TELEGRAM: contribuição na indicação de tecnologia assistiva para indivíduos com deficiência auditiva

TELEGRAM: contribuição na indicação de tecnologia assistiva para indivíduos com deficiência auditiva

Autores:

Regina Tangerino de Souza Jacob,
Natália Barreto Frederigue Lopes,
Aline Duarte da Cruz,
Tacianne Kriscia Machado Alves,
Larissa Germiniani dos Santos,
Thais Corina Said de Angelo,
Maria Fernanda Capoani Garcia Mondelli,
Adriane Lima Mortari Moret

ARTIGO ORIGINAL

CoDAS

versão On-line ISSN 2317-1782

CoDAS vol.29 no.1 São Paulo 2017 Epub 23-Fev-2017

http://dx.doi.org/10.1590/2317-1782/20172016012

INTRODUÇÃO

Para o indivíduo com deficiência auditiva, o uso do Aparelho de Amplificação Sonora Individual (AASI) auxilia na audibilidade, principalmente nas situações de silêncio, porém muitos se queixam de dificuldades auditivas em ambientes ruidosos, especialmente, podendo, entretanto, se valer de tecnologias adicionais para aperfeiçoar sua capacidade de comunicação(1). Há muitos fatores a serem considerados na seleção do AASI, os quais incluem a avaliação quanto ao grau da perda auditiva, as demandas comunicativas do indivíduo, o apoio da família, a destreza manual e a saúde em geral. Ainda assim, em alguns casos o uso do AASI pode não ser suficiente para reduzir as dificuldades auditivas dos usuários desse dispositivo AASI(2).

Para definir e indicar qual Tecnologia Assistiva (TA) ou ajuda técnica melhor atende o indivíduo com deficiência auditiva deve-se considerar as necessidades do usuário, conhecer sua dinâmica e seu estilo de vida no ambiente familiar, escolar e social. O instrumento TELEGRAM foi desenvolvido nesse contexto para avaliar as necessidades de comunicação de forma mais abrangente(1,3). O uso dessas informações juntamente com outros testes audiológicos auxilia nas metas terapêuticas. Isso pode incluir o uso da TA, o desenvolvimento de estratégias de comunicação, de orientação ao indivíduo sobre possíveis tecnologias que auxiliem seu desempenho auditivo em ambientes públicos e o envolvimento dos membros familiares durante o processo terapêutico(3).

O TELEGRAM avalia as necessidades de comunicação considerando as diversas situações de desafios auditivos como: ao telefone, no emprego, em relação à legislação, no entretenimento, em grupo de comunicação, na recreação, ante alarmes e membros da família.

A motivação para este trabalho foi contribuir para o aprimoramento de protocolos, auxiliando na indicação e seleção AASI e/ou TA, no desenvolvimento de estratégias de comunicação, na orientação ao indivíduo sobre as possíveis tecnologias que auxiliem no seu desempenho auditivo e na melhora da comunicação em ambientes públicos.

OBJETIVOS

Os objetivos do estudo foram traduzir e adaptar culturalmente para a Língua Portuguesa Brasileira o instrumento TELEGRAM e avaliar sua aplicabilidade em adultos com deficiência auditiva usuários de AASI.

MÉTODO

A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo, sob número 21195713.9.0000.541. Todos os participantes no processo de validação assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

Foi realizado contato com a autora do instrumento TELEGRAM, que autorizou a versão em Língua Portuguesa Brasileira(1,3).

As siglas do instrumento de avaliação TELEGRAM refletem as áreas que devem ser consideradas no ambiente de comunicação do indivíduo: Telefone, Emprego, Legislação, Entretenimento, Grupo de Comunicação, Recreação, Alarmes, Membros da família. Seu objetivo é a obtenção de informações por meio de perguntas abertas sobre a vida da pessoa em cada área avaliada e a sua utilização para orientação ou uso de tecnologias auxiliares para maximizar a comunicação.

O formato do instrumento é análogo ao audiograma e o profissional deve documentar sobre as áreas de necessidade do indivíduo e definir as metas principais, para minimizar as dificuldades encontradas em cada situação específica durante a aplicação (Apêndice A).

