Teoria das Representações Sociais e Contribuições para as Pesquisas do Cuidado em Saúde e de Enfermagem

Teoria das Representações Sociais e Contribuições para as Pesquisas do Cuidado em Saúde e de Enfermagem

Autores:

Márcia de Assunção Ferreira

ARTIGO ORIGINAL

Escola Anna Nery

versão impressa ISSN 1414-8145versão On-line ISSN 2177-9465

Esc. Anna Nery vol.20 no.2 Rio de Janeiro abr./jun. 2016

http://dx.doi.org/10.5935/1414-8145.20160028

A publicação da pesquisa seminal que lançou a Teoria das Representações Sociais (TRS) proposta por Serge Moscovici completa 55 anos neste ano de 20161, e desde então vem conquistando adeptos de sua área original, a Psicologia Social, como de outras áreas que identificaram oportunidades e possibilidades de sua aplicação para melhor compreensão de seus objetos e de suas práticas. As obras de Moscovici têm influenciado pesquisadores da Europa, das Américas e especialmente do Brasil, pois ele propôs uma psicossociologia do conhecimento, não se dedicando exclusivamente aos processos de produção dos saberes, mas também aos impactos que estes trazem quando de sua aplicação nas práticas sociais, sendo o contrário também verdadeiro2.

A introdução da TRS no Programa de Pós-Graduação da Escola de Enfermagem Anna Nery foi feita pela Professora Ângela Arruda, do Instituto de Psicologia da UFRJ, no início da década de 1990, docente que, segundo Celso Sá3, trouxe a Teoria para o Brasil. Desde então, professores e estudantes da EEAN vêm se empenhando no aprofundamento do conhecimento sobre a Teoria e contribuindo para o campo, por meio de produções de várias ordens.

Desde essa década, no Brasil, a enfermagem vem construindo conhecimento com amparo teórico e metodológico das representações sociais, explorando objetos afeitos à saúde e ao cuidado, de si e de outros, em diversos campos de práticas e contextos de atuação. Isso porque há uma identidade importante entre os anseios de pesquisa das enfermeiras e a TRS, uma vez que essa teoria não hierarquiza os tipos de conhecimento - da ciência, do senso comum, crenças e mitos -, respeitando as suas diversidades e funcionalidades, buscando compreender seus entrecruzamentos na formação de representações e de práticas, crucial para entender o cuidado em saúde.

Aplicar a TRS nas pesquisas de enfermagem oportuniza compreender as representações construídas sobre o cuidado, o que nos permite conhecer os sentidos que a ele se atribuem, a realidade material que lhe serve de referência (para que se estabeleçam as ancoragens), as explicações engendradas que nos permitem entender os comportamentos, as atitudes e as opções das pessoas pelos caminhos que seguem nos seus cotidianos

Ou seja, a aplicação da TRS nos estudos sobre o cuidado permite ampliar a compreensão sobre as pessoas, seus afetos e seus processos de conhecer e agir frente ao mundo, nos ajudando a melhor conduzir o cuidado num plano terapêutico mais bem assentado na lógica do "outro", que é para quem o cuidado se destina.

As Representações Sociais unem o sujeito ao objeto, o pensamento à ação, a razão à emoção, o individual ao coletivo; logo, estudar o cuidado pela via das representações sociais abre inúmeras possibilidades de compreensão não somente das ações dos sujeitos no âmbito da saúde, mas dos sentidos que eles atribuem a essas ações em face dos contextos em que elas são produzidas, justificando suas opções frente às realidades que se lhes apresentam. Por isso, entende-se que as representações alimentam as práticas que, por sua vez, expressam as representações e também conduzem a sua formação, numa relação de reciprocidade.

No mundo atual, em que se vive em uma sociedade em movimento, em constantes transformações, avolumam-se as possibilidades de aplicação da TRS, no estudo de fenômenos típicos da cultura da informação, na feição singular de cada grupo, nas diversas tribos da contemporaneidade. Especialmente no campo da saúde, principal interesse da enfermagem, a Teoria nos auxilia no entendimento do entrecruzamento de saberes médico-científicos com os saberes tradicionais, no desvendar do mosaico formado pela teia de significados e de valores socialmente partilhados que conformam os cuidados em saúde.

O cuidado em saúde é multifacetado, guardando referências dos contextos macro e micro em que está situado. Logo, entender a teia que o constrói é condição para uma pretensa atuação profissional de promoção à saúde dos grupos populacionais. Isto implica em ampliar a visão para compreender as relações entre as condutas das pessoas e variáveis como cultura, etnia, religião, classe social e contexto político, por exemplos. Nesse empreendimento, a TRS indica que, para se entender o processo de construção das representações sociais, é preciso contextualizar o objeto e o sujeito, penetrando nas condições que as constroem4.

As pessoas são historicamente determinadas e vivem imersas em uma sociedade e cultura particulares, sendo assim, a abordagem do cuidado há que ser feita considerando o objeto (cuidado), seus agentes e sujeitos. Na pesquisa de representações sociais o cuidado em saúde e suas tecnologias adquirem status de um fenômeno psicossocial, congregando o saber produzido pela área que o demarca como objeto de conhecimento e de prática no campo da saúde, mas também expressa modos de ser e de agir assentados nas culturas e nos modos de se lidar com o corpo, com a saúde, as enfermidades e a cura. Por isso, acessar as condições de produção das representações sociais por meio de instrumentos de coleta de dados a serem aplicados previamente a outras técnicas é condição para pesquisá-las, aliando-se a um bom roteiro de exploração do objeto, para captar o percurso do pensamento do sujeito e a dinâmica de suas ações5.

Muito conhecimento tem sido produzido no campo da enfermagem com a abordagem da TRS, e as contribuições da teoria à nossa disciplina e desta ao campo das RS são inegáveis; portanto, com 55 anos de idade, a Teoria é uma jovem senhora que vem nos conduzindo por uma trilha composta por traços que ao tempo em que são firmes se mostram flexíveis o suficiente para agregar as novidades próprias de uma sociedade em constante mudança, construída por sujeitos criativos e ativos, produtores de saberes, de fazeres e de afetos, nuances que se articulam e que tão bem Moscovici captou e à Ciência ofertou.

REFERÊNCIAS

1 Moscovici S. A psicanálise, sua imagem e seu público. Petrópolis: Vozes, 2012.
2 Moscovici S. Representações sociais: investigações em psicologia social. Rio de Janeiro, Vozes, 2003.
3 Sá CP. A construção do objeto de pesquisa em Representações Sociais. Rio de Janeiro: EdUERJ, 1998.
4 Jodelet D. O movimento de retorno ao sujeito e a abordagem das representações sociais. Sociedade e Estado. 2009 set-dez; 24(3):679-712.
5 Silva RC da, Ferreira MA. Building the script of an interview on social representations research: how, why, what for. Esc Anna Nery. 2012 jul-set; 16 (3):607-611.
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