro se organiza em duas partes. Na primeira, intitulada Caminhos do Pensamento, estão reunidas as discussões teórico-conceituais que embasam as pesquisas e intervenções propostas pelos autores, com ênfase para algumas questões-chave para o campo desafiador da gestão dos serviços públicos de saúde, entre elas, a proposição de que uma organização é fruto de um cruzamento de projetos racionais e conscientes com as fantasias e desejos que afetam as vidas de indivíduos e grupos. Tal proposição, marcada pelo enfoque da psicossociologia, permite-nos compreender que a possibilidade de projetos coletivos não se baseia apenas em movimentos racionais e conscientes dos sujeitos, mas passa também por dimensões afetivas, inconscientes. Logo, a questão da gestão em saúde, conforme os autores afirmam, não está atrelada somente às dimensões materiais e burocráticas das instituições, mas inclui as dimensões simbólicas e imaginárias das organizações. É justamente por esse viés que os autores analisam as possibilidades de mudança no cuidado e na gestão, incluindo no debate e na cena mais elementos, como a subjetividade, a capacidade de escuta, a intersubjetividade, as narrativas de vida, entre outros.

Já na segunda parte do livro, intitulada Construindo Caminhos de Pesquisa e Intervenção em Serviços de Saúde, estão reunidas as intervenções empíricas realizadas em hospitais, serviços de atenção psicossocial, unidades de saúde da família e outros. É interessante sublinhar que o livro não se constitui como afirmação de "protocolos" a serem seguidos. Mas, antes, o que pulsa nas linhas dos artigos que nele se reúnem são percursos de vida e de pesquisa atravessados e transformados pelos desafios e impasses colocados no campo da saúde e do cuidado no Brasil, desafios enfrentados cotidianamente por pesquisadores que apostam na possibilidade de uma gestão em saúde que seja mais coletiva, mais democrática e mais atrelada a um projeto de sociedade mais solidária. É neste sentido que os investimentos teóricos e metodológicos desses pesquisadores nos tocam, a todos nós: como dito, a gestão do trabalho em saúde envolve mais elementos do que apenas aqueles vinculados às condições burocráticas do trabalho. Envolve o que nos faz humanos, nossa atividade, tecida com os vetores afetivos e desejantes. Produzir cuidado em saúde é lidar com redes que se tecem com elementos heterogêneos: vidas, desejos, rotinas, trabalho, afetos. Materialidades e socialidades, híbridos que fazem de nós humanos. É justo neste ponto que as pesquisas aqui reunidas se afinem com as investigações acerca do cuidado em saúde, propostas pela filósofa e médica holandesa Annemarie Mol. Em suas pesquisas no campo da saúde, Mol faz duas afirmações relevantes: a primeira, a proposição de uma guinada para a prática, isto é, a autora convoca os pesquisadores para investigarem as práticas em saúde; a segunda é a afirmação de que as práticas são performativas, ou seja, os objetos existem nelas e por elas. Não há, pois, uma realidade dada. Há objetos e realidades se fazendo, em ação, no cotidiano. Assim, ao investigar as práticas de cuidado da diabetes em um hospital geral, a autora se interessa pelos modos nos quais o viver-com-diabetes vai sendo tecido dia após dia, agenciando seringas, insulinas, amores, desejos, materialidades e socialidades. O cuidado é definido como ação distribuída, que se faz em rede e não como uma ação isolada a envolver apenas dois humanos: um que cuida, outro que é cuidado. O que está em jogo no cuidado é um manejo, um modo de articular e de agenciar elementos heterogêneos, díspares. Por esta via a autora afirma o cuidado como ação local e situada. Logo, pesquisar o cuidado em saúde é inserir-se nessas práticas locais, situadas, heterogêneas que "performam" modos distintos de agenciar o viver-com-diabetes. No enfoque praxiográfico de Mol, não há lugar para normalidades não marcadas, ou seja, para concepções de saúde desengajadas, universais ou deslocalizadas. A recusa por qualquer normalidade não marcada é um gesto de afirmação radical de que qualquer vida é marcada pelas condições em que se articula. Desse modo, qualquer prática cotidiana de viver a vida, no caso em tela, a vida-com-diabetes, é marcada, feita em algum lugar, conectando seringas, insulina, consultas médicas, alimentação, amores, filhos, histórias, desejos. Viver a vida é um exercício local e ordenado em certas práticas que exigem esforço, práticas que são, como sublinhou Mol, crônicas, vale dizer, devem ser tecidas dia após dia. É justamente por isso que a doença não é uma exceção, mas algo que é parte do viver, que se agencia ao corpo que nós fazemos, dia a dia. Dessa feita, pesquisar neste campo é intervir num cenário de conexões que articulam materialidades a socialidades. É ainda afirmar a radicalidade das práticas de cuidado: elas são performativas, fazem existir realidades. Que realidades fazemos existir em nossas práticas de cuidado? Em que mundo queremos viver? Quem e o que conta no campo da saúde? São perguntas que insistem nas linhas das pesquisas de Mol e que, por certo, fazem vibrar as pesquisas que se reúnem nesta coletânea.

Marcia Moraes Instituto de Psicologia, Universidade Federal Fluminense, Niterói, Brasil.