Adaptação cultural

A tradução e adaptação cultural do questionário TELEGRAM para o idioma Português Brasileiro, seguiu as seguintes etapas(4-6):

Tradução do questionário para o idioma Português Brasileiro

O instrumento na versão original(1,3) foi distribuído para dois tradutores-intérpretes de inglês fluentes nesse idioma, que não se conheciam e não conheciam o protocolo, visando elaborar individual e sigilosamente a primeira versão para a Língua Portuguesa Brasileira. Esse procedimento foi realizado com o intuito de gerar duas traduções independentes do questionário.

Adaptação linguística

O grupo revisor foi constituído por duas fonoaudiólogas (brasileiras, conhecedoras com fluência da Língua Inglesa), que analisaram os dois documentos resultantes e reduziram as diferenças encontradas nas traduções, adaptando o texto à cultura brasileira. Dessa forma, foi obtido um novo inventário denominado “TELEGRAM”.

Revisão das equivalências gramatical e idiomática (traduções reversas)

Para a revisão da equivalência gramatical e idiomática, uma cópia do protocolo foi encaminhada para dois outros tradutores, de mesma condição linguística e cultural dos primeiros. Esses – desconhecedores do texto original – realizaram uma nova versão do instrumento para o idioma inglês. O mesmo grupo revisor realizou nova avaliação das duas versões resultantes, comparando-as com a original em inglês.

Adaptação cultural

Objetivou-se estabelecer a equivalência cultural entre as versões inglesa e portuguesa do questionário. A equivalência cultural é estabelecida quando não são observadas dificuldades de compreensão das questões elaboradas ou dos termos utilizados por, no mínimo, 80% da população avaliada.

Após a tradução e adaptação cultural, um cálculo amostral de 20 indivíduos foi definido para a validação do instrumento. Dessa forma, foram convidados a responder por meio de perguntas abertas do instrumento, os indivíduos eram atendidos na rotina de avaliações audiológicas do Serviço de Saúde Auditiva credenciado ao Sistema Único de Saúde (SUS) com o diagnóstico de deficiência auditiva, segundo OMS(7) e indicação para o uso do AASI(8). A aplicação do instrumento foi realizada por uma fonoaudióloga com especialização na área de Audiologia Clínica e Educacional logo após a conclusão do diagnóstico audiológico, com o objetivo de avaliar a compreensão, aplicabilidade do instrumento no contexto de vida dos indivíduos com deficiência auditiva e sua contribuição no processo de seleção e indicação de recursos auxiliares durante a adaptação do AASI.

A idade dos participantes dessa pesquisa variou entre 52 e 86 anos (média de 71 anos e 6 meses). O Quadro 1 mostra a distribuição dos indivíduos quanto a gênero, nível educacional e classificação socioeconômica, segundo a classificação de Graciano et al.(9).

Quadro 1 Distribuição dos indivíduos quanto a gênero, nível educacional e classificação socioeconômica 

Variável Categoria n = 20
Gênero Masculino
Feminino
14
6
Escolaridade Superior completo
Médio completo
Fundamental II incompleto
Fundamental I completo
Fundamental I incompleto
Alfabetizado
Não alfabetizado
2
4
1
2
6
2
3
Nível socioeconômico Baixa inferior
Baixa superior
Média inferior
4
13
3

RESULTADOS

A etapa de equivalência gramatical e idiomática implicou na troca de uma palavra, gerando a versão final do TELEGRAM (Apêndice A). A modificação realizada foi do item Alarme-Fumaça para Alarme-Sirene, tornando o termo compatível ao contexto brasileiro. Dessa forma, os exemplos de sirene de ambulância, policial, de segurança, entre outros, podem ser acessados.

Com o objetivo de verificar a compreensão do instrumento, a versão final foi aplicada no formato de entrevista em 20 indivíduos selecionados e descritos na metodologia. Os resultados mostraram que 100% consideraram o instrumento de fácil compreensão, 100% não referiram dificuldade para responder as questões formuladas e 100% não apontaram questões repetitivas.

Este foi estudo piloto, objetivando ajuste da tradução com revisão de aspectos culturais, linguísticos, para viabilizar a aplicação em maior escala e procedimentos de validação nas etapas seguintes.

As respostas obtidas com a aplicação do questionário TELEGRAM aos 20 indivíduos estão dispostas no Gráfico 1, podendo ser observadas as dificuldades apresentadas por eles nas diferentes áreas analisadas pelo instrumento.

Gráfico 1 Resultados da aplicação do TELEGRAM (nº 20 indivíduos) 

Dos 20 indivíduos avaliados, 60% referiram alguma dificuldade no uso do telefone celular e 55% no uso do telefone fixo, evidenciando a importância da indicação, por exemplo, da bobina telefônica como recurso auxiliar. Sessenta porcento dos indivíduos pontuaram ter alguma dificuldade em ambientes públicos e 45%, em igrejas (Gráfico 1).

Para ilustrar a aplicação e o uso do TELEGRAM na prática clínica, considere o exemplo apresentado na Figura 1. Paciente com 59 anos, gênero masculino, recém-diagnosticado com perda auditiva sensorioneural severa bilateral. Ele apresentou necessidades nas áreas de comunicação telefônica, locais públicos, festas e encontros sociais, ouvir campainha e o despertador em sua casa.

Figura 1 Dados ilustrativos das respostas obtidas com a aplicação do TELEGRAM em um caso clínico. As letras e número preenchidos no interior da escala referem-se as respostas fornecidas pelo indivíduo avaliado para cada situação. Por exemplo, na situação TELEFONE, o indivíduo indicou grande dificuldade para celular (C) e linha fixa (F) 

Na Figura 1 pode-se observar que o participante pontuou 5 (grande dificuldade) na área Telefone, tanto no subitem celular quanto para linha fixa, e, na área Grupo, para os subitens festas e encontros. O mesmo foi observado nas áreas Legislação e Grupos, sendo os respectivos subitens lugar público, festas e encontros. Não houve pontuação para o subitem igreja (Grupo), trabalho e escola (Emprego), filmes (Entretenimento), sirene (Alarmes) e na área Recreação, pois o participante não vivenciava tais situações.

Nas áreas Entretenimento e Alarmes, o participante classificou como 3 (alguma dificuldade) para os subitens televisão, campainha e relógio.

Quando questionado sobre os membros da casa, o participante relatou que moram duas pessoas na casa, sendo que esse outro adulto tem audição normal. Esse é um dado importante na orientação à família em relação às estratégias de comunicação.

Para esse indivíduo, o profissional pode sugerir um teste com o Sistema de Frequência Modulada (FM) Pessoal, com um receptor integrado ao AASI retro-auriculares, o uso da bobina telefônica ou telefone acústico para auxiliar no uso do telefone e AASI com microfone direcional para melhorar a compreensão de fala no ruído. Relacionar o audiograma com o TELEGRAM permite que o fonoaudiólogo explique a perda auditiva juntamente com as necessidades de comunicação do indivíduo que podem ser melhoradas com o uso de tecnologias assistivas e orientações quanto às estratégias de comunicação.

DISCUSSÃO

A adaptação transcultural do instrumento TELEGRAM foi realizada com resultados satisfatórios. Quanto à equivalência gramatical e idiomática, após a primeira avaliação dos tradutores foi considerada a sugestão de alteração da expressão Alarme-Fumaça para Alarme-Sirene. Essa alteração fez parte do processo de adaptação, visando adequação à cultura e vivência brasileiras.

O Gráfico 1 mostra a pontuação dos itens do TELEGRAM dos indivíduos avaliados e pode-se perceber o impacto da deficiência auditiva nas situações de comunicação diárias.

A deficiência auditiva causa vários problemas, tais como: dificuldades de comunicação, isolamento social, depressão e sentimentos negativos, que podem afetar seriamente a qualidade de vida(10,11). Devido à perda auditiva, há prejuízo nas relações interpessoais do indivíduo, bem como dificuldades para ele se manter informado pelos meios de comunicação e de usufruí-los como lazer(12).

Nos itens avaliados no TELEGRAM, observou-se que, dos 20 indivíduos avaliados, as principais queixas envolvem fatores como, por exemplo, a distância entre ouvinte-interlocutor, ruído e reverberação, fatores que podem interferir na comunicação. Como citado acima, a utilização do AASI pode reduzir as dificuldades de comunicação, porém em algumas circunstâncias os aparelhos auditivos não compensam completamente a perda de audição. Em tais casos, outros dispositivos, técnicas e/ou estratégias devem ser considerados, como, por exemplo, microfones direcionais, bobina telefônica e Sistema FM(13), dentre os vários dispositivos disponíveis para facilitar a comunicação da pessoa com deficiência auditiva.

Dentre os cuidados que o profissinal da saúde deve ter no atendimento com as pessoas com deficiência, se faz necessária uma abordagem mais abrangente, buscando ampliar sua atenção na adoção dos dispositivos auxiliares para melhorar a qualidade de vida do indivíduo. Estudos apontam a importância da formação continuada dos profissionais da saúde nessa área(14).

No processo de seleção e indicação dos AASI ou de tecnologia assistiva, a avaliação tem três componentes: (1) avaliação do próprio dispositivo, (2) avaliação do usuário para determinar qual o dispositivo adequado, e (3) a medição do benefício que o dispositivo fornece ao usuário(1). Nesta pesquisa, o TELEGRAM mostrou-se um instrumento adequado para avaliar as necessidades globais de comunicação da pessoa com deficiência auditiva, corroborando outras pesquisas que utilizaram o instrumento(1,3).

Pesquisas apontam a escassez de instrumentos que investiguem o processo avaliativo para indicação e implementação de TA(15). Os autores tendem a descrever as construções teóricas, observando-se uma lacuna em pesquisa de eficácia, procedimentos de implementação e estudos de evidência. Assim, o presente estudo vem propor, por meio do instrumento TELEGRAM, uma forma de avaliar e auxiliar na indicação no uso da TA.

Outro estudo mostrou as implicações do uso da TA, tanto no que se refere à pesquisa quanto à aplicação na prática, especificamente na área da saúde(16). Destaca-se, no estudo, que na área da Fonoaudiologia foi encontrada apenas um artigo relacionado com o uso da TA. Sugerem-se outras pesquisas que venham a contribuir para o fortalecimento do conceito e indicação da TA.

CONCLUSÃO

O instrumento TELEGRAM foi traduzido e adaptado para a Língua Portuguesa Brasileira. É indicado para o uso por profissionais da saúde auditiva a fim de se obter informações sobre o desempenho auditivo do indivíduo com deficiência auditiva em várias situações de comunicação. Este estudo pretende contribuir com o protocolo TELEGRAM na indicação e seleção da TA, no desenvolvimento de estratégias de comunicação, na orientação do indivíduo quanto a possíveis tecnologias que auxiliem seu desempenho auditivo, com consequente melhora na comunicação, em ambientes públicos.

Futuras pesquisas são necessárias para a aplicação da escala em maior amostragem, com o objetivo de validação e análise estatística das respostas.

REFERÊNCIAS

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3 Thibodeau LM. How TELEGRAMs can help patients “Reach out and touch someone”. Hear J. 2008;61(3):10-7. .
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7 WHO: World Health Organization. Prevention of blindness and deafness: facts about deafness [Internet]. [citado em 2015 Ago 18]. Disponível em:
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9 Graciano MIG, Lehfeld NAS, Neves A Fo. Critérios de avaliação para a condição sócio-econômica: elementos para a atualização. Sev Social & Realid. 1999;8(1):109-28.
10 Cerqueira ATAR, Oliveira NIL. Programa de apoio a cuidadores: uma ação terapêutica e preventiva na atenção à saúde dos idosos. Psicol USP. 2002;13(1):133-50. .
11 Kochhar A, Hildebrand MS, Smith RJH. Clinical aspects of hereditary hearing loss. Genet Med. 2007;9(7):393-408. PMid:17666886. .
12 Mansur LL, Viude A. Aspectos fonoaudiológicos do envelhecimento. In: Netto MP. Gerontologia: a velhice e envelhecimento em visão globalizada. São Paulo: Atheneu; 2002. p. 284-96.
13 Jacob RTS, Zattoni MQ. Sistemas de frequência modulada. In: Boechat EM, editor. Tratado de audiologia. 2. ed. São Paulo: Santos; 2015. p. 298-310.
14 Pelosi MB, Nunes LROP. Formação em serviço de profissionais da saúde na área de tecnologia assistiva: O papel do terapeuta ocupacional. Rev Bras Crescimento Desenvolv Hum. 2009;19(3):435-44.
15 Alves ACJ, Matsukura TS. Revisão sobre avaliações para indicação de dispositivos de tecnologia assistiva. Rev Ter Ocup Univ Sao Paulo. 2014;25(2):199-207. .
16 Guimarães FJ, Pagliuca LMF. Assistive technology: an analysis of the concept. Rev Enferm UFPE. 2012;6(11):2663-71.
